sexta-feira, 15 de maio de 2026

O Crepúsculo do Julgamento: A Crítica entre a Ferramenta e o Tabu

Como o medo do julgamento transformou a ferramenta mais vital da evolução intelectual em sinônimo de ataque, e por que precisamos resgatar o sentido original do ato de criticar.



Vivemos em uma era de sensibilidades à flor da pele, onde o ato de "criticar" tornou-se uma espécie de campo minado social. O que antes era a pedra angular do desenvolvimento intelectual humano — o krinein grego, que significa discernir e filtrar — hoje é frequentemente confundido com o ataque gratuito ou o ódio destilado. Existe um preconceito crescente em torno do termo, uma discriminação que marginaliza o pensamento analítico em favor de uma positividade tóxica e superficial.

O problema é que, na comunicação humana, a neutralidade é difícil. Criamos o termo "construtiva" para garantir que o interlocutor entenda que a intenção é a evolução, e não a ofensa. Sem esse rótulo, o cérebro humano tende a ativar o sistema de defesa (luta ou fuga), interpretando qualquer análise negativa como um ataque pessoal.

"A crítica é o único freio que impede a inteligência de se tornar fanática."

No dia a dia, "crítica" costuma ser sinônimo de apontar defeitos. Quando alguém diz "pare de me criticar", geralmente sente que está sendo julgado ou desvalorizado, perdendo-se o sentido original de análise técnica.

Para a filosofia, especialmente após Immanuel Kant, a crítica é o exame racional das bases do conhecimento. Não se trata de atacar uma ideia, mas de entender quais são os seus limites e condições de validade. É o "tribunal da razão".

Na ciência, a crítica é o motor do progresso. Através do método crítico, teorias são testadas e questionadas (falseabilidade). Se uma teoria não aguenta a crítica (testes, evidências contrárias), ela é descartada ou aprimorada. É o que garante que a ciência não se torne um dogma.

A Função Vital: O Filtro da Realidade

A verdadeira função da crítica não é a destruição, mas a curadoria da excelência. Sem a capacidade de separar o joio do trigo, estagnamos. Na ciência, a crítica é o que impede que superstições se tornem dogmas; na arte, é o que distingue a obra atemporal do entretenimento descartável; na política, é o único mecanismo capaz de frear o autoritarismo.

Quando discriminamos a crítica, rotulando-a como algo inerentemente negativo, estamos, na verdade, defendendo a mediocridade. A crítica funciona como um sistema imunológico da cultura: ela identifica o que está doente ou disfuncional para que o corpo social possa se regenerar.

O Preconceito do "Quem é Você para Falar?"

O preconceito moderno contra a crítica manifesta-se no ad hominem preventivo. Antes de se avaliar o argumento crítico, questiona-se a autoridade ou a "vibe" do crítico. Criou-se um estigma de que aquele que critica é um ser amargo, um "hater" ou alguém incapaz de realizar.

Essa visão é um equívoco perigoso. A crítica exige mais esforço intelectual do que o elogio vazio. Para criticar com propriedade, é necessário desconstruir, entender a lógica interna do objeto e confrontá-lo com a realidade. O preconceito contra o termo "crítica" é, no fundo, um medo do espelho; temos medo de que o crítico aponte as falhas que nós mesmos já percebemos, mas preferimos ignorar.

A Armadilha da "Crítica Construtiva"

A ascensão do termo "crítica construtiva" é o maior sintoma dessa discriminação. Precisamos de um adjetivo "doce" para tornar a pílula do julgamento tragável. Embora a intenção de ajudar seja nobre, a exigência de que toda crítica seja imediatamente propositiva cerceia a análise diagnóstica.

Às vezes, a função da crítica é apenas dizer: "isso não funciona". Cabe ao criador, ao político ou ao cientista descobrir o porquê. Exigir que o crítico sempre traga a solução é uma forma de silenciar a observação legítima do erro.

O Calcanhar de Aquiles do Poder: Crítica Política e Censura Intelectual

Se no campo cultural a crítica é o filtro da excelência, no meio político ela é a própria garantia de sobrevivência da liberdade. A política, por natureza, lida com o exercício do poder e a administração da pólis. Por consequência, a crítica política não é um mero exercício de retórica: ela é o freio de mão institucional e social que impede que a autoridade degenere em autoritarismo.

Quando a crítica política é sufocada, o primeiro sintoma é a ascensão da censura intelectual — uma força que opera tanto por vias institucionais (de cima para baixo) quanto por vias sociais (o patrulhamento ideológico).

A Crítica Política como Dever Cívico

Na saúde de uma democracia, a crítica é o oxigênio do debate público. Ela serve para desmistificar a infalibilidade dos governantes e expor as vísceras da gestão pública: a eficiência das decisões, a aplicação dos recursos e a coerência entre o discurso e a prática.

O político que rejeita a crítica opera sob a ilusão do absolutismo. No entanto, o ambiente político moderno distorceu essa dinâmica. Hoje, a crítica legítima à gestão ou à ideologia é frequentemente rebaixada a "discurso de ódio", "perseguição" ou "sabotagem". Ao transformar o crítico em um inimigo público, o governante ou o partido blindam-se contra a prestação de contas (accountability), empobrecendo o debate e infantilizando o eleitorado.

Os Rostos da Censura Intelectual

A censura intelectual contemporânea raramente veste a farda ou assina decretos explícitos de exclusão, como nos regimes ditatoriais clássicos. Ela se modernizou e age de forma mais sutil, porém igualmente devastadora, dividindo-se em duas frentes principais:

* A Censura Institucional/Administrativa: Manifesta-se através do uso da máquina pública para sufocar vozes dissidentes. Seja pelo estrangulamento financeiro de canais de informação independentes, pela hiper-regulação do debate ou pelo uso de aparatos jurídicos para intimidar jornalistas, analistas e cidadãos comuns. É a tentativa do Estado de deter o monopólio da narrativa.

* A Censura Cultural e Social (A Patrulha Ideológica): Talvez a mais perigosa, pois nasce no seio da própria sociedade. É o policiamento do pensamento realizado por bolhas ideológicas, onde a dissidência intelectual é punida com o cancelamento, o ostracismo profissional ou o linchamento virtual. Cria-se um ambiente de autocensura: o intelectual, o jornalista ou o cidadão prefere calar-se a ter que enfrentar a fúria das hordas dogmáticas de determinado espectro político.

Censura por Dependência Econômica: Muitas vezes a pessoa ou parente tem algum cargo ou benefício na gestão pública e precisa calar-se para não perder as benesses do poder. Isso acontece principalmente em cidades pequenas onde a ausência de políticas públicas de geração de emprego e renda é uma estratégia de dominação. 

O Perigo do "Pensamento Único"

O objetivo final de toda censura intelectual é a pasteurização do pensamento. Quando o meio político consegue silenciar a crítica, elimina-se a dialética — o choque entre a tese e a antítese que gera a síntese do progresso.

Sem o contraditório, as políticas públicas tornam-se cegas, os erros administrativos são perpetuados e a sociedade perde a capacidade de enxergar alternativas. A história demonstra, com dolorosa clareza, que onde a crítica política é criminalizada, a inteligência é exilada e o fanatismo assume o controle.

"A liberdade de expressão é, acima de tudo, a liberdade de dizer aquilo que os outros não querem ouvir." — George Orwell

Defender a crítica no meio político, mesmo aquela que nos incomoda ou que contraria nossas convicções pessoais, é o único caminho para garantir que a arena pública continue pertencendo aos cidadãos, e não aos senhores do poder.

Conclusão: Pelo Resgate do Julgamento

Precisamos reabilitar o conceito de crítica. Ela não deve ser vista como um insulto, mas como um elogio à inteligência do outro. Criticar alguém é admitir que essa pessoa ou obra é digna de análise e que pode chegar a um patamar superior.

O verdadeiro preconceito não está na crítica em si, mas na nossa incapacidade de lidar com a verdade nua. Enquanto continuarmos a punir o olhar crítico, estaremos condenados a um progresso lento, mascarado por tapinhas nas costas e uma evolução que nunca chega a sair do lugar. A crítica é, e sempre será, a ferramenta mais poderosa para a construção de um futuro sólido.

Donos do Açúcar: Quem Foi o Barão de Japaratuba?

Tradição Imperial, Linhagem Secular e o Resgate Histórico de um dos Grandes Senhores de Engenho do Século XIX. Até hoje ainda tem pessoas que queriam ter um título nobiliárquico.



O Barão de Japaratuba (1819 – 1879)

A história de Sergipe não pode ser compreendida apenas pelos mapas administrativos, pelas mudanças de governo ou pelos discursos oficiais. Durante mais de dois séculos, o verdadeiro eixo do poder esteve concentrado nos engenhos, nas famílias proprietárias de terra e nas alianças matrimoniais que estruturaram a aristocracia rural do Vale do Cotinguiba.

Foi nesse ambiente que surgiram figuras como Gonçalo Accioli de Faro Rollemberg, símbolo máximo de uma elite agrária que transformou a produção açucareira em domínio político, social e cultural.

Gonçalo Accioli de Faro Rollemberg foi um dos mais poderosos senhores de engenho e líderes políticos de Sergipe durante o Segundo Reinado. Ele representa o ápice da aristocracia açucareira do Vale do Cotinguiba, unindo uma linhagem colonial secular ao prestígio da nobreza imperial brasileira.

A trajetória de Gonçalo Accioli de Faro Rollemberg representa o auge dessa estrutura aristocrática.

Descendente de linhagens ligadas aos primeiros engenhos de Sergipe, Gonçalo herdou não apenas terras, mas uma rede de poder construída desde o período colonial.

Sua ligação familiar com João Gomes de Melo ampliou sua inserção política na província, enquanto o domínio do tradicional Engenho Murta consolidou sua posição econômica.

Quando recebeu o título de Barão de Japaratuba em 1860, o Império não apenas homenageava um proprietário rural. Reconhecia oficialmente uma oligarquia regional cuja força econômica sustentava parte da estrutura imperial no Nordeste.

A nobreza brasileira tinha características distintas da europeia:

não era feudal;

não possuía castelos;

nem títulos hereditários automáticos.

Mas possuía algo igualmente poderoso: o controle da terra, da produção e das relações políticas locais.

1. Ancestralidade e Raízes (Séculos XVII - XVIII)

A força de Gonçalo residia em sua árvore genealógica, que se confunde com a própria ocupação do solo sergipano:

* Linhagem Paterna: Filho de Manuel Rollemberg de Azevedo e neto de Gonçalo Pais de Azevedo. É descendente direto de Manuel Rollemberg, pioneiro que já possuía engenho em Maruim nos anos de 1670, e de outro Manuel Rollemberg, senhor de terras na década de 1760.

* Linhagem Materna: Neto de Antônia Caldas de Moura Accioli, o que o tornava sobrinho do Marechal José Inácio Accioli de Vasconcelos Brandão, figura militar de elite no Império.

* A Conexão com o Barão de Maruim: Após a morte precoce de seu pai, sua mãe casou-se com João Gomes de Melo, o Barão de Maruim. Gonçalo cresceu como enteado da figura política mais influente de Sergipe, o que garantiu sua inserção no epicentro do poder provincial.

2. O Título Nobiliárquico (1860)

Diferente de muitas confusões biográficas, o título de Barão de Japaratuba foi-lhe conferido por decreto imperial em 14 de março de 1860, referendado pelo Ministro João de Almeida Pereira Filho. O título homenageia a região onde sua família exercia domínio absoluto, baseada no tradicional Engenho Murta (antigo "Flor da Murta"), cujas terras remontavam à expulsão dos índios da missão de Japaratuba em 1695.

3. Esclarecendo os Homônimos (O Avô vs. O Neto)

Para a precisão historiográfica, é necessário desfazer a fusão comum entre duas gerações:

* O Barão (O Avô): Gonçalo Accioli de Faro Rollemberg (1819–1879). Homem do Império, senhor de escravizados e de engenho, cuja força era a terra e a produção açucareira.

* O Senador (O Neto): Gonçalo de Faro Rollemberg (1860–1927). Médico e político republicano. Nasceu no ano em que o avô recebeu o título, o que gera o erro comum de datas. Enquanto o avô foi Barão no Império, o neto foi Senador na República.

4. Família e Sucessão

O Barão foi casado com Bernardina do Prado e, posteriormente, com Maria Leite Sampaio. Seus descendentes formaram a espinha dorsal da política sergipana:

* Maria de Faro Rollemberg (Dona Maria do Topo): Sua filha e senhora do Engenho do Topo. Foi através do casamento dela com o primo Manuel Rollemberg de Menezes que nasceu o futuro Senador.

* José de Faro Rollemberg: Seu filho, que também atuou na vida pública.

 5. Morte e Legado

O Barão de Japaratuba faleceu em 6 de outubro de 1879. Deixou um legado de domínio agrário que permitiu à sua família transitar da monarquia para a república sem perder o controle político do Vale do Cotinguiba. Seu nome permanece ligado à história de Japaratuba e Laranjeiras como o símbolo máximo de uma era em que os engenhos eram as unidades de medida do poder em Sergipe.

Família: Entre o Pilar da Existência e o Palanque das Falácias

O resgate do caráter sobre o rótulo: por que o compromisso familiar e a caridade não possuem filiação partidária.




Por: Flávio Hora


Falar de família no Brasil atual tornou-se um exercício perigoso de semântica. O termo foi capturado por correntes políticas, transformado em slogan de campanha e usado como escudo para esconder contradições profundas. No entanto, para além do barulho das redes sociais, a família permanece como a unidade básica de qualquer civilização séria — e sua força não reside na ideologia, mas na verdade de suas relações.

Os Pilares da Verdadeira Família

Uma família não se sustenta por um certificado ou por uma foto bem ensaiada aos domingos. Ela se ergue sobre três pilares fundamentais: Compromisso, Sacrifício e Verdade.

* Compromisso: A disposição de permanecer quando o cenário é adverso.

* Sacrifício: A capacidade de anular o ego individual em prol do bem comum do grupo.

* Verdade: A transparência total entre seus membros, sem a qual a confiança apodrece.

Casa vs. Lar: A Distância entre o Tijolo e o Afeto

É comum confundirmos as duas coisas. A casa é uma construção técnica, feita de alvenaria e governada por contratos de aluguel ou escrituras; é o espaço físico da sobrevivência. O lar, por outro lado, é uma construção espiritual. Uma casa pode estar cheia de gente e, ainda assim, ser um deserto de lares. O lar nasce onde existe a transmissão de valores, onde o silêncio é confortável e onde as raízes — as nossas "originalidades" — são preservadas.

A Falácia do "Modelo Político" de Família

No cenário brasileiro recente, a ala conservadora frequentemente aponta figuras como o ex-presidente Jair Bolsonaro como o "baluarte da família". No entanto, uma análise crítica revela uma lacuna imensa entre o discurso e a prática. Como sustentar um exemplo de "família cristã" quando a trajetória é marcada por rompimentos sucessivos e uma linguagem que, muitas vezes, flerta com a violência e a exclusão?

Os princípios cristãos que muitos dizem seguir são claros: mansidão, caridade, fidelidade e o amor ao próximo como a si mesmo. O conservadorismo, em sua essência filosófica (como em Edmund Burke), preza pela preservação das instituições através da prudência e do exemplo moral. Quando a política substitui o exemplo pelo grito, a ética cristã é sacrificada no altar do populismo. Não se é conservador apenas por gritar palavras de ordem; é-se conservador por manter a integridade dos pilares que sustentam a comunidade.

Precisa ser conservador para ter uma família séria?

A resposta curta é: não. A seriedade, a caridade e a ausência de vícios não são monopólios de uma vertente política. Uma família ateia pode ser profundamente caridosa e estruturada, enquanto uma família que se diz "cristã e conservadora" pode estar corroída por vícios morais e autoritarismo doméstico.

A virtude é um exercício individual que se expande para o coletivo. Conduzir uma família com retidão exige caráter, e o caráter não tem filiação partidária.

O Conservadorismo e o Fantasma do Anticomunismo

Aqui reside outra confusão comum. Muitos acreditam que "ser conservador" é apenas "ser anticomunista". Esta é uma redução tacanha. O anticomunismo é uma posição política; o conservadorismo é uma postura existencial.

O verdadeiro conservador é aquele que entende que a sociedade é um contrato entre os que já morreram, os que estão vivos e os que ainda vão nascer. Se o seu "conservadorismo" se resume a odiar um sistema econômico ou um partido, mas você negligencia a educação dos filhos, a transparência nas contas (sejam elas domésticas ou públicas) e a caridade com o vizinho, você não é um conservador — é apenas um militante.

Conclusão

Uma família séria é aquela que não precisa de rótulos para provar sua importância. Ela se prova no respeito mútuo, na ausência de vícios que destroem o convívio e na capacidade de ser um porto seguro em um mundo caótico. Seja em Japaratuba ou em qualquer lugar do mundo, o que salva uma família não é o voto na urna, mas a dedicação diária no silêncio do lar.

O Alvorecer da Retomada: A Voz que o Barro Não Calou

Do resgate das raízes ao protagonismo do agora: como a nova consciência transforma o legado da dor em potência criativa e soberania cultural.




Se o dia 13 foi a ilusão do papel e o dia 14 foi o peso da omissão, o tempo presente nos convoca para um terceiro ato: o da retomada. Não se trata mais de esperar que a liberdade nos seja concedida por mãos alheias, mas de reconhecer que ela sempre pulsou em nosso interior, guardada como um segredo precioso entre o sopro do pífano e o barro moldado pelas mãos dos nossos ancestrais.

Encerrar esta trilogia sobre a abolição em Japaratuba é, acima de tudo, um exercício de justiça poética. Por muito tempo, tentaram nos convencer de que nossa história era um anexo da história dos outros. Que nossa cultura era apenas um "folclore" para ser visto de longe, e nossa inteligência, uma "civilidade" de fachada. Mas a verdade é que o Vale do Cotinguiba sempre foi um celeiro de saberes que as correntes jamais conseguiram confinar.

A reparação histórica que o Estado brasileiro ainda nos deve começa a ser paga toda vez que um jovem negro ocupa a universidade, toda vez que um escritor de nossa terra usa a pena para denunciar a supremacia e, principalmente, quando deixamos de pedir licença para sermos nós mesmos. O Originalismo que defendemos não é um retorno nostálgico ao passado, mas um resgate do que é autêntico para projetar o futuro. É entender que a nossa psicologia, o nosso ritmo e a nossa estética não são subprodutos, mas a essência do que o Brasil tem de mais potente.

Nesta sexta-feira, dia 15, olhamos para as nossas famílias e vemos nelas os verdadeiros arquivos da nossa resistência. É na mesa da cozinha, na transmissão oral de pai para filho e na perseverança das mães-professoras que a abolição, finalmente, começa a se completar. A liberdade real não é um decreto; é o direito de ser o autor da própria narrativa.

Que as cinzas do passado sirvam apenas para adubar o solo de uma Japaratuba que não aceita mais rótulos. Somos a terra do negro consciente, do artista soberano e do cidadão que conhece o valor de sua raiz. As correntes caíram, o desamparo nos testou, mas a palavra — ah, a palavra — esta agora é nossa. E através dela, ninguém mais poderá nos silenciar.

quinta-feira, 14 de maio de 2026

O Dia 14 e as Novas Correntes

Quando o entusiasmo das praças silenciou e o desamparo da liberdade sem solo revelou o verdadeiro "dia seguinte" da abolição.



Se o 13 de maio foi a festa das canetas e dos sorrisos nos salões imperiais, o 14 de maio foi o amanhecer do desamparo. Para muitos negros em Japaratuba e por todo o Brasil, o sol da liberdade brilhou sobre um estômago vazio e pés que não tinham para onde caminhar. A Lei Áurea, em sua brevidade cirúrgica, cortou o ferro, mas não ofereceu o solo.

Nesta segunda pegada, precisamos encarar o que aconteceu quando o entusiasmo das praças silenciou. As oligarquias, feridas em seu bolso e em sua soberania, não tardaram a reagir. Aqueles que antes reclamavam da "perda da propriedade" logo entenderam que o racismo velado poderia ser uma ferramenta de controle tão eficaz quanto o aço. Se não podiam mais ser donos de corpos, seriam donos das oportunidades, das terras e das leis.

O racismo brasileiro, essa chaga que muitos insistem em dizer que não existe, refinou-se no dia seguinte à abolição. Ele se manifestou na "lei da vadiagem", que transformava o homem livre sem emprego em criminoso, e na manutenção da supremacia branca nos espaços de decisão política e econômica. Criou-se a ilusão de uma democracia racial enquanto se empurrava o liberto para as margens, para os subempregos, para a invisibilidade.

Em nossa região, a herança dessa transição mal planejada ainda é visível nas estruturas de poder que pouco mudaram desde o século XIX. A dívida histórica não é apenas financeira; é moral e pedagógica. É o reconhecimento de que o progresso do Brasil foi erguido sobre o suor de pessoas arrancadas à força de seus lares e que, ao receberem a "liberdade", receberam também as costas de uma nação que se recusava a integrá-las.

O dia 14 de maio nunca terminou. Ele continua em cada olhar de desconfiança, em cada porta fechada e na luta diária para que a cultura e a arte negra sejam vistas não como folclore exótico, mas como a espinha dorsal da nossa civilização. Reconhecer essa dívida é o primeiro passo para que possamos, finalmente, anoitecer em uma pátria verdadeiramente livre.



Informe: as imagens são meramente ilustrativas, criadas por inteligência artificial.

O Mercado das Siglas e o Deserto das Ideias: A Política como Maquiagem

Entre a construção de instituições à esquerda e o messianismo identitário à direita, o sistema partidário brasileiro se transmuta em um balcão de negócios onde as federações são a nova maquiagem para o velho pragmatismo eleitoral.




Por Flávio Hora
14 de Maio de 2026

A política brasileira contemporânea assemelha-se, cada vez mais, a uma complexa economia de mercado, onde o voto deixou de ser um compromisso ideológico para se tornar uma transação de conveniência. No cenário nacional, assistimos a um embate de polarização estética; nos estados e municípios, porém, as cores das bandeiras desbotam diante do pragmatismo do "meio-fio". O resultado é um sistema onde o eleitor, desiludido ou meramente prático, consome candidatos como produtos de prateleira, ignorando a embalagem partidária que os envolve.

A verdade é que a  política brasileira contemporânea transformou-se em uma "geometria variável" onde a lógica partidária foi substituída por uma economia de mercado agressiva. O que vemos hoje não é o amadurecimento das instituições, mas o refinamento da maquiagem política. Sob o pretexto de reduzir a fragmentação, as federações partidárias surgem não como uma reforma de convicções, mas como um consórcio de conveniência. É o "casamento por interesse" elevado ao status de regra eleitoral, onde siglas se unem por quatro anos apenas para garantir a sobrevivência do acesso ao fundo partidário, sem que haja, no fundo, qualquer unidade de pensamento.

A Ilusão da Pluralidade

O Brasil ostenta uma lista extensa de legendas, mas essa pluralidade é um simulacro. A existência de dezenas de siglas não criou "vias" ou projetos de país distintos; criou apenas mais candidatos. No imaginário popular, o PT sobrevive como a única instituição reconhecível — uma marca que, para o bem ou para o mal, possui identidade, história e militância. Do outro lado, o espectro da direita e da extrema-direita aperfeiçoou o modelo de "partido hospedeiro". Legendas como o PSL ou o PL funcionam como estacionamentos temporários para lideranças carismáticas que carregam seu eleitorado no CPF, e não no programa do partido.

Neste cenário, desenha-se uma divisão clara na forma como os campos políticos se organizam. À esquerda, há uma busca histórica pela instituição. O PT, por exemplo, consolidou-se como o único corpo político que o brasileiro médio reconhece como "partido". Ali, o voto ainda guarda um resquício programático; o eleitor identifica uma marca, uma história e uma estrutura que sobrevive além das figuras individuais. É a tentativa — ainda que imperfeita — de criar uma via duradoura através de uma sigla que serve de âncora moral para seus seguidores.

Já na direita e extrema-direita, o que se observa é o triunfo do identitarismo messiânico. Para este campo, os partidos são meros "hospedeiros" descartáveis, CNPJs de aluguel que servem apenas como suporte burocrático para o "Salvador da Pátria" da vez. O voto aqui não é na instituição, mas na identidade: o eleitor busca um espelho de si mesmo, alguém que fale suas gírias, compartilhe seus preconceitos ou encarne suas revoltas. É uma política de CPFs, onde o número da legenda (seja 17 ou 22) é apenas um detalhe técnico, trocado com a mesma facilidade com que se troca de camisa em um dia de sol.

O Eleitor como Consumidor Pragmático

Por que partidos ideologicamente opostos se abraçam nos municípios? A resposta é comercial: sobrevivência e manutenção de clientela. O eleitor, por sua vez, não se sente traído por essas alianças espúrias porque já absorveu a política como uma prestação de serviços. Se o "Doutor Fulano" traz a pavimentação ou o "Amigo Beltrano" defende valores de identidade, pouco importa o número que ele digita na urna. A fidelidade é ao líder ou à indicação, nunca à instituição.

O Ciclo do Salvador da Pátria

Essa personalização extrema alimenta o mito do "Salvador da Pátria". Enquanto o eleitor acreditar que a solução para problemas estruturais virá de um herói providencial, as instituições continuarão sendo vistas como meros entraves burocráticos. As recentes federações partidárias e reformas de maquiagem são apenas articulações para manter o fluxo de recursos públicos, sem enfrentar a raiz do problema: a ausência de conexão real entre o que o partido diz ser e o que ele efetivamente faz.

Por que o eleitor não se sente traído quando um candidato de direita se alia à centro-esquerda no município? Porque ele já absorveu a política como uma transação de mercado. Se o candidato "é dos nossos" (identidade), pouco importa o "negócio" (coligação) que ele precise fazer para se manter no poder. A traição ideológica foi substituída pela eficácia da entrega ou pela manutenção da imagem.

A pluralidade partidária brasileira é, portanto, uma fraude aritmética. Temos mais candidatos, mas menos opções reais de caminhos. O sistema produz uma inflação de siglas para esconder um deserto de ideias. No fim das contas, a maioria dos partidos "não existe" no imaginário popular; são fantasmas que ganham vida apenas no período eleitoral para drenar recursos públicos e abrigar lideranças que, na ausência de um projeto de país, oferecem apenas o conforto de uma identidade compartilhada.

O Futuro do Voto


O "salvador" é o produto mais vendido nesse mercado porque ele desonera o eleitor do peso de entender as instituições. É mais fácil crer em um herói do que em um partido. No entanto, enquanto a política for tratada como maquiagem e as federações como meros arranjos de cúpula, continuaremos girando em torno de egos, enquanto o conceito de via política — aquela que exige solidez, tempo e programa — permanece sendo um luxo que o mercado eleitoral brasileiro ainda não se dispôs a pagar.

Não estamos em um caminho sem volta, mas o motor da mudança institucional está fundido. A transição para uma democracia de instituições sólidas só ocorrerá quando o estoque de "salvadores" se esgotar e o eleitor perceber que a identidade, isolada da gestão e da ética partidária, não enche o prato nem garante o futuro. Até lá, continuaremos assistindo ao teatro das siglas, onde os atores mudam de figurino conforme a conveniência da temporada, enquanto o público, resignado, escolhe o produto que lhe parece menos danoso no balcão de negócios da democracia.


Informe: as imagens são meramente ilustrativas, criadas por inteligência artificial.

quarta-feira, 13 de maio de 2026

O Silêncio da "Civilidade

Ser "civilizado", naquela época, era de fato o código para ser submisso. Rejeitar esse termo e resgatar a história real — com suas dores, mas também com sua força criativa — é a única forma de começar a cobrar essa dívida histórica.



O termo ecoa nos livros de história local e nos discursos empoeirados das velhas elites: "Japaratuba, a terra do negro civilizado". Por décadas, essa frase foi carregada como uma medalha de honra, um selo de distinção que nos separava de outras paragens. Mas, ao encostarmos o ouvido na memória do Vale do Cotinguiba, a pergunta que surge é inevitável e cortante: a quem servia essa tal civilidade?

Hoje, ser "civilizado" para o sistema muitas vezes ainda significa não incomodar, não protestar e aceitar os espaços marginais que a sociedade reserva à população negra. E isso se estende a todas as classes menos favorecidas que precisam se calar para ter migalhas da burguesia. 

Para o senhor de engenho, o negro "civilizado" era aquele cujas mãos calejadas não se fechavam em punho, mas se uniam em prece sob o chicote. Era o homem arrancado de sua terra natal, despojado de seus deuses e de sua língua, a quem se permitia existir desde que sua voz não passasse de um sussurro de concordância. Civilizar, naquela gramática do opressor, era o sinônimo cruel de domesticar. Era premiar o silêncio e punir a identidade.

A dívida histórica do Estado brasileiro não se paga apenas com leis que, como a de 1888, abriram as portas das senzalas mas fecharam as portas da dignidade. Ela se arrasta no racismo velado, na supremacia que se disfarça de cordialidade e na ideia de que o negro deve ser "pacífico" para ser aceito. Em Japaratuba, essa marca foi profunda. Tentaram transformar a nossa resistência em uma obediência cega, rotulando o conformismo como virtude social.

Mas a verdade é teimosa. Ela sobreviveu no couro esticado do tambor, no sopro melancólico do pífano  do nativo e na força das tradições que nenhum "senhor" conseguiu apagar. O negro de Japaratuba nunca foi civilizado pela régua alheia; ele foi, e é, o arquiteto de uma civilização própria, que resiste através da arte e da cultura.

Hoje, 13 de maio, é dia de desmascarar esse adjetivo. Ser civilizado não é obedecer ao sistema que te exclui. Ser civilizado, no sentido mais profundo da nossa raiz, é ter o direito de reclamar a própria história, de denunciar o sequestro do passado e de construir um futuro onde a liberdade não precise pedir licença para existir. A verdadeira civilidade nasce da justiça, nunca da submissão.