Como a matemática exata do futebol transforma duas décadas de angústia em um ciclo de redenção, repetindo o mesmo carma que antecedeu a glória de 1994.
O Peso do Relógio e a Cabala dos 24
Existe um silêncio peculiar que só o torcedor brasileiro conhece. É aquele hiato incômodo entre o apito final de uma eliminação e o início da próxima Copa. Um vazio que, da última vez que fomos felizes de verdade, durou exatamente vinte e quatro anos.
Vinte e quatro anos. Duas décadas e quatro invernos. O tempo suficiente para uma criança nascer, aprender a ler — quem sabe até se apaixonar por Machado de Assis ou Clarice Lispector, como bem sugerem os corações mais poéticos —, formar-se na faculdade e descobrir que a vida adulta é um eterno correr atrás do prejuízo.
Em 1994, quando Romário e Baggio pisaram no gramado de
Pasadena, o Brasil carregava nas costas o fantasma de 1970. Uma geração inteira
cresceu ouvindo falar de Pelé, Tostão e Rivellino como deuses de um Olimpo
distante, enquanto colecionava decepções em preto e branco e, depois, em cores
vivas. O jejum daquela época parecia uma eternidade. Parecia intransponível.
Até que a bola beijou o céu da Califórnia no chute de Baggio, e o grito de
"É Tetra!" rasgou a garganta de uma nação que já nem lembrava como
era comemorar.
O que não sabíamos, naquele julho ensolarado, é que o tempo é um mestre irônico. Ele gosta de rimas.
Depois do brilho do Penta em 2002, o relógio recomeçou a girar. E girou pesado. Viu o quadrado mágico ruir, assistiu a feridas profundas em nossa própria casa e nos trancou em uma sala de espera que parecia não ter fim. Ano após ano, o futebol — esse elemento que, queiramos ou não, batiza o nosso país com o nome de "Seleção" — foi nos devolvendo a mesma angústia.
Mais uma vez, os mesmos vinte e quatro anos. E Copa nos EUA.
É uma matemática mística, quase poética. Para quem olha de fora, pode parecer tolice buscar consolo em tabelas e coincidências temporais. Afinal, por que não canalizar essa paixão avassaladora para as nossas livrarias, teatros e fés cotidianas? Por que o Brasil só parece ser o "Brasil" quando veste verde e amarelo? Talvez porque a arte e a literatura exijam de nós a lucidez da realidade, enquanto o futebol é o único território onde nos é permitido ser puramente infantis, supersticiosos e crentes em milagres.
E agora, diante do exato mesmo abismo de tempo que
antecedeu a glória de 1994, o brasileiro se pega fazendo contas. Olhando para o
calendário não com o cansaço de quem esperou demais, mas com o brilho nos olhos
de quem reconhece o desenho do destino.
Sonhar ainda é de graça. E se a história tem o hábito de
se repetir, que ela seja fiel ao roteiro. O grito do Hexa não está apenas
guardado; ele está maturando, como um bom livro na estante, esperando a hora
certa de ser lido em voz alta por duzentos milhões de vozes.






