sábado, 7 de março de 2026

ENÉAS NÃO ERA BOLSONARISTA: Ele era contra o "sistema", mas, não contra o Estado.

A tentativa de transformar Enéas Carneiro em ícone da nova direita revela um equívoco histórico sobre seu nacionalismo estatista e sua crítica ao capital financeiro.



Existe um abismo intelectual e metodológico entre o nacionalismo desenvolvimentista de Enéas Carneiro e o populismo de direita que tomou o Brasil na última década. Enéas foi "sequestrado" e simplificado para servir a uma agenda que, em muitos aspectos, ele próprio combateria.

O Enéas que a Direita Esconde: O Nacionalismo de Ferro vs. o Populismo de Papel

A política brasileira recente vive de simulacros. Um dos mais curiosos é a ressurreição digital de Enéas Carneiro, transformado em "garoto-propaganda" de uma direita que, em qualquer debate sério, ele classificaria como entreguista, ignorante e lacaia do sistema financeiro.

A direita e a extrema direita utilizam cortes de vídeo de Enéas atacando Lula e o PT para validar seu próprio discurso. No entanto, ao fazerem isso, cometem um estelionato intelectual: usam a agressividade da forma para esconder que o conteúdo de Enéas é o oposto absoluto do projeto liberal-conservador que governa essa ala.

1. O Falso Profeta da "Liberdade Econômica"

A direita atual prega o Estado mínimo, o teto de gastos e as privatizações. Enéas Carneiro, por outro lado, era um estatista convicto. Para ele, a venda de empresas como a Vale do Rio Doce ou a Eletrobras não era "eficiência de mercado", mas sim um crime de lesa-pátria.

Enéas defendia que o Estado deveria ser o senhor absoluto da energia, das telecomunicações e dos recursos minerais. Se a direita hoje quer vender o que resta do patrimônio público, Enéas queria reestatizar o que foi vendido. O uso de sua imagem para defender políticas neoliberais é, no mínimo, uma ironia histórica.

2. Soberania vs. Alinhamento Servil

Enquanto a extrema direita brasileira se notabilizou por bater continência para bandeiras estrangeiras e buscar a benção de Washington, Enéas pregava o isolamento soberano. Seu projeto de Brasil incluía a denúncia do Tratado de Não Proletiferação Nuclear e a construção da bomba atômica.

Ele não atacava o PT por ser "comunista" no sentido ideológico de costumes; ele atacava o PT por considerar que o partido, ao chegar ao poder, se curvou ao FMI e ao Consenso de Washington. Para Enéas, a direita que hoje o exalta seria vista como ainda mais submissa e perigosa para a soberania nacional.

3. A Técnica contra o Anti-intelectualismo

Talvez o maior abismo esteja na formação. Enéas era a personificação do cientificismo e da erudição. Sua crítica a Lula não era baseada em ódio de classe, mas na convicção de que o Estado deve ser gerido por uma elite técnica e intelectual.

A direita que hoje nega a ciência, ataca as universidades e promove o negacionismo, é o oposto do homem que lia um livro por dia e defendia que a solução para o Brasil passava pela física, pela matemática e pela tecnologia de ponta. Enéas não teria paciência para o discurso anticientífico que permeia os grupos que hoje usam sua foto no perfil.

4. O "Sistema" que Enéas Realmente Odiava

A direita usa o termo "sistema" para falar de tribunais ou da imprensa. O "sistema" de Enéas era o Capital Financeiro. Ele chamava os banqueiros de "agiotas" e a dívida pública de "mecanismo de transferência de renda dos pobres para os ricos".

A ironia atinge o ápice quando vemos políticos que entregaram a economia a bancos e fundos de investimento citando um homem que defendia a moratória da dívida e o controle estatal do crédito.

Conclusão: Um Rosto Sem Voz

A direita "eneísta" é uma farsa estética. Eles amam o Enéas que grita, o Enéas que aponta o dedo para o PT e o Enéas que fala em "família". Mas eles pavorizam o Enéas que defenderia impostos sobre grandes fortunas para financiar a indústria nacional, o Enéas que expulsaria investidores estrangeiros de setores estratégicos e o Enéas que exigiria que cada político tivesse, no mínimo, um profundo conhecimento da história e da geografia do seu país.

Enéas Carneiro não era um precursor da nova direita; ele era o último dos nacionalistas desenvolvimentistas. Usá-lo para desconstruir a esquerda em nome do liberalismo é uma confissão de que essa direita não tem heróis próprios que suportem o peso de um debate técnico.


quinta-feira, 5 de março de 2026

Novo Imperialismo Global? O Mundo em Conflito e o Desafio do Brasil em 2026

 O Eclipse da Soberania: a Doutrina do Caos e o Papel do Brasil em 2026



O ano de 2026 começa sob um clima de tensão geopolítica crescente. Analistas internacionais têm apontado que o sistema global baseado em protocolos diplomáticos e regras multilaterais enfrenta um momento de ruptura. Em vez da previsibilidade institucional que marcou grande parte do pós-Segunda Guerra Mundial, o mundo parece caminhar para uma fase em que decisões unilaterais e ações diretas substituem mecanismos tradicionais de negociação.

Nesse cenário, cresce o debate sobre o que alguns estudiosos têm chamado de “eclipse da soberania” — uma metáfora para o enfraquecimento do princípio de respeito à autonomia dos Estados no sistema internacional.

A transformação da política internacional

Nas últimas décadas, a política externa das grandes potências oscilou entre diplomacia, pressão econômica e intervenções militares indiretas. Entretanto, os acontecimentos recentes sugerem uma mudança mais profunda na forma como conflitos e disputas estratégicas são conduzidos.

A lógica emergente parece priorizar ações rápidas e diretas, justificadas por argumentos como combate ao terrorismo, contenção nuclear ou defesa da segurança internacional. Na prática, isso tem ampliado o debate sobre os limites entre segurança global e intervenção unilateral.

Críticos dessa abordagem afirmam que tais medidas criam um precedente delicado: quando potências globais passam a agir fora dos mecanismos multilaterais, a estabilidade do sistema internacional pode ser comprometida.

O risco de um novo ciclo de polarização

A reação de outras potências globais indica que o mundo pode estar entrando em uma nova fase de polarização geopolítica. Países com interesses estratégicos divergentes tendem a se reorganizar em blocos de influência, retomando uma dinâmica semelhante à da Guerra Fria — embora agora em um ambiente muito mais complexo, marcado por tecnologia militar avançada, guerra cibernética e disputas econômicas globais.

Esse cenário produz três consequências principais:

1. Instabilidade econômica internacional

Regiões estratégicas para o comércio global, como rotas energéticas e zonas produtoras de petróleo, tornam-se pontos sensíveis de tensão. Qualquer conflito ou bloqueio nessas áreas pode gerar impactos imediatos nos preços da energia e no comércio internacional.

Para países importadores ou exportadores de commodities, como o Brasil, isso significa volatilidade cambial e pressões inflacionárias.

2. Enfraquecimento das instituições multilaterais

Organizações internacionais criadas para mediar conflitos enfrentam dificuldades quando grandes potências optam por agir fora desses fóruns. Sem consenso entre os principais atores globais, instituições multilaterais podem perder capacidade de mediação e influência.

Esse tipo de fragilidade institucional já foi observado em outros períodos da história, quando sistemas internacionais entraram em crise antes de grandes reorganizações geopolíticas.

3. Redefinição de alianças globais

Com o aumento das tensões, países tendem a fortalecer alianças regionais ou blocos econômicos estratégicos. Esse movimento busca criar redes de proteção diplomática, comercial e militar diante de um ambiente internacional mais imprevisível.

O impacto para o Brasil

Para o Brasil, um cenário internacional instável representa desafios importantes. Como uma das maiores economias do hemisfério sul e líder natural da América do Sul, o país ocupa uma posição estratégica nas disputas geopolíticas contemporâneas.

Alguns dos principais impactos potenciais incluem:

Oscilações no mercado de energia, que afetam diretamente combustíveis e inflação.

Pressões diplomáticas externas, especialmente em temas sensíveis como recursos naturais, comércio e meio ambiente.

Mudanças nas cadeias globais de produção, que podem gerar tanto riscos quanto oportunidades econômicas.

Nesse contexto, a postura diplomática brasileira torna-se um fator central para preservar estabilidade e autonomia.

A importância da autonomia estratégica

Historicamente, a diplomacia brasileira construiu reputação baseada em três princípios fundamentais:

Respeito à soberania nacional

Defesa do multilateralismo

Busca por soluções pacíficas para conflitos

Esses pilares ajudaram o país a manter relações equilibradas com diferentes blocos internacionais. Em um cenário de crescente polarização global, essa tradição pode voltar a ganhar relevância.

Manter autonomia estratégica significa evitar alinhamentos automáticos e preservar a capacidade de dialogar com diferentes polos de poder.

O papel dos blocos regionais

Outro caminho estratégico para o Brasil está no fortalecimento da cooperação regional. Organizações multilaterais e fóruns de diálogo entre países do Sul Global podem servir como plataformas de coordenação política e econômica.

Blocos como o BRICS e a CELAC representam espaços importantes para articulação diplomática e construção de agendas comuns.

Além de ampliar o peso político coletivo, essas alianças podem reduzir a vulnerabilidade de países individuais diante de pressões externas.

A soberania econômica em debate

Outro ponto central dessa discussão envolve a relação entre geopolítica e economia. Crises internacionais frequentemente produzem efeitos internos em diversos países, desde variações cambiais até impactos no preço de alimentos e combustíveis.

Para a sociedade brasileira, compreender essa relação é essencial. Debates sobre inflação, política energética e comércio internacional não podem ser dissociados do contexto geopolítico mais amplo.

Um mundo em transformação

O cenário internacional de 2026 indica que o sistema global atravessa um período de transição. As regras que estruturaram a política internacional nas últimas décadas parecem estar sendo contestadas, enquanto novas formas de poder e influência emergem.

Nesse ambiente, países que conseguem preservar autonomia diplomática, fortalecer alianças estratégicas e proteger seus interesses econômicos tendem a navegar com mais segurança pelas turbulências globais.

Conclusão

O chamado “eclipse da soberania” simboliza um momento em que as regras do jogo internacional estão sendo questionadas. Para o Brasil, esse contexto exige atenção, estratégia e maturidade diplomática.

Mais do que escolher lados em disputas entre grandes potências, o desafio brasileiro será preservar sua autonomia, defender princípios de cooperação internacional e fortalecer sua posição regional.

Em tempos de incerteza global, a estabilidade de um país depende não apenas de sua força econômica ou militar, mas também de sua capacidade de agir com visão estratégica em um mundo cada vez mais complexo.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

​O Jogo de Empurra da Água: De quem é a culpa quando a torneira seca em Sergipe?

O jogo de empurra da água em Sergipe: quando a responsabilidade evapora antes de chegar à torneira

A cena se repete em diversas cidades sergipanas: a torneira seca, o cidadão se revolta, e começa o velho roteiro de justificativas. A prefeitura culpa a empresa, a empresa aponta problemas estruturais ou escassez, e, no fim, ninguém assume a responsabilidade. Mas afinal, de quem é a culpa quando falta água?

A resposta pode não ser confortável para muitos gestores públicos, mas é objetiva: a responsabilidade final é do município.

A Constituição não deixa dúvidas

De acordo com o Artigo 30 da Constituição Federal, cabe ao município organizar e prestar os serviços públicos de interesse local — e o saneamento básico está claramente incluído nessa definição. Isso significa que, independentemente de quem execute o serviço, a titularidade continua sendo da prefeitura.

Na prática, quando um município decide delegar o abastecimento de água a uma companhia estadual ou empresa privada, ele não transfere a responsabilidade — apenas a execução. O dever de fiscalizar, cobrar metas, exigir investimentos e garantir a qualidade do serviço permanece integralmente nas mãos do gestor municipal.

Ou seja: quando falta água, não basta o prefeito dizer “a culpa é da empresa”. Se o serviço é ruim, houve falha na escolha, na gestão ou na fiscalização do contrato.

Um sistema fragmentado, um problema compartilhado

O modelo atual em Sergipe evidencia uma divisão de responsabilidades que, na teoria, deveria funcionar de forma integrada:

A Companhia de Saneamento de Sergipe (DESO) cuida da captação e tratamento da água.

A Iguá Saneamento atua na distribuição em determinadas regiões.

Essa fragmentação cria um cenário propício para o “jogo de empurra”. Se a água não chega, a distribuidora pode alegar que não recebeu volume suficiente. Por outro lado, a empresa responsável pela produção pode afirmar que entregou corretamente.

E onde entra o prefeito? Justamente no ponto mais crítico: ele é o fiscal do contrato e o representante direto da população. Sua omissão diante de falhas recorrentes não é neutra — é conivente.

O paradoxo da abundância e da dependência

Mesmo com disponibilidade hídrica, muitos municípios abrem mão de gerir seus próprios sistemas, preferindo transferir a responsabilidade para estruturas estaduais.

O caso de Japaratuba é emblemático. Como um município autossuficiente em recursos hídricos opta por entregar seu sistema à gestão estadual em vez de estruturar um Serviço Autônomo de Água e Esgoto (SAAE)?

Dados do IBGE mostram que menos de 30% dos municípios brasileiros possuem quadro técnico qualificado para gerir o abastecimento. Muitas vezes, as prefeituras preferem "terceirizar o problema" para não arcar com o custo político e operacional da manutenção de bombas, encanamentos e tratamento químico. O resultado? Perda de soberania sobre o próprio recurso e dependência de decisões tomadas em gabinetes distantes da realidade local

A justificativa costuma ser técnica: falta de equipe qualificada, limitações financeiras e complexidade operacional. Mas essa decisão tem um custo político e estratégico: a perda de autonomia. Ao terceirizar o serviço, o município também se distancia da solução — e, muitas vezes, do controle.

Um problema que escorre pelos canos

Os números nacionais ajudam a entender a gravidade da situação:

  • Cerca de 40% da água tratada é perdida antes de chegar ao consumidor.
  • Menos da metade dos municípios possui políticas eficazes de proteção aos mananciais.
  • A região Nordeste concentra grande parte dos domicílios sem acesso regular à rede de abastecimento.

Esses dados não refletem apenas limitações técnicas, mas também falhas de gestão, planejamento e fiscalização.

O silêncio que custa caro

Quando gestores públicos deixam de agir com firmeza diante de contratos descumpridos, eles não estão apenas evitando desgaste político — estão comprometendo um direito básico da população.

Existem instrumentos legais claros: aplicação de multas, revisão contratual, acionamento judicial e até rescisão de contratos. O que frequentemente falta não é ferramenta, mas vontade política.

Conclusão: a responsabilidade tem endereço

O prefeito é o elo mais próximo entre o cidadão e o poder público. É nele que se deposita a confiança e a expectativa por soluções concretas.

Transferir culpa não enche caixa d’água.

A população precisa entender isso para cobrar corretamente. E os gestores precisam assumir o papel que a Constituição lhes atribui: não como espectadores do problema, mas como responsáveis diretos pela solução.

Enquanto o debate continuar preso ao “quem errou”, a água continuará faltando. O verdadeiro avanço começa quando se muda a pergunta para: quem vai resolver?

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

O Mito da Meritocracia: Por que a Justiça Social exige equidade, não apenas igualdade.

Justiça Social: o desafio de transformar crescimento em dignidade no Brasil


O dia 20 de fevereiro marca o Dia Mundial da Justiça Social, uma data instituída pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 2007, por meio da Resolução nº 62/10, e celebrada pela primeira vez em 2009. Mais do que simbólica, a data reforça um compromisso global: combater a pobreza, reduzir desigualdades, enfrentar o desemprego e promover direitos fundamentais com foco na dignidade humana.

No Brasil, porém, essa agenda ainda esbarra em desafios históricos e estruturais.

Um país de contrastes persistentes

A ideia de justiça social parte de um princípio simples: o lugar onde alguém nasce não deveria definir até onde essa pessoa pode chegar. No entanto, a realidade brasileira mostra um cenário bem diferente.

O país convive com uma das maiores concentrações de renda do mundo. Enquanto uma pequena parcela da população acumula riqueza, milhões de brasileiros ainda enfrentam insegurança alimentar e dificuldades no acesso a serviços básicos.

Mesmo com avanços importantes, como o Sistema Único de Saúde e a ampliação do ensino público, a qualidade desses serviços varia significativamente entre regiões. O resultado é um país onde oportunidades não são distribuídas de forma equitativa.

Além disso, a desigualdade no Brasil tem recortes claros: raça e gênero seguem sendo fatores determinantes. Mulheres negras, por exemplo, estão na base da pirâmide socioeconômica, evidenciando que qualquer debate sério sobre justiça social precisa considerar essas interseccionalidades.

Caminhos políticos: visões diferentes, um mesmo desafio

Ao longo das últimas décadas, diferentes correntes políticas no Brasil têm apresentado caminhos distintos para enfrentar a desigualdade.

Governos de perfil mais à esquerda costumam apostar no fortalecimento do Estado, com políticas de transferência de renda, ampliação do acesso à educação superior e programas habitacionais. A lógica é garantir alívio imediato à pobreza e criar condições mínimas de inclusão.

Já governos de centro e centro-direita tendem a priorizar a estabilidade econômica, o controle da inflação e a geração de empregos. A premissa é que um ambiente econômico saudável cria oportunidades e protege o poder de compra da população mais vulnerável.

Apesar das diferenças, há um ponto em comum: a própria Constituição Federal de 1988 estabelece, em seu Artigo 3º, a construção de uma sociedade justa como objetivo fundamental da República.

Modelos de desenvolvimento e justiça social

A busca por justiça social também passa pelo debate sobre modelos econômicos.

O socialismo, em sua concepção teórica, coloca a igualdade no centro do sistema, defendendo a eliminação das classes sociais e a propriedade coletiva dos meios de produção como forma de superar desigualdades estruturais.

Já o capitalismo, em sua forma mais pura, tende a priorizar o lucro e a acumulação. No entanto, experiências contemporâneas mostram que é possível equilibrar mercado e proteção social. Países como Noruega e Dinamarca adotam modelos de Estado de bem-estar social, nos quais o crescimento econômico é combinado com forte investimento público em saúde, educação e proteção social.

Esse modelo, conhecido como social-democracia, é frequentemente citado como um dos mais eficazes na promoção de justiça social com estabilidade econômica.

Entre a promessa e a prática

No Brasil, a justiça social ainda é uma construção em andamento. O desafio não está apenas em escolher entre modelos ideológicos, mas em encontrar soluções que funcionem na prática e respeitem as especificidades do país.

Mais do que políticas isoladas, o avanço depende de continuidade, responsabilidade pública e compromisso coletivo. A justiça social deixa de ser um discurso abstrato quando se traduz em acesso real a oportunidades, serviços de qualidade e condições dignas de vida.

Neste 20 de fevereiro, a reflexão proposta pelo Dia Mundial da Justiça Social é clara: desenvolvimento só faz sentido quando alcança a todos. Sem isso, crescimento é apenas número — não transformação.

Governo Lula:  Intenção e desenho de políticas

Desde seus primeiros mandatos, Lula construiu uma agenda claramente orientada à redução da pobreza e inclusão social. Programas como o Bolsa Família tornaram-se referências internacionais ao combinar transferência de renda com exigências em saúde e educação.

No atual governo, há uma retomada dessa lógica: recomposição de programas sociais, valorização do salário mínimo e políticas voltadas ao aumento do consumo das camadas mais pobres. A estratégia é típica de um modelo de capitalismo regulado, no qual o Estado atua para corrigir desigualdades geradas pelo mercado.

Nesse sentido, o governo se aproxima mais de uma lógica de Estado de bem-estar social do que de qualquer proposta de ruptura com o capitalismo.

Afinal, o governo Lula busca a Justiça Social? Sim, o governo Lula busca justiça social — de forma explícita, consistente e alinhada a modelos modernos de Estado de bem-estar. Ele atua principalmente na redução da pobreza e na ampliação do acesso ao consumo, com resultados visíveis.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Cinzas: O Fim de um Carnaval ou o Início de uma Vida Nova?

De Joelhos no Monte, de Pé na Vida

​A Quarta-feira de Cinzas surge no calendário como um "freio de arrumação". Após a euforia, o excesso e o barulho da "Festa da Carne", o silêncio das cinzas sobre a fronte nos recorda uma verdade implacável, mas libertadora: nossa finitude. Ao ouvirmos a frase "Lembra-te que és pó e ao pó voltarás" (Gênesis 3:19), somos convidados a desinflar o ego. Não é um convite ao pessimismo, mas sim ao realismo espiritual. Se somos pó, tudo o que construímos sobre a vaidade também o é. O que resta, então, quando a folia acaba e as luzes se apagam?

​A Quaresma como "Campo de Treinamento"

​Os 40 dias que se iniciam nas cinzas não devem ser vistos como um período de "castigo" ou uma gincana de privações temporárias. O tripé quaresmal — jejum, oração e esmola — serve para desintoxicar a alma:

Jejum: Para provar que não somos escravos dos nossos desejos.

Oração: Para restabelecer o diálogo com a Fonte da vida.

​Esmola (Caridade): Para nos lembrar que o outro existe e que o amor é a nossa única herança real.

​No entanto, o grande risco da Quarta-feira de Cinzas é tratá-la como um evento isolado. Muitas vezes, vivemos a Quaresma como quem segura a respiração debaixo d'água, esperando ansiosamente pelo Domingo de Páscoa para "voltar ao normal".

​Conversão: Um Estilo de Vida, não um Prazo de Validade

​A verdadeira conversão (metanoia) significa uma mudança de mentalidade. Se a penitência e a busca por Deus terminarem no Sábado de Aleluia, então não houve conversão, apenas uma pausa protocolar.

​"O convite à conversão não deve ser restrito só aos 40 dias. A cinza que recebemos na fronte deve queimar o nosso egoísmo para sempre, e não apenas até a Páscoa."

O desafio cristão é transformar o esforço da Quaresma em um hábito permanente. Se aprendemos a ser mais pacientes, mais sóbrios ou mais generosos durante esses 40 dias, por que abandonar essas virtudes quando o calendário muda?

​A ressurreição de Cristo não é o fim de um período de privação, mas o início de uma vida nova. Viver "além dos 40 dias" significa entender que a poeira que somos só ganha sentido quando soprada pelo Espírito de Deus, transformando nossa fragilidade em amor concreto no dia a dia.

​Reflexão para o Caminho

​A Quarta-feira de Cinzas nos pergunta: o que em você precisa morrer para que algo novo possa nascer? Que este tempo seja o ponto de partida para uma jornada sem volta rumo a uma versão mais humana, espiritual e consciente de nós mesmos.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

CRÔNICA: Memória Financeira e Ignorância Social

O Milionário de Japaratuba e a Régua do Ontem

 

Dizem que o brasileiro tem memória curta, mas o caso do Seu José beira o apagão coletivo. O cenário era uma calçada, na Rodagem, especificamente na antiga Rua da Ponta da Faca, em Japaratuba, Sergipe. De um lado, o vizinho, ostentando o título de ex-milionário de 1992; do outro, Seu José, o cético da vizinhança, que olha para a inflação do passado com a mesma desconfiança de quem ouve história de lobisomem.


— "Paguei 5 milhões na casa", disse o vizinho, com a naturalidade de quem compra um pão.


Seu José quase caiu da cadeira de fios. Para ele, 5 milhões é prêmio da Mega-Sena, é fortuna de herdeiro, é coisa de quem tem nome em prédio na Avenida Paulista. "Tá com febre, homem?", rebateu ele, ríspido. Para o senhor, a verdade tinha que ser mais humilde: "Você pagou 5 mil, aí sim é uma história bonita".


Ora, o que Seu José não percebeu — e ele não está sozinho nessa — é que o Brasil de 1992 era um hospício numérico. Éramos todos milionários de bolsos vazios. O senhor, que atravessou o Plano Real em 1994, parece ter deletado o arquivo "Hiperinflação" do cérebro. Ele vive o fenômeno da régua trocada: tenta medir o caos de trinta anos atrás com a régua do Real de hoje. É como tentar medir a distância de Japaratuba até Aracaju usando uma colher de chá.


Pois bem, a prova do crime veio num papel amarelado: uma conta de luz de 41 mil cruzeiros. O genro, servindo de tradutor de realidades para o sogro que não aprendeu a ler as letras, mas deveria saber ler a vida, sentenciou: "Se a luz custava isso, a casa era 5 milhões mesmo".


Mas Seu José não se deu por achado. Ele é o retrato de uma parcela do Brasil que vive a história como quem assiste a um filme mudo e sem legenda. Se não doeu no lombo, não aconteceu. É o mesmo sujeito que, vivendo longe do eixo Rio-São Paulo em 64, diz que "no meu tempo não tinha ditadura", simplesmente porque ninguém bateu na porta dele para censurar o bom dia.


O analfabetismo, aqui, não é só de letras; é de contexto. Ao ignorar que aqueles 5 milhões de cruzeiros valeriam hoje pouco mais de R$ 1.800,00, Seu José se protege no conforto da ignorância. Para ele, o passado tem que ser simples, linear e, preferencialmente, barato. Aceitar os milhões do vizinho seria admitir que ele viveu em um país que girava a mil por hora enquanto ele estava parado, sem entender que a moeda mudava de nome como quem troca de camisa suada.


No fim das contas, o debate encerrou porque o vizinho cansou de dar murro em ponta de faca. O "velhinho" continua convicto de que o vizinho é um mentiroso ou um louco. Mal sabe ele que, em 1993, ele provavelmente pagou alguns milhares de cruzeiros num quilo de feijão.

Rir dessa situação é um remédio amargo. É o humor de perceber que o Brasil é um país onde o passado é tão incerto quanto o futuro, e onde muitos de nós somos estrangeiros dentro da nossa própria biografia.

Autor: F. J. Hora, em Crônicas da Ponta da Faca.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

O Voto como Ato de Defesa Social: Por que Lula Ainda é o Eixo da Resistência

Do Chão de Fábrica ao Planalto: Por que Lula ainda é o Eixo da Resistência.



A história política do Brasil é marcada por uma profunda contradição: um país de riquezas continentais que figura entre os mais desiguais do mundo. Essa desigualdade não é um acidente geográfico, mas o resultado de séculos de governos alinhados aos interesses das oligarquias. Nesse cenário, a figura de Luiz Inácio Lula da Silva emerge não apenas como um político, mas como um símbolo de ruptura institucional com o projeto de exclusão das elites.

O momento político é bastante delicado e o "candidato melhor" que Lula, no campo progressista, precisaria não apenas de suas ideias, mas de sua pele. E, até o momento, a política brasileira não produziu outra liderança que consiga fundir tão profundamente a biografia pessoal com a história das conquistas sociais do Brasil.

Há evidências históricas de que votar em Lula nem sempre foi um ato de amor ao candidato, mas, a sensatez de se posicionar ideologicamente contra o autoritarismo e contra os privilégios da burguesia.

Por exemplo, na primeira eleição direta após a ditadura, o Brasil viu o choque entre a "nova política" fabricada pelo marketing de Fernando Collor e a realidade crua de um líder operário. Quando Leonel Brizola, o maior herdeiro do trabalhismo de Vargas e Jango, ficou fora do segundo turno por uma margem mínima, ele proferiu a frase histórica: as elites teriam que "engolir o sapo barbudo".

  • O Significado: Brizola, mesmo sendo um rival ferrenho do PT na época, entendeu que Lula representava a única via legítima contra o "projeto das elites" encarnado em Collor. O voto em Lula ali não era uma adesão cega ao petismo, mas um gesto de sensatez democrática e de classe.

A história mostra que os pobres não são responsáveis pela desigualdade, mas são os únicos que podem alterá-la através de lideranças que possuam identidade de classe. O voto em Lula, de 1989 a 2026, permanece sendo um ato político de quem recusa o "falso patriotismo" e escolhe a via da soberania popular, mesmo mantendo o olhar crítico sobre o governo.

A Legitimidade que o Marketing não Compra

Diferente da maioria dos líderes que tentam "mimetizar" uma conexão popular através de camisas de futebol ou linguagem informal, a identidade de Lula com os trabalhadores é orgânica.

  • A Origem Operária: Lula é o único presidente brasileiro vindo do chão de fábrica. Sua escola foi o sindicato; sua retórica foi forjada na negociação por direitos básicos.


  • O "Sapo Barbudo" e as Elites: A trajetória de Lula, desde o icônico "sapo barbudo" de 1989 até o cenário de 2026, é o relato de uma resistência histórica contra o que Brizola chamava de "filhotes da ditadura" e as elites econômicas que detêm as chaves da desigualdade brasileira. Comparar esses momentos revela como a democracia foi, por décadas, o único campo de batalha possível para quem vem da base. Desde 1989, o termo de Brizola define a relação: a elite econômica nunca aceitou Lula por ele representar a ascensão de quem "deveria apenas servir". O ódio direcionado a ele é, no fundo, um preconceito contra a classe que ele representa.

O Voto como Barreira Sanitária contra o Autoritarismo

Votar em Lula, especialmente nos pleitos de 2022 e no horizonte de 2026, transcende a admiração pessoal ou a concordância integral com o governo. Trata-se de um voto estratégico pela democracia.

  • Democracia vs. Barbárie: Enquanto a extrema-direita utiliza o "falso patriotismo" para desmantelar direitos trabalhistas e atacar as instituições, Lula opera dentro da liturgia do cargo. O voto nele é a garantia de que o campo de batalha continuará sendo a política, e não a força.


  • A Única Via Real: No atual cenário, Lula é o único líder capaz de amalgamar uma "frente ampla" que impeça o retrocesso civilizatório. Mesmo com críticas à gestão econômica ou política, ele permanece sendo o único estadista com capilaridade suficiente para enfrentar o projeto autoritário.

Direitos Coletivos vs. Privilégios da Burguesia

A grande disputa atual é entre dois modelos de país:

  1. O Modelo das Elites: Foca no indivíduo, no desarmamento do Estado e na manutenção de privilégios econômicos (como a baixa taxação sobre super-ricos).


  1. O Modelo Coletivo: Prioriza o Estado como indutor de bem-estar, focado em tirar o Brasil do Mapa da Fome, valorizar o salário mínimo e expandir o acesso à saúde e educação.

A Trajetória de Base Real (Marina Silva e Guilherme Boulos)

Existem figuras que, assim como Lula, possuem uma origem legítima em movimentos sociais, mas com alcances e nichos diferentes:

  • Marina Silva: É a figura que mais se aproxima da história de superação de Lula. De seringueira analfabeta a ministra e líder ambiental global. Sua luta é humanista e ambiental, mas ela enfrenta a dificuldade de transformar essa trajetória em um movimento de massas tão amplo quanto o sindicalismo de Lula.

  • Guilherme Boulos: Representa a tentativa de renovação da esquerda via movimento de moradia (MTST). Embora venha de uma família de classe média alta (pais médicos), ele escolheu a base social como campo de atuação.

    • O desafio: A mimetização aqui é inversa; ele busca validar sua liderança através da vivência com os trabalhadores, mas ainda luta para romper a barreira do "preconceito de classe" que as elites e parte da classe média impõem a quem lidera ocupações.

O "Tecno-Populismo" (Ciro Gomes)

Ciro tenta se posicionar como o defensor da soberania nacional e dos trabalhadores através do Projeto Nacional de Desenvolvimento.

  • A tática: Usa um discurso contundente contra o capital financeiro.

  • O limite: Sua origem é nitidamente de uma oligarquia política cearense (família Ferreira Gomes). Por mais que sua pauta seja em defesa do trabalhador, ele fala "para" o povo a partir de um lugar de autoridade intelectual, e não "como" o povo.

 Existe algum candidato "melhor" que Lula?

A resposta depende do critério. Se o critério for histórico de luta e identidade com a classe trabalhadora, a resposta curta é: não há paralelo no cenário atual.

  • A Única Cédula com "DNA" Popular: Enquanto outros candidatos propõem pautas para os trabalhadores, Lula é o resultado dessas pautas. Sua legitimidade não vem de um escritório de marketing, mas das assembleias de porta de fábrica do ABC.

  • A "Muralha de Votos": As pesquisas de 2025 e 2026 continuam mostrando Lula liderando ou em empate técnico com nomes da direita (como Tarcísio ou Michelle Bolsonaro). O "melhor" candidato, na visão estratégica, é aquele que consegue vencer. Até agora, nenhum nome de centro ou de outra esquerda conseguiu mobilizar o "voto de resistência" que Lula detém organicamente.

Conclusão: Um Voto de Dignidade, não de Santificação

Votar em Lula não significa "santificá-lo" ou absolvê-lo de erros. Significa reconhecer que, entre um líder que respeita as regras do jogo e um projeto que ameaça a soberania nacional e os direitos do povo, a sensatez é a única saída. Como o "sapo barbudo" de 89, Lula continua sendo a escolha de quem entende que a democracia é o solo sobre o qual se constrói a igualdade.

Para as elites, o "problema" de Lula nunca foi a corrupção — já que estas mesmas elites convivem bem com ela em outros redutos —, mas sim a ousadia de um operário colocar o pobre no orçamento e a empregada doméstica na universidade. Em 2026, a escolha permanece: ou o projeto de uma nação para todos, ou a perpetuação da desigualdade sob o mando de quem odeia o povo.