Como a ciência forense e a revisão histórica desarmaram a farsa do "acidente de trânsito" e provaram o assassinato político do fundador de Brasília pela ditadura.
Há crimes tão cirúrgicos que dependem menos da pólvora e mais do cinismo. Durante exatamente cinquenta anos, o Estado brasileiro sustentou que a morte de Juscelino Kubitschek, na tarde de 22 de agosto de 1976, fora uma trágica ironia do destino: um Opala que perde o controle na Via Dutra após o toque de um ônibus e colide contra uma carreta. Pronto. Um acidente. Quem duvidaria? A dúvida, afinal, foi o álibi perfeito de uma ditadura que preferia o silêncio dos necrotérios disfarçados à publicidade dos pelotões de fuzilamento.
No entanto, a verdade histórica possui uma teimosia biológica. A aprovação, por ampla maioria (6 votos a 1), do novo relatório da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) rasga a versão oficial e reescreve a historiografia: JK foi assassinado pelo regime civil-militar. Mais do que um rito burocrático, a decisão joga luz sobre o perturbador inverno de 1976 e 1977, período em que as principais vozes da redemocratização nacional foram extirpadas do mapa em um intervalo cirúrgico de nove meses.
Para compreender o tamanho do "incômodo" que o fundador de Brasília representava, é preciso recuar ao tabuleiro da época. Sob o pretexto de uma abertura "lenta, gradual e segura" acenada pelo general Ernesto Geisel, a linha-dura do Exército e o aparato do DOI-Codi operavam nos porões para garantir que o poder jamais escapasse de suas mãos. JK não era um ex-mandatário nostálgico; era uma ameaça eleitoral iminente. Se o voto direto fosse devolvido ao povo, o homem que simbolizava os anos de ouro do desenvolvimento, da Bossa Nova e da estabilidade democrática venceria com folga.
A máquina de repressão sabia disso. Tanto sabia que o cerco se apertou semanas antes. Em 7 de agosto de 1976, catorze dias antes da colisão fatal, um robusto "alarme falso" circulou pelo país anunciando a morte de Juscelino em Goiás. Ao isolamento da fazenda sem telefone, seguiu-se o retorno às pressas do líder para desmentir o boato à imprensa. Foi ali que ele proferiu a frase premonitória ao seu secretário particular: "Estão querendo me matar, mas ainda não conseguiram". Conseguiram duas semanas depois. O disfarce da fatalidade evitou a revolta popular que uma prisão escancarada provocaria.
O que o novo parecer da CEMDP faz, amparado por investigações do Ministério Público Federal, é demolir a física do cinismo. A perícia moderna comprovou que a suposta colisão do ônibus da Viação Cometa na traseira do Opala nunca aconteceu. Sem o impacto inicial, cai o castelo de cartas. Soma-se a isso o sumiço de provas, a desmontagem relâmpago do veículo sob custódia e a ausência de exames toxicológicos no motorista Geraldo Ribeiro. O "acidente perfeito" era, na verdade, uma fraude grosseira protegida pelo fardamento do Estado.
Essa confirmação tardia projeta uma sombra inevitável sobre os outros dois vértices da "Frente Ampla". Como crer em mera coincidência quando, logo após JK, João Goulart morre de um ataque cardíaco sob suspeita de medicamentos adulterados na Argentina, e Carlos Lacerda falece no Rio de Janeiro devido a uma infecção hospitalar fulminante? A tese de uma "limpeza de terreno" coordenada pela Operação Condor deixa de ser um roteiro de conspiração popular para se consolidar como lógica de eliminação política.
Em um Brasil cindido, onde até o passado virou trincheira ideológica, a reação a essa decisão oscila entre o ceticismo prático e a instrumentalização partidária. Setores mais pragmáticos dirão que "nada muda", afinal, os algozes estão mortos e a Lei da Anistia de 1979 blindou os crimes de sangue. Outros tentarão reduzir o relatório a uma mera "narrativa" da atual gestão federal de esquerda.
Mas reduzir esse desfecho à pequenez da disputa eleitoral presente é um erro de perspectiva histórica. O que muda para o Brasil é o direito à memória coletiva. A retificação da certidão de óbito de Juscelino Kubitschek é um ato de soberania da verdade sobre a mentira oficial. O Estado que matou o homem é o mesmo que hoje é obrigado a registrar o crime em letras públicas. Cinquenta anos depois, a justiça criminal pode ter sido sepultada pelo tempo, mas a História, finalmente, retirou dos assassinos o benefício da dúvida.






