Ao dar a voz a um "defunto autor", Machado de Assis não criou apenas um clássico da ironia: fez a mais devastadora autópsia da elite brasileira, revelando como o poder mascara a crueldade social com o verniz da civilização.
Segundo o ICL, Literatura para entender o Brasil: 10 livros que ajudam a compreender a realidade brasileira, vamos iniciar uma jornada de conhecimento sobre essas obras.
Há uma frase célebre no teatro das nossas elites que diz que o Brasil é o país do futuro. Mas basta abrir as primeiras páginas de Memórias Póstumas de Brás Cubas, publicado por Machado de Assis em 1881, para percebermos que o nosso presente teima em repetir os cacoetes do passado.
Para inaugurar a nossa jornada analítica pelas dez obras fundamentais para decifrar o país, precisamos começar por aquele que desferiu o golpe mais genial e impiedoso na vaidade da nossa formação social. Machado não nos ofereceu um herói admirável, nem um mártir romântico. Ele fez algo muito mais perigoso: entregou a pena da história a um homem rico, medíocre, ocioso e morto.
Ao se declarar um "defunto autor" — e não um autor defunto —, Brás Cubas escreve do outro lado da vida, de onde a terra já cobriu a carne e a aprovação dos vivos não tem mais qualquer valor. Livre das amarras da etiqueta e do medo da opinião pública, ele faz o que nenhum membro da elite viva teria coragem de fazer: confessa, com uma elegância assustadora e uma ironia mordaz, a absoluta vacuidade da sua existência e os privilégios da sua classe.
O Cinismo Envernizado e o Favor Social
Brás Cubas passou pela terra sem ter tido a necessidade de suar a camisa para produzir um único centavo de riqueza. Filho da aristocracia do Segundo Reinado, sua vida foi uma coleção de ambições frustradas, amores passageiros e projetos de fachada — como o cômico "Emplasto Cubas", um remédio milagroso que curaria a melancolia humana, cujo único objetivo real era imortalizar o seu próprio nome.
Mas o que torna a leitura da palavra de Machado uma chave para a leitura do Brasil é a precisão com que o autor expõe a mecânica do poder. Brás Cubas é o retrato do privilégio que se acha virtueiro. Ele transita entre a política e os salões com a naturalidade de quem acredita que o mundo lhe deve reverência.
Em uma sociedade sustentada pela barbárie da escravidão, o "liberalismo" da classe dominante carioca era um traje de gala usado sobre trapos sujos. Machado mostra como o favorecimento pessoal, o compadrio e o famoso "jeitinho" das elites serviam para manter a crueldade social devidamente escondida sob metáforas elegantes e frases em francês.
O privilégio que não precisa prestar contas à terra,
É o mesmo que ri da miséria e na vaidade se encerra.
Machado desnudou a elite com a ponta da pena,
Mostrando que a falsa nobreza é a nossa maior cena.
O Menino Prudêncio e o Espelho da Nossa Crueldade
Talvez a cena mais estarrecedora do romance — e a que melhor sintetiza a psicologia do mandonismo brasileiro — seja a memória de infância em que o pequeno Brás Cubas montava às costas de Prudêncio, um garoto escravizado da casa. O pequeno herói da elite usava o menino negro como cavalo, chicoteando-o e mandando-o obedecer sem dar um pio.
Anos mais tarde, já adulto, Brás presencia Prudêncio, agora liberto, espancando brutalmente um outro escravo que havia comprado no mercado. Ao ser repreendido por Brás, Prudêncio justifica a pisa dizendo que o escravo era dele.
Em poucas linhas, Machado opera uma lição sociológica estarrecedora: a violência do opressor não apenas esmaga o oprimido, mas muitas vezes infecta a sua estrutura de sobrevivência, perpetuando o ciclo de dominação. O privilégio cria uma cadeia de perversidade onde todos tentam achar alguém abaixo de si para pisar.
Por que Brás Cubas Ainda Dói Hoje?
Ao fechar o livro — que o próprio narrador dedica "ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver" —, a sensação não é de riso leve, mas de um incômodo profundo. Brás Cubas não ficou preso ao século XIX. Ele continua caminhando pelos gabinetes, pelas colunas sociais e nas estruturas de poder do Brasil contemporâneo.
Ler Memórias Póstumas no nosso Espaço do Livro é um ato de desmilitarização da ingenuidade. Machado de Assis nos ensina que para entender o Brasil é preciso aprender a ler o que está nas entrelinhas da cordialidade aparente. O cinismo de Brás Cubas é o espelho de um país que ainda luta para enterrar os seus fantasmas patriarcais e para transformar o direito de poucos em dignidade para todos.
A comédia de Machado é trágica. E o defunto, mais de cem anos depois, continua terrivelmente vivo.
Para Continuar a Conversa no Portal:
"O que mais impressiona você na escrita de Machado de Assis: a ironia fina com que ele critica os poderosos ou a atualidade das suas observações sobre o comportamento humano? Deixe seu comentário e participe do debate!"