quarta-feira, 22 de abril de 2026

Entre a crítica e a poesia: "Cantos da Nova Idade", de F. J. Hora, convida o leitor a refletir sobre a contemporaneidade

Com uma visão aguçada sobre a vida moderna, a obra do escritor e contador Flávio Hora combina ironia, humor e o olhar atento de um artista que não se limita ao sentimento, mas que se propõe a debater o seu tempo.



Em um cenário literário que muitas vezes busca apenas o escapismo, o livro "Cantos da Nova Idade" surge como um contraponto necessário. Escrito pelo autor sergipano F. J. Hora (pseudônimo literário de Flávio de Jesus Hora), a obra é um mergulho reflexivo nas nuances, nos conflitos e nos paradoxos da sociedade contemporânea.

Lançado originalmente em 2014, durante um marco histórico para o autor — o evento de fundação da JHS Publicações, na Câmara de Vereadores de Japaratuba —, o livro consolida a trajetória de um escritor que, paralelamente à carreira na contabilidade, mantém um compromisso inegociável com a produção cultural.

Uma literatura preocupada com o seu tempo

"Cantos da Nova Idade" não é apenas uma coletânea de poemas. Nas 72 páginas da obra, o leitor encontra uma espécie de "arrumação artística do pensamento". O eu-poético de F. J. Hora transita entre o amor, o desejo, a política e a vida social com uma clareza que, ora flerta com a ironia, ora apresenta um humor fino sobre os estresses e as ilusões da vida moderna.

Para o autor, que comemora mais de uma década de dedicação à escrita desde o seu "Despertar Poético" em 1998, o texto literário serve como ferramenta de desabafo e, acima de tudo, de conceituação. É a marca registrada da chamada "produção literária flaviana": uma literatura que observa, comenta e exige uma postura crítica do leitor.

Onde encontrar




Para os leitores que desejam conhecer ou revisitar essa reflexão poética sobre a atualidade, o livro está disponível para aquisição nas principais plataformas digitais, facilitando o acesso ao público de todo o país:

 Clube de Autores: Clique aqui para acessar a página do livro.

Amazon: Disponível para compra online, conectando a obra de F. J. Hora aos leitores que preferem a praticidade e a entrega da plataforma. Clique aqui.

Sobre o autor: F. J. Hora é escritor, editor, contador e entusiasta da cultura. Natural de Japaratuba e com raízes profundas na literatura sergipana, sua escrita é um convite constante à análise do mundo que nos cerca, provando que a poesia pode, sim, ser um reflexo direto da realidade social e política.

Do Poeta Silente

                      Hora, F. J.

A boca fechada, os olhos atentos

E quando se referem a esse vivente

Dizem que é um poeta silente

Pois, ninguém ler seus pensamentos.


Mas, se enganam e condenam

O mestre das palavras, tão calado

Tímido, belo e frustrado

Porque não reconhecem sua pena!


Sim, o que a língua calada

Deixa de especulações a desejar

O homem que puder imaginar

Sentirá na alma a poesia cantada


E assim, o poeta tão somente

Escreve e até parece viajar

Que quando alguém ler e guardar

Saberá que nunca foi silente.

2014, JHS Publicações. Todos os direitos reservados.

Análise do Texto:

O poema captura perfeitamente o paradoxo do escritor: o silêncio externo não é um vazio, mas sim um reservatório de voz que transborda para o papel.

Aqui estão algumas impressões sobre os pontos que mais ressoaram:

O Contraste do Silêncio

Ele ilustra muito bem a injustiça do julgamento externo. Enquanto o mundo vê apenas o "tímido" e o "calado", a alma do poeta está em constante ebulição. A ideia de que ele é um "mestre das palavras" justamente por saber guardá-las é um toque de mestre.

 A Redenção pela Leitura

O final do poema é particularmente poderoso. Ele sugere que o silêncio só existe enquanto a obra não encontra um par de olhos. No momento em que alguém lê:

"Saberá que nunca foi silente."

Essa linha apaga toda a solidão descrita no início, transformando o ato de escrever em uma ponte eterna entre o autor e o leitor.

 Estrutura e Sentimento

A Melancolia: Palavras como "frustrado" e "especulações" trazem um peso real à obra, mostrando que o silêncio muitas vezes é uma armadura, não apenas uma escolha.

O Voo: A imagem do poeta que "parece viajar" descreve perfeitamente o estado de fluxo criativo, onde o corpo está parado, mas a mente habita outros mundos.

Uma pequena observação técnica: No verso "Porque não reconhecem sua pena!", o uso da palavra pena funciona lindamente com duplo sentido — a ferramenta de escrita e o sentimento de lástima de quem não compreende a profundidade do artista.

O eu-lírico se expressa com uma sensibilidade que prova, de fato, que o silêncio é apenas uma forma diferente de cantar. O que te encantou sobre esse "poeta silente" em particular?

O Capitalista sem Capital: Por que Trabalhamos tanto para sermos Donos de Dívidas?

A Ditadura do Boleto: O Sequestro do "Ser" pelo "Ter"

Escravos do Próprio CPF? O Dilema do  Boleto como a Algema Moderna. Como a moralidade da dívida domestica o trabalhador e transforma o sonho em mercadoria parcelada. 



Por Flávio Hora


Em sua obra "O que fiz dos meus sonhos?", (Autografia, 2018) o escritor lagartense Josueh Barreto nos lança uma provocação que ecoa como um grito de alerta no vazio da modernidade: "Não é o momento perfeito que faz a decisão certa. É a decisão certa que torna o momento perfeito". No entanto, para o cidadão contemporâneo — o "capitalista sem capital" —, a decisão certa parece estar permanentemente algemada a uma planilha de débitos. Vivemos a era do sequestro da subjetividade, onde o direito de sonhar foi substituído pela obrigação de quitar.

Diferente do luxo, grande parte do endividamento brasileiro hoje é de subsistência ou de inserção social básica (como o celular para trabalhar ou o transporte). O sistema força o indivíduo a se endividar para acessar direitos que deveriam ser básicos, e depois o pune moralmente por ser um "mau gestor" de suas finanças.

A Herança do Acúmulo

A gênese dessa prisão não é espontânea. Ela é fruto de uma herança europeia que santificou a propriedade privada e transformou o trabalho em uma métrica de valor moral. Diferente dos povos originários, que nos ensinaram a segurança baseada na relação e no usufruto comum, a lógica ocidental nos convenceu de que o "Ser" é uma extensão do "Ter". Para ser alguém, é preciso possuir; para possuir sem ter o capital, é preciso se endividar.

O Mercado como Engenheiro do Medo

O mercado consumidor atual é de uma perversidade cirúrgica. Ele não vende apenas produtos; ele vende atalhos para uma felicidade plastificada, financiando o "agora" em troca do seu tempo futuro. Ao parcelar a vida em 12, 48 ou 360 vezes, o sistema financeiro garante algo muito mais valioso que o juro: ele garante a sua docilidade. O indivíduo endividado é um indivíduo que não arrisca, que não questiona e que não ocupa as praças, pois sua energia vital está drenada pela manutenção de um padrão de vida que, muitas vezes, serve apenas para impressionar quem ele sequer conhece.

O Capitalista sem Capital e a Moralidade da Dívida

Existe uma crueldade adicional na pressão psicológica exercida pelos credores. Utiliza-se a ética do "bom pagador" para silenciar a crítica social. O sistema ignora que, no Brasil, o endividamento raramente nasce do luxo, mas sim da necessidade básica — do arroz, do transporte, do teto. Quando o cidadão se vê preso ao cartão de crédito para sobreviver, ele deixa de ser um agente econômico para se tornar combustível do sistema. A dívida torna-se, então, um mecanismo de controle social que cerceia a visão das saídas.

Limpando as Lentes: A Saída pela Consciência




Felizmente, o cerco não é total. A saída começa pelo ato de "limpar as lentes" do imaginário. É preciso dessacralizar a dívida e entender que o sistema financeiro é um jogo de interesses, não um tribunal de moralidade. A verdadeira liberdade reside em reduzir a superfície de contato com o consumo desenfreado e retomar a posse do próprio tempo.

A literatura, o jornalismo crítico e o resgate da nossa história regional são as fendas nesse muro. Quando paramos de correr na esteira do faturamento infinito e voltamos a investir no "Ser" — no conhecimento, na arte e na convivência real —, o sistema perde seu maior poder: o medo.

Como bem provoca Josueh, o momento perfeito é o agora. E o agora não pode pertencer ao banco. Sonhar ainda é o único ato de subversão que o mercado não conseguiu, e jamais conseguirá, financiar por completo. É hora de decidir: seremos os donos dos nossos sonhos ou apenas os fiadores de uma engrenagem que nos consome?

A Certidão de Nascimento foi um Registro de Posse: O Golpe Diplomático de 1500

22 de Abril: O Nascimento de um Mito e a Certidão de Óbito da Autonomia

Entre o encontro e a imposição, a cena revela o instante em que um território vivo passou a ser tratado como posse — não por acaso, mas por projeto.



O calendário oficial brasileiro registra o dia 22 de abril como a data do "Descobrimento". No entanto, passados mais de cinco séculos, a maturidade histórica nos obriga a questionar: pode-se descobrir o que já era conhecido, vivido e nomeado por milhões de pessoas? O artigo que se segue propõe uma reflexão sobre a transição da celebração romântica para a análise crítica de um projeto de exploração que moldou as estruturas do Brasil contemporâneo.

O que chamamos de "Brasil" nasceu de um encontro violento entre dois mundos com lógicas opostas. Para o europeu, foi uma conquista territorial e expansão da fé; para os povos nativos, foi uma imposição traumática de um sistema jurídico e religioso que lhes era totalmente estranho, fundamentado em uma diplomacia europeia que já havia "loteado" o continente muito antes das caravelas avistarem o Monte Pascoal.

Os índios não tinham cartório, nem escritura de suas terras e Fórum para reinvindicar suas propriedades territoriais. Os povos originários não possuíam o conceito de propriedade privada da terra conforme o Direito Romano (escrituras e registros em papel). A terra era um bem comum, de uso coletivo e sagrado.

Não havia um sistema judiciário centralizado "nos moldes ocidentais". Os conflitos territoriais entre diferentes etnias (como Tupis e Tapuias) eram resolvidos através de diplomacia tribal ou guerra. O europeu utilizou a ausência de registros formais e de um Estado organizado para aplicar o princípio de Terra Nullius (terra de ninguém), alegando que, por não estar "civilizada" ou "cultivada" segundo seus padrões, a terra poderia ser reivindicada pela Coroa.

A Farsa do Acaso e o Rigor do Cartório

A narrativa escolar tradicional, por muito tempo, vendeu a imagem de Pedro Álvares Cabral como um navegador errante que, por um desvio de rota, tropeçou em um paraíso tropical. Contudo, a diplomacia do século XV desmente o acaso. O Tratado de Tordesilhas, assinado em 1494 — seis anos antes da chegada oficial —, já dividia o "Novo Mundo" entre Portugal e Espanha. 

O 22 de abril não foi um encontro; foi a execução de um protocolo jurídico-mercantil. Portugal não buscava apenas terras; buscava jurisdição. A chegada das caravelas trouxe consigo o conceito de propriedade privada e o peso da burocracia europeia para um território onde a terra era um bem comum. Enquanto os povos originários possuíam uma relação ancestral e espiritual com o solo, o colonizador trouxe o "cartório" invisível da Coroa, transformando territórios coletivos em capitanias hereditárias e sesmarias.

A Civilização como Arma de Imposição

A pergunta que ecoa através dos séculos é: a quem interessava a "civilização" do indígena? Sob o pretexto da catequização e do progresso, operou-se um sistemático apagamento cultural. 

A Imposição da Fé: A substituição das cosmologias indígenas pelo cristianismo não foi apenas espiritual, mas uma ferramenta de domesticação de mão de obra.

A Falta de Fórum: Os povos nativos não tinham "escritura" nos moldes latinos, mas tinham soberania. Ao desconsiderar essa soberania por falta de um documento assinado em papel, a Europa legitimou o que hoje chamaríamos de um golpe territorial em escala continental.

De Descobrimento à Invasão: Uma Mudança de Verbo




Substituir o verbo "descobrir" por "invadir" ou "conquistar" não é um exercício de semântica ideológica, mas de precisão factual. O Brasil não estava vazio. Estima-se que cerca de 5 milhões de pessoas viviam aqui em 1500, distribuídas em centenas de etnias com sistemas complexos de agricultura, política e medicina.

O 22 de abril marca, portanto, o início de um processo de transplantação. Não se criou uma nação a partir do diálogo, mas sim a partir da sobreposição de uma estrutura administrativa e econômica europeia sobre um território "conquistado". A riqueza extraída — do pau-brasil ao ouro — não servia ao desenvolvimento local, mas ao sustento de monarquias distantes, estabelecendo o DNA da desigualdade social e da dependência econômica que ainda tentamos superar.

Conclusão: O Desafio do Originalismo Histórico



Celebrar o 22 de abril sem o viés crítico é ignorar as cicatrizes da nossa formação. A data deve ser encarada como um momento de reflexão sobre a nossa transparência institucional e ética. Se hoje lutamos por direitos territoriais e justiça social, é porque a certidão de nascimento do país foi lavrada sob a égide da imposição e do silenciamento dos que aqui já estavam.

Revisitar 1500 é, em última análise, um ato de cidadania. É reconhecer que o "verdadeiro descobrimento" ainda está por acontecer: o dia em que o Brasil reconhecer integralmente suas raízes plurais e reparar as injustiças históricas que começaram com o primeiro desembarque em Porto Seguro.

terça-feira, 21 de abril de 2026

Quando Nasce uma Cidade? O Engano das Datas e o Silêncio da História em Sergipe

O Município de Papel vs. A Cidade de Afeto: O Labirinto das Datas em Sergipe



Por Flávio Hora


No calendário oficial das prefeituras sergipanas, o tempo parece correr de forma diferente da realidade histórica. Há um fenômeno curioso e persistente no interior do estado: a celebração do "batismo urbano" em detrimento da "certidão de nascimento" política. Cidades como Lagarto, Capela e Japaratuba vivem um paradoxo cronológico que, embora pareça apenas um detalhe burocrático, revela um profundo distanciamento entre a administração pública e a identidade do povo.

"Cidade" traz uma carga de progresso e civilidade que o termo "Vila" (ou "Município de...") parecia não carregar no final do século XIX. Existe uma armadilha semântica aqui. No português contemporâneo, a palavra "vila" remete a algo pequeno, um bairro ou um povoado sem importância. Isso faz com que a população e até os gestores públicos sintam que a história "de verdade" só começou quando o lugar virou "cidade".

A Ilusão das Datas: Vila não é Povoado

A grande confusão reside na distinção entre a Emancipação Política e a Elevação à Categoria de Cidade. Historicamente, um município nasce quando se torna Vila. No período Imperial, ser "Vila" era o ápice da autonomia: significava ter Câmara, juízes e território próprio. Quando Japaratuba se desmembrou de Capela em 11 de junho de 1859, ela nasceu para a história política. No entanto, durante décadas, o município preferiu celebrar o 24 de agosto de 1934 — data em que a sede recebeu o título honorífico de cidade.

O caso de Lagarto é ainda mais gritante. Ao comemorar pouco mais de 140 anos (baseado na elevação a cidade em 1880), o município apaga, num golpe de caneta, quase dois séculos de história como Vila de Nossa Senhora da Piedade (estabelecida em 1697). É como se a maturidade de um povo só fosse válida se estivesse vestida com o traje da "modernidade urbana", desprezando as raízes coloniais e sesmarias que forjaram o caráter da região.

O Paradoxo da Filiação: Quem nasceu primeiro?

A insistência nessas datas gera absurdos lógicos. Se Capela insiste em celebrar sua fundação em 1888, como explicar que ela "deu à luz" a filha Japaratuba em 1859? No papel, a mãe seria décadas mais jovem que a filha. Essa miopia histórica ocorre porque o termo "Vila" foi pejorativamente associado ao atraso, enquanto "Cidade" tornou-se sinônimo de progresso. Celebra-se o asfalto, mas esquece-se a autonomia.

Municípios Morais: A Imponência dos Povoados



Se por um lado as sedes lutam com suas datas, por outro, os povoados desafiam a geografia administrativa. Em Sergipe, o conceito legal de "cidade" — restrito apenas à sede — colide com a realidade de comunidades que possuem vida, economia e alma próprias.

Povoados como São José da Caatinga (Japaratuba), Altos Verdes (Carira) e o gigante Santa Rosa do Ermírio (Poço Redondo) são o que podemos chamar de "Municípios Morais". Eles possuem comércio pujante, feiras que ditam o ritmo da região e uma identidade cultural que não se curva à capitalidade da sede. 

Nesses locais, o distanciamento cultural é evidente. Existe uma "rivalidade saudável", mas também um sentimento de orfandade política. O morador de Santa Rosa do Ermírio, por exemplo, muitas vezes sente que o seu suor sustenta uma sede que lhe parece distante. Para esses cidadãos, o povoado não é um apêndice; é o centro do seu universo. Eles vivem em "cidades de fato", embora o mapa insista em chamá-las de "povoados".

A Arte como Única Saída

Como resolver esse labirinto? A burocracia não será a resposta. Onde a lei falha em dar identidade, a arte triunfa. É no toque do pífano, nos versos do cordel e na prosa literária que a história real se preserva. Enquanto os editais oficiais patinam em datas imprecisas, o escritor e o artista resgatam o sentimento de pertencimento.

Precisamos parar de comemorar apenas a "formatura" das nossas cidades e passar a celebrar o seu "nascimento". Reconhecer que a Vila de ontem é a força do Município de hoje é um ato de dignidade histórica. Afinal, um povo que não sabe quando nasceu terá sempre dificuldade em decidir para onde quer caminhar.

Tiradentes: O Homem que a Elite Entregou e a República Inventou

A história oficial brasileira, muitas vezes, prefere o conforto do mito à complexidade da realidade. Tiradentes é o exemplo máximo de como o Estado pode "sequestrar" uma biografia para validar um regime — no caso, a transição da Monarquia para a República.

O Alferes Descartável: Tiradentes entre o Martírio Real e o Marketing Republicano




Todo dia 21 de abril, o Brasil cumpre o ritual de homenagear um homem que, se caminhasse entre nós hoje, provavelmente não reconheceria o próprio rosto nos monumentos das praças. Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, não era o "Cristo de Minas". Ele era um militar de baixo escalão, um homem de posses modestas e, acima de tudo, a prova viva de que a justiça costuma ter um lado muito bem definido na luta de classes.

A Elite Conspira, o Pobre Executa

A Inconfidência Mineira é frequentemente vendida como um grito romântico de liberdade. Na realidade, foi um levante de devedores. A elite intelectual e econômica de Minas Gerais — magistrados, coronéis e padres — estava asfixiada pelas dívidas com a Coroa Portuguesa e pela ameaça da "Derrama".

Tiradentes era o elo mais fraco dessa corrente. Enquanto seus companheiros discutiam ideais iluministas em jantares regados a vinho, o Alferes era o "garoto de recados", o homem que ia às ruas e falava demais. Quando a traição de Joaquim Silvério dos Reis desmoronou o castelo de cartas, a corda, previsivelmente, esticou para o lado mais fino.

O Foco era Minas: O movimento foi uma reação direta à Derrama e ao controle fiscal sufocante sobre a extração de ouro. O objetivo era a criação de uma República em Minas Gerais, com capital em São João del-Rei, ou seja, em 1789, a ideia de "Brasil" como nação unificada era inexistente para os conjurados.

O Réu Solitário

O processo judicial que se seguiu à prisão dos inconfidentes foi uma aula de sobrevivência da elite. A maioria dos envolvidos negou o movimento ou usou sua influência para converter a pena de morte em degredo para a África. Tiradentes, no entanto, assumiu a culpa. Foi o bode expiatório perfeito: sem conexões políticas poderosas e sem fortuna para subornar o destino, ele serviu como o exemplo gráfico necessário para que a Coroa Portuguesa reafirmasse sua autoridade sem precisar dizimar a classe alta mineira.

Outros historiadores, porém, o pintam como de cabelos negros, ou seja, sua figura foi inventada, manipulada e reinventada várias vezes. 

A Fabricação de um Santo Laico


O Alferes Tiradentes

A imagem que consumimos hoje — de cabelos longos e barba — é uma construção puramente estética do final do século XIX. Como militar, Tiradentes era obrigado a manter o rosto barbeado e o cabelo curto. O "look" messiânico foi uma estratégia de marketing da República em 1889.

Pesquisas baseadas no livro "A Imagem de Tiradentes", de José Wasth Rodrigues, sugerem que ele era alto, magro, de tez clara, cabelos loiros e olhos azuis, diferente da pele morena muitas vezes retratada.

O novo regime precisava de um herói que unificasse o povo. Como a maioria da população era católica e analfabeta, a solução foi visual: aproximar a estética de Tiradentes à de Jesus Cristo. Ao transformar um rebelde político em um mártir religioso, a República esvaziou o conteúdo subversivo de sua luta e o transformou em um objeto de veneração passiva.

A Lealdade tem Preço?

O questionamento que fica, séculos depois, não é sobre a coragem de Joaquim José, mas sobre a mecânica da traição brasileira. Silvério dos Reis não traiu por maldade pura; traiu por perdão de dívidas. No Brasil de ontem e de hoje, a conveniência financeira ainda costuma atropelar a lealdade ideológica.

Celebrar o 21 de abril sem questionar por que os outros inconfidentes foram poupados é manter viva a estratégia de marketing que nos impede de ver a realidade: na história do poder, o herói é quase sempre aquele que não teve dinheiro suficiente para escapar da sentença.

Por que ele foi o escolhido?


Tiradentes foi, ao mesmo tempo, uma vítima do sistema penal de sua época e um sucesso de vendas do sistema político posterior. Conhecer o homem por trás da barba de gesso não diminui sua importância, mas nos ajuda a entender como o Brasil lida com seus conflitos: sacrificando os pequenos para manter intactos os privilégios dos grandes.

Apenas dois meses após o golpe republicano, o Decreto nº 155-B cria o feriado. A nova República precisava de um rosto que não fosse o do Imperador e de uma história que falasse em "liberdade", mesmo que fosse uma liberdade seletiva.

Em pleno regime militar, a Lei nº 4.897 oficializa Tiradentes como Patrono Cívico. Aqui, a imagem do militar "fiel à causa até a morte" interessava ao governo de Castello Branco para reforçar o patriotismo e o sacrifício pessoal em nome da nação.


Outra versão da figura de Tiradentes.

Nota: imagens meramente ilustrativas, criadas por inteligência artificial.

sexta-feira, 17 de abril de 2026

O Mapa que a Bahia Inventou e a Alma de Sergipe Desmentiu

O Gigante de Papel: Quando o Mapa Esquece a Alma de Sergipe del Rey



Sergipe é o menor estado da federação. Tem suas raízes no ciclo da cana-de-açucar no Vale do Cotinguiba, mas, foi às margens do Rio Sergipe que nasceu Aracaju, a capital. Não era pra Sergipe ser usada como medida de extensão territorial: "uma área mais ou menos do tamanho do Estado de Sergipe". 

O Brasil é um país desenhado por canetadas que, muitas vezes, ignoraram o chão. Em nenhum lugar isso é tão evidente quanto na fronteira entre o norte da Bahia e o estado de Sergipe. Ao olharmos para o mapa atual, vemos Sergipe como o "menor estado da federação" — um título que carrega uma injustiça histórica e geográfica. O que o IBGE chama de Bahia, a cultura, a economia e o sotaque chamam, há séculos, de Sergipe del Rey.

A recente Lei Complementar n° 230/2026, embora focada em ajustes municipais, joga luz sobre uma ferida antiga: a identidade da população como critério de soberania. Se a voz do povo fosse o compasso do cartógrafo, o "Grande Sergipe" não seria uma utopia histórica, mas uma potência regional de 50 mil quilômetros quadrados.

A Bahia de Certidão, o Sergipe de Devoção



Cidades como Paripiranga, Adustina e Rio Real vivem em um estado de "esquizofrenia geográfica". No papel, respondem a uma Salvador distante, encastelada a centenas de quilômetros. Na vida real, seus cordões umbilicais estão enterrados em solo sergipano.

Paripiranga e Adustina: São extensões naturais de Simão Dias e Tobias Barreto. O comércio dessas cidades não "sobe" para a Bahia; ele "desce" para Sergipe. O sotaque não carrega o gingado soteropolitano, mas a cadência firme do "sertanejo de Itabaiana". É uma simbiose onde a fronteira é apenas uma placa de metal enferrujada na rodovia.

Jeremoabo: A "Joia da Coroa" perdida. Historicamente, Jeremoabo era o sentinela de Sergipe del Rei, o ponto de controle que garantia à capitania o acesso ao gado e ao sertão profundo. Sua anexação definitiva à Bahia foi um golpe de mestre da elite política baiana, que amputou de Sergipe sua profundidade estratégica.

Coronel João Sá: Na disputa entre Sergipe e Bahia pela região, o povoamento acabou sendo incorporado à comarca da região baiana de Jeremoabo, sendo emancipado em 1962.

Pedro Alexandre: Essa área era considerada um bairro rural do município de Porto da Folha. 

O Litoral Sul (Rio Real e Jandaíra): Ali, o Rio Real deveria ser um elo, mas foi transformado em muro. Cidades que hoje são baianas orbitam o polo industrial de Estância e as praias de Aracaju. O sentimento de pertencimento ali é costeiro, é sergipano, é do "país do forró".

Sergipe Del Rey na Ficção



Jorge Amado foi, talvez, o maior "diplomata cultural" desse Grande Sergipe. Em Tieta do Agreste, ele não apenas plantou essa ideia; ele a utilizou como o alicerce geográfico e emocional de uma das suas obras mais poderosas. Apesar da Globo, na telenovela Tieta, ter impregado o cenário com a cultura sergipana, deu mais visibilidade ao "lado baiano". 

Mas, o escritor foi incisivo. Ao situar Santana do Agreste exatamente nessa zona de fronteira, Jorge Amado capturou a essência do que aqui defendemos: a fluidez da identidade que ignora marcos de pedra.

Na obra, a mítica Santana do Agreste é o retrato fiel dessa "esquizofrenia geográfica":

  • O Lado Sergipano: A sede do município, a vida política e urbana da cidade orbitam a influência de Estância e Aracaju. O avô de Jorge Amado ser estanciano não é um detalhe menor; é o que dá ao autor a propriedade para descrever o sotaque e o costume daquela região com precisão.

  • O Lado Baiano: Mangue Seco aparece como o refúgio paradisíaco, mas vinculado administrativamente à Bahia. Na vida real, Mangue Seco é em Jandaíra (BA), mas o acesso mais fácil e a relação comercial histórica sempre foram por Indiaroba (SE) e pelo Rio Real.

A citação constante a Estância na obra de Jorge Amado serve como o centro de gravidade. Para os personagens de Santana, Estância é a referência de civilização, de comércio e de linhagem. Ao fazer isso, Jorge Amado "sergipaniza" o Agreste baiano. Ele mostra que, para o povo da região, a divisa estadual é uma abstração; a realidade é a estrada que leva ao mercado e à família.

Na novela e no livro, quando se fala em progresso ou em "ir para a capital", a referência é quase sempre Aracaju. Salvador aparece como um destino mítico, de onde Tieta vem, mas o cotidiano da região é nutrido pelo eixo sergipano. Jorge Amado soube ler que o Nordeste Baiano é, economicamente, um satélite de Sergipe.

A própria Tieta é a síntese: ela nasce no agreste (que flerta com Sergipe), faz fortuna na capital baiana e retorna para transformar sua terra natal. Ela traz a modernidade (a luz elétrica) para um lugar que a burocracia estatal esqueceu. Esse "esquecimento" de Salvador em relação ao norte baiano é o que permitiu que a cultura sergipana ocupasse esse espaço organicamente.

Jorge Amado não criou o "Grande Sergipe", ele apenas o denunciou. Ele deu nome, sotaque e cheiro a uma região que a política tentou dividir, mas que a vida insistiu em manter unida. Ao citar Esplanada, Estância e Aracaju no mesmo fôlego, ele validou a tese de que Sergipe del Rei ainda pulsa naquela faixa de terra.

A Inércia da Política e a Força da História

A história de Sergipe é a história de um gigante que foi encolhido. A anexação à Bahia em 1763 e a luta pela emancipação em 1820 deixaram cicatrizes. A Bahia, com seu peso político imperial e republicano, sempre soube manobrar para manter sob seu domínio as áreas mais produtivas do entorno sergipano. O esforço do Padre João de Matos, em 1904, ao tentar retomar Paripiranga munido de mapas e razão, foi vencido não pela lógica, mas pelo "coronelismo" e pela força bruta do estado vizinho.

Criticar essa divisão não é um exercício de separatismo, mas de realismo administrativo. O Sergipe atual é eficiente, compacto e ágil. Incorporar essas cidades "sergipanas de alma" traria para essas populações uma assistência que Salvador, em sua imensidão, muitas vezes não consegue prover.

Conclusão: O Mapa que a Alma Desenha

O "Grande Sergipe" sobrevive nas feiras livres de Carira, nos hospitais de Lagarto e nas faculdades de Aracaju, onde os "baianos" de Pedro Alexandre ou Coronel João Sá são apenas sergipanos que moram um pouco mais longe. 

Sergipe é, historicamente, um "estado-nação cultural" que foi encolhido pela geopolítica da colônia e do império. A emancipação de 1820 foi uma vitória jurídica, mas a consolidação de 1824 foi uma vitória de resistência, ainda que incompleta.

O mapa atual de Sergipe, embora seja o menor do Brasil, é o resultado de uma luta heroica por autonomia, mas carrega o peso de uma amputação histórica que deixou dezenas de municípios e milhares de pessoas como "baianos de certidão, mas sergipanos de alma". Somente a 24 de outubro de 1824 é que a Bahia retirou a sujeição em que mantinha a capitania de Sergipe. Essa é a data da "conquista de fato". O intervalo de mais de quatro anos reflete a "rebeldia e tardia ao acatamento" da Bahia. 

A elite soteropolitana não aceitou perder sua comarca mais produtiva e próspera sem luta, retardando ao máximo a entrega da autonomia e, mais importante, o controle sobre as terras e populações que se estende do atual rio Real ao Itapoan e toda região Jacobina, formada por municípios baianos que por direito de limites deveria pertencer à Sergipe, entre esses municípios estão: Jandaíra, Itapicuru, Rio Real, Paulo Afonso (em parte), Santa Brígida, Pedro Alexandre, Jeremoabo (em parte), Coronel João Sá, Antas, Cícero Dantas, Paripiranga, Ribeira do Pombal, Adustina e Ribeira do Amparo.

Enquanto a legislação se prende a normas gerais de desmembramento, a identidade ignora a lei. Sergipe pode ser o menor no mapa, mas é vasto na alma de cada cidadão que, ao cruzar o Rio Real ou o Rio Vaza-Barris, sente que finalmente chegou em casa. O Sergipe del Rei nunca morreu; ele apenas espera que o direito, um dia, alcance a realidade.

Nota: imagens meramente ilustrativas, criadas por inteligência artificial.

O Sopro que Atravessa o Tempo: 16 Anos da Noite Histórica na Várzea Verde

16 Anos de uma Noite Histórica: A Celebração do Encontro entre a Tradição dos Pífanos da Família Hora e a Alma da Sanfona no Coração da Várzea Verde




Há exatos 16 anos, em 17 de abril de 2010, o Clube Social do Povoado Várzea Verde não foi apenas o palco de uma apresentação musical; ele se tornou o epicentro de um registro antropológico e afetivo para o estado de Sergipe. Naquela noite, a centenária Banda de Pífanos de Geração em Geração uniu-se aos sanfoneiros Tuca e Natanael para uma gravação que imortalizaria o encontro entre o sopro ancestral do pífano e o fole da sanfona.

E foi assim, Jailson já tinha programado sua entrada no Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Ele era um homem muito preocupado com a estabilidade da família e a renda local não garantiu o seu sucesso como comerciante, apesar de ter o status de empreendedor da região. Então, na época, tinha uma acampamento na beira da Rodovia Mário Covas para angariar a Fazenda Topo, foi lá que ele levantou acampamento. 

Passou o dia no acampamento, retornando à noite para o evento, somando assim duas noites sem dormir. 

O registro no Clube Social da Várzea Verde, há exatos 16 anos, permanece como um dos marcos dessa "resistência sonora" que Jailson do Pífano tão bem representou. É um legado que transforma o sopro em história viva.

O Elenco de Mestres


O palco estava guarnecido pela elite da tradição da Família Hora. Sob a liderança e o talento de Jailson do Pífano (Jailson da Hora Santos), as notas ecoaram pelas mãos de Vasso, Loló, Ivanildo, Gilbertinho e Aguinaldo Pereira. A presença de Peta, morador local, reforçou o caráter comunitário daquele momento: a música não era um espetáculo externo, mas uma manifestação que emergia da própria terra.

Jailson do Pífano: A Alma do Legado


Recordar os 16 anos desse evento é, inevitavelmente, honrar a memória de Jailson do Pífano, que nos deixou em setembro de 2023. Jailson foi a personificação do homem sertanejo polivalente.

O Mestre: Herdeiro direto da tradição de seu avô, o Velho Dóia, ele transformou o antigo "Terno da Zabumba" em uma força cultural reconhecida.

O Comerciante e Líder: Sua atuação na Várzea Verde foi além da música. Jailson impulsionou a economia local, fixando as pessoas no povoado ao garantir que tivessem onde prover seu sustento. Ele deu às pessoas um motivo para "viver no povoado", criando um senso de autonomia local que é raro em pequenas localidades dependentes das sedes municipais.

O Homem Político: Candidato a vereador por duas vezes, sua proposta de um "Centro de Atendimento ao Cidadão" refletia sua visão de que a política deveria ser um serviço de proximidade, longe das promessas vazias.

Uma Tradição que Resiste


A Banda de Pífanos de Geração em Geração é um pilar da identidade de Japaratuba. Desde as apresentações nas Festas de Santos Reis nos anos 80 até a ocupação constante no Festival de Artes Arthur Bispo do Rosário, o grupo provou que a cultura popular não é estática. Ela sobrevive nas novenas da Quaresma, no Mês de Maio e no dia de Santo Antônio, alimentada pela fé e pelo pagamento de promessas.

Essa data de 17 de abril de 2010 não é apenas um registro cronológico, mas um verdadeiro "quilombo cultural" registrado em som e memória no Povoado Várzea Verde. O encontro entre a Banda de Pífanos de Geração em Geração e os sanfoneiros Tuca e Natanael simboliza a união das duas maiores forças do folclore nordestino: o sopro ancestral do pífano e o fole da sanfona.

A escalação daquela noite foi uma reunião de mestres. Ter Jailson do Pífano, Vasso, Loló, Ivanildo, Gilbertinho e Aguinaldo Pereira juntos, com a participação local de Peta, reafirma o nome da banda: a transmissão do saber que não se aprende em livros, mas na prática, no "pé do ouvido".

Histórico da Banda de Pífanos


Surgiu como principal animação das novenas e festas tradicionais da região de Japaratuba. Existente a mais de 100 anos foi iniciada pela família Hora, no Povoado Encruzilhadas, com o chamado Terno da Zabumba, antigo nome dado ao conjunto por causa do acompanhamento com instrumentos rústicos como o zabumba (tambor rústico), a caixa e o pífano (flauta transversal rústica). A banda era composta por no mínimo três pessoas.

As principais e mais famosas novenas são as realizadas durante a Quaresma culminando na de Sexta-Feira da Paixão e a de Santo Antônio em Junho. Todas realizadas na residência do Velho Dóia, antes no Sítio Varginha e hoje na casa de seu Aguinaldo, genro do velho (esposo de D. Caçula, filha de seu Dóia).

É fascinante notar que a origem da banda está ligada ao ciclo mariano (Mês de Maio) e ao ciclo junino (Santo Antônio). Essa dinâmica de tocar em novenas por pagamento de promessa mostra que a música, para a Família Hora, nunca foi apenas entretenimento, mas um ofício sagrado e um pilar de identidade comunitária. A Banda de Pífanos de Geração em Geração surgiu como uma tradição da Família Hora, de Encruzilhadas. Festejavam todo o Mês de Maio, culminando no dia 13 de junho. Sua fundação não tem data exata, porém, para fins de registro calcula-se como consolidada no final do século XIX. 

E também animavam as novenas de padroeiros de cada família. Geralmente, pagamento de promessa.

O Significado de 17 de Abril





A data de 17 de abril de 2010 permanece como um marco de transição. Foi o momento em que a tradição oral e a prática cotidiana das Encruzilhadas se transformaram em documento histórico. Hoje, ao olharmos para trás, vemos que aquela gravação foi um ato de preservação.

Jailson do Pífano partiu, mas o sopro de sua flauta rústica continua a guiar as novas gerações, como Ivanildo Souza (o Poeta Afamado) e Franklin. A métrica dos sentimentos, cultivada por Jailson ao longo de sua vida entre o comércio, a roça e o pífano, permanece viva.

17 de abril de 2010: a data em que o pífano parou o tempo para se tornar eterno.


Em memória de Jailson da Hora Santos (1956–2023).


Nota: As imagens são meramente ilustrativas, criadas por inteligência artificial.