No Dia do Trabalhador Rural, a análise do nosso chão revela que a força do campo não está nos latifúndios mecanizados, mas na resistência da agricultura familiar que preserva a nossa subsistência e a nossa integridade original.
Por: Flávio Hora
Nesta segunda-feira, 25 de maio de 2026, abrimos a semana útil celebrando o Dia do Trabalhador Rural. Para quem enxerga a realidade do interior de Sergipe com os olhos anestesiados pelas propagandas de massa, o campo é apenas um cenário de números de exportação e cifras bilionárias. Mas para nós, que guardamos as coordenadas afetivas fincadas na terra, o campo tem rosto, tem calos nas mãos e tem uma história de luta que moldou a própria alma do Vale do Cotinguiba.
Precisamos, antes de tudo, estabelecer a distinção conceitual e econômica que separa a engrenagem viva da nossa subsistência daquilo que o mercado batizou de progresso. O pilar que sustenta a mesa do povo sergipano não é o grande latifúndio; é a Agricultura Familiar. É o pequeno e o médio produtor, o homem e a mulher da piçarra e do massapê, que acordam antes do sol para garantir que o alimento real chegue à mesa das nossas famílias. A agricultura familiar é o coração biológico e social do nosso interior.
Da Enxada Primitiva ao Império do Agronegócio
Para compreender a identidade do trabalhador rural hoje, urge olhar para o espelho do passado. Viemos de um tempo em que a agricultura era essencialmente de subsistência e "artesanal". Uma época em que a lida com a terra dependia do vigor físico, da intimidade com o clima e do manejo de ferramentas simples: a enxada que rasgava o solo, a foice que abria o mato e o facão que limpava o caminho. Era um trabalho duro, herdeiro direto das estruturas oitocentistas dos antigos engenhos de açúcar que outrora dominaram a nossa região, onde o suor humano era a única energia disponível.
Com o avanço das décadas, o cenário transformou-se. O que antes era o manejo íntimo do ecossistema converteu-se no Agronegócio — que nada mais é do que a industrialização da agricultura. O agronegócio substituiu o homem pela máquina, a enxada pela colheitadeira de grande porte e a diversidade de culturas pela monotonia da monocultura em larga escala.
Se, por um lado, essa industrialização trouxe eficiência técnica e conectou o campo às correntes do comércio global — como vimos na transição das lavouras de fumo em Lagarto na década de 60 ou na própria modernização do café —, por outro, ela gerou um profundo esvaziamento humano. O agronegócio enxerga a terra como uma fábrica a céu aberto e o trabalhador como um mero operador de engrenagens ou, pior, como um passivo a ser descartado pela automação.
O Verdadeiro Sentido do "Lar" e a Crítica ao Mandonismo
Sob a ótica da filosofia do Originalismo, a terra onde o trabalhador rural planta não é uma mercadoria ou um ativo financeiro; ela é o prolongamento do seu Lar. Uma família caridosa e consciente compreende que a dignidade humana está umbilicalmente ligada à soberania sobre o próprio chão. Quem trabalha a terra com as próprias mãos desenvolve uma relação mística de respeito e reciprocidade com a natureza — o oposto exato da lógica predatória que muitas vezes sufoca as nossas bacias hidrográficas, como o sofrido Rio Japaratuba.
É por isso que, neste 25 de maio, o nosso papel não é distribuir tapinhas nas costas ou proferir discursos elogiosos falsos. A nossa missão é denunciar que o trabalhador rural do Vale do Cotinguiba ainda é o alvo preferencial do assistencialismo de palanque praticado pelos "coronéis modernos" da política local.
Para essa oligarquia que herdou os vícios do mandonismo colonial, interessa manter o pequeno produtor rural sem assistência técnica, sem linhas de crédito desburocratizadas e em eterna situação de vulnerabilidade. Por quê? Porque o estômago vazio e a incerteza da safra são as ferramentas ideais para a manutenção do voto de cabresto. Transformam o que deveria ser política pública de fortalecimento da agricultura familiar em um "favor pessoal" cobrado nas urnas.
A Emancipação pela Autonomia do Campo
A verdadeira caridade (Caritas, o amor em ação) e a justiça social exigem a emancipação do trabalhador rural. E ela não virá pelas mãos generosas do poder público oligárquico, mas pela conquista da independência econômica.
Exemplos recentes em nosso estado nos mostram o caminho. Quando vemos o renascimento do café arábica sustentável no interior de Sergipe, impulsionado pela teimosia de produtores independentes e da agricultura familiar, percebemos que o campo pode sim prosperar com tecnologia sem perder a sua essência artesanal e humana. O trabalhador rural do século XXI precisa de conhecimento técnico, cooperativismo forte e liberdade de mercado para que o fruto do seu labor retorne para o seu próprio bolso e para a estrutura do seu lar.
As Contradições do Espaço Rural de Japaratuba – Entre os Monocultivos e a Resistência da Agricultura Familiar
Contextualização Territorial e Geohistórica
O município de Japaratuba, localizado na sub-região do Leste Sergipano e integrante da Bacia Hidrográfica do Rio Japaratuba, carrega em sua organização espacial as marcas profundas de uma estrutura agrária historicamente excludente. Desde o período oitocentista, as terras de massapê e os vales férteis da região foram submetidos à lógica do grande latifúndio agroexportador. Tradicionalmente dominado pelo binômio cana-de-açúcar e pecuária extensiva, o espaço rural japaratubense reflete a clássica contradição entre a produção de *commodities* voltadas ao mercado externo/industrial e a agricultura de base familiar voltada para a subsistência e o abastecimento dos mercados locais.
Nas últimas décadas, essa paisagem foi reconfigurada pela introdução de novos vetores de exploração mineral e agroindustrial — como os polígonos de extração de petróleo (com mais de mil poços identificados na bacia) e a expansão dos canaviais mecanizados para o abastecimento de usinas. No entanto, paralelamente a essa engrenagem industrial, sobrevive e resiste um campesinato dinâmico, estabelecido em povoados, assentamentos de reforma agrária e comunidades tradicionais, que atua como o verdadeiro garantidor da soberania alimentar do município.
I. A Cartografia da Resistência Alimentar: Povoados Encruzilhadas e Várzea-Verde
Enquanto os eixos viários e as planícies mais férteis são frequentemente absorvidos pelo avanço do capital canavieiro, o espaço vivido da agricultura familiar se territorializa em núcleos de forte identidade comunitária e artesanal. No desenho dessa geografia camponesa, destacam-se os povoados Encruzilhadas e Várzea-Verde.
Historicamente, além da onipresença da cana-de-açúcar (que muitas vezes encurrala os pequenos lotes por meio de contratos de arrendamento ou pressão lindeira), essas localidades mantêm viva a tradição da mandiocultura. A produção de mandioca e macaxeira nesses povoados cumpre uma dupla função estratégica:
1. Segurança Alimentar e Subsistência: Atua como a base da dieta calórica familiar e comunitária, mantendo viva a tradição culinária do interior profundo.
2. Reprodução Socioeconômica (As Casas de Farinha): A mandioca colhida em Encruzilhadas e Várzea-Verde alimenta as tradicionais estruturas das "casas de farinha" artesanais. Esse processo de beneficiamento transforma a raiz in natura em farinha, goma e tucupi, agregando valor ao trabalho familiar e gerando uma circulação monetária autônoma, que escapa à dependência exclusiva dos salários sazonais do corte da cana.
A permanência desses cultivos tradicionais demonstra que o espaço rural de Japaratuba não é homogêneo. Ele é disputado e fraturado por visões de mundo inconciliáveis: a terra como ativo financeiro (Agronegócio) versus a terra como meio de vida, abrigo e ancestralidade (Lar Camponês).
II. Redes Sociotécnicas e a Busca por Soluções Ecológicas: A Parceria com a Embrapa
Reconhecendo as fragilidades produtivas impostas pelo isolamento institucional e a histórica falta de assistência técnica estatal para o pequeno produtor, a gestão local do município buscou novos caminhos de articulação científica. Em março de 2025, a Secretaria de Agricultura de Japaratuba formalizou agendas de cooperação técnica com a Embrapa Tabuleiros Costeiros (sediada em Aracaju/SE).
Essa articulação visa reverter os gargalos tecnológicos que afetam diretamente comunidades como Encruzilhadas, Várzea-Verde e os assentamentos locais. O escopo da parceria estrutura-se sobre os seguintes pilares:
* Caracterização de Demandas de Base Ecológica: Substituição gradual dos pacotes químicos de insumos por tecnologias de manejo agroecológico, mitigando os impactos da degradação dos solos e preservando as matas ciliares protetoras dos corpos d'água locais.
* Estruturação de Redes Sociotécnicas: Integração entre a pesquisa científica da Embrapa, o conhecimento empírico dos agricultores, as cooperativas de base familiar e os agentes de fomento (como a Sala do Empreendedor do Sebrae). O objetivo é garantir que o conhecimento tecnológico não seja vertical, mas sim coconstruído respeitando o saber tradicional.
* Sustentabilidade dos Sistemas Agrícolas Localizados: Otimização do cultivo de raízes (mandioca/macaxeira) e fruticultura tropical através de sementes e manivas selecionadas e livres de patógenos, conferindo maior produtividade por tarefa sem a necessidade de expansão predatória sobre as poucas áreas de reserva ambiental.
III. Quadro Comparativo: As Contradições do Espaço Rural Japaratubense
Conclusão
Que esta segunda-feira nos chame à realidade. O trabalhador rural que empunha a enxada ou que hoje lidera uma cooperativa familiar não quer esmola; ele quer respeito, estradas vicinais trafegáveis para escoar sua produção e a garantia de que seu suor não servirá para engordar os cofres de usinas poluidoras ou os palanques eleitoreiros. Salvar a agricultura familiar é proteger a nossa segurança alimentar, a nossa economia real e, acima de tudo, a originalidade soberana do povo sergipano.
O futuro do espaço rural de Japaratuba depende do reequilíbrio dessas forças. O fortalecimento da agricultura familiar, amparado por parcerias científicas inovadoras como a da Embrapa, sinaliza que a emancipação do camponês japaratubense passa, obrigatoriamente, pela valorização de seus cultivos tradicionais e pela quebra das correntes do mandonismo econômico que secularmente imobilizou o campo sergipano.


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