sábado, 16 de maio de 2026

O "Caso Master" e a Estética do Autoengano na Direita Brasileira

Como as ligações do clã Bolsonaro com o escândalo bilionário do Banco Master testam os limites da racionalidade afetiva e revelam o pacto de autoengano no eleitorado antipetista.




Por Flávio Hora


O cenário político de Brasília acaba de ganhar um novo carregamento de material radioativo. As recentes revelações da Operação Compliance Zero da Polícia Federal e os áudios expostos envolvendo o senador Flávio Bolsonaro (PL) e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro jogaram um balde de água fria — ou melhor, de realidade — nas pretensões presidenciais do "filho 01".

O caso, que envolve um colapso financeiro estimado em mais de R$ 50 bilhões no Banco Master, atingiu o clã Bolsonaro no seu ponto mais sensível: a narrativa da pureza antissistema. No entanto, o desdobramento mais fascinante dessa crise não está nos bastidores dos tribunais, mas na reação das redes e na psicologia do eleitorado que sustenta a extrema direita.

O Roteiro de R$ 134 Milhões e o "Produtor" Informal

O drama eleitoral ganhou contornos cinematográficos — literalmente. Mensagens e áudios revelaram Flávio Bolsonaro atuando como uma espécie de produtor cultural de bastidores, cobrando de Vorcaro parcelas em atraso para o financiamento de Dark Horse ("Azarão"), um filme biográfico sobre Jair Bolsonaro estrelado pelo ator americano Jim Caviezel.

Dos R$ 134 milhões acordados, cerca de R$ 61 milhões foram repassados através de um fundo no Texas, estado onde reside Eduardo Bolsonaro, antes que o Banco Central liquidasse a instituição financeira. A defesa de Flávio correu para apagar o incêndio, alegando que o dinheiro era privado, que não houve uso da Lei Rouanet e que, na época, Vorcaro era um empresário sem suspeitas. Mas o estrago estético já estava feito.

O homem que se apresentava como o herdeiro do combate ao "establishment corrupto" foi pego operando no mais tradicional pragmatismo de compadrio.

A Ilusão Conveniente: "Diga que esse amor é pra valer"

Aí reside a grande chave para entender a política de massas no Brasil atual. Para uma parcela expressiva do eleitorado de direita, o discurso anticorrupção nunca foi uma convicção moral ou de caráter; foi um expediente retórico, uma ferramenta de demarcação de território.

Lembrando o clássico bolero Me Engana Que Eu Gosto, o eleitor do "mito", diante do escândalo, parece cantar baixinho: "diga, mesmo mentindo diga, aquilo que preciso ouvir". Existe uma cumplicidade no autoengano. O eleitor aceita a ficção da pureza da família porque a alternativa — admitir que o seu campo político usa as mesmas engrenagens que o adversário — geraria uma dissonância cognitiva insuportável. O importante, no fim do dia, não é a ética; é a garantia de um escudo barulhento contra o PT e contra Lula.

A corrupção, na mitologia da extrema direita, foi convencionada como uma exclusividade da esquerda. Quando ela aparece em casa, é relativizada como "fogo cruzado" ou "perseguição do sistema".

A Brecha para a Fragmentação

Ainda assim, a política é pragmática e o ecossistema da direita não é homogêneo. Embora o antipetismo e o antilulismo sejam cimentos eleitorais altamente resilientes, o "Caso Master" abriu uma linha de fratura no pilar do bolsonarismo puro.

O "fogo amigo" já começou. Nomes como Romeu Zema (Novo) e Ronaldo Caiado (PSD) — que representam uma direita mais focada em gestão e com discurso de eficiência — não perderam tempo. Zema classificou a postura de Flávio como "imperdoável" e "um tapa na cara dos brasileiros". Essas lideranças perceberam a brecha: tentar capturar o eleitor conservador que ainda guarda algum apego real à pauta moralista, oferecendo uma alternativa "limpa", mas igualmente anti-PT.

O Pragmatismo do Ódio Político

O desfecho do "Caso Master" testará os limites dessa racionalidade afetiva que move o eleitorado brasileiro. Flávio Bolsonaro tenta desesperadamente socializar a culpa, pedindo uma CPI ampla para provar que Daniel Vorcaro também tinha tentáculos no atual governo Lula. Se todos forem considerados culpados, a corrupção deixa de ser um fator de diferenciação, e o jogo volta ao terreno confortável do ódio político puro.

A verdade nua e crua é que o eleitorado radicalizado não busca um administrador de planilhas polido e institucional; busca um guerreiro cultural. Resta saber se o clã Bolsonaro conseguirá manter o monopólio dessa guerra ou se o peso radioativo dos bastidores financeiros finalmente fará a carcaça do "mito" rachar. No teatro político nacional, a plateia continua aplaudindo a peça, mesmo sabendo que o cenário é de papelão.

O Pecado Original da República e a História que nos Foi Roubada

Como a elite escravocrata derrubou o Império para se vingar da Lei Áurea e fundou uma República de costas para o povo. O golpe de 1889 e a abolição incompleta: as consequências do isolamento político da Coroa e a fundação de um regime sem base popular.



A história oficial do Brasil costuma pintar o 15 de novembro de 1889 com as cores da inevitabilidade e do progresso. Vende-se a ideia de que a República era o passo natural para uma nação que desejava modernidade. No entanto, um olhar despido de romantismo sobre os fatos revela uma realidade incômoda: o novo regime não nasceu do clamor das ruas, mas sim de um arranjo de cúpula motivado por um revanchismo econômico. A República brasileira nasceu de um golpe oligárquico; foi a vingança dos escravocratas.

Dizem que a Inconfidência Mineira é precussora da República, porém, sabemos que se tratou de um revolta de devedores de impostos à Coroa e não um movimento popular. Para que se diz democrata, o movimento legítimo vem do povo e não de uma minoria, uma elite preocupada com seus interesses particulares. Da mesma forma, o golpe da República, o poder não emanou do povo. 

O historiador Aristides Lobo imortalizou o cenário daquela manhã ao relatar que o povo assistiu a tudo “bestializado”, julgando ver apenas mais uma parada militar. Não havia celebração popular porque o povo não participou da decisão. A primeira constituição republicana até previa que o novo modelo seria provisório até que a população fosse consultada, mas esse plebiscito foi engavetado por mais de um século, ocorrendo apenas em 1993, quando as massas já haviam esquecido o que significava viver sob a égide do Império.

Para compreender a queda da Monarquia, é preciso entender a contradição que sustentava o Segundo Reinado. Sob o comando de D. Pedro II, o Brasil desfrutou de uma estabilidade política invejável em uma América Latina fragmentada e ditatorial. O mil-réis era uma moeda forte, o orçamento era gerido com austeridade e o país estava na vanguarda tecnológica — fomos pioneiros no telefone, no telégrafo e na expansão ferroviária. Contudo, essa vitrine civilizada escondia a maior das nossas mazelas: a leniência com o latifúndio e a demora em encerrar a escravidão.

Quando a Princesa Isabel assinou a Lei Áurea em maio de 1888, ela cometeu um ato de coragem moral e justiça tardia, ciente do custo político. Ao não conceder indenização aos antigos donos de escravos, a Coroa assinou sua própria sentença de morte. Os grandes fazendeiros de café, outrora a base de sustentação do Trono, viraram republicanos de conveniência — os "Republicanos de Última Hora". A República foi o mecanismo que essa elite encontrou para punir a Família Imperial e retomar as rédeas do Estado.

O grande erro do Império em seus momentos finais não foi a abolição, mas a falta de um braço forte e de reformas estruturais que a acompanhassem. O plano de "Democracia Rural" proposto por engenheiros e intelectuais abolicionistas como André Rebouças — que previa o imposto sobre latifúndios improdutivos para assentar e dar autonomia econômica aos novos cidadãos negros — foi bloqueado pelo Parlamento oligárquico. Faltou à Coroa ir além da libertação jurídica e promover a inclusão social real, através da reforma agrária e do ensino técnico especializado para as massas.

Mais do que isso, faltou força militar para defender a justiça social. D. Pedro II, já idoso e doente, entregou-se a um pacifismo filosófico e legalista que isolou o regime. Se a regência estivesse consolidada nas mãos de uma Princesa Isabel mais jovem e convicta, apoiada por intelectuais progressistas e por movimentos populares armados, como a Guarda Negra — milícia de libertos disposta a defender o Trono contra o racismo das elites —, o desfecho teria sido outro. Um Império que chamasse o povo negro para a defesa do Estado teria transformado esses homens e mulheres em cidadãos por direito de sangue e coragem, quebrando a espinha dorsal do coronelismo antes mesmo que ele nascesse.

A República que se instalou em 1889 preservou a estrutura de exclusão. Substituiu-se o Poder Moderador neutro pelo voto de cabresto da República Velha. O ex-escravizado e o pobre foram empurrados para a informalidade, para o analfabetismo e para as periferias urbanas.

Analisar o Brasil imperial através de infográficos modernos muitas vezes resulta em uma romantização perigosa, que enxerga a estabilidade econômica mas ignora o abismo da desigualdade social. Contudo, demonizar a Monarquia como um sistema puramente arcaico é um erro igualmente crasso. O parlamentarismo monárquico oferecia um mecanismo de neutralidade política e continuidade que o nosso presidencialismo hiper-polarizado e refém de ciclos eleitorais de quatro anos nunca conseguiu replicar.

No fim, a história do fim do Império nos ensina que quando as grandes transformações sociais são feitas de costas para o povo e para proteger os privilégios de elites egoístas, o resultado é uma democracia frágil e desigual. A República brasileira tem um pecado original: nasceu para proteger o bolso de quem lucrava com a opressão, roubando do Brasil a chance de se fundar como uma verdadeira comunidade de cidadãos integrados.

Existe uma Alternativa Institucional? A restauração ou manutenção da Monarquia no Brasil não significaria um retorno ao passado, mas uma tentativa de solucionar o déficit de estabilidade da República. O sucesso desse modelo dependeria da capacidade do monarca de ser um símbolo de união e da eficiência do Parlamento em governar.

O Brasil monárquico seria, possivelmente, um país menos focado na figura messiânica de um "Presidente" e mais concentrado na força de suas instituições legislativas e no equilíbrio de longo prazo.

D. Pedro II conseguiu criar um Estado forte e respeitado, mas não conseguiu (ou não pôde, devido à pressão dos cafeicultores) realizar uma reforma social profunda que integrasse o ex-escravizado e o pobre à cidadania plena. O Império caiu justamente quando a elite agrária se sentiu traída pela abolição sem indenização.

Para os defensores da Monarquia, é certo apontar que o modelo monárquico parlamentarista deu ao Brasil uma maturidade institucional, uma liderança ética e uma visão de longo prazo que a República Federativa raras vezes conseguiu entregar.

Porém, ela romantiza o Império ao focar apenas no topo da pirâmide (ciência, diplomacia, ferrovias) e silenciar sobre a base (a exclusão social, o analfabetismo e o peso do latifúndio escravocrata). Estudar história, exige enxergar os acertos da Coroa sem fechar os olhos para as suas profundas omissões sociais.

Invisíveis que Movem a Cidade: O Dia do Gari e a Verdadeira Limpeza Pública

Da origem histórica do termo à realidade das ruas: por que a valorização da limpeza urbana é o verdadeiro termômetro de uma administração pública eficiente e humana.



Por: Flávio Hora


Eles vestem o laranja ou o verde que deveria saltar aos olhos de todos, mas, paradoxalmente, caminham pela cidade sob o manto da invisibilidade social. Hoje, 16 de maio, celebra-se o Dia do Gari, uma data instituída oficialmente no Brasil em 1962, mas cuja história começou muito antes, ainda no Império.

Poucos sabem, mas o termo "gari" é uma homenagem ao empresário francês Pedro Aleixo Gary, que em 1876 assinou o primeiro contrato de limpeza urbana no Rio de Janeiro. O sobrenome do pioneiro atravessou os séculos e virou sinônimo de uma das profissões mais vitais para a civilidade, a saúde pública e a dignidade de qualquer município.

A Gestão Pública e o Respeito aos Trabalhadores

Como defensor da transparência e da boa administração, é preciso pontuar: medir a qualidade de uma gestão municipal passa invariavelmente pela forma como ela trata os seus garis. Uma cidade limpa não é apenas um cartão-postal para inglês ver; é o reflexo de trabalhadores que recebem seus salários em dia, que dispõem de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) adequados e que possuem condições dignas para exercer o ofício sob o sol forte do nosso Nordeste.

A contabilidade social nos ensina que o orçamento público deve servir às pessoas. Investir na estrutura da limpeza urbana e na valorização desses profissionais é o básico de uma administração que se diz séria e caridosa.

O Olhar Humano sobre a Calçada

Para além dos números e dos contratos públicos, o gari é o cronista silencioso das nossas ruas. Ele limpa a sujeira que a sociedade insiste em esconder. Ele conhece o ritmo da madrugada, o despertar das casas e o rastro de desperdício que deixamos para trás.

Quantas vezes passamos por esses trabalhadores sem um "bom dia", sem um aceno ou sem o cuidado elementar de embalar corretamente um vidro quebrado para não ferir as mãos de quem cuida do nosso chão? Ser civilizado, como tanto discutimos esta semana, começa no respeito absoluto por quem garante o bem-estar coletivo.

Conclusão

Neste sábado, ao vermos as equipes de limpeza cruzando as ruas de Japaratuba e de tantas outras cidades de Sergipe, que o nosso olhar mude. Que o sobrenome de Gary, que virou profissão, seja sinônimo de orgulho.

Parabéns a todos os garis. Que a nossa gratidão não seja apenas um texto de calendário, mas se converta em respeito diário, cidadania e cobrança por condições sempre melhores de trabalho. Afinal, a cidade mais limpa não é a que mais se varre, mas a que menos se suja — e a que mais respeita quem trabalha.

sexta-feira, 15 de maio de 2026

O Crepúsculo do Julgamento: A Crítica entre a Ferramenta e o Tabu

Como o medo do julgamento transformou a ferramenta mais vital da evolução intelectual em sinônimo de ataque, e por que precisamos resgatar o sentido original do ato de criticar.



Vivemos em uma era de sensibilidades à flor da pele, onde o ato de "criticar" tornou-se uma espécie de campo minado social. O que antes era a pedra angular do desenvolvimento intelectual humano — o krinein grego, que significa discernir e filtrar — hoje é frequentemente confundido com o ataque gratuito ou o ódio destilado. Existe um preconceito crescente em torno do termo, uma discriminação que marginaliza o pensamento analítico em favor de uma positividade tóxica e superficial.

O problema é que, na comunicação humana, a neutralidade é difícil. Criamos o termo "construtiva" para garantir que o interlocutor entenda que a intenção é a evolução, e não a ofensa. Sem esse rótulo, o cérebro humano tende a ativar o sistema de defesa (luta ou fuga), interpretando qualquer análise negativa como um ataque pessoal.

"A crítica é o único freio que impede a inteligência de se tornar fanática."

No dia a dia, "crítica" costuma ser sinônimo de apontar defeitos. Quando alguém diz "pare de me criticar", geralmente sente que está sendo julgado ou desvalorizado, perdendo-se o sentido original de análise técnica.

Para a filosofia, especialmente após Immanuel Kant, a crítica é o exame racional das bases do conhecimento. Não se trata de atacar uma ideia, mas de entender quais são os seus limites e condições de validade. É o "tribunal da razão".

Na ciência, a crítica é o motor do progresso. Através do método crítico, teorias são testadas e questionadas (falseabilidade). Se uma teoria não aguenta a crítica (testes, evidências contrárias), ela é descartada ou aprimorada. É o que garante que a ciência não se torne um dogma.

A Função Vital: O Filtro da Realidade

A verdadeira função da crítica não é a destruição, mas a curadoria da excelência. Sem a capacidade de separar o joio do trigo, estagnamos. Na ciência, a crítica é o que impede que superstições se tornem dogmas; na arte, é o que distingue a obra atemporal do entretenimento descartável; na política, é o único mecanismo capaz de frear o autoritarismo.

Quando discriminamos a crítica, rotulando-a como algo inerentemente negativo, estamos, na verdade, defendendo a mediocridade. A crítica funciona como um sistema imunológico da cultura: ela identifica o que está doente ou disfuncional para que o corpo social possa se regenerar.

O Preconceito do "Quem é Você para Falar?"

O preconceito moderno contra a crítica manifesta-se no ad hominem preventivo. Antes de se avaliar o argumento crítico, questiona-se a autoridade ou a "vibe" do crítico. Criou-se um estigma de que aquele que critica é um ser amargo, um "hater" ou alguém incapaz de realizar.

Essa visão é um equívoco perigoso. A crítica exige mais esforço intelectual do que o elogio vazio. Para criticar com propriedade, é necessário desconstruir, entender a lógica interna do objeto e confrontá-lo com a realidade. O preconceito contra o termo "crítica" é, no fundo, um medo do espelho; temos medo de que o crítico aponte as falhas que nós mesmos já percebemos, mas preferimos ignorar.

A Armadilha da "Crítica Construtiva"

A ascensão do termo "crítica construtiva" é o maior sintoma dessa discriminação. Precisamos de um adjetivo "doce" para tornar a pílula do julgamento tragável. Embora a intenção de ajudar seja nobre, a exigência de que toda crítica seja imediatamente propositiva cerceia a análise diagnóstica.

Às vezes, a função da crítica é apenas dizer: "isso não funciona". Cabe ao criador, ao político ou ao cientista descobrir o porquê. Exigir que o crítico sempre traga a solução é uma forma de silenciar a observação legítima do erro.

O Calcanhar de Aquiles do Poder: Crítica Política e Censura Intelectual

Se no campo cultural a crítica é o filtro da excelência, no meio político ela é a própria garantia de sobrevivência da liberdade. A política, por natureza, lida com o exercício do poder e a administração da pólis. Por consequência, a crítica política não é um mero exercício de retórica: ela é o freio de mão institucional e social que impede que a autoridade degenere em autoritarismo.

Quando a crítica política é sufocada, o primeiro sintoma é a ascensão da censura intelectual — uma força que opera tanto por vias institucionais (de cima para baixo) quanto por vias sociais (o patrulhamento ideológico).

A Crítica Política como Dever Cívico

Na saúde de uma democracia, a crítica é o oxigênio do debate público. Ela serve para desmistificar a infalibilidade dos governantes e expor as vísceras da gestão pública: a eficiência das decisões, a aplicação dos recursos e a coerência entre o discurso e a prática.

O político que rejeita a crítica opera sob a ilusão do absolutismo. No entanto, o ambiente político moderno distorceu essa dinâmica. Hoje, a crítica legítima à gestão ou à ideologia é frequentemente rebaixada a "discurso de ódio", "perseguição" ou "sabotagem". Ao transformar o crítico em um inimigo público, o governante ou o partido blindam-se contra a prestação de contas (accountability), empobrecendo o debate e infantilizando o eleitorado.

Os Rostos da Censura Intelectual

A censura intelectual contemporânea raramente veste a farda ou assina decretos explícitos de exclusão, como nos regimes ditatoriais clássicos. Ela se modernizou e age de forma mais sutil, porém igualmente devastadora, dividindo-se em duas frentes principais:

* A Censura Institucional/Administrativa: Manifesta-se através do uso da máquina pública para sufocar vozes dissidentes. Seja pelo estrangulamento financeiro de canais de informação independentes, pela hiper-regulação do debate ou pelo uso de aparatos jurídicos para intimidar jornalistas, analistas e cidadãos comuns. É a tentativa do Estado de deter o monopólio da narrativa.

* A Censura Cultural e Social (A Patrulha Ideológica): Talvez a mais perigosa, pois nasce no seio da própria sociedade. É o policiamento do pensamento realizado por bolhas ideológicas, onde a dissidência intelectual é punida com o cancelamento, o ostracismo profissional ou o linchamento virtual. Cria-se um ambiente de autocensura: o intelectual, o jornalista ou o cidadão prefere calar-se a ter que enfrentar a fúria das hordas dogmáticas de determinado espectro político.

Censura por Dependência Econômica: Muitas vezes a pessoa ou parente tem algum cargo ou benefício na gestão pública e precisa calar-se para não perder as benesses do poder. Isso acontece principalmente em cidades pequenas onde a ausência de políticas públicas de geração de emprego e renda é uma estratégia de dominação. 

O Perigo do "Pensamento Único"

O objetivo final de toda censura intelectual é a pasteurização do pensamento. Quando o meio político consegue silenciar a crítica, elimina-se a dialética — o choque entre a tese e a antítese que gera a síntese do progresso.

Sem o contraditório, as políticas públicas tornam-se cegas, os erros administrativos são perpetuados e a sociedade perde a capacidade de enxergar alternativas. A história demonstra, com dolorosa clareza, que onde a crítica política é criminalizada, a inteligência é exilada e o fanatismo assume o controle.

"A liberdade de expressão é, acima de tudo, a liberdade de dizer aquilo que os outros não querem ouvir." — George Orwell

Defender a crítica no meio político, mesmo aquela que nos incomoda ou que contraria nossas convicções pessoais, é o único caminho para garantir que a arena pública continue pertencendo aos cidadãos, e não aos senhores do poder.

Conclusão: Pelo Resgate do Julgamento

Precisamos reabilitar o conceito de crítica. Ela não deve ser vista como um insulto, mas como um elogio à inteligência do outro. Criticar alguém é admitir que essa pessoa ou obra é digna de análise e que pode chegar a um patamar superior.

O verdadeiro preconceito não está na crítica em si, mas na nossa incapacidade de lidar com a verdade nua. Enquanto continuarmos a punir o olhar crítico, estaremos condenados a um progresso lento, mascarado por tapinhas nas costas e uma evolução que nunca chega a sair do lugar. A crítica é, e sempre será, a ferramenta mais poderosa para a construção de um futuro sólido.

Donos do Açúcar: Quem Foi o Barão de Japaratuba?

Tradição Imperial, Linhagem Secular e o Resgate Histórico de um dos Grandes Senhores de Engenho do Século XIX. Até hoje ainda tem pessoas que queriam ter um título nobiliárquico.



O Barão de Japaratuba (1819 – 1879)

A história de Sergipe não pode ser compreendida apenas pelos mapas administrativos, pelas mudanças de governo ou pelos discursos oficiais. Durante mais de dois séculos, o verdadeiro eixo do poder esteve concentrado nos engenhos, nas famílias proprietárias de terra e nas alianças matrimoniais que estruturaram a aristocracia rural do Vale do Cotinguiba.

Foi nesse ambiente que surgiram figuras como Gonçalo Accioli de Faro Rollemberg, símbolo máximo de uma elite agrária que transformou a produção açucareira em domínio político, social e cultural.

Gonçalo Accioli de Faro Rollemberg foi um dos mais poderosos senhores de engenho e líderes políticos de Sergipe durante o Segundo Reinado. Ele representa o ápice da aristocracia açucareira do Vale do Cotinguiba, unindo uma linhagem colonial secular ao prestígio da nobreza imperial brasileira.

A trajetória de Gonçalo Accioli de Faro Rollemberg representa o auge dessa estrutura aristocrática.

Descendente de linhagens ligadas aos primeiros engenhos de Sergipe, Gonçalo herdou não apenas terras, mas uma rede de poder construída desde o período colonial.

Sua ligação familiar com João Gomes de Melo ampliou sua inserção política na província, enquanto o domínio do tradicional Engenho Murta consolidou sua posição econômica.

Quando recebeu o título de Barão de Japaratuba em 1860, o Império não apenas homenageava um proprietário rural. Reconhecia oficialmente uma oligarquia regional cuja força econômica sustentava parte da estrutura imperial no Nordeste.

A nobreza brasileira tinha características distintas da europeia:

não era feudal;

não possuía castelos;

nem títulos hereditários automáticos.

Mas possuía algo igualmente poderoso: o controle da terra, da produção e das relações políticas locais.

1. Ancestralidade e Raízes (Séculos XVII - XVIII)

A força de Gonçalo residia em sua árvore genealógica, que se confunde com a própria ocupação do solo sergipano:

* Linhagem Paterna: Filho de Manuel Rollemberg de Azevedo e neto de Gonçalo Pais de Azevedo. É descendente direto de Manuel Rollemberg, pioneiro que já possuía engenho em Maruim nos anos de 1670, e de outro Manuel Rollemberg, senhor de terras na década de 1760.

* Linhagem Materna: Neto de Antônia Caldas de Moura Accioli, o que o tornava sobrinho do Marechal José Inácio Accioli de Vasconcelos Brandão, figura militar de elite no Império.

* A Conexão com o Barão de Maruim: Após a morte precoce de seu pai, sua mãe casou-se com João Gomes de Melo, o Barão de Maruim. Gonçalo cresceu como enteado da figura política mais influente de Sergipe, o que garantiu sua inserção no epicentro do poder provincial.

2. O Título Nobiliárquico (1860)

Diferente de muitas confusões biográficas, o título de Barão de Japaratuba foi-lhe conferido por decreto imperial em 14 de março de 1860, referendado pelo Ministro João de Almeida Pereira Filho. O título homenageia a região onde sua família exercia domínio absoluto, baseada no tradicional Engenho Murta (antigo "Flor da Murta"), cujas terras remontavam à expulsão dos índios da missão de Japaratuba em 1695.

3. Esclarecendo os Homônimos (O Avô vs. O Neto)

Para a precisão historiográfica, é necessário desfazer a fusão comum entre duas gerações:

* O Barão (O Avô): Gonçalo Accioli de Faro Rollemberg (1819–1879). Homem do Império, senhor de escravizados e de engenho, cuja força era a terra e a produção açucareira.

* O Senador (O Neto): Gonçalo de Faro Rollemberg (1860–1927). Médico e político republicano. Nasceu no ano em que o avô recebeu o título, o que gera o erro comum de datas. Enquanto o avô foi Barão no Império, o neto foi Senador na República.

4. Família e Sucessão

O Barão foi casado com Bernardina do Prado e, posteriormente, com Maria Leite Sampaio. Seus descendentes formaram a espinha dorsal da política sergipana:

* Maria de Faro Rollemberg (Dona Maria do Topo): Sua filha e senhora do Engenho do Topo. Foi através do casamento dela com o primo Manuel Rollemberg de Menezes que nasceu o futuro Senador.

* José de Faro Rollemberg: Seu filho, que também atuou na vida pública.

 5. Morte e Legado

O Barão de Japaratuba faleceu em 6 de outubro de 1879. Deixou um legado de domínio agrário que permitiu à sua família transitar da monarquia para a república sem perder o controle político do Vale do Cotinguiba. Seu nome permanece ligado à história de Japaratuba e Laranjeiras como o símbolo máximo de uma era em que os engenhos eram as unidades de medida do poder em Sergipe.

Família: Entre o Pilar da Existência e o Palanque das Falácias

O resgate do caráter sobre o rótulo: por que o compromisso familiar e a caridade não possuem filiação partidária.




Por: Flávio Hora


Falar de família no Brasil atual tornou-se um exercício perigoso de semântica. O termo foi capturado por correntes políticas, transformado em slogan de campanha e usado como escudo para esconder contradições profundas. No entanto, para além do barulho das redes sociais, a família permanece como a unidade básica de qualquer civilização séria — e sua força não reside na ideologia, mas na verdade de suas relações.

Os Pilares da Verdadeira Família

Uma família não se sustenta por um certificado ou por uma foto bem ensaiada aos domingos. Ela se ergue sobre três pilares fundamentais: Compromisso, Sacrifício e Verdade.

* Compromisso: A disposição de permanecer quando o cenário é adverso.

* Sacrifício: A capacidade de anular o ego individual em prol do bem comum do grupo.

* Verdade: A transparência total entre seus membros, sem a qual a confiança apodrece.

Casa vs. Lar: A Distância entre o Tijolo e o Afeto

É comum confundirmos as duas coisas. A casa é uma construção técnica, feita de alvenaria e governada por contratos de aluguel ou escrituras; é o espaço físico da sobrevivência. O lar, por outro lado, é uma construção espiritual. Uma casa pode estar cheia de gente e, ainda assim, ser um deserto de lares. O lar nasce onde existe a transmissão de valores, onde o silêncio é confortável e onde as raízes — as nossas "originalidades" — são preservadas.

A Falácia do "Modelo Político" de Família

No cenário brasileiro recente, a ala conservadora frequentemente aponta figuras como o ex-presidente Jair Bolsonaro como o "baluarte da família". No entanto, uma análise crítica revela uma lacuna imensa entre o discurso e a prática. Como sustentar um exemplo de "família cristã" quando a trajetória é marcada por rompimentos sucessivos e uma linguagem que, muitas vezes, flerta com a violência e a exclusão?

Os princípios cristãos que muitos dizem seguir são claros: mansidão, caridade, fidelidade e o amor ao próximo como a si mesmo. O conservadorismo, em sua essência filosófica (como em Edmund Burke), preza pela preservação das instituições através da prudência e do exemplo moral. Quando a política substitui o exemplo pelo grito, a ética cristã é sacrificada no altar do populismo. Não se é conservador apenas por gritar palavras de ordem; é-se conservador por manter a integridade dos pilares que sustentam a comunidade.

Precisa ser conservador para ter uma família séria?

A resposta curta é: não. A seriedade, a caridade e a ausência de vícios não são monopólios de uma vertente política. Uma família ateia pode ser profundamente caridosa e estruturada, enquanto uma família que se diz "cristã e conservadora" pode estar corroída por vícios morais e autoritarismo doméstico.

A virtude é um exercício individual que se expande para o coletivo. Conduzir uma família com retidão exige caráter, e o caráter não tem filiação partidária.

O Conservadorismo e o Fantasma do Anticomunismo

Aqui reside outra confusão comum. Muitos acreditam que "ser conservador" é apenas "ser anticomunista". Esta é uma redução tacanha. O anticomunismo é uma posição política; o conservadorismo é uma postura existencial.

O verdadeiro conservador é aquele que entende que a sociedade é um contrato entre os que já morreram, os que estão vivos e os que ainda vão nascer. Se o seu "conservadorismo" se resume a odiar um sistema econômico ou um partido, mas você negligencia a educação dos filhos, a transparência nas contas (sejam elas domésticas ou públicas) e a caridade com o vizinho, você não é um conservador — é apenas um militante.

Conclusão

Uma família séria é aquela que não precisa de rótulos para provar sua importância. Ela se prova no respeito mútuo, na ausência de vícios que destroem o convívio e na capacidade de ser um porto seguro em um mundo caótico. Seja em Japaratuba ou em qualquer lugar do mundo, o que salva uma família não é o voto na urna, mas a dedicação diária no silêncio do lar.

O Alvorecer da Retomada: A Voz que o Barro Não Calou

Do resgate das raízes ao protagonismo do agora: como a nova consciência transforma o legado da dor em potência criativa e soberania cultural.




Se o dia 13 foi a ilusão do papel e o dia 14 foi o peso da omissão, o tempo presente nos convoca para um terceiro ato: o da retomada. Não se trata mais de esperar que a liberdade nos seja concedida por mãos alheias, mas de reconhecer que ela sempre pulsou em nosso interior, guardada como um segredo precioso entre o sopro do pífano e o barro moldado pelas mãos dos nossos ancestrais.

Encerrar esta trilogia sobre a abolição em Japaratuba é, acima de tudo, um exercício de justiça poética. Por muito tempo, tentaram nos convencer de que nossa história era um anexo da história dos outros. Que nossa cultura era apenas um "folclore" para ser visto de longe, e nossa inteligência, uma "civilidade" de fachada. Mas a verdade é que o Vale do Cotinguiba sempre foi um celeiro de saberes que as correntes jamais conseguiram confinar.

A reparação histórica que o Estado brasileiro ainda nos deve começa a ser paga toda vez que um jovem negro ocupa a universidade, toda vez que um escritor de nossa terra usa a pena para denunciar a supremacia e, principalmente, quando deixamos de pedir licença para sermos nós mesmos. O Originalismo que defendemos não é um retorno nostálgico ao passado, mas um resgate do que é autêntico para projetar o futuro. É entender que a nossa psicologia, o nosso ritmo e a nossa estética não são subprodutos, mas a essência do que o Brasil tem de mais potente.

Nesta sexta-feira, dia 15, olhamos para as nossas famílias e vemos nelas os verdadeiros arquivos da nossa resistência. É na mesa da cozinha, na transmissão oral de pai para filho e na perseverança das mães-professoras que a abolição, finalmente, começa a se completar. A liberdade real não é um decreto; é o direito de ser o autor da própria narrativa.

Que as cinzas do passado sirvam apenas para adubar o solo de uma Japaratuba que não aceita mais rótulos. Somos a terra do negro consciente, do artista soberano e do cidadão que conhece o valor de sua raiz. As correntes caíram, o desamparo nos testou, mas a palavra — ah, a palavra — esta agora é nossa. E através dela, ninguém mais poderá nos silenciar.