terça-feira, 28 de abril de 2026

O Espantalho de 1990: O que o caso Collor ensina sobre os "justiceiros" da política.

O Espantalho Ético: O Caso Collor e a Conveniência do Discurso Anticorrupção




A história política brasileira é cíclica, mas raramente é didática para quem se recusa a estudá-la. Um dos maiores mitos alimentados pelo marketing político contemporâneo é a ideia de que a corrupção possui "DNA ideológico", sendo um mal exclusivo de governos de esquerda. Para desconstruir essa falácia, basta olhar para o retrovisor e observar o rastro deixado por Fernando Collor de Mello entre 1990 e 1992.

Qual corrupção? Essa pergunta ocorre porque maior parte da mídia e da oposição ao governo atual pregam que a corrupção é algo próprio dos governos de esquerda. Sendo assim, como Collor foi eleito com o discurso anticorrupção se naquele tempo "não existia corrupção"?

Sabemos que Collor não inventou a corrupção, mas ele a personificou de uma forma muito específica para ganhar a eleição. Ele utilizou o termo "marajás" para designar funcionários públicos que recebiam salários astronômicos sem trabalhar.

O argumento de que a corrupção é exclusiva da esquerda é uma ferramenta de marketing político, não um fato histórico. O Governo Collor é, ironicamente, a maior prova disso.

Collor foi eleito porque o eleitorado, cansado da velha política, comprou a ideia de que a corrupção era algo "dos outros" (do governo anterior, da esquerda "radical"). Ele provou que um discurso anticorrupção pode ser o manto perfeito para o maior esquema de corrupção da época.

A Fantasia do "Caçador de Marajás"

Collor não foi eleito por um plano econômico sólido — o trágico confisco da poupança provou o amadorismo técnico da sua gestão — mas por uma roupagem moral. Ele criou a figura do "marajá": o servidor público que encarnava todo o desperdício e a sujeira do Estado. Ao fazer isso, Collor realizou uma manobra de prestidigitação política: deslocou o foco da corrupção estrutural (o tráfico de influência e o desvio de recursos) para uma corrupção "estética" e seletiva.

Ao atacar os marajás, ele convenceu a classe média de que o dinheiro do país não sumia por desvios de empresários e políticos, mas porque o Estado era "inchado". Ele transformou a ineficiência administrativa em um pecado moral.

A pergunta que fica é: como um político oriundo de oligarquias tradicionais, posicionado à direita no espectro político, logrou êxito com um discurso anticorrupção? A resposta reside na capacidade de transformar o combate ao crime em um mecanismo de validação de pensamento.

O Paradoxo do Salvador Profissional

Uma verdade incômoda: a corrupção no Brasil é frequentemente usada como desculpa para punir o político que não corresponde às expectativas do eleitor. Não se busca a verdade dos fatos, mas o expurgo do adversário. Collor foi o "Salvador da Pátria" enquanto a sua narrativa servia aos interesses de seus mecenas e ao ódio de classe contra o que ele pintava como o "perigo vermelho".

Embora o termo mecenas signifique uma pessoa, instituição ou entidade que patrocina e financia artistas, cientistas e projetos culturais, oferecendo recursos financeiros que permitem a criação artística e intelectual, aqui vamos usar da forma "moderna", onde ao invés do patrocínio de causas nobres, patrocina-se causas políticas (com interesses particulares).

Contudo, a queda de Collor revelou o paradoxo do "justiceiro corrupto". Enquanto apontava o dedo para os privilégios estatais, o esquema liderado por PC Farias profissionalizava o saque aos cofres públicos. Isso nos mostra que a corrupção não é uma falha de ideologia, mas um modelo de negócio adotado por aqueles que vivem exclusivamente da política e não para a causa social.

A Profissionalização do Mau Político

Diferente de figuras técnicas ou acadêmicas que possuem um porto seguro profissional — como o magistério ou as ciências sociais — o "político profissional" encara a perda do cargo como uma falha existencial. Sem uma profissão fora do Estado, a manutenção do poder torna-se uma questão de sobrevivência, o que escancara as portas para o financiamento obscuro e para a corrupção sistêmica. 

A esquerda e os setores com consciência social muitas vezes perdem essa batalha porque dependem de um respaldo popular volúvel, enquanto o "profissional do mal" investe na indústria da desinformação, financiada por mecenas interessados na manutenção do status quo.

Quando um político tem uma profissão — seja professor, contador, advogado ou médico — o cargo público é um ciclo, não um destino final. Isso gera uma liberdade intelectual e ética que o "político de carreira" puro não possui.

Para quem não tem uma profissão fora do Estado, a perda de um cargo ou de um mandato não é apenas uma derrota política, é uma ameaça à subsistência.

  • O Instinto de Sobrevivência: Esse político precisa se manter no poder a qualquer custo. É nesse cenário que o financiamento de mecenas interessados em favores e a corrupção sistêmica florescem.

  • O Cliente: Ele deixa de servir ao eleitor para servir ao financiador que garante sua estrutura de reeleição permanente.

Para quem não tem uma profissão fora do Estado, a perda de um cargo ou de um mandato não é apenas uma derrota política, é uma ameaça à subsistência.

O Instinto de Sobrevivência: Esse político precisa se manter no poder a qualquer custo. É nesse cenário que o financiamento de mecenas interessados em favores e a corrupção sistêmica florescem.

O Cliente: Ele deixa de servir ao eleitor para servir ao financiador que garante sua estrutura de reeleição permanente.

O Mito da "Rua Soberana"


Historicamente, é muito difícil remover um presidente por "má gestão econômica" ou "falta de habilidade política". Por isso, a corrupção é usada como o instrumento jurídico e moral que viabiliza o que, nos bastidores, é uma decisão baseada em interesses financeiros.

O Caso Collor: O confisco da poupança foi o crime econômico contra a classe média, mas o "Esquema PC Farias" foi a justificativa moral para o impeachment.

O Caso Dilma: As "pedaladas fiscais" foram o argumento técnico/jurídico, mas o pano de fundo era uma recessão profunda que retirou o apoio da burguesia industrial e financeira para o argumento populista, o argumento político foi o "desentendimento" com Eduardo Cunha na época Presidente da Câmara. 

A ideia de que "o povo tirou o presidente" é uma narrativa poderosa para a democracia, mas tecnicamente incompleta. No Brasil, presidentes caem quando perdem o trinípode de sustentação:

Apoio do Mercado (Elite)

Apoio do Congresso (Políticos Profissionais)

Apoio da Opinião Pública (Classe Média/Povo)

Collor perdeu os três. O confisco limpou o apoio da classe média e da elite; a arrogância limpou o apoio do Congresso; e as denúncias de PC Farias foram apenas a justificativa moral necessária para formalizar o que a economia já havia decidido.

Isso reforça a tese anterior: a corrupção foi o argumento "ético" usado pela burguesia e pela classe média para punir um político que falhou em entregar a estabilidade econômica que eles esperavam. Se a economia estivesse voando, o esquema PC Farias provavelmente teria sido tratado como um "problema administrativo" menor.

O que tem de semelhante as campanhas de 1989 e 2018?




A comparação entre as campanhas de Fernando Collor (1989) e Jair Bolsonaro (2018) é um exercício que a maioria dos cidadãos deveriam praticar na arqueologia política. Embora separadas por quase 30 anos e por tecnologias distintas (a TV dominante vs. o WhatsApp onipresente), as estruturas narrativas são quase idênticas.

Ambos os fenômenos surgiram como "estranhos ao ninho" (o outsider) que prometiam limpar a sujeira de um sistema político exausto. 

Tanto em 1989 quanto em 2018, a propaganda não focou apenas em propostas, mas na criação de um espantalho ideológico.

  • Collor: Usou o medo do "comunismo" e da "bandeira vermelha" para demonizar Lula. A propaganda sugeria que, se a esquerda vencesse, as famílias perderiam suas casas e o país viraria uma ditadura totalitária.

  • Bolsonaro: Atualizou o discurso para o "antipetismo" e a "ameaça comunista/venezuelana". O foco saiu do confisco de bens (irônico, dado o que Collor fez) para a "pauta de costumes" (ideologia de gênero, kit gay), mantendo o medo como motor do voto.

O que conecta essas duas propagandas é a ausência de um plano técnico de Estado em favor de um plano moral de salvamento.

Collor prometeu caçar marajás e confiscou a poupança do povo. Bolsonaro prometeu acabar com a mamata e terminou o governo abraçado ao "Centrão" que tanto criticou. Isso reforça a sua tese: o eleitor não buscou identificar a verdade técnica (como o fato de Collor ser parte de uma oligarquia ou Bolsonaro estar no Congresso há 28 anos), ele buscou a validação do seu ódio contra um inimigo comum.

O marketing político brasileiro aprendeu que é muito mais barato e eficiente financiar a criação de um herói do que investir na educação política. O herói se vende em 30 segundos; o cidadão leva uma vida para se formar.

O Caminho: Educação de Base e Vigilância Técnica


Sem uma formação política sólida:

O cidadão não percebe que a corrupção é sistêmica e atemporal.

Ele condiciona sua "honestidade eleitoral" ao saldo da sua conta bancária.

Ele se torna massa de manobra para o "salvador da pátria" que promete punir os corruptos (do outro lado) enquanto mantém os seus próprios esquemas.

O desfecho dramático do governo Collor — o primeiro impeachment da nossa redemocratização — foi uma vitória das instituições, mas não uma cura para a sociedade. Aprendemos a tirar o "corrupto da vez", mas falhamos em reformar a base. 

A verdadeira educação política não virá apenas dos bancos escolares ou de portais de transparência frios. Ela precisa nascer na base familiar, na construção de uma ética cotidiana que rejeite a ideia do salvador messiânico. Enquanto o eleitor buscar um herói que "combata a corrupção" atropelando a ética para satisfazer seus desejos pessoais, continuaremos reféns do paradoxo de 1990. 

A corrupção não tem lado; ela tem método. E o método só é vencido quando o cidadão deixa de ser um torcedor de narrativas para se tornar um fiscal da técnica e da integridade.

Embora o movimento dos "caras-pintadas" seja a imagem romântica que ficou nos livros de história — e tenha sido fundamental para dar legitimidade popular ao processo — ele foi a consequência, e não a causa primária da queda. O "motor" que realmente desligou o governo Collor foi o rompimento com a elite econômica e a classe média.

O político que o país precisa é aquele que não precisa da política para viver. Mas o sistema político é desenhado para favorecer quem faz da política sua única fonte de renda e poder.

No final das contas, o Governo Collor foi um sintoma precoce dessa doença. Ele usou uma roupagem de "renovação" para esconder uma prática política arcaica e profissionalíssima de saque ao Estado. Quando o povo percebeu que o "salvador" era apenas mais um operador do sistema, a queda foi inevitável, mas o sistema profissional que o sustentava apenas se reorganizou para o próximo ciclo.



Informe: as imagens são meramente ilustrativas, criadas por inteligência artificial.

domingo, 26 de abril de 2026

Quando o Palco Engole a Poesia: O Problema dos Festivais em Sergipe

O Verso no Paredão: Quando o Ator Devora o Poeta nos Festivais de Sergipe



Sergipe é, sem dúvida, um canteiro fértil para a palavra dita. Do sertão de Monte Alegre às margens do Rio São Francisco em Propriá, a poesia falada é o nosso quilombo intelectual. No entanto, um fenômeno perigoso tem se consolidado no coração desse movimento, especialmente no tradicional Festival Poeta Garcia Rosa, em Japaratuba: a transformação do banquete literário em um ringue de dramaturgia, onde o texto — a alma da obra — tornou-se mero acessório para o espetáculo da atuação.

Sabemos que a Poesia Falada é uma forma de arte onde o texto é escrito especificamente para ser dito em voz alta. Diferente da poesia para ser lida em silêncio (poesia lírica tradicional), ela foca no ritmo, na entonação e na conexão direta com o público.

Talvez, por essa linha de pensamento do objetivo do texto seja possível defender que o formato está correto, mas, se em Japaratuba o texto se torna secundário e o que "ganha o jogo" é a atuação, o festival deixou de ser um concurso literário para ser um concurso de esquetes teatrais com roteiro rimado.

A Tirania da Performance

A tese de que o texto se tornou secundário não é um lamento de perdedores, mas uma constatação técnica. Em Japaratuba, consolidou-se um modelo de "Poesia Teatralizada" que subverte a lógica da literatura. Se avaliarmos friamente, o vencedor muitas vezes não é aquele que escreveu a melhor metáfora ou a métrica mais precisa, mas aquele que possui maior "potência vocal" ou domínio de palco. 

O resultado? Uma plateia que delira com o grito, mas que não consegue repetir um único verso ao sair do evento. O texto virou um "roteiro de esquete". Se retirarmos o figurino, a iluminação e o choro encenado, muitos dos poemas premiados não resistiriam a uma leitura silenciosa em uma página de papel.

O Teatro como Cortina de Fumaça

O primeiro ponto de tensão é o domínio do teatro sobre a poesia. É um erro comum, mas fatal, confundir a potência de um texto com a potência de um pulmão. Nos festivais, o intérprete que se ajoelha, grita e chora muitas vezes sequestra a atenção do júri, deixando a arquitetura das palavras em segundo plano.

Se "Teatro é Poesia", como bradou um vencedor no passado, a recíproca nem sempre é verdadeira no contexto competitivo. Quando a encenação se torna o único critério de vitória, o festival deixa de ser um "banquete literário" para se tornar uma audição de elenco. Para que a poesia sobreviva, é urgente que o texto seja avaliado em sua nudez, antes de ser vestido pelo figurino do ator.

O Espelho de Sergipe: Diferentes Pesos e Medidas

Ao compararmos Japaratuba com outros polos, percebemos as nuances desse "jogo":

* Japaratuba vs. Estância (Fespofale): Enquanto Estância tradicionalmente busca um equilíbrio mais técnico e uma valorização da tradição lírica, Japaratuba pende para o visceral. Em Estância, a elegância do dizer ainda compete com a cena; em Japaratuba, a cena nocauteia o dizer.

* Propriá e o "Grito" do Rio: O festival de Propriá, assim como o de Japaratuba, sofre com a pressão da performance, mas ainda guarda uma conexão mais profunda com a oralidade ribeirinha, que é menos "teatro de conservatório" e mais "canto de povo".

* Lagarto e os Saraus Estudantis: Aqui reside a esperança e o contraste. Nos eventos escolares e no DEArtes, a poesia ainda é descoberta como ferramenta de expressão pessoal. O erro surge quando esses jovens começam a mimetizar os veteranos dos grandes festivais, acreditando que "poetizar" é sinônimo de "atuar intensamente".

A Atuação como "Voto de Cabresto" Literário

O que "ganha o jogo" hoje é a capacidade de manipular a emoção do júri e do público através de recursos puramente cênicos. Isso cria uma barreira para o poeta que é, por natureza, um escritor e não um ator. 

Quando o Festival de Japaratuba premia o "Melhor Texto" e a "Melhor Interpretação" para a mesma obra sistematicamente, ele envia uma mensagem perigosa: a de que o texto só é bom se for bem encenado. É o "voto de cabresto" da estética sobre o conteúdo. O júri, muitas vezes composto por entusiastas da cultura e não por técnicos em literatura, acaba sendo seduzido pelo brilho dos olhos do intérprete, ignorando as falhas de ritmo, as rimas pobres ou a ausência de profundidade filosófica da escrita.

O Festival de Japaratuba hoje pratica a Poesia Teatralizada. No papel, é poesia; no palco, é teatro. O grande conflito é que o "brilho do eleito" (o ator) só existe porque ele pisa em cima do "corpo do eleitor" (o texto).

Para ser um festival de poesia real (mesmo falada), o texto deveria ser capaz de vencer mesmo se fosse lido por um locutor neutro por trás de uma cortina. Se ele precisa de "malabarismos" para ser bom, talvez o problema esteja tanto na interpretação quanto na própria construção do poema. Mas, a regra é não ser lido, mas, "decorado" e "declamado".

Conclusão: É preciso despir o verso




Para que a cena sergipana de poesia falada — de Laranjeiras a São Cristóvão — continue sendo um espaço de resistência e não apenas de entretenimento, precisamos devolver ao texto o seu protagonismo. 

A atuação deve ser o quadro, mas a poesia tem que ser a pintura. Se continuarmos valorizando apenas o entalhe da moldura, em breve não teremos mais poetas, apenas atores órfãos de dramaturgos. O Festival de Japaratuba precisa decidir se quer continuar sendo a Broadway dos versos ou se voltará a ser o berço onde a palavra, e somente ela, é a autoridade máxima.

Em Japaratuba, assim como em tantas outras cidades históricas, criou-se um ecossistema onde a arte só respira se o gestor público assinar a autorização.

O desafio de Japaratuba hoje não é apenas realizar "mais um festival", mas sim decidir se a cidade quer ser um palco de vaidades momentâneas ou um solo fértil para a imortalidade de seus poetas.

A união da classe artística, sugerida há anos, continua sendo o único antídoto contra o ódio político e o amadorismo estrutural. Enquanto a poesia for tratada como "eleitora" e o teatro (ou a política) como "eleito", o brilho de Japaratuba será apenas sazonal. É preciso que a poesia caminhe com as próprias pernas — e que ninguém se atreva a cortá-las.

NOTA: A poesia não precisa mais pedir licença para existir. Se o poder público falha na estrutura, a tecnologia e as leis de incentivo direto dão ao artista as ferramentas para caminhar com as próprias pernas. A pergunta que fica para os poetas japaratubenses é: Vocês ainda estão esperando o convite da prefeitura ou já começaram a escrever nas paredes da cidade?

Informe: as imagens são meramente ilustrativas, criadas por inteligência artificial.

O Voto é no Projeto ou no Candidato? Em Lula ou na Esquerda?

O Eclipse do Projeto: Personalismo, o Legado de 2018 e a Esquizofrenia das Urnas



A política brasileira atravessa um fenômeno de dissociação programática que desafia as teorias clássicas da representação. O comportamento do eleitor que deposita o voto na esquerda para o Palácio do Planalto, enquanto entrega as chaves do Congresso Nacional à direita — e ao fisiologismo do "Centrão" —, não é apenas um erro de cálculo; é o sintoma de uma democracia que substituiu o projeto de país pela estética da identidade.

Para grande parte do eleitorado, o "projeto" é um conceito abstrato e denso demais. O personalismo funciona como um atalho: o eleitor projeta no carisma do líder a confiança de que ele aplicará o projeto correto, mesmo sem ler uma única página do plano de governo. Se o líder "é como eu" ou "me entende", o projeto dele é, por extensão, o meu.

A falha de formação do eleitor não é apenas sobre "não saber ler", mas sobre a falta de letramento institucional. Quando o eleitor não entende a separação de poderes ou o pacto federativo, ele tende a personificar soluções.

Essa falha, unida ao "ódio" criou um caminho "perigoso" para o país com o avanço da extrem direita. O termo "perigoso" costuma ser aplicado à extrema-direita não necessariamente por suas metas econômicas (que podem ser compartilhadas pela direita tradicional), mas pelo seu método de relação com a democracia.

Existe uma Terceira Via?


O conceito de "Terceira Via" no Brasil é frequentemente confundido com "terceira candidatura", mas politicamente ele implica uma rota que escape da polarização dominante. A "Terceira Via" no Brasil é um conceito político que busca romper a polarização entre dois polos dominantes — historicamente representados pela disputa entre PT e PSDB (1994-2014) e, mais recentemente, entre Lulismo e Bolsonarismo

Marina Silva (2010/2014): Representou o que mais se aproximou de uma Terceira Via Programática. Ela tentou quebrar a dicotomia PT-PSDB com o "pós-petismo" e a "nova política", focando em sustentabilidade e governança por princípios, não por coalizões fisiológicas. Em 2014, ela chegou a ameaçar a ida do PT ao segundo turno, mas foi triturada pelo marketing agressivo.

Diferente de uma "terceira candidatura" simples, a Terceira Via propõe uma síntese programática. Ela tenta unir a responsabilidade fiscal (geralmente associada à direita) com a sensibilidade social (associada à esquerda), apresentando-se como uma alternativa de "equilíbrio" ou "centro".

Atualmente, o espaço da Terceira Via está sendo disputado por uma "Direita Pós-Bolsonarista" (nomes que querem o eleitor de direita, mas rejeitam o rótulo de extrema-direita) e por quadros técnicos que orbitam o atual governo, mas mantêm independência. Romeu Zema e Ronaldo Caiado´, por exemplo, não são "Terceira Via" no sentido clássico de neutralidade, mas sim Releituras da Direita em disputa por hegemonia.

Em resumo, a Terceira Via no Brasil é o "eterno projeto de amanhã". Ela possui quadros técnicos qualificados, mas esbarra na falta de uma narrativa emocional que consiga competir com a força mística e carismática dos grandes líderes populares. A verdadeira Terceira Via no Brasil hoje é um espaço vago. Zema e Caiado estão mais para uma Direita Pós-Bolsonarista — eles querem os votos da direita, mas sem o ônus da instabilidade institucional do ex-presidente.

2018: O Marco Zero da Descivilização

Para entender o presente, é mandatório retroceder a 2018. Aquele pleito foi o "Big Bang" da atual polarização. Foi o momento em que a direita tradicional, personificada pelo PSDB — que ocupou o segundo lugar de forma quase hereditária entre 2002 e 2014 —, foi engolida por uma vertente que trocou a liturgia institucional pelo populismo digital. 

A extrema-direita não apenas venceu; ela "descivilizou" o debate, transformando a divergência técnica em guerra cultural. 2018 provou que, no vácuo de um projeto de centro-direita que naufragou com o governo Temer, o carisma disruptivo foi o "atalho cognitivo" perfeito para um eleitorado sedento por ruptura. Do outro lado, o PT enfrentava a difícil transferência de capital político de Lula para Fernando Haddad, repetindo o teto histórico do segundo lugar, mas agora combatendo um antipetismo que não era mais político, mas visceral.

O antipetismo, enquanto fenômeno político e social, transcendeu a simples oposição a um partido para se tornar um dos motores da polarização afetiva no Brasil. Embora a crítica a qualquer governo seja saudável e necessária para a democracia, o antipetismo — quando transformado em dogma ou estratégia de rejeição total — gerou consequências sistêmicas negativas.

O prejuízo não reside na oposição ao PT (que é legítima e necessária), mas na transformação dessa oposição em uma identidade negativa única. Quando o "anti" se torna maior que o projeto, o país perde a capacidade de olhar para frente, ficando preso em um ciclo de vingança política que consome a energia necessária para o desenvolvimento.

A Esquizofrenia das Urnas e o Governo Refém

Vivemos hoje o auge da "Democracia de Audiência". A decisão de voto baseia-se em uma métrica perigosa: 60% carisma (identidade) e 40% projeto (muitas vezes desconhecido). O eleitor busca no Presidente um catalisador de esperanças, uma biografia em que possa confiar, mas ignora que o motor real da política está na base parlamentar. 

O resultado é um paradoxo de poder. Ao votar na esquerda para o Executivo por um desejo de proteção social e, simultaneamente, fortalecer o conservadorismo ferrenho no Legislativo por pragmatismo local, o cidadão cria um sistema de freios. O resultado é um governo refém, que se desgasta em negociações fisiológicas e fatias orçamentárias para garantir uma governabilidade mínima, enquanto o projeto original se esvai nas sombras das comissões parlamentares.

O Personalismo como Cortina de Fumaça

Essa manutenção do "eleitor encantado" não é acidental; é uma ferramenta deliberada das elites. Para quem detém o poder, é muito mais vantajoso debater o "jeito de ser" do político do que a viabilidade técnica de uma reforma tributária. O personalismo funciona como uma blindagem cognitiva: qualquer crítica técnica ao projeto é lida pela base fiel como um insulto pessoal ao herói. 

Nesse cenário, figuras como Ciro Gomes e Guilherme Boulos orbitam o sol do "Lulismo" tentando decifrar o código do carisma. Enquanto Ciro amarga o ressentimento estratégico de 2018 e Boulos tenta traduzir o "chão de fábrica" para a periferia moderna, a política brasileira permanece refém de nomes próprios, relegando o debate de metas às notas de rodapé dos jornais.

O Voto Útil e a Morte do Debate

Até mesmo o conceito de "voto útil" foi sequestrado. Para muitos, o apoio à esquerda em 2022 não foi uma adesão cega, mas um movimento de autodefesa institucional. Contudo, essa utilidade muitas vezes termina na urna. Sem a cobrança técnica subsequente, o governo eleito sente-se autorizado a governar pela imagem, enquanto o Congresso, ciente da desconexão entre o eleitor e o programa, negocia o país por fatias de poder.

Nesse contexto, entre os polos, a extrema-direita é considerada mais "perigosa" do ponto de vista sistêmico porque seus ataques costumam mirar nos pilares que permitem que a própria democracia continue funcionando. Se a economia vai mal, muda-se o governo na próxima eleição; se as regras da democracia são destruídas, perde-se a ferramenta para fazer essa mudança.

Conclusão: A Necessária Recuperação do Objeto




Se o Brasil deseja sair desse ciclo de "autofagia política", precisa reequilibrar a balança. O carisma pode vencer eleições, mas apenas o projeto sustenta nações. A "descivilização" da política não virá de um nome novo, mas da coragem do eleitor em deixar de ser um seguidor de personalidades para se tornar um fiscal de projetos. 

A verdadeira evolução democrática exige independência intelectual. O pensamento crítico é o que separa o cidadão do devoto. Engana-se quem pensa que apontar os defeitos de quem se apoia é ser "do contra"; na verdade, é a única forma de garantir que a política deixe de ser um culto à personalidade para se tornar, enfim, uma ferramenta de gestão para todos.

Se o debate se tornasse 90% técnico e 10% carismático, a maioria das lideranças atuais não sobreviveria a uma sabatina de 15 minutos sobre responsabilidade fiscal ou políticas públicas de longo prazo.

Portanto, manter o eleitorado "encantado" pelo carisma é a maior apólice de seguro que a elite política possui. Enquanto o voto for um ato de fé (identidade) e não um ato de gestão (projeto), o sistema permanece imutável, independentemente de quem esteja no topo.

A pergunta que fica para o futuro é: a internet e o acesso à informação estão quebrando esse ciclo ou apenas criando "bolhas de carisma" ainda mais impenetráveis?

Informe: as imagens são meramente ilustrativas, criadas por inteligência artificial.

sexta-feira, 24 de abril de 2026

O Alicerce Esquecido: O Trauma de uma Nação sem Amor

Brasil em Alerta: A Crise Invisível do Amor e os Traumas que Sustentam uma Nação Fragilizada



Em 1991, o reggaeman Edson Gomes lançou uma profecia em forma de canção. Em "Traumas", o diagnóstico era claro: o Brasil sofria de uma falha estrutural. Três décadas depois, as estrofes daquela música não apenas permanecem atuais, como ganharam contornos de uma urgência desesperadora. O problema, como Gomes apontou e a realidade confirma, não é apenas político ou econômico; é de concepção.

A Mentira que se tornou Verdade


Vivemos em uma era onde o conceito de "amor" foi sequestrado pela indústria cultural e reduzido a um produto de consumo. O termo "fazer amor" foi poetizado e vendido como o ápice do romantismo, mas, na prática, tornou-se um eufemismo para o prazer efêmero e descompromissado. É o "amor que os cantores cantam" — aquele que toca no rádio, mas que, nas palavras certeiras de Gomes, "não junta a família, não soma".

Essa deturpação criou uma lacuna perigosa. O amor, que deveria ser o cimento das relações humanas, foi substituído por um simulacro comercial. Quando o amor é tratado apenas como sentimento volátil e não como uma decisão de edificação, o alicerce da casa — e, por extensão, da nação — começa a estalar.

A Natureza do Alicerce





Para compreendermos o que falta, é preciso resgatar a essência. O amor não é apenas uma construção social; ele é a natureza intrínseca de Deus. É a força motriz da caridade, da paciência e da renúncia em favor do próximo. Sem essa pedra angular, qualquer projeto de sociedade está fadado ao desmoronamento.

O que vemos hoje é o resultado dessa ausência: uma juventude "mal dirigida" e "mal concebida". Ao crescerem em lares onde o amor real foi substituído pela busca cega por "fama e dinheiro", filhos e filhas contraem traumas que nenhuma política de segurança pública é capaz de curar.
O Mito da Segurança

A crítica de Gomes à falência do sistema repressivo é um dos pontos mais altos da letra: "Mesmo protegido pela polícia / Nós não estamos livres da violência". A violência aqui não é apenas o assalto na esquina, mas a violação do caráter e a fragmentação do espírito. A polícia pode vigiar os corpos, mas não pode proteger uma juventude que já nasceu traumatizada pela falta de um norte moral e espiritual dentro de casa.

O crime, as drogas e a obsessão pela aparência são apenas sintomas. A doença é o vazio. E esse vazio só existe porque a "pedra que sobrou nessa nossa construção" foi justamente aquela que deveria ser a base: o amor sacrificial, aquele que se manifesta na caridade e no cuidado com a família.

Conclusão: O Resgate Necessário


Consolidar uma nação exige mais do que asfalto e decretos. Exige a reabilitação das palavras e das práticas. Resgatar o real significado de "fazer amor" significa transformá-lo novamente em um verbo de ação social e espiritual. Significa entender que amar ao próximo, à família e a Deus é o único policiamento preventivo eficaz contra os traumas modernos.

Enquanto o amor continuar sendo apenas um rótulo poético para o egoísmo, continuaremos a construir prédios altos sobre areia movediça. É hora de buscar a pedra que sobrou e devolvê-la ao seu lugar de direito: o alicerce. Só assim deixaremos de fabricar traumas para começar a edificar destinos.




Nota Editorial: Este texto é uma reflexão inspirada na densa carga lírica e social da canção Traumas (1991), de Edson Gomes. A análise busca consolidar as metáforas do compositor sobre as falhas estruturais de nossa sociedade e a urgência de resgatar o amor em sua essência ética e espiritual.

quinta-feira, 23 de abril de 2026

“Fim de Primavera: memórias que florescem no agreste sergipano”

Entre memórias e estações: "Fim de Primavera", de F. J. Hora, revela a faceta mais íntima e nostálgica do autor

Escrita durante o mesmo período de refúgio criativo que deu vida a "Cantos da Nova Idade", a obra "Fim de Primavera" marca a transição da crítica social para a introspecção memorialista, convidando o leitor a percorrer os caminhos da infância e da juventude do escritor sergipano.



Se em "Cantos da Nova Idade" F. J. Hora se propôs a ser um cronista dos dilemas da vida moderna, em "Fim de Primavera", o autor volta o olhar para dentro. Lançada em 2017, durante a efervescência cultural da IV Bienal do Livro de Itabaiana, a obra é um relato pessoal, um inventário de reminiscências que atravessa os anos de formação do escritor.

O refúgio como berço literário

Curiosamente, ambos os pilares da produção inicial de F. J. Hora — a crítica contemporânea de Cantos e a nostalgia poética de Fim de Primavera — foram gestados no mesmo cenário: um retiro criativo em 2014, em um pacato povoado de Japaratuba. Foi durante essas "férias" de imersão total que o autor, entre a tranquilidade do agreste e o fluxo de pensamentos, deu forma a duas obras que, embora distintas em tom, revelam a mesma sensibilidade apurada.

Enquanto a primeira obra é uma "arrumação artística do pensamento" sobre o hoje, Fim de Primavera é o resgate do ontem. O título não é apenas poético; é uma metáfora para o fechamento de ciclos, uma descrição cuidadosa de fatos marcantes da infância e da adolescência que se confundem com as mudanças das estações da vida.

Uma jornada pelo agreste sergipano

A obra ganha contornos especiais pela ambientação. O leitor é convidado a caminhar por cenários que moldaram o autor, encontrando poemas de amor, reflexão e memórias vivas que servem como espelho para a jornada de qualquer um que já se viu diante do encerramento de uma fase.

A trajetória deste livro também é um testemunho da força da JHS Publicações. Ao investir na presença de escritores de Japaratuba na IV Bienal do Livro de Itabaiana em 2017, F. J. Hora não apenas lançou sua obra, mas afirmou o protagonismo da produção literária local em um evento de alcance estadual, em um momento onde o fortalecimento da cultura sergipana era (e continua sendo) urgente.

Onde adquirir

Para quem busca uma leitura que toca a alma e resgata a memória, "Fim de Primavera" é um convite imperdível. A obra está disponível para os leitores em:

Clube de Autores: Acesse aqui para adquirir seu exemplar.

Sobre o autor: F. J. Hora (pseudônimo de Flávio de Jesus Hora) é um nome consolidado na literatura e cultura de Sergipe. Escritor, contador e editor, sua obra é marcada pela dualidade: a precisão do contador que organiza o mundo real e a sensibilidade do poeta que traduz as emoções e o tempo.



Este é um poema profundamente revelador e que estabelece o tom para toda a obra. Analisar "Do Fim de Primavera" é observar o momento em que a maturidade encontra a esperança, usando a natureza como uma metáfora perfeita para as fases da vida humana.

Vamos fazer uma análise técnica e sensível dos versos:

O Eu-Poético e a Metamorfose do Sentimento

O poema funciona como um portal entre o passado e o que está por vir. O eu-poético de F. J. Hora não está lamentando o fim de uma fase, mas sim redefinindo-a.

     A "Primavera" como Ciclo da Experiência: No título e no corpo do poema, a "primavera" não é apenas a estação das flores, mas a representação da juventude e dos "arroubos ardentes". O eu-poético reconhece que o seu coração "aquecido se resguarda", sugerindo uma sabedoria adquirida: a paixão não desapareceu, ela apenas mudou de forma, tornando-se mais contida, porém mais profunda.

     O Equilíbrio entre o Passado e o Futuro: A segunda estrofe é o ponto de virada central. Ao mencionar "Lembranças, nova quimera", o autor sugere que a memória é uma forma de fantasia, mas uma fantasia que nutre um peito "apaixonado e maduro". Aqui, o "fim de primavera" deixa de ser um encerramento melancólico para ser uma ponte estratégica: o autor pensa no futuro, não como um declínio, mas como uma extensão do tempo vivido.

     A Transição para o "Verão": O enfrentamento do "verão, seco em luz" traz uma imagem poderosa de clareza. Se a primavera era o tempo do viço e da incerteza, o verão (o estágio atual da vida) é o tempo da nitidez, onde o sabor da vivência — simbolizado pelo "sabor da linda mulher que seduz" — é degustado com a consciência de quem entende o valor do momento.

O "Recomeço": A Reinterpretação do Fim

A estrofe final é a chave mestra de todo o livro:

"O fim da primavera é para mim / O recomeço do que não vivi ainda!"

Esta é a definição de uma filosofia de vida resiliente. Ao subverter a ideia de "fim", o autor transforma o declínio em uma oportunidade. Ele não se sente preso às "flores lindas" que murcharam no jardim do passado; ele as vê como adubo para um novo plantio.



Aspectos Estilísticos da "Produção Literária Flaviana"

1.    Concisão e Arrumação: Como você mesmo descreveu em seu projeto, há uma economia de palavras que não sacrifica o impacto emocional. A rima é utilizada para dar um ritmo sereno, quase reflexivo, condizente com a maturidade do eu-poético.

2.    O Olhar do Observador: Perceba que, embora o eu-poético fale de si, ele o faz como um observador externo da própria existência. É a técnica do contador que precisa organizar os dados da vida para entender o resultado final.

3.    Otimismo Realista: Diferente de uma poesia puramente romântica, aqui há um realismo claro sobre o tempo que passa, mas ele é filtrado por um otimismo que se recusa a aceitar que a história terminou.

Em resumo: "Do Fim de Primavera" é um manifesto sobre a possibilidade de reinvenção. Ele diz ao leitor que, independentemente da idade ou da "estação" em que se encontra, sempre há uma margem para o que ainda não foi vivido.



Essa é uma jornada que não é de lamento, mas de redescoberta. É uma forma magistral de convidar quem lê a também olhar para os seus próprios "invernos" e "primaveras" com uma nova perspectiva.

     O "Fim" como Ferramenta: Se a poesia é novidade, o fim não é uma sentença, é apenas uma vírgula técnica. Para um contador, a precisão do fechamento de um balanço é fundamental para que o próximo exercício comece; para o poeta, o "fim de primavera" é esse balanço necessário para que o novo ciclo tenha base, estrutura e, acima de tudo, novos horizontes.

     O Recomeço Consciente: Quando o poeta escreve que é o "recomeço do que não vivi ainda", ele assume a postura de um explorador da própria história. O eu-lírico não busca reviver o passado — o que seria um exercício inútil de nostalgia — mas sim utilizar a matéria-prima daquela vivência para construir algo que ainda é inédito na sua própria experiência.

E você, o que acghou do livro? Já pode falar agora ou só depois de degustá-lo? Está a venda também na Amazon: Clique aqui

Informe: as imagens são meramente ilustrativas, criadas por inteligência artificial.

Prefeitura de Japaratuba abre inscrição para XVIII edição do Festival de Poesia (2026)

Participe do XXVIII Festival de Poesia Falada "Poeta Garcia Rosa" em Japaratuba!



Atenção, poetas de Sergipe! Estão abertas as inscrições para a 28ª edição do tradicional Festival de Poesia Falada "Poeta Garcia Rosa" promovido pelo pelo Governo Municipal de Japaratuba, o evento deste ano traz o prêmio "Cordel, Couro e Poesia", em uma emocionante homenagem ao Mestre Ninízio.


Confira os detalhes para não ficar de fora:

Onde: No Barracão Cultural, em Japaratuba.

Quando: O evento será realizado no dia 05 de junho de 2026, às 19h.

Inscrições: Podem ser feitas até o dia 15 de maio, presencialmente na Secretaria Municipal de Cultura ou pelo e-mail culturajaparatuba@gmail.com.

Premiação

Além do reconhecimento e dos certificados para os 15 finalistas, o festival distribuirá troféus e prêmios em dinheiro:

1º Lugar: R$ 2.000,00

2º Lugar: R$ 1.500,00

3º Lugar: R$ 1.000,00

Melhor Intérprete: R$ 1.000,00

Melhor Arte Cênica: R$ 500,00

Júri Popular: R$ 500,00

Prepare seus versos inéditos e venha celebrar a cultura e a poesia sergipana! Para mais informações, consulte o edital completo no site oficial da Prefeitura de Japaratuba.

FICHA DE INSCRIÇÃO

EDITAL (Regulamento)

Fonte: Prefeitura Municipal de Japaratuba

O Deserto das Páginas Vivas: O Dia Mundial do Livro e o Silêncio de Japaratuba

Como a falta de gestão eficiente e o partidarismo político transformaram o berço de poetas em um cenário de recepção protocolar e silêncio nas escolas.




Por Flávio Hora


Neste 23 de abril, o mundo reverencia a memória de gigantes como Shakespeare e Cervantes. No Brasil, celebramos a Política Nacional do Livro (Lei 10.753/2003). Mas, ao pousarmos os olhos sobre a planície cultural de Japaratuba, o que vemos não é uma festa de leitores, mas um cenário de "recepção de praxe" e um silêncio institucional ensurdecedor. A literatura japaratubense, outrora vibrante, encontra-se hoje estacionada em um acostamento perigoso.

A Lei nº 10.753/2003. Ela é, em teoria, o "coração" do mercado editorial brasileiro, mas muitos municípios a ignoram. Quando uma cidade não conhece essa lei, ela perde a chance de estruturar melhor suas bibliotecas públicas e de apoiar o ecossistema literário local de forma institucional.

A Política Nacional do Livro prevê em seus objetivos:

Difusão da cultura: Transformar o livro em um objeto familiar.

Apoio ao autor nacional: Facilitar a publicação e a circulação das obras.

Formação de mediadores: Incentivar que professores e bibliotecários usem esses talentos locais para formar novos leitores.

O Abismo entre o Evento e a Rotina



Japaratuba padece de um mal comum aos municípios que confundem Cultura com Entretenimento. Temos eventos? Sim. O Festival de Poesia Falada atrai público, mas o "dia seguinte" é um deserto. Não há fã-clubes de autores locais, não há coletivos literários ativos e, o que é mais grave: os nossos escritores raramente entram no ambiente escolar. Temos o Festival de Artes que é um "cartão postal" artístico da região, mas, ainda temos muitos artistas anônimos. 

Nomes como Mauro de Almeida, Jota Erre, Poeta Afamado e Flávio Hora possuem obras publicadas e disponíveis ao mundo pela internet, mas permanecem como ilustres desconhecidos para os alunos da rede municipal. Quando a Secretaria de Educação se torna um balcão burocrático e a Secretaria de Cultura se resume a um "setor de eventos" para palcos e cachês, o livro perde sua função de ferramenta de transformação social e controle crítico.

A Lei 10.753/2003 incentiva a "aquisição de acervos de autores brasileiros". Projetos de "Autor na Escola", onde a obra de Flávio Hora ou Jota Erre é parte do currículo regional, permitindo que o aluno sinta que a literatura não é algo distante, produzido apenas por pessoas mortas em Portugal ou na Inglaterra. 

Principais autores Japaratubenses: Gilberto Gibras, Darquiran Costa, Ivanildo Souza (Poeta Afamado), F. J. Hora (Flávio Hora), Jorge Marcelo Ramos, Geane Correia, Antônio Glauber.

O Legado Órfão



Entre 2014 e 2018, vivemos uma efervescência rara. Com o coletivo "Poetas em Foco" e a liderança de figuras como o saudoso Gibras (Gilberto Santos) e a resistência de artistas como Bonfim da Capoeira, Japaratuba respirava literatura. Com o falecimento de Gibras, abriu-se uma lacuna não apenas de incentivo, mas de articulação política.

Hoje, o isolamento é o nosso maior entrave. Sem associações ou coletivos, o escritor torna-se uma ilha. O resultado é a "evasão de talentos": mentes brilhantes que precisam buscar sustento em outras cidades, deixando para trás um vácuo de referências para a juventude.

Quando a cultura é reduzida a um "setor de eventos" e a educação se torna um apêndice burocrático, o livro e o autor local tornam-se figuras incômodas, pois o pensamento crítico que eles promovem muitas vezes colide com o assistencialismo político.

A Política como Barreira, não como Ponte

A raiz do problema é o vício do "apadrinhamento". Enquanto a gestão cultural depender da "sensibilidade política" do gestor ou do alinhamento partidário do artista, não teremos política de Estado, apenas caprichos de governo. 

Para que a literatura japaratubense volte a andar, é preciso profissionalização:

Habilitação dos Fundos: O Fundo Municipal de Cultura precisa sair do papel e ter recursos próprios.

Editais Técnicos: A escolha de quem recebe apoio deve ser baseada em mérito e impacto cultural, não em favores políticos.

Autonomia na Educação: A inclusão de autores locais no currículo escolar deve ser regra, não exceção dependente de boa vontade.

Os Obstáculos para a Profissionalização

Para que Japaratuba ou qualquer município saia desse ciclo, a solução passa pela institucionalização, que é exatamente o ponto falho:

Autonomia das Pastas: Uma Secretaria de Educação precisa de um Plano Municipal de Educação (PME) que sobreviva a trocas de prefeito. Se o estudo de autores locais não estiver no projeto político-pedagógico das escolas, ele dependerá sempre de um favor político.

O CPF da Cultura (Conselho, Plano e Fundo): Sem o Fundo Municipal de Cultura ativo e com recursos próprios, não há editais. Sem editais, a escolha de quem recebe apoio volta a ser baseada no "lado político", e não no mérito artístico ou na relevância cultural.

A Lei dos Mestres: Essencial para cidades com tradição de pífano, folclore e literatura de cordel. Ela garante que o saber seja transmitido formalmente, tratando o artista como patrimônio vivo, e não como atração de palco.

Conclusão

O Dia Mundial do Livro em Japaratuba não pode ser apenas uma data no calendário. Enquanto nossos autores forem lidos "por costume" e não "por direito", nossa identidade estará sob risco de folclorização barata. 

É hora de desengatar a literatura do ponto morto. É preciso que a gestão municipal entenda que apoiar o livro não é um gasto para o erário, mas um investimento na soberania intelectual de seu povo. Sem o desprendimento partidário e a eficiência técnica, continuaremos a exportar nossos talentos e a importar o esquecimento.

Nota: Este artigo é um chamado à reflexão para gestores, educadores e, sobretudo, para a sociedade civil de Japaratuba. A cultura é o que sobrevive aos mandatos; o livro é o que imortaliza a cidade.

Informe: as imagens são meramente ilustrativas, criadas por inteligência artificial.