sábado, 30 de maio de 2026

JK: O Acidente Perfeito Que a História Desfez

Como a ciência forense e a revisão histórica desarmaram a farsa do "acidente de trânsito" e provaram o assassinato político do fundador de Brasília pela ditadura.



Há crimes tão cirúrgicos que dependem menos da pólvora e mais do cinismo. Durante exatamente cinquenta anos, o Estado brasileiro sustentou que a morte de Juscelino Kubitschek, na tarde de 22 de agosto de 1976, fora uma trágica ironia do destino: um Opala que perde o controle na Via Dutra após o toque de um ônibus e colide contra uma carreta. Pronto. Um acidente. Quem duvidaria? A dúvida, afinal, foi o álibi perfeito de uma ditadura que preferia o silêncio dos necrotérios disfarçados à publicidade dos pelotões de fuzilamento.

No entanto, a verdade histórica possui uma teimosia biológica. A aprovação, por ampla maioria (6 votos a 1), do novo relatório da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) rasga a versão oficial e reescreve a historiografia: JK foi assassinado pelo regime civil-militar. Mais do que um rito burocrático, a decisão joga luz sobre o perturbador inverno de 1976 e 1977, período em que as principais vozes da redemocratização nacional foram extirpadas do mapa em um intervalo cirúrgico de nove meses.

Para compreender o tamanho do "incômodo" que o fundador de Brasília representava, é preciso recuar ao tabuleiro da época. Sob o pretexto de uma abertura "lenta, gradual e segura" acenada pelo general Ernesto Geisel, a linha-dura do Exército e o aparato do DOI-Codi operavam nos porões para garantir que o poder jamais escapasse de suas mãos. JK não era um ex-mandatário nostálgico; era uma ameaça eleitoral iminente. Se o voto direto fosse devolvido ao povo, o homem que simbolizava os anos de ouro do desenvolvimento, da Bossa Nova e da estabilidade democrática venceria com folga.

A máquina de repressão sabia disso. Tanto sabia que o cerco se apertou semanas antes. Em 7 de agosto de 1976, catorze dias antes da colisão fatal, um robusto "alarme falso" circulou pelo país anunciando a morte de Juscelino em Goiás. Ao isolamento da fazenda sem telefone, seguiu-se o retorno às pressas do líder para desmentir o boato à imprensa. Foi ali que ele proferiu a frase premonitória ao seu secretário particular: "Estão querendo me matar, mas ainda não conseguiram". Conseguiram duas semanas depois. O disfarce da fatalidade evitou a revolta popular que uma prisão escancarada provocaria.

O que o novo parecer da CEMDP faz, amparado por investigações do Ministério Público Federal, é demolir a física do cinismo. A perícia moderna comprovou que a suposta colisão do ônibus da Viação Cometa na traseira do Opala nunca aconteceu. Sem o impacto inicial, cai o castelo de cartas. Soma-se a isso o sumiço de provas, a desmontagem relâmpago do veículo sob custódia e a ausência de exames toxicológicos no motorista Geraldo Ribeiro. O "acidente perfeito" era, na verdade, uma fraude grosseira protegida pelo fardamento do Estado.

Essa confirmação tardia projeta uma sombra inevitável sobre os outros dois vértices da "Frente Ampla". Como crer em mera coincidência quando, logo após JK, João Goulart morre de um ataque cardíaco sob suspeita de medicamentos adulterados na Argentina, e Carlos Lacerda falece no Rio de Janeiro devido a uma infecção hospitalar fulminante? A tese de uma "limpeza de terreno" coordenada pela Operação Condor deixa de ser um roteiro de conspiração popular para se consolidar como lógica de eliminação política.

Em um Brasil cindido, onde até o passado virou trincheira ideológica, a reação a essa decisão oscila entre o ceticismo prático e a instrumentalização partidária. Setores mais pragmáticos dirão que "nada muda", afinal, os algozes estão mortos e a Lei da Anistia de 1979 blindou os crimes de sangue. Outros tentarão reduzir o relatório a uma mera "narrativa" da atual gestão federal de esquerda.

Mas reduzir esse desfecho à pequenez da disputa eleitoral presente é um erro de perspectiva histórica. O que muda para o Brasil é o direito à memória coletiva. A retificação da certidão de óbito de Juscelino Kubitschek é um ato de soberania da verdade sobre a mentira oficial. O Estado que matou o homem é o mesmo que hoje é obrigado a registrar o crime em letras públicas. Cinquenta anos depois, a justiça criminal pode ter sido sepultada pelo tempo, mas a História, finalmente, retirou dos assassinos o benefício da dúvida.

O Poema de Deus — Como as Boas Obras dão Sentido à Sua Vocação

No quarto dia da nossa caminhada, analisamos a carta de Paulo aos Efésios para compreender que somos a obra de arte viva do Criador, salvos e vocacionados para transformar o mundo real através de atitudes práticas no nosso cotidiano.



“Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou de antemão para que andássemos nelas.” 
— Efésios 2:10

 

A Mensagem: A Obra-Prima em Movimento

Até aqui, descobrimos que nossa existência foi intencional, nosso design é exclusivo e nosso chamado foi antecipado na eternidade. No quarto dia, o apóstolo Paulo nos mostra o caráter prático de tudo isso. Ele utiliza uma palavra extraordinária no texto original grego para se referir a nós: poiema (traduzida como "feitura" ou "obra-prima"). É a palavra de onde deriva o nosso termo moderno poema.

Isso significa que a sua vida é a poesia viva de Deus escrita na história. Mas um poema não é feito para ficar guardado em uma gaveta escura; ele é feito para ser lido, para emocionar e para inspirar. Paulo afirma que fomos recriados em Cristo com um objetivo muito claro: a prática das boas obras.

O texto vai além e revela um detalhe reconfortante: essas boas obras não são improvisadas. Deus já pavimentou o caminho e preparou essas oportunidades "de antemão". O nosso papel não é construir a estrada do zero, mas caminhar nela, atentos às oportunidades diárias de servir que o Senhor coloca diante de nós.

Conexão com os Dias de Hoje: O Propósito Longe dos Palcos

Em uma cultura digitalizada, fomos sutilmente condicionados a acreditar que "fazer grandes coisas" significa ter milhares de seguidores, palcos iluminados ou projetos de alcance mundial. O ativismo virtual muitas vezes substitui a ação real: achamos que mudar o mundo se resume a compartilhar uma hashtag ou curtir uma causa social na tela do celular.

Trazer Efésios 2:10 para a nossa realidade é resgatar o valor do cristianismo prático e encarnado na rotina:

* As boas obras acontecem no ordinário: O propósito de Deus se manifesta quando você usa a sua profissão — seja você um contador, um professor, um profissional de saúde ou um comerciante — para agir com justiça, ética e excelência. As "boas obras" são o amor de Deus traduzido em serviço ao próximo.

* O poema é lido no dia a dia: A sua paciência com um cliente difícil, a sua honestidade em um contrato onde ninguém estava olhando, o seu apoio a um projeto social na sua cidade ou o cuidado com os mais vulneráveis são as estrofes do poema de Deus sendo lidas pelas pessoas ao seu redor.

Você não precisa de um grande palco para cumprir o seu propósito. Você precisa apenas de um coração atento. Onde você estiver hoje, existem "boas obras" que Deus já deixou preparadas com o seu nome nelas. O seu chamado é simplesmente dar o próximo passo e agir.

💬 Para Refletir e Compartilhar:

Olhando para o seu ambiente de trabalho ou para a sua comunidade hoje, quais são as "boas obras" práticas que Deus já deixou preparadas para você realizar? Como você pode ser a poesia de Deus na vida de alguém nesta semana?

sexta-feira, 29 de maio de 2026

O Chamado Antecipado — Por Que o Seu Propósito Não Começa do Zero

Neste terceiro dia da nossa jornada, viajamos até o chamado do profeta Jeremias para descobrir que Deus já havia pavimentado a nossa missão muito antes de termos consciência dela, desconstruindo a ansiedade de tentar inventar um destino por conta própria.




“Antes de formá-lo no ventre eu o escolhi; antes de você nascer, eu o separei e o designei profeta às nações.”

— Jeremias 1:5


A Mensagem: Escolhidos Antes do Primeiro Suspiro

Nos dois primeiros dias, compreendemos que carregamos a imagem do Criador e que fomos tecidos de forma artesanal e exclusiva. Hoje, o texto bíblico dá um salto ainda mais ousado no tempo: nós retrocedemos para a eternidade passada. Na conversa de Deus com o jovem Jeremias, descobrimos que o chamado divino não é uma reação tardia ao nosso nascimento, mas um projeto que precede a nossa própria existência.

Deus usa três verbos poderosos que mudam nossa perspectiva de futuro: escolhi, separei e designei. Quando Jeremias ouviu isso, ele provavelmente sentiu o peso da responsabilidade e tentou recuar, argumentando que era apenas uma criança e não sabia falar (Jeremias 1:6). A resposta de Deus, no entanto, deixou claro que a eficácia da missão não dependia da autoconfiança de Jeremias, mas da soberania de Quem o havia comissionado na eternidade.

Isso significa que você não precisa gastar energia tentando "inventar" um propósito para a sua vida a partir do nada. Você não entra no mundo como uma folha em branco para escrever o que bem entender; você entra como uma narrativa planejada por Deus, cujo desafio é descobrir e se alinhar com o Enredo original do Autor.

Conexão com os Dias de Hoje: A Angústia da AutoInvenção

A cultura contemporânea repete exaustivamente o mantra: "Você pode ser o que você quiser, basta criar o seu próprio destino". Embora pareça uma frase libertadora e motivacional, na prática, ela funciona como uma fábrica de ansiedade. Carregar o peso absoluto de ter que inventar o próprio sucesso, escolher a carreira perfeita e construir uma marca pessoal infalível tem gerado uma juventude e adultos exaustos, paralisados pelo medo de errar a rota.

Trazer as palavras de Jeremias para a realidade de hoje é encontrar um alívio profundo para a mente:

O propósito é descoberto, não inventado: Você não carrega o peso de criar um sentido para a sua vida. O seu papel é se aproximar de Deus em oração, leitura e serviço, permitindo que Ele revele as pistas daquilo que Ele já estabeleceu para você.

Deus não depende da sua autossuficiência: Assim como Jeremias olhou para as suas próprias limitações, nós costumamos olhar para a nossa falta de recursos, nossa timidez ou nossa história familiar e pensar: "Eu não dou conta". Deus não chama os capacitados, Ele capacita os escolhidos antes do ventre.

Seu trabalho, seus dons intelectuais, sua sensibilidade para os problemas da sua comunidade e a sua vocação não são ideias que você teve ontem. São desdobramentos de um decreto eterno. Quando você alinha o seu cotidiano com a vontade do Pai, você para de correr atrás do vento e passa a caminhar sobre solo firme.

💬 Para Refletir e Compartilhar:

Você já se sentiu ansioso ou paralisado tentando descobrir o que fazer com o seu futuro? Como acalma o seu coração saber que Deus já tinha um plano para você antes mesmo do seu primeiro suspiro?

quinta-feira, 28 de maio de 2026

Um Couro Anunciado: O Zabumba Furado de Zé Salú

Um causo de fé, pífanos e teimosia nos terreiros de Japaratuba, onde a força de um braço desafiou o couro velho da tradição.



O ano exato a memória dos mais velhos não dita com precisão — teria sido no miolo dos anos 70 ou já no romper dos 80 —, mas a poeira que levantava no terreiro do Jirau, ali perto do povoado Sibalde, em Japaratuba, era daquelas que o tempo não consegue assentar.

A casa de Zé Salú era um monumento de taipa forte: paredes grossas de barro batido que guardavam o frescor da terra, teto alto de telhas canal e uma varanda espaçosa que parecia abraçar quem chegava. Naquele dia de promessa paga, o ar estava impregnado pelo cheiro doce do mungunzá, do bolo de macaxeira e pelo aroma cortante da cachaça boa que rodava em canecos de alumínio. No centro da sala, imponente, o altar erguia-se coberto de flores de papel crepom e velas acesas em honra a Santo Antônio. Entre o sagrado e o profano, a fé se vestia de festa.

Zé Salú, o dono da casa, circulava com sua estampa de respeito. Tinha uma voz grossa, imponente, que parecia sair do chão, embora já trouxesse o compasso cansado dos anos. Ele aguardava os tocadores para a "vena" — aquele momento sagrado em que a música se curva diante do altar em profunda veneração.

Para a empreitada, viera a Banda de Pífanos de Encruzilhadas (que o futuro batizaria, com justiça, de Geração em Geração). Entre os músicos, o jovem Mestre Jailson já mostrava que o sopro no pífano era herança viva. O terno estava quase completo, não fosse pelo detalhe mais rústico da noite: o zabumba da casa. O instrumento era um veterano de guerra, com o couro tão gasto, fino e reluzente que quase dava para ver o outro lado.

E foi aí que o destino vestiu calças compridas e atendeu pelo nome de Zé Paulo.

Zé Paulo chegou, botou o olho naquele couro sofrido e sorriu por dentro. Ele conhecia a lei da terra: zabumba de resguardo só ganha couro novo quando o velho fura. E Zé Paulo, com o bacalhau na mão e o sangue fervendo na juventude da época, decidiu que aquela noite seria de renovação.

O terno começou a esquentar o ambiente antes da vena. O pífano chorou agudo, os pratos repicaram e Zé Paulo desceu o braço. Cada pancada no zabumba ecoava nas paredes de taipa como um tiro de bacamarte.

"Seu Humberto, fale com Zé Paulo..." — cochichou Zé Salú, coçando a cabeça, agoniado com o cataclismo sonoro — "...vai me furar o zabumba!"

Seu Humberto, irmão do tocador e homem de paciência infinita, apenas deu de ombros com um sorriso amarelo. Sabia o irmão que tinha.

Zé Salú, fingindo a fidalguia de um anfitrião sereno, começou a rodear os músicos. Passava devagar, olhava o couro sofrer e, sem coragem de quebrar a etiqueta da hospitalidade com um grito, soltava sua ironia em tom de barítono:

Boa, Zé Paulo!

E Zé Paulo, entendendo o "boa" como um combustível, caprichava ainda mais no peso da mão.

A cena virou um compasso repetitivo. A banda já passava da décima canção popular, o terreiro fervilhava, e o drama se dividia em três atos que se repetiam a cada música:

Primeiro, O Apelo: Zé Salú ia ao pé do ouvido de Seu Humberto: “Pelo amor de Deus, homem, segure seu irmão, que ele vai me furar o zabumba!”

Segundo, A Ronda: Zé Salú caminhava em volta do terno, com a língua coçando para tomar o bacalhau da mão do cabra.

E terceiro, O Elogio Irônico: Ele parava, olhava a elasticidade milagrosa do couro e soltava o eco de sua voz grossa: “Boa, Zé Paulo! Dá-lhe, Zé Paulo!”

Era uma crônica da tragédia anunciada. Zé Salú vigiava o instrumento como quem vigia um copo de cristal na beira da mesa.

Não deu outra. Antes mesmo que os pífanos puxassem as primeiras notas da vena para Santo Antônio, ouviu-se um som seco, um estalo surdo que cortou a harmonia do Jirau. O som de algo que cansou de resistir.

O terno parou. Zé Paulo, com a maior cara de paisagem do mundo, olhou para o rombo no meio do instrumento, levantou os olhos para o anfitrião e soltou a fatídica notícia:

— Seu Zé, o zabumba furou!

O silêncio durou um segundo na varanda de taipa. Zé Salú, que passara a noite em um teste cardíaco, olhou para o estrago, soltou os ombros exausto e desabafou com sua voz de trovão:

Também só pode! Uma pancada da peste dessa!

A varanda desabou em uma gargalhada geral. O próprio Zé Salú, rendido ao absurdo da cena e à audácia do tocador, riu até chorar, contagiando Seu Humberto, Mestre Jailson e todo o Sibalde presente.

O alvoroço foi grande para arranjar outro instrumento para terminar a noite, mas em Japaratuba, terra onde o pífano corre nas veias e a vizinhança é uma grande família de noveneiros, não demorou dez minutos para aparecer outro zabumba — este, felizmente, com o couro novo.

A vena foi feita, Santo Antônio foi louvado, e a história entrou para o folclore das Encruzilhadas, provando que na cultura nordestina, até o que fura, vira festa.

O Nó da Escala 6x1: Entre a Exaustão Humana e a Saída pelo Cooperativismo

A necessidade urgente de humanizar as relações de trabalho no varejo, enfrentando as contradições do mercado consumidor e encontrando no associativismo a resposta para a sobrevivência do pequeno negócio.




A discussão que tomou conta do Congresso Nacional e das redes sociais sobre o fim da escala 6x1 não é um mero capricho trabalhista; é um debate civilizatório sobre a dignidade humana. A proposta de Emenda à Constituição (PEC) que visa reduzir o teto da jornada semanal de 44 para 40 horas expõe as entranhas de um modelo de produção que, no comércio e no varejo, estruturou sua lucratividade sobre o esgotamento físico e mental de quem está na base.

Viver para trabalhar seis dias e descansar apenas um não é sustentável. O chamado "dia de folga" transformou-se em um simulacro de descanso — um hiato de 24 horas utilizado puramente para a recuperação biológica de um corpo exausto, sacrificando o convívio familiar, o lazer, a cultura e a saúde mental. O florescimento alarmante da Síndrome de Burnout, do estresse crônico e dos afastamentos médicos é o sintoma óbvio de uma sociedade que transformou a vida em sinônimo exclusivo de produção.

No entanto, quando a corda estica, o debate esbarra na assimetria brutal do modo de produção capitalista. Se a grande indústria e as corporações tecnológicas assimilam reduções de jornada através da automação e do ganho de escala, o varejo tradicional e o pequeno setor de serviços operam sob a lógica do "tempo-presença". A padaria do bairro, a loja de confecções da esquina ou o pequeno restaurante dependem do olho no olho e da porta aberta. Nesses segmentos, reduzir horas sem redução salarial exige novas contratações que o manejo financeiro engessado do pequeno empresário, muitas vezes esmagado por tributos e grandes concorrentes, alega não conseguir absorver.

Aí reside a grande contradição do sistema: a mentalidade patronal majoritária se recusa a abrir mão de suas margens de lucro para garantir o bem-estar social, enquanto os pequenos negócios correm o risco real de sufocamento sob as regras do jogo ditadas pelos grandes conglomerados de produção.

É justamente nesse impasse que surge uma alternativa esquecida e potente: o cooperativismo. Se isolado o pequeno comerciante não tem o manejo de faturamento necessário para competir com os gigantes e garantir direitos humanos aos seus funcionários, a associação horizontal muda as regras do jogo.

Ao unirem-se em redes de cooperação, pequenas empresas conquistam poder de compra coletivo perante a grande indústria, dividem custos operacionais antes proibitivos — como tecnologias de automação, logística e marketing — e fortalecem a economia local. Mais do que isso, o cooperativismo subverte a lógica da acumulação cega de um único patrão, ancorando a sustentabilidade do negócio no desenvolvimento mútuo da comunidade.

O fim da escala 6x1 é urgente e inegociável se quisermos uma sociedade minimamente saudável. Mas para que essa transição não sirva de pretexto para o esmagamento do pequeno comércio pelos monopólios, o Brasil precisa entender que a saída não está na manutenção da exploração, mas na reorganização da economia. O cooperativismo mostra que é possível competir com os gigantes, manter as portas abertas e, acima de tudo, devolver ao trabalhador o direito sagrado ao tempo e à dignidade familiar. A economia deve, afinal, servir à vida — e não o contrário.

O Falso Vilão e a Realidade do Mercado Consumidor

Muito se fala na carga tributária ou no peso do aluguel comercial como os grandes algozes que inviabilizam a sobrevivência do pequeno comerciante diante de novas conquistas trabalhistas. Essa narrativa, contudo, opera como uma cortina de fumaça conveniente. Culpar o Estado ou a imobiliária é esconder as deficiências profundas do mercado consumidor de cada região, ignorando que o verdadeiro travamento do pequeno negócio nasce de duas forças combinadas: a concorrência predatória e o consumo insuficiente.

Entendemos que a carga tributária, de fato, é sufocante. Porém, existe o planejamento tributário e a assessoria contábil justamente para encontrar formas legais de minimizar os custos e maximizar os lucros, pois, essa é a premissa maior do sistema capitalista, o lucro em primeiro lugar. Vamos supor que um pequeno comerciante fature R$ 20.000,00 por mês, o lucro presumido é de 8%, ou seja, apenas R$ 1.600,00. Então, essa é a média de faturamento para chegar a "sobrar" esse valor. O lucro real dependeria de fazer uma DRE (Demosntração do Resultado do Exercício).

Agora, vamos para os impostos pelo Simples Nacional. Os impostos irão depender do regime tributário. 20 mil por mês, daria 240 mil por ano. Isso implica em uma carga tributária mínima de 6% a 7% e máxima de 22%. Isso quer dizer o problema está no volume do faturamento, por isso, o MEI democratiza esse processo, porém está restrito a apenas R$ 6.750,00 mensais. 

Então, o pequeno comércio não sufoca apenas porque paga impostos — afinal, os grandes conglomerados também os pagam, muitas vezes valendo-se de elisões fiscais e incentivos que o comerciante de bairro nem sequer acessa. O pequeno sufoca porque o poder de compra da população local é historicamente baixo e mal distribuído. Quando a classe trabalhadora regional recebe salários de subsistência e gasta a totalidade dos seus ganhos apenas para cobrir o básico, o mercado consumidor local se torna raquítico. Não há faturamento que se sustente onde não há capacidade de consumo.

Somado a isso, a concorrência desleal dos gigantes de produção drena o pouco capital que circula nessas comunidades. Sem a escala para barganhar preços ou a tecnologia para otimizar processos, o comércio de bairro assiste à fuga de seus clientes para as grandes redes. Portanto, o debate sobre a viabilidade econômica do fim da escala 6x1 precisa abandonar a velha muleta do "custo Brasil" tributário e encarar a realidade: o pequeno comerciante só prosperará quando a população da sua própria região tiver dinheiro no bolso para consumir e quando o cooperativismo quebrar o monopólio da concorrência, fortalecendo a circulação da riqueza local.

Tecidos no Ventre: O Cuidado Artesanal de Deus na Construção da Sua História

Neste segundo dia da nossa jornada, olhamos para a poesia do Salmo 139 para entender que nossas características, nossa história e até nossas peculiaridades foram planejadas sob medida pelo Criador, libertando-nos do peso da comparação.




“Tu criaste o íntimo do meu ser e me tecestes no ventre de minha mãe. Eu te louvo porque me fizeste de modo especial e admirável. Tuas obras são maravilhosas! Disso tenho plena certeza.”

Salmo 139:13-14


A Mensagem: O Design Exclusivo de Deus

No primeiro dia, compreendemos que a humanidade, de forma coletiva, carrega a imagem e semelhança de Deus. Hoje, o Salmo 139 estreita o foco e traz essa verdade para o nível individual: Deus não apenas planejou a espécie humana, Ele planejou você.

O salmista Davi utiliza uma metáfora belíssima e artesanal ao dizer que fomos tecidos no ventre materno. Na língua original do texto, essa expressão remete ao trabalho minucioso de um tecelão que entrelaça fios coloridos para formar uma tapeçaria única. Cada traço da sua personalidade, seu temperamento, a cor dos seus olhos, sua sensibilidade para a arte ou sua inclinação para a lógica — tudo foi calculado.

Deus não usa fôrmas industriais para produzir pessoas em série. Ele é o Artista Supremo. Isso significa que as suas ferramentas naturais e a sua bagagem biológica não são erros de percurso. Você foi feito de modo "especial e admirável" porque o seu propósito exige que você seja exatamente quem você é.

Conexão com os Dias de Hoje: O Veneno da Comparação

Se há um mal que adoece a nossa geração, esse mal se chama comparação. Ao abrirmos as redes sociais, somos inundados pelo sucesso alheio, pela estética perfeita dos influenciadores, pelas conquistas profissionais rápidas e pelo estilo de vida de quem parece ter "vencido na vida" muito antes de nós. O resultado? Uma sensação crônica de insuficiência. Começamos a desejar o talento do outro, a rotina do outro e a identidade do outro.

Trazer o Salmo 139 para o ano de 2026 é um antídoto contra essa frustração digital:

* Olhe para a sua própria tapeçaria: Quando você deseja a vida de outra pessoa, você está rejeitando o fio que o Grande Tecelão usou na sua própria história. A pressa do mundo tenta padronizar o que Deus fez para ser diverso.

* A autenticidade é um chamado espiritual: O mundo não precisa de uma cópia malfeita de ninguém; o mundo precisa que você ocupe o lugar que foi desenhado especificamente para as suas mãos.

Sua história, com seus altos e baixos, e sua personalidade são as ferramentas exatas que Deus quer usar para abençoar a sua comunidade, o seu ambiente de trabalho e a sua família. Descansar no design de Deus nos liberta da necessidade de competir e nos permite cooperar.

### 💬 Para Refletir e Compartilhar:

Você já se pegou desejando ter o temperamento ou a vida de outra pessoa esta semana? Como muda o seu dia saber que Deus gastou tempo tecendo cada detalhe de quem você é?

quarta-feira, 27 de maio de 2026

O Palco Contra a Pena: O Esvaziamento da Identidade no Festival de Poesia de Japaratuba

A ausência de veteranos da terra e a insatisfação com critérios que priorizam a performance teatral em detrimento da literatura de raiz acendem o debate sobre a perda de identidade cultural no tradicional certame de Japaratuba.



O anúncio do resultado final da triagem das poesias classificadas para o XXVIII Festival de Poesia de Japaratuba traz consigo mais do que uma lista de nomes e pontuações frias. Traz à tona, novamente, um eco de insatisfação que reverbera nos bastidores culturais do município há mais de uma década. Diante de uma tabela dominada por notas técnicas e uma pulverização de concorrentes de outras cidades, a pergunta que não quer calar nos cantos da cidade é uma só: Cadê os poetas japaratubenses?

A crise de identidade do festival não é nova. Para compreendê-la, precisamos retroceder a 2013, ano em que o certame sofreu um duro golpe de credibilidade quando uma delegação de poetas lagartenses, frustrada com os rumos organizacionais e os critérios de avaliação, retirou-se de cena desapontada. O que parecia um caso isolado de "bairrismo" ou "dor de cotovelo" revelou-se o sintoma de uma doença crônica que acabou por afastar os maiores tesouros da própria casa.

Onde estão as vozes de veteranos da terra como Darquiran Costa, o Poeta Afamado, Flávio Hora e Antônio Glauber? A ausência desses baluartes na linha de frente do festival não é fruto de escassez de talento ou de ócio criativo. É um boicote silencioso. É o cansaço daqueles que se recusam a submeter a pureza da sua escrita ao crivo de uma produção majoritariamente teatral, muitas vezes travestida de poesia.

A Ditadura da Performance sobre a Escrita

O nó górdio dos festivais de poesia contemporâneos reside na confusão milenar entre o texto literário e a performance de palco. O que deveria ser uma celebração da métrica, da rima, do sentimento lapidado na ponta da caneta — a essência do Cordel e da poesia de raiz que o prêmio tanto evoca homenagear — transformou-se em um espetáculo cênico.

Ganha mais pontos quem grita mais alto, quem chora melhor ou quem domina as técnicas de expressão corporal aprendidas em oficinas de teatro na capital. O texto, a alma do poeta, virou mero coadjuvante de um show de entretenimento formatado para agradar jurados que, muitas vezes, operam sob planilhas burocráticas e distantes da realidade lírica do interior sergipano.

Para o poeta tradicional, aquele que traz a oralidade na sua forma mais pura e despida de artifícios acadêmicos ou cênicos, o palco virou um ambiente hostil. Pra que se submeter a isso?

A Lição Incompossível de Gibras

Para ilustrar a miopia desse formato, basta lembrar o ano de 2013, quando o festival homenageou o saudoso poeta Gibras. Um homem cuja genialidade e importância para a cultura de Japaratuba são inquestionáveis. No entanto, há uma ironia dolorosa nessa homenagem: Gibras partiu sem nunca ter vencido o festival que o aplaudiu de pé.

A história de Gibras prova que a legitimidade cultural não cabe dentro de uma nota de 0 a 10 dada por uma banca itinerante. O respeito do povo e dos seus pares é imutável, enquanto as decisões dos júris de festival são efêmeras e, frequentemente, injustas. Se os nossos maiores nomes precisam ser ignorados em vida pelos critérios do concurso para só serem validados após a morte através de homenagens póstumas, o mecanismo está quebrado.

Um Festival para Quem?

É fundamental reconhecer que o Festival de Poesia de Japaratuba é um patrimônio que projeta o município regionalmente e atrai oxigênio cultural de fora. A integração com poetas de Estância, Capela e Aracaju é rica. Contudo, a universalidade do evento não pode acontecer às custas do epistemicídio da cultura local.

Se o festival continuar a priorizar a "produção teatral" em detrimento da literatura de raiz, ele continuará a ver suas maiores mentes locais se retirarem para o silêncio de suas casas. Homenagear o Mestre Ninizio na edição deste ano é um passo bonito, mas contraditório, se o formato do evento sufoca os herdeiros diretos dessa mesma tradição.

Japaratuba precisa urgentemente repensar o seu festival. É preciso criar salvaguardas para a poesia da terra, equilibrar o peso entre o texto escrito e a performance cênica, e, acima de tudo, resgatar o respeito dos seus veteranos. Caso contrário, o Barracão Cultural continuará cheio de luzes e aplausos, mas profundamente vazio da verdadeira alma japaratubense.