Depois de desbravarmos o prazer da leitura, mergulhamos no ofício da escrita como ferramenta de libertação psicológica, resistência cultural e preservação da memória regional.
Por Flávio Hora
Se ler é um ato de profunda generosidade — onde emprestamos nossos olhos para o pensamento de outro —, escrever é um ato de coragem quase primitiva. É arrancar de si o que está oculto na carne e transformar em tinta, em linha, em prumo. No entanto, em tempos onde tudo é rápido, efêmero e mastigado por algoritmos, cabe a pergunta que todo criador se faz nas madrugadas frias: por que, afinal, insistimos em escrever?
Não se escreve apenas pelo desejo vão da vaidade ou pelo aplauso efêmero das redes. Quem escreve de verdade sabe que o papel em branco não é um receptor passivo; é um espelho que devolve nossas fraturas e nossas belezas. Escreve-se pela mesma razão que as lavadeiras cantavam nas margens dos rios ou que os velhos mestres sopravam os pífanos nas noites de festa: para não sufocar.
Escrever é dar corpo ao vento que passa,
É transformar a dor do mundo em fumaça.
Não se escreve para o tempo vencer,
Mas para que a memória se recuse a morrer.
Escreve-se, antes de tudo, para resgatar. Quando um escritor do interior pega na caneta, ele carrega consigo o sotaque de sua gente, a poeira das estradas de Carira, o cheiro de cana-de-açúcar que outrora corria o Vale do Cotinguiba e o mistério que habita o casario antigo de Japaratuba. Escrever, para nós, é um ato de Originalismo — um retorno consciente às nossas raízes, um manifesto poético contra o esquecimento. É provar que a nossa aldeia universal não precisa pedir licença aos grandes centros urbanos para ter voz.
A literatura nacional que pulsa fora do eixo Rio-São Paulo é uma literatura de resistência e de carne viva. Quando colocamos no papel as nossas crônicas, os nossos sonetos ou o enredo de um romance, estamos documentando a alma de um povo que a história oficial, muitas vezes, tenta resumir a estatísticas e relatórios contábeis. A escrita humaniza o dado. Ela transforma o retirante anônimo em herói trágico e o cotidiano da praça da matriz em cenário de epopeia.
Há quem diga que escrever é uma solidão. Estão enganados. O escritor nunca está só. Quando ele mergulha na psicologia de um personagem, quando ele tateia as dores, os ciúmes, os amores e os desassossegos de uma figura de ficção, ele está, na verdade, estendendo a mão para o leitor. Está dizendo: "Olhe, eu também sinto isso. Você não está sozinho na sua noite escura".
Escrever é a tentativa humana de organizar o que o mundo desorganiza. É o acerto de contas com o tempo. O dia de hoje vai passar, a notícia da semana vai envelhecer, a gestão pública vai mudar, as dores de agora vão virar cicatriz. Mas a palavra escrita? A palavra escrita permanece, como pedra litúrgica, testemunhando que houve poesia em meio ao barulho.
Se a vida é um sopro curto e ligeiro,
O texto é o rastro que fica no terreiro.
Escreve-se para que o silêncio não seja o fim,
Para que a nossa terra cante, enfim.
Não guarde seus rascunhos na gaveta por medo do julgamento ou por achar que sua voz é pequena. Se o peito apertar, se a cena pedir passagem, se o verso insistir em bater na têmpora, ceda. Pegue o papel, alinhe as letras, ajuste o ritmo. Escreva pelo direito sagrado de inventar mundos e de eternizar o seu próprio chão. Porque se a leitura nos liberta, é a escrita que nos torna imortais.

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