O Espetáculo da Mediocridade: O Avanço do Neofascismo e a "Pequena Política" em Sergipe
O Brasil atravessa um período onde a realidade parece dobrar-se diante da narrativa. O neofascismo não avançou por um golpe de sorte, mas por uma construção meticulosa que utiliza o anti-intelectualismo como escudo e a indústria cultural como combustível. Em Sergipe, esse fenômeno ganha contornos específicos: a transição do coronelismo de terras para o coronelismo digital, onde a estética da obra pública e a idolatria cega substituem o debate sobre a emancipação econômica.
A Fabricação da Ignorância como Virtude
O primeiro pilar desse avanço é o ataque sistemático ao conhecimento. Quando se propaga que livros de história são "invenções" ou que universidades federais — como a nossa UFS — são apenas antros de "doutrinação", o objetivo é claro: deslegitimar quem detém as ferramentas para criticar o poder.
Vivemos o auge do que Nelson Rodrigues previu: a ascensão dos idiotas, não pela competência, mas pela quantidade. No entanto, o "idiota" contemporâneo não é apenas desprovido de informação, mas orgulhoso de sua desinformação. Ele vê na complexidade do intelectual uma ameaça à sua visão de mundo simplificada e mastigada por algoritmos que priorizam o ódio e a indignação.
O Oprimido e a Síndrome do Salvador
Um dos pontos mais sensíveis da nossa realidade é a defesa ferrenha que o oprimido faz do seu opressor. Em cidades do interior, como Japaratuba e arredores, a carência econômica é a corrente que prende o cidadão ao político. Sem geração de emprego e renda fora da esfera municipal, a "Prefeitura" torna-se a única tábua de salvação.
Nesse cenário, a relação política deixa de ser cidadã para tornar-se afetiva. O político é elevado à categoria de ídolo ou pai. Apresentar um defeito ou uma irregularidade técnica não gera indignação, gera mágoa. O eleitor sente-se ferido pessoalmente porque sua identidade está fundida à do líder. É a vitória do populismo de direita: entregar uma praça reformada (muitas vezes com recursos federais de gestões passadas) para esconder que o povo continua sem autonomia financeira.
A "Pequena Política" vs. A Vida Real
O recente racha no bloco neofascista sergipano — envolvendo nomes como Emília Corrêa, Rodrigo Valadares e Ricardo Marques — é o exemplo perfeito do que Antonio Gramsci chamava de "pequena política". Disputam-se secretarias, cargos e protagonismo no Senado, enquanto os temas estruturantes são ignorados.
Onde está o debate sobre a privatização da DESO? Sobre a precarização do trabalho no corte de cana? Sobre a escala 6x1 ou a violência contra a mulher? Essas questões são "dessecadas" apenas por vozes independentes, enquanto o bloco da extrema-direita prefere manter o público entretido com intrigas de corredor e pautas morais de fachada.
Resumindo: em Sergipe, esse racha no bloco da extrema direita revela que o movimento, embora unido por uma estética ideológica e pelo uso de pautas morais, fragmenta-se rapidamente quando o que está em jogo é o controle do aparelho estatal e o espaço nas urnas.
Sergipe no Contexto Internacional: O Efeito Trump: A menção ao governo Donald Trump é relevante. O neofascismo brasileiro não é autônomo; ele busca validação externa. O alinhamento automático a uma potência estrangeira, mesmo quando esta fere a soberania nacional, é uma característica do movimento: a entrega de recursos (como o petróleo e a infraestrutura) em troca de um apoio ideológico que mantém essas elites no poder local.
O Caminho da Ruptura
O neofascismo prospera no vazio da consciência de classe. Ele vende a ilusão de que o trabalhador é um "empreendedor de si mesmo" enquanto retira seus direitos. A saída desse ciclo exige mais do que apenas votar; exige o fortalecimento de iniciativas que gerem independência real, como o cooperativismo e a agricultura familiar, e a valorização da informação técnica sobre o marketing estético.
Precisamos trocar a idolatria pela fiscalização. Enquanto o político for amado como um parente, o cidadão continuará sendo tratado como um súdito. A verdadeira "grande política" só começa quando o povo de Sergipe entender que a beleza de uma cidade não se mede pelo asfalto novo, mas pela liberdade de quem caminha sobre ele sem dever favores a ninguém.
Características que sustentam o neofascismo
O Orgulho de ser Ignorante: Quando a complexidade do mundo (economia, sociologia, ciência) é rotulada como "arrogância das elites", a ignorância passa a ser vista como uma virtude de "autenticidade". O sujeito se sente empoderado ao rejeitar o conhecimento acadêmico, sentindo-se parte de uma "maioria real" contra uma "minoria intelectual".
A "Doutrinação" como Espantalho: Atacar as Universidades Federais (como a UFS, em Sergipe) rotulando-as como antros de "maconheiros" é uma estratégia clássica de deslegitimação. Se o local onde se produz pensamento crítico é demonizado, qualquer crítica vinda de lá é descartada antes mesmo de ser ouvida.
Identificação com o Forte: Em momentos de insegurança, há uma tendência psicológica de se identificar com a figura do "homem forte" ou do empresário bem-sucedido. O oprimido passa a acreditar que, se defender os interesses do patrão ou do líder autoritário, ele eventualmente fará parte desse grupo.
A Pauta de Costumes: O neofascismo desloca o debate da economia (salários, direitos, inflação) para a moralidade. É mais fácil mobilizar alguém pelo medo de uma suposta "ameaça à família" do que explicar as nuances da política fiscal.
O Tripé da Dependência Econômica
Em cidades como as do Vale do Cotinguiba, a economia é afunilada de forma que o cidadão fique sem saída:
A "Prefeitura" como maior empregadora: O Município deixa de ser um prestador de serviços para ser um balcão de empregos. Isso cria o "voto de gratidão" ou o "voto de medo". Quem tem um contrato temporário ou um cargo em comissão torna-se um cabo eleitoral compulsório.
O Setor Sucroalcooleiro: O corte de cana, embora historicamente importante para a região, oferece uma renda sazonal e um trabalho extenuante que deixa pouco espaço para a qualificação ou para o exercício da cidadania plena.
O Empreendedorismo de Sobrevivência: Não é o empreendedorismo de inovação, mas o "vender o almoço para comprar a janta". Esse empreendedor é extremamente vulnerável a crises e, muitas vezes, também depende de concessões ou alvarás municipais, voltando ao ciclo de dependência.
Japaratuba: O Populismo de Direita e o "Efeito Maquiagem"
Em Japaratuba, o cenário é mais perverso. As obras que mudaram a cara da cidade muitas vezes são frutos de convênios federais antigos (Lula/Dilma), mas o crédito político é capturado pelo discurso neofascista ou populista de direita.
Estética vs. Economia: A praça nova ou a rua asfaltada criam uma sensação de modernidade que mascara a falta de indústrias e a ausência de novos postos de trabalho. É a política do "parecer" em vez do "ser".
O Sequestro do Mérito: A direita populista é mestre em inaugurar obras de gestões passadas ou de outras esferas, usando uma comunicação agressiva para dizer: "Ninguém fez, nós fizemos". O cidadão, deslumbrado com a mudança estética da sua rua, ignora que continua dependente da prefeitura para conseguir um contrato temporário.
O Fato vs. O Afeto: Quando a realidade (o erro do político) choca-se com a crença (o político é perfeito), o cérebro humano tende a descartar a realidade para proteger o conforto emocional da crença.
A Santificação do Defeito: No neofascismo e no populismo, os defeitos do líder são muitas vezes lidos como "perseguição do sistema" ou "ataques da esquerda". A mágoa do eleitor é uma forma de defesa: ele se sente na obrigação de "proteger" o ídolo.
Conclusão
O neofascismo não é apenas um movimento político, é uma estratégia cultural que se alimenta da nossa dependência e da nossa falta de informação. Em Japaratuba e em todo Sergipe, precisamos trocar o 'Salvador da Pátria' pela consciência de classe.
Negar a luta de classes é uma estratégia de sobrevivência do próprio sistema. Se você convence o trabalhador de que a desigualdade é apenas fruto do "mérito individual" ou da "vontade divina", você anula qualquer tentativa de organização coletiva.
O neofascismo não quer o debate; ele quer a adesão emocional. Por isso, os livros de história são os primeiros alvos: quem controla o passado, controla a narrativa do presente.

Nenhum comentário:
Postar um comentário