domingo, 31 de maio de 2026

Pontes Entre o Céu e a Terra — O Seu Papel Como Sacerdote no Cotidiano

No quinto dia da nossa jornada, exploramos a primeira carta de Pedro para compreender que fomos separados por Deus não para o isolamento religioso, mas para funcionar como embaixadores e pontes de esperança no meio da sociedade atual.

 


“Vocês, porém, são geração eleita, sacerdócio real, nação santa, povo exclusivo de Deus, para anunciar as grandezas daquele que os chamou das trevas para a sua maravilhosa luz.”

1 Pedro 2:9


A Mensagem: O Resgate da Identidade Coletiva

Nos primeiros dias desta caminhada, olhamos para o nosso design individual, nosso valor intrínseco e as obras práticas que Deus preparou para nós. No quinto dia, o apóstolo Pedro amplia o horizonte e nos apresenta a nossa identidade corporativa e o nosso posicionamento diante do mundo. Ele utiliza títulos de honra que, no Antigo Testamento, eram reservados a grupos muito restritos: geração eleita, sacerdócio real e nação santa.

Na tradição bíblica, o papel do sacerdote era muito claro: ele funcionava como uma ponte. O sacerdote representava os homens diante de Deus através das orações e sacrifícios, e representava Deus diante dos homens, comunicando a Sua vontade, a Sua justiça e o Seu amor.

Porém, temos a passagem de João 14:6. Nela, Jesus afirma: "Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim". Essa ponte, na verdade, é a pregação e a vivência do Evangelho, para que o ser humano aceite Jesus Cristo como Salvador e assim vá ao Pai através do Filho. Tudo isso é possível porque a benção de Deus nos enche do Espírito Santo.

Ao afirmar que hoje todos nós fazemos parte de um "sacerdócio real", a Bíblia democratiza essa missão. O seu propósito não é viver trancado dentro de quatro paredes em uma bolha espiritual intocável. Você foi chamado e separado pelo Criador para ser um elo de ligação, manifestando as virtudes e as "grandezas" dAquele que transformou a sua própria história.

Conexão com os Dias de Hoje: Sacerdotes de Terno, Avental e Giz

Muitas vezes, a nossa cultura ocidental tende a separar a vida em duas gavetas: o "sagrado" (o domingo, a igreja, a oração) e o "secular" (a segunda-feira, o trabalho, a política, os boletos). Achamos que apenas pastores, padres ou missionários em tempo integral possuem um chamado sacerdotal.

Trazer a mensagem de 1 Pedro para o nosso cotidiano desconstrói essa divisão e dá um significado totalmente novo à nossa rotina:

* O seu local de trabalho é o seu altar: Se você é um contador cuidando da transparência financeira de uma empresa, um professor moldando o caráter das próximas gerações, um profissional de saúde aliviando a dor de alguém, ou um escritor comunicando a verdade através das palavras, você está exercendo o seu sacerdócio.

* A contracultura da integridade: Ser uma "nação santa" hoje significa adotar um padrão ético diferenciado no meio de uma sociedade frequentemente marcada pelo individualismo e pelo "levar vantagem" a qualquer custo. É ser aquela pessoa que promove a paz onde há polarização e que estende a mão onde há exclusão.

O mundo está cansado de discursos religiosos vazios na internet, mas ele continua sedento por testemunhos reais de amor, justiça e acolhimento. Quando você sai de casa para trabalhar, estudar ou servir na sua comunidade, você está carregando a luz de Deus para ambientes que muitas vezes estão imersos em trevas de desespero e egoísmo. O seu propósito hoje é ser essa ponte.

💬 Para Refletir e Compartilhar:

Como muda a sua perspectiva profissional saber que o seu local de trabalho ou de estudo é, na verdade, o seu campo de atuação como sacerdote de Deus? De que forma prática você pode manifestar a "maravilhosa luz" do Pai na vida de alguém hoje?

sábado, 30 de maio de 2026

A Arquitetura da Alma: Como Dar Vida a Personagens que Sangram e Sonham?

ESPAÇO DO LIVRO: Muito além dos estereótipos, a escrita autêntica exige mergulho psicológico e fidelidade às próprias origens. Entenda como transformar o cotidiano do nosso interior em literatura universal.



Nas duas últimas semanas, cruzamos os portais do nosso Espaço do Livro investigando o poder da leitura. Descobrimos que os livros são espelhos que revelam nossas dores e que a nossa literatura regional dialoga, em pé de igualdade, com qualquer clássico nacional. Mas há um momento em que apenas olhar para o espelho não basta. Há um instante em que o peito aperta, a memória transborda e a vida exige que passemos de espectadores a criadores.

É hora de responder ao chamado da página em branco. É hora de entender o que faz uma história pulsar.

Muitos escritores iniciantes, assombrados pelas regras rígidas da academia ou pelos modismos do mercado editorial do Sudeste, acreditam que para escrever algo relevante é preciso ambientar suas tramas em grandes metrópoles ou criar heróis perfeitos, intocáveis. Esquecem-se de que a grande literatura não nasce da sofisticação dos cenários, mas da profundidade psicológica das personagens e da verdade das suas raízes. É o que chamamos de Originalismo: o retorno consciente à essência e à ancestralidade como fonte de toda arte autêntica.

O Personagem Tridimensional: Carne, Osso e Contradição

Para que uma história prenda o leitor da primeira à última linha, os personagens não podem ser caricaturas de papelão. Ninguém é totalmente bom ou totalmente mau; a vida real é feita de nuances, de haveres e deveres emocionais que não cabem em planilhas exatas.

Construir um personagem tridimensional exige paciência e observação social. É preciso dar a ele:

* Uma Ferida Original: Qual é a grande dor secreta que esse personagem carrega? É a perda de um pai, a busca por reconhecimento, o medo da solidão ou a frustração de um plano que deu errado?

* Uma Contradição Viva: O ser humano é um emaranhado de paradoxos. O mesmo homem que é implacável nos negócios pode ser de uma doçura extrema ao ouvir o sopro de uma banda de pífano. A mesma mulher que chora em segredo na cozinha é a que lidera a comunidade com punho de ferro. São as rachaduras que humanizam o herói.

* Um Desassossego: O que tira o sono desse personagem na madrugada? Se ele estiver confortável demais, a história não caminha. O conflito é o combustível da narrativa.

O Cenário como Personagem: Olhar para a Própria Aldeia

Muitas vezes, o escritor tem ao seu redor um tesouro inestimável e não se dá conta. As ruas históricas de Japaratuba, a poeira brava que o vento levanta no agreste de Carira, o eco das tradições folclóricas e as águas do Rio Cotinguiba não são meros panos de fundo. Eles moldam a psicologia de quem vive ali.


Quem tenta escrever imitando o sotaque alheio,

Acaba perdendo a força no próprio veraneio.

A literatura que ganha as asas do mundo inteiro,

É aquela que traz o cheiro do próprio terreiro.


Quando você escreve a partir da sua realidade, investigando a fundo a alma do povo da sua região, você não está fazendo uma "literatura menor" ou puramente local. Você está sendo universal. Liev Tolstói, um dos maiores escritores da história, já advertia: "Canta a tua aldeia e serás universal". Quando detalhamos as nuances psicológicas de um agricultor do nosso agreste ou os dilemas de uma liderança local, estamos tocando em temas que qualquer ser humano, em qualquer parte do planeta, é capaz de compreender: a honra, a sobrevivência, o amor e o tempo.

Escrever é um Ato de Libertação

Se você sente o impulso da criação, não sufoque a sua voz. Não espere pelas condições perfeitas, pelo silêncio absoluto ou pela aprovação de editores distantes. A escrita autêntica é um manifesto de resistência.

Nas próximas colunas, transformaremos este espaço também em uma oficina viva. Vamos discutir o ritmo da prosa, a musicalidade dos versos e as técnicas para estruturar um bom enredo. Por hoje, o exercício é de observação. Olhe para as pessoas ao seu redor na praça, escute os causos contados pelos mais velhos, sinta o peso da sua própria história e responda no papel: se a sua alma pudesse falar hoje, qual personagem ela inventaria?

A gaveta é um lugar muito escuro para as suas ideias. Liberte-as.



Informe: as imagens são meramente ilustrativas, criadas por inteligência artificial.

A Poética do Cajueiro: Entre o Erótico, o Sagrado e a Malícia Popular

Uma leitura crítica sobre como a poesia de raiz resgata a memória afetiva, o erotismo telúrico e a sabedoria dos ditados nordestinos a partir da imagem do cajueiro.




Por Flávio Hora


Há na literatura brasileira uma tradição subterrânea, mas vigorosa, que recusa os salões beletristas e prefere fincar suas raízes no chão batido do quintal. É nessa linhagem da poesia de raiz — onde o feijão ferve, o pinto pia e a fruta madura cai — que se inscreve o poema "Meu Pé de Cajueiro", datado originalmente de 2014. À primeira vista, uma ode despretensiosa a uma árvore frutífera; sob um olhar mais atento, uma sofisticada crônica visual que entrelaça o tempo histórico, o erotismo telúrico e a insuperável sagacidade do ditado popular.


Meu Pé de Cajueiro

Que lindos, que fruto altaneiro

Atravessou várias gerações

Namoraram debaixo as paixões

Encostados no meu pé de cajueiro.


Lembro da fofura do caju

Bem definido como o teu corpo

Só de pensar fico louco

Pois, lembra-me quando está nu


Que como a fruta tão doce sabor

Deixou em mim um querer mais

Pois, pensava que jamais

Em minha vida teria amor.


Mas, se quem essa fruta apanha

Um ditado guarda de norte a sul

Que enquanto você vem com o caju

Há muito já cheguei com as castanhas!


08 de Janeiro de 2014.

@fimdeprimavera / 2017, Hora, F. J.


O texto se inicia com uma postura de reverência quase mítica. O cajueiro não é apenas uma árvore; é um "fruto altaneiro" que "atravessou várias gerações". Ao personificar o vegetal como testemunha do tempo, o eu lírico estabelece o cajueiro como um totem da memória coletiva. Sob sua copa, o tempo cronológico suspende-se para dar lugar ao tempo afetivo: as paixões que ali se encostaram não pertencem apenas ao presente, mas a uma ancestralidade amorosa que se renova a cada safra.

Contudo, a grande virada estética do poema reside na sua capacidade de transitar, sem sobressaltos, do solene ao sensorial. Nas estrofes centrais, o olhar do poeta foca na iminência do fruto. O caju deixa de ser apenas alimento e passa a ser corpo; sua "fofura" e "doce sabor" tornam-se metáforas táteis de um lirismo erótico genuíno, despido de pudores acadêmicos. Há aqui uma sinestesia quase palpável. Quem lê não apenas processa o texto, mas experimenta o calor da tarde, a nudez evocada e o sumo da fruta que sacia uma fome que, outrora, o eu lírico julgava incurável ("Pois, pensava que jamais / Em minha vida teria amor").

Mas é no desfecho que o poema revela sua verdadeira identidade e cumpre sua função mais crítica e informativa sobre a formação da identidade cultural nordestina. Ao evocar a máxima "enquanto você vem com o caju, há muito já cheguei com as castanhas", a obra subverte a expectativa do leitor. O que parecia caminhar para um romantismo idealizado ou para um erotismo confessional deságua na rampa da malandragem e da sabedoria empírica.

Caju e castanha se separam não apenas na botânica, mas na filosofia de vida: o caju é a carne, a pressa, a doçura imediata e, por vezes, a ingenuidade de quem "vai"; a castanha é a semente, a casca dura que resiste ao fogo, a experiência acumulada de quem "já voltou". O poema, portanto, fecha-se com um sorriso de soslaio, aquele sutil deboche de calçada que caracteriza o homem do interior, escolado pelas intempéries do tempo e da vida.

"Meu Pé de Cajueiro" cumpre, assim, o papel mais nobre da literatura de raiz: o de transformar o cotidiano em patrimônio estético. Ele nos informa sobre a permanência dos nossos símbolos naturais e nos faz fruir o prazer da palavra que tem cheiro de terra molhada e gosto de safra madura. É um texto que não pede licença para ser clássico; ele prefere a liberdade de ser, simplesmente, popular.



Informe: as imagens são meramente ilustrativas, criadas por inteligência artificial.

JK: O Acidente Perfeito Que a História Desfez

Como a ciência forense e a revisão histórica desarmaram a farsa do "acidente de trânsito" e provaram o assassinato político do fundador de Brasília pela ditadura.



Há crimes tão cirúrgicos que dependem menos da pólvora e mais do cinismo. Durante exatamente cinquenta anos, o Estado brasileiro sustentou que a morte de Juscelino Kubitschek, na tarde de 22 de agosto de 1976, fora uma trágica ironia do destino: um Opala que perde o controle na Via Dutra após o toque de um ônibus e colide contra uma carreta. Pronto. Um acidente. Quem duvidaria? A dúvida, afinal, foi o álibi perfeito de uma ditadura que preferia o silêncio dos necrotérios disfarçados à publicidade dos pelotões de fuzilamento.

No entanto, a verdade histórica possui uma teimosia biológica. A aprovação, por ampla maioria (6 votos a 1), do novo relatório da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) rasga a versão oficial e reescreve a historiografia: JK foi assassinado pelo regime civil-militar. Mais do que um rito burocrático, a decisão joga luz sobre o perturbador inverno de 1976 e 1977, período em que as principais vozes da redemocratização nacional foram extirpadas do mapa em um intervalo cirúrgico de nove meses.

Para compreender o tamanho do "incômodo" que o fundador de Brasília representava, é preciso recuar ao tabuleiro da época. Sob o pretexto de uma abertura "lenta, gradual e segura" acenada pelo general Ernesto Geisel, a linha-dura do Exército e o aparato do DOI-Codi operavam nos porões para garantir que o poder jamais escapasse de suas mãos. JK não era um ex-mandatário nostálgico; era uma ameaça eleitoral iminente. Se o voto direto fosse devolvido ao povo, o homem que simbolizava os anos de ouro do desenvolvimento, da Bossa Nova e da estabilidade democrática venceria com folga.

A máquina de repressão sabia disso. Tanto sabia que o cerco se apertou semanas antes. Em 7 de agosto de 1976, catorze dias antes da colisão fatal, um robusto "alarme falso" circulou pelo país anunciando a morte de Juscelino em Goiás. Ao isolamento da fazenda sem telefone, seguiu-se o retorno às pressas do líder para desmentir o boato à imprensa. Foi ali que ele proferiu a frase premonitória ao seu secretário particular: "Estão querendo me matar, mas ainda não conseguiram". Conseguiram duas semanas depois. O disfarce da fatalidade evitou a revolta popular que uma prisão escancarada provocaria.

O que o novo parecer da CEMDP faz, amparado por investigações do Ministério Público Federal, é demolir a física do cinismo. A perícia moderna comprovou que a suposta colisão do ônibus da Viação Cometa na traseira do Opala nunca aconteceu. Sem o impacto inicial, cai o castelo de cartas. Soma-se a isso o sumiço de provas, a desmontagem relâmpago do veículo sob custódia e a ausência de exames toxicológicos no motorista Geraldo Ribeiro. O "acidente perfeito" era, na verdade, uma fraude grosseira protegida pelo fardamento do Estado.

Essa confirmação tardia projeta uma sombra inevitável sobre os outros dois vértices da "Frente Ampla". Como crer em mera coincidência quando, logo após JK, João Goulart morre de um ataque cardíaco sob suspeita de medicamentos adulterados na Argentina, e Carlos Lacerda falece no Rio de Janeiro devido a uma infecção hospitalar fulminante? A tese de uma "limpeza de terreno" coordenada pela Operação Condor deixa de ser um roteiro de conspiração popular para se consolidar como lógica de eliminação política.

Em um Brasil cindido, onde até o passado virou trincheira ideológica, a reação a essa decisão oscila entre o ceticismo prático e a instrumentalização partidária. Setores mais pragmáticos dirão que "nada muda", afinal, os algozes estão mortos e a Lei da Anistia de 1979 blindou os crimes de sangue. Outros tentarão reduzir o relatório a uma mera "narrativa" da atual gestão federal de esquerda.

Mas reduzir esse desfecho à pequenez da disputa eleitoral presente é um erro de perspectiva histórica. O que muda para o Brasil é o direito à memória coletiva. A retificação da certidão de óbito de Juscelino Kubitschek é um ato de soberania da verdade sobre a mentira oficial. O Estado que matou o homem é o mesmo que hoje é obrigado a registrar o crime em letras públicas. Cinquenta anos depois, a justiça criminal pode ter sido sepultada pelo tempo, mas a História, finalmente, retirou dos assassinos o benefício da dúvida.

O Poema de Deus — Como as Boas Obras dão Sentido à Sua Vocação

No quarto dia da nossa caminhada, analisamos a carta de Paulo aos Efésios para compreender que somos a obra de arte viva do Criador, salvos e vocacionados para transformar o mundo real através de atitudes práticas no nosso cotidiano.



“Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou de antemão para que andássemos nelas.” 
— Efésios 2:10

 

A Mensagem: A Obra-Prima em Movimento

Até aqui, descobrimos que nossa existência foi intencional, nosso design é exclusivo e nosso chamado foi antecipado na eternidade. No quarto dia, o apóstolo Paulo nos mostra o caráter prático de tudo isso. Ele utiliza uma palavra extraordinária no texto original grego para se referir a nós: poiema (traduzida como "feitura" ou "obra-prima"). É a palavra de onde deriva o nosso termo moderno poema.

Isso significa que a sua vida é a poesia viva de Deus escrita na história. Mas um poema não é feito para ficar guardado em uma gaveta escura; ele é feito para ser lido, para emocionar e para inspirar. Paulo afirma que fomos recriados em Cristo com um objetivo muito claro: a prática das boas obras.

O texto vai além e revela um detalhe reconfortante: essas boas obras não são improvisadas. Deus já pavimentou o caminho e preparou essas oportunidades "de antemão". O nosso papel não é construir a estrada do zero, mas caminhar nela, atentos às oportunidades diárias de servir que o Senhor coloca diante de nós.

Conexão com os Dias de Hoje: O Propósito Longe dos Palcos

Em uma cultura digitalizada, fomos sutilmente condicionados a acreditar que "fazer grandes coisas" significa ter milhares de seguidores, palcos iluminados ou projetos de alcance mundial. O ativismo virtual muitas vezes substitui a ação real: achamos que mudar o mundo se resume a compartilhar uma hashtag ou curtir uma causa social na tela do celular.

Trazer Efésios 2:10 para a nossa realidade é resgatar o valor do cristianismo prático e encarnado na rotina:

* As boas obras acontecem no ordinário: O propósito de Deus se manifesta quando você usa a sua profissão — seja você um contador, um professor, um profissional de saúde ou um comerciante — para agir com justiça, ética e excelência. As "boas obras" são o amor de Deus traduzido em serviço ao próximo.

* O poema é lido no dia a dia: A sua paciência com um cliente difícil, a sua honestidade em um contrato onde ninguém estava olhando, o seu apoio a um projeto social na sua cidade ou o cuidado com os mais vulneráveis são as estrofes do poema de Deus sendo lidas pelas pessoas ao seu redor.

Você não precisa de um grande palco para cumprir o seu propósito. Você precisa apenas de um coração atento. Onde você estiver hoje, existem "boas obras" que Deus já deixou preparadas com o seu nome nelas. O seu chamado é simplesmente dar o próximo passo e agir.

💬 Para Refletir e Compartilhar:

Olhando para o seu ambiente de trabalho ou para a sua comunidade hoje, quais são as "boas obras" práticas que Deus já deixou preparadas para você realizar? Como você pode ser a poesia de Deus na vida de alguém nesta semana?

sexta-feira, 29 de maio de 2026

O Chamado Antecipado — Por Que o Seu Propósito Não Começa do Zero

Neste terceiro dia da nossa jornada, viajamos até o chamado do profeta Jeremias para descobrir que Deus já havia pavimentado a nossa missão muito antes de termos consciência dela, desconstruindo a ansiedade de tentar inventar um destino por conta própria.




“Antes de formá-lo no ventre eu o escolhi; antes de você nascer, eu o separei e o designei profeta às nações.”

— Jeremias 1:5


A Mensagem: Escolhidos Antes do Primeiro Suspiro

Nos dois primeiros dias, compreendemos que carregamos a imagem do Criador e que fomos tecidos de forma artesanal e exclusiva. Hoje, o texto bíblico dá um salto ainda mais ousado no tempo: nós retrocedemos para a eternidade passada. Na conversa de Deus com o jovem Jeremias, descobrimos que o chamado divino não é uma reação tardia ao nosso nascimento, mas um projeto que precede a nossa própria existência.

Deus usa três verbos poderosos que mudam nossa perspectiva de futuro: escolhi, separei e designei. Quando Jeremias ouviu isso, ele provavelmente sentiu o peso da responsabilidade e tentou recuar, argumentando que era apenas uma criança e não sabia falar (Jeremias 1:6). A resposta de Deus, no entanto, deixou claro que a eficácia da missão não dependia da autoconfiança de Jeremias, mas da soberania de Quem o havia comissionado na eternidade.

Isso significa que você não precisa gastar energia tentando "inventar" um propósito para a sua vida a partir do nada. Você não entra no mundo como uma folha em branco para escrever o que bem entender; você entra como uma narrativa planejada por Deus, cujo desafio é descobrir e se alinhar com o Enredo original do Autor.

Conexão com os Dias de Hoje: A Angústia da AutoInvenção

A cultura contemporânea repete exaustivamente o mantra: "Você pode ser o que você quiser, basta criar o seu próprio destino". Embora pareça uma frase libertadora e motivacional, na prática, ela funciona como uma fábrica de ansiedade. Carregar o peso absoluto de ter que inventar o próprio sucesso, escolher a carreira perfeita e construir uma marca pessoal infalível tem gerado uma juventude e adultos exaustos, paralisados pelo medo de errar a rota.

Trazer as palavras de Jeremias para a realidade de hoje é encontrar um alívio profundo para a mente:

O propósito é descoberto, não inventado: Você não carrega o peso de criar um sentido para a sua vida. O seu papel é se aproximar de Deus em oração, leitura e serviço, permitindo que Ele revele as pistas daquilo que Ele já estabeleceu para você.

Deus não depende da sua autossuficiência: Assim como Jeremias olhou para as suas próprias limitações, nós costumamos olhar para a nossa falta de recursos, nossa timidez ou nossa história familiar e pensar: "Eu não dou conta". Deus não chama os capacitados, Ele capacita os escolhidos antes do ventre.

Seu trabalho, seus dons intelectuais, sua sensibilidade para os problemas da sua comunidade e a sua vocação não são ideias que você teve ontem. São desdobramentos de um decreto eterno. Quando você alinha o seu cotidiano com a vontade do Pai, você para de correr atrás do vento e passa a caminhar sobre solo firme.

💬 Para Refletir e Compartilhar:

Você já se sentiu ansioso ou paralisado tentando descobrir o que fazer com o seu futuro? Como acalma o seu coração saber que Deus já tinha um plano para você antes mesmo do seu primeiro suspiro?

quinta-feira, 28 de maio de 2026

Um Couro Anunciado: O Zabumba Furado de Zé Salú

Um causo de fé, pífanos e teimosia nos terreiros de Japaratuba, onde a força de um braço desafiou o couro velho da tradição.



O ano exato a memória dos mais velhos não dita com precisão — teria sido no miolo dos anos 70 ou já no romper dos 80 —, mas a poeira que levantava no terreiro do Jirau, ali perto do povoado Sibalde, em Japaratuba, era daquelas que o tempo não consegue assentar.

A casa de Zé Salú era um monumento de taipa forte: paredes grossas de barro batido que guardavam o frescor da terra, teto alto de telhas canal e uma varanda espaçosa que parecia abraçar quem chegava. Naquele dia de promessa paga, o ar estava impregnado pelo cheiro doce do mungunzá, do bolo de macaxeira e pelo aroma cortante da cachaça boa que rodava em canecos de alumínio. No centro da sala, imponente, o altar erguia-se coberto de flores de papel crepom e velas acesas em honra a Santo Antônio. Entre o sagrado e o profano, a fé se vestia de festa.

Zé Salú, o dono da casa, circulava com sua estampa de respeito. Tinha uma voz grossa, imponente, que parecia sair do chão, embora já trouxesse o compasso cansado dos anos. Ele aguardava os tocadores para a "vena" — aquele momento sagrado em que a música se curva diante do altar em profunda veneração.

Para a empreitada, viera a Banda de Pífanos de Encruzilhadas (que o futuro batizaria, com justiça, de Geração em Geração). Entre os músicos, o jovem Mestre Jailson já mostrava que o sopro no pífano era herança viva. O terno estava quase completo, não fosse pelo detalhe mais rústico da noite: o zabumba da casa. O instrumento era um veterano de guerra, com o couro tão gasto, fino e reluzente que quase dava para ver o outro lado.

E foi aí que o destino vestiu calças compridas e atendeu pelo nome de Zé Paulo.

Zé Paulo chegou, botou o olho naquele couro sofrido e sorriu por dentro. Ele conhecia a lei da terra: zabumba de resguardo só ganha couro novo quando o velho fura. E Zé Paulo, com o bacalhau na mão e o sangue fervendo na juventude da época, decidiu que aquela noite seria de renovação.

O terno começou a esquentar o ambiente antes da vena. O pífano chorou agudo, os pratos repicaram e Zé Paulo desceu o braço. Cada pancada no zabumba ecoava nas paredes de taipa como um tiro de bacamarte.

"Seu Humberto, fale com Zé Paulo..." — cochichou Zé Salú, coçando a cabeça, agoniado com o cataclismo sonoro — "...vai me furar o zabumba!"

Seu Humberto, irmão do tocador e homem de paciência infinita, apenas deu de ombros com um sorriso amarelo. Sabia o irmão que tinha.

Zé Salú, fingindo a fidalguia de um anfitrião sereno, começou a rodear os músicos. Passava devagar, olhava o couro sofrer e, sem coragem de quebrar a etiqueta da hospitalidade com um grito, soltava sua ironia em tom de barítono:

Boa, Zé Paulo!

E Zé Paulo, entendendo o "boa" como um combustível, caprichava ainda mais no peso da mão.

A cena virou um compasso repetitivo. A banda já passava da décima canção popular, o terreiro fervilhava, e o drama se dividia em três atos que se repetiam a cada música:

Primeiro, O Apelo: Zé Salú ia ao pé do ouvido de Seu Humberto: “Pelo amor de Deus, homem, segure seu irmão, que ele vai me furar o zabumba!”

Segundo, A Ronda: Zé Salú caminhava em volta do terno, com a língua coçando para tomar o bacalhau da mão do cabra.

E terceiro, O Elogio Irônico: Ele parava, olhava a elasticidade milagrosa do couro e soltava o eco de sua voz grossa: “Boa, Zé Paulo! Dá-lhe, Zé Paulo!”

Era uma crônica da tragédia anunciada. Zé Salú vigiava o instrumento como quem vigia um copo de cristal na beira da mesa.

Não deu outra. Antes mesmo que os pífanos puxassem as primeiras notas da vena para Santo Antônio, ouviu-se um som seco, um estalo surdo que cortou a harmonia do Jirau. O som de algo que cansou de resistir.

O terno parou. Zé Paulo, com a maior cara de paisagem do mundo, olhou para o rombo no meio do instrumento, levantou os olhos para o anfitrião e soltou a fatídica notícia:

— Seu Zé, o zabumba furou!

O silêncio durou um segundo na varanda de taipa. Zé Salú, que passara a noite em um teste cardíaco, olhou para o estrago, soltou os ombros exausto e desabafou com sua voz de trovão:

Também só pode! Uma pancada da peste dessa!

A varanda desabou em uma gargalhada geral. O próprio Zé Salú, rendido ao absurdo da cena e à audácia do tocador, riu até chorar, contagiando Seu Humberto, Mestre Jailson e todo o Sibalde presente.

O alvoroço foi grande para arranjar outro instrumento para terminar a noite, mas em Japaratuba, terra onde o pífano corre nas veias e a vizinhança é uma grande família de noveneiros, não demorou dez minutos para aparecer outro zabumba — este, felizmente, com o couro novo.

A vena foi feita, Santo Antônio foi louvado, e a história entrou para o folclore das Encruzilhadas, provando que na cultura nordestina, até o que fura, vira festa.

O Nó da Escala 6x1: Entre a Exaustão Humana e a Saída pelo Cooperativismo

A necessidade urgente de humanizar as relações de trabalho no varejo, enfrentando as contradições do mercado consumidor e encontrando no associativismo a resposta para a sobrevivência do pequeno negócio.




A discussão que tomou conta do Congresso Nacional e das redes sociais sobre o fim da escala 6x1 não é um mero capricho trabalhista; é um debate civilizatório sobre a dignidade humana. A proposta de Emenda à Constituição (PEC) que visa reduzir o teto da jornada semanal de 44 para 40 horas expõe as entranhas de um modelo de produção que, no comércio e no varejo, estruturou sua lucratividade sobre o esgotamento físico e mental de quem está na base.

Viver para trabalhar seis dias e descansar apenas um não é sustentável. O chamado "dia de folga" transformou-se em um simulacro de descanso — um hiato de 24 horas utilizado puramente para a recuperação biológica de um corpo exausto, sacrificando o convívio familiar, o lazer, a cultura e a saúde mental. O florescimento alarmante da Síndrome de Burnout, do estresse crônico e dos afastamentos médicos é o sintoma óbvio de uma sociedade que transformou a vida em sinônimo exclusivo de produção.

No entanto, quando a corda estica, o debate esbarra na assimetria brutal do modo de produção capitalista. Se a grande indústria e as corporações tecnológicas assimilam reduções de jornada através da automação e do ganho de escala, o varejo tradicional e o pequeno setor de serviços operam sob a lógica do "tempo-presença". A padaria do bairro, a loja de confecções da esquina ou o pequeno restaurante dependem do olho no olho e da porta aberta. Nesses segmentos, reduzir horas sem redução salarial exige novas contratações que o manejo financeiro engessado do pequeno empresário, muitas vezes esmagado por tributos e grandes concorrentes, alega não conseguir absorver.

Aí reside a grande contradição do sistema: a mentalidade patronal majoritária se recusa a abrir mão de suas margens de lucro para garantir o bem-estar social, enquanto os pequenos negócios correm o risco real de sufocamento sob as regras do jogo ditadas pelos grandes conglomerados de produção.

É justamente nesse impasse que surge uma alternativa esquecida e potente: o cooperativismo. Se isolado o pequeno comerciante não tem o manejo de faturamento necessário para competir com os gigantes e garantir direitos humanos aos seus funcionários, a associação horizontal muda as regras do jogo.

Ao unirem-se em redes de cooperação, pequenas empresas conquistam poder de compra coletivo perante a grande indústria, dividem custos operacionais antes proibitivos — como tecnologias de automação, logística e marketing — e fortalecem a economia local. Mais do que isso, o cooperativismo subverte a lógica da acumulação cega de um único patrão, ancorando a sustentabilidade do negócio no desenvolvimento mútuo da comunidade.

O fim da escala 6x1 é urgente e inegociável se quisermos uma sociedade minimamente saudável. Mas para que essa transição não sirva de pretexto para o esmagamento do pequeno comércio pelos monopólios, o Brasil precisa entender que a saída não está na manutenção da exploração, mas na reorganização da economia. O cooperativismo mostra que é possível competir com os gigantes, manter as portas abertas e, acima de tudo, devolver ao trabalhador o direito sagrado ao tempo e à dignidade familiar. A economia deve, afinal, servir à vida — e não o contrário.

O Falso Vilão e a Realidade do Mercado Consumidor

Muito se fala na carga tributária ou no peso do aluguel comercial como os grandes algozes que inviabilizam a sobrevivência do pequeno comerciante diante de novas conquistas trabalhistas. Essa narrativa, contudo, opera como uma cortina de fumaça conveniente. Culpar o Estado ou a imobiliária é esconder as deficiências profundas do mercado consumidor de cada região, ignorando que o verdadeiro travamento do pequeno negócio nasce de duas forças combinadas: a concorrência predatória e o consumo insuficiente.

Entendemos que a carga tributária, de fato, é sufocante. Porém, existe o planejamento tributário e a assessoria contábil justamente para encontrar formas legais de minimizar os custos e maximizar os lucros, pois, essa é a premissa maior do sistema capitalista, o lucro em primeiro lugar. Vamos supor que um pequeno comerciante fature R$ 20.000,00 por mês, o lucro presumido é de 8%, ou seja, apenas R$ 1.600,00. Então, essa é a média de faturamento para chegar a "sobrar" esse valor. O lucro real dependeria de fazer uma DRE (Demosntração do Resultado do Exercício).

Agora, vamos para os impostos pelo Simples Nacional. Os impostos irão depender do regime tributário. 20 mil por mês, daria 240 mil por ano. Isso implica em uma carga tributária mínima de 6% a 7% e máxima de 22%. Isso quer dizer o problema está no volume do faturamento, por isso, o MEI democratiza esse processo, porém está restrito a apenas R$ 6.750,00 mensais. 

Então, o pequeno comércio não sufoca apenas porque paga impostos — afinal, os grandes conglomerados também os pagam, muitas vezes valendo-se de elisões fiscais e incentivos que o comerciante de bairro nem sequer acessa. O pequeno sufoca porque o poder de compra da população local é historicamente baixo e mal distribuído. Quando a classe trabalhadora regional recebe salários de subsistência e gasta a totalidade dos seus ganhos apenas para cobrir o básico, o mercado consumidor local se torna raquítico. Não há faturamento que se sustente onde não há capacidade de consumo.

Somado a isso, a concorrência desleal dos gigantes de produção drena o pouco capital que circula nessas comunidades. Sem a escala para barganhar preços ou a tecnologia para otimizar processos, o comércio de bairro assiste à fuga de seus clientes para as grandes redes. Portanto, o debate sobre a viabilidade econômica do fim da escala 6x1 precisa abandonar a velha muleta do "custo Brasil" tributário e encarar a realidade: o pequeno comerciante só prosperará quando a população da sua própria região tiver dinheiro no bolso para consumir e quando o cooperativismo quebrar o monopólio da concorrência, fortalecendo a circulação da riqueza local.

Tecidos no Ventre: O Cuidado Artesanal de Deus na Construção da Sua História

Neste segundo dia da nossa jornada, olhamos para a poesia do Salmo 139 para entender que nossas características, nossa história e até nossas peculiaridades foram planejadas sob medida pelo Criador, libertando-nos do peso da comparação.




“Tu criaste o íntimo do meu ser e me tecestes no ventre de minha mãe. Eu te louvo porque me fizeste de modo especial e admirável. Tuas obras são maravilhosas! Disso tenho plena certeza.”

Salmo 139:13-14


A Mensagem: O Design Exclusivo de Deus

No primeiro dia, compreendemos que a humanidade, de forma coletiva, carrega a imagem e semelhança de Deus. Hoje, o Salmo 139 estreita o foco e traz essa verdade para o nível individual: Deus não apenas planejou a espécie humana, Ele planejou você.

O salmista Davi utiliza uma metáfora belíssima e artesanal ao dizer que fomos tecidos no ventre materno. Na língua original do texto, essa expressão remete ao trabalho minucioso de um tecelão que entrelaça fios coloridos para formar uma tapeçaria única. Cada traço da sua personalidade, seu temperamento, a cor dos seus olhos, sua sensibilidade para a arte ou sua inclinação para a lógica — tudo foi calculado.

Deus não usa fôrmas industriais para produzir pessoas em série. Ele é o Artista Supremo. Isso significa que as suas ferramentas naturais e a sua bagagem biológica não são erros de percurso. Você foi feito de modo "especial e admirável" porque o seu propósito exige que você seja exatamente quem você é.

Conexão com os Dias de Hoje: O Veneno da Comparação

Se há um mal que adoece a nossa geração, esse mal se chama comparação. Ao abrirmos as redes sociais, somos inundados pelo sucesso alheio, pela estética perfeita dos influenciadores, pelas conquistas profissionais rápidas e pelo estilo de vida de quem parece ter "vencido na vida" muito antes de nós. O resultado? Uma sensação crônica de insuficiência. Começamos a desejar o talento do outro, a rotina do outro e a identidade do outro.

Trazer o Salmo 139 para o ano de 2026 é um antídoto contra essa frustração digital:

* Olhe para a sua própria tapeçaria: Quando você deseja a vida de outra pessoa, você está rejeitando o fio que o Grande Tecelão usou na sua própria história. A pressa do mundo tenta padronizar o que Deus fez para ser diverso.

* A autenticidade é um chamado espiritual: O mundo não precisa de uma cópia malfeita de ninguém; o mundo precisa que você ocupe o lugar que foi desenhado especificamente para as suas mãos.

Sua história, com seus altos e baixos, e sua personalidade são as ferramentas exatas que Deus quer usar para abençoar a sua comunidade, o seu ambiente de trabalho e a sua família. Descansar no design de Deus nos liberta da necessidade de competir e nos permite cooperar.

### 💬 Para Refletir e Compartilhar:

Você já se pegou desejando ter o temperamento ou a vida de outra pessoa esta semana? Como muda o seu dia saber que Deus gastou tempo tecendo cada detalhe de quem você é?

quarta-feira, 27 de maio de 2026

O Palco Contra a Pena: O Esvaziamento da Identidade no Festival de Poesia de Japaratuba

A ausência de veteranos da terra e a insatisfação com critérios que priorizam a performance teatral em detrimento da literatura de raiz acendem o debate sobre a perda de identidade cultural no tradicional certame de Japaratuba.



O anúncio do resultado final da triagem das poesias classificadas para o XXVIII Festival de Poesia de Japaratuba traz consigo mais do que uma lista de nomes e pontuações frias. Traz à tona, novamente, um eco de insatisfação que reverbera nos bastidores culturais do município há mais de uma década. Diante de uma tabela dominada por notas técnicas e uma pulverização de concorrentes de outras cidades, a pergunta que não quer calar nos cantos da cidade é uma só: Cadê os poetas japaratubenses?

A crise de identidade do festival não é nova. Para compreendê-la, precisamos retroceder a 2013, ano em que o certame sofreu um duro golpe de credibilidade quando uma delegação de poetas lagartenses, frustrada com os rumos organizacionais e os critérios de avaliação, retirou-se de cena desapontada. O que parecia um caso isolado de "bairrismo" ou "dor de cotovelo" revelou-se o sintoma de uma doença crônica que acabou por afastar os maiores tesouros da própria casa.

Onde estão as vozes de veteranos da terra como Darquiran Costa, o Poeta Afamado, Flávio Hora e Antônio Glauber? A ausência desses baluartes na linha de frente do festival não é fruto de escassez de talento ou de ócio criativo. É um boicote silencioso. É o cansaço daqueles que se recusam a submeter a pureza da sua escrita ao crivo de uma produção majoritariamente teatral, muitas vezes travestida de poesia.

A Ditadura da Performance sobre a Escrita

O nó górdio dos festivais de poesia contemporâneos reside na confusão milenar entre o texto literário e a performance de palco. O que deveria ser uma celebração da métrica, da rima, do sentimento lapidado na ponta da caneta — a essência do Cordel e da poesia de raiz que o prêmio tanto evoca homenagear — transformou-se em um espetáculo cênico.

Ganha mais pontos quem grita mais alto, quem chora melhor ou quem domina as técnicas de expressão corporal aprendidas em oficinas de teatro na capital. O texto, a alma do poeta, virou mero coadjuvante de um show de entretenimento formatado para agradar jurados que, muitas vezes, operam sob planilhas burocráticas e distantes da realidade lírica do interior sergipano.

Para o poeta tradicional, aquele que traz a oralidade na sua forma mais pura e despida de artifícios acadêmicos ou cênicos, o palco virou um ambiente hostil. Pra que se submeter a isso?

A Lição Incompossível de Gibras

Para ilustrar a miopia desse formato, basta lembrar o ano de 2013, quando o festival homenageou o saudoso poeta Gibras. Um homem cuja genialidade e importância para a cultura de Japaratuba são inquestionáveis. No entanto, há uma ironia dolorosa nessa homenagem: Gibras partiu sem nunca ter vencido o festival que o aplaudiu de pé.

A história de Gibras prova que a legitimidade cultural não cabe dentro de uma nota de 0 a 10 dada por uma banca itinerante. O respeito do povo e dos seus pares é imutável, enquanto as decisões dos júris de festival são efêmeras e, frequentemente, injustas. Se os nossos maiores nomes precisam ser ignorados em vida pelos critérios do concurso para só serem validados após a morte através de homenagens póstumas, o mecanismo está quebrado.

Um Festival para Quem?

É fundamental reconhecer que o Festival de Poesia de Japaratuba é um patrimônio que projeta o município regionalmente e atrai oxigênio cultural de fora. A integração com poetas de Estância, Capela e Aracaju é rica. Contudo, a universalidade do evento não pode acontecer às custas do epistemicídio da cultura local.

Se o festival continuar a priorizar a "produção teatral" em detrimento da literatura de raiz, ele continuará a ver suas maiores mentes locais se retirarem para o silêncio de suas casas. Homenagear o Mestre Ninizio na edição deste ano é um passo bonito, mas contraditório, se o formato do evento sufoca os herdeiros diretos dessa mesma tradição.

Japaratuba precisa urgentemente repensar o seu festival. É preciso criar salvaguardas para a poesia da terra, equilibrar o peso entre o texto escrito e a performance cênica, e, acima de tudo, resgatar o respeito dos seus veteranos. Caso contrário, o Barracão Cultural continuará cheio de luzes e aplausos, mas profundamente vazio da verdadeira alma japaratubense.

Criados com Intenção — A Resposta Bíblica Para a Crise de Identidade Moderna

Neste dia, voltamos ao livro de Gênesis para compreender por que o sentido da vida humana não depende do reconhecimento do mundo, mas do selo de identidade que o Criador imprimiu em nossa alma.




“Criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.”
 — Gênesis 1:27

 A Mensagem: O Selo do Criador


O texto não começa falando sobre religião, regras ou instituições. Ele começa falando sobre identidade. Antes de o ser humano trabalhar, construir cidades, produzir riqueza ou receber títulos, Deus lhe concede dignidade.

Muitas vezes passamos a vida inteira tentando descobrir o nosso propósito como se ele fosse um tesouro escondido em alguma ilha deserta, ou um enigma que precisamos decifrar sozinhos. A verdade bíblica, no entanto, inverte essa lógica: o propósito não começa no que fazemos, mas em quem somos. E quem somos é definido por Aquele que nos desenhou.

No relato da criação, todas as coisas — as estrelas, os oceanos, as florestas e os animais — foram trazidas à existência pela palavra de comando de Deus. Mas quando se trata do ser humano, o processo é diferente, quase artesanal. Deus decide colocar em nós a Sua própria assinatura: a Imago Dei (a Imagem de Deus).

Você não é o resultado de um acidente biológico, nem uma engrenagem aleatória no motor do universo. Há uma intenção consciente por trás de cada detalhe da sua existência. Você foi feito para espelhar as virtudes do Criador: a capacidade de amar, de criar, de exercer justiça, de produzir beleza e de se relacionar.

Conexão com os Dias de Hoje: A Ditadura dos Filtros


Vivemos na era da imagem, mas ironicamente enfrentamos a maior crise de identidade da história. Somos bombardeados diariamente por algoritmos que ditam como devemos nos vestir, quanto devemos ganhar, qual deve ser a nossa opinião e qual o padrão de felicidade aceitável. Medimos nosso valor pelo número de curtidas, pelo status do cargo profissional ou pela aprovação em praça pública.

Nesse cenário de "filtros digitais" e vidas plasticamente perfeitas, o texto de Gênesis funciona como um grito de libertação:

* Seu valor não é negociável: Ele não aumenta quando você acerta, nem diminui quando você falha. Seu valor foi estabelecido na fábrica, pelo Selo Real que você carrega na alma.
* Identidade precede a missão: Antes de se preocupar com o "fazer" (sua profissão, seus projetos, suas metas de 2026), você precisa descansar no "ser". Você é filho, imagem e semelhança do Deus Altíssimo.

Quando compreendemos que fomos criados com uma intenção divina, a ansiedade de tentar "ser alguém na vida" desaparece, porque nós já somos alguém para Deus. O nosso primeiro e mais nobre propósito é, simplesmente, refletir a luz d'Ele no metro quadrado onde fomos colocados.

O texto nos convida a olhar para o espelho de outra forma: não como consumidores tentando parecer perfeitos, mas como criaturas carregando marcas do Criador.

E isso muda tudo:

  • muda a forma como tratamos os outros;

  • muda a forma como lidamos com nossos fracassos;

  • muda a forma como entendemos propósito;

  • muda até a forma como enfrentamos a solidão.

Porque se fomos criados à imagem de Deus, então a nossa existência nunca foi um acidente.

💬 Para Refletir e Compartilhar:

Em quais áreas você tem buscado a aprovação do mundo em vez de descansar na identidade que Deus já te deu? Lembrar que você carrega a imagem do Criador muda a forma como você se olha no espelho hoje?

Deixe sua resposta nos comentários e acompanhe nossa jornada de 40 dias rumo ao propósito! 👇

#EstudoBíblico #Propósito #Dia1 #Identidade #Gênesis #Devocional #Reflexão

RESULTADO FINAL: Poesias Classificadas para XXVIII Festival de Poesia de Japaratuba

O coração da cultura nordestina bate mais forte! Já está disponível a lista oficial com as 15 poesias selecionadas na triagem para o XXVIII Festival de Poesia de Japaratuba (Prêmio: Couro, Cordel e Poesia – Homenagem ao Mestre Ninizio).

Parabéns a todos os poetas e poetisas que enriquecem a nossa literatura e mantêm viva a chama da poesia falada! 🌟




🏆 Confira a lista dos classificados:

  • 01. Cidade Interior – Antonio Bispo (Estância) | 29 pts

  • 02. Pneuma, o Sopro da Poesia – Jenilton Lima (Capela) | 29 pts

  • 03. Travessia do Pássaro Espantado – David Alexandre (Japaratuba) | 29 pts

  • 04. 1:48 da Madrugada – Elker Lucas (Japaratuba) | 28 pts

  • 05. No Céu dos Meus Devaneios – José Edson (Estância) | 28 pts

  • 06. Poemas de Vidro – Thaylane Aragão (Estância) | 28 pts

  • 07. Relógio do Tempo – Poliana Araújo (Aracaju) | 28 pts

  • 08. A Decaída – Cláudio Hiroshy (Estância) | 27 pts

  • 09. A Estante do Agora – Elias Marinho (Japaratuba) | 27 pts

  • 10. Meros Enganos – Alton Rodrigo (N. S. Socorro) | 27 pts

  • 11. Na Caatinga – Dalas Elias (Graccho Cardoso) | 26 pts

  • 12. Venha Ver o Pôr do Sol – Manuela Silva (Japaratuba) | 26 pts

  • 13. Juntando os Próprios Pedaços – Kátia Góis (Propriá) | 25 pts

  • 14. O Mundo Entre Telas – Ítalo Martônio (Japaratuba) | 25 pts

  • 15. Prece Nordestina – Cícero José (Graccho Cardoso) | 25 pts

Agende-se para a Grande Noite!

Venha prestigiar a voz e o talento dos nossos artistas em uma noite de muita emoção e identidade cultural.

  • 🗓 Data: 05 de Junho

  • 🕖 Horário: 19h

  • 📍 Local: Barracão Cultural

Realização: Prefeitura Municipal de Japaratuba e SECULTE Apoio: SECOM


Fonte: Prefeitura Municipal de Japaratuba/Divulgação 

O Grande Golpe dos Bancos: Como a Agiotagem se Tornou Legalizada no Brasil

Por trás do marketing de parceria e inovação, descubra como o sistema financeiro nacional opera captando o seu suor a preço de banana e revendendo o crédito a juros extorsivos com o aval do Estado.

Este espaço é dedicado ao exercício pleno da liberdade de expressão, do pensamento crítico e do direito ao contraditório, pilares inalienáveis do Estado Democrático de Direito, conforme assegurado pela Constituição Federal.

As reflexões e análises aqui publicadas pautam-se pelo respeito absoluto aos direitos humanos e pela defesa da cidadania. Nosso objetivo é promover o debate estrutural, educacional e informativo sobre as engrenagens do sistema financeiro nacional. Nenhuma crítica aqui tecida possui o intuito de atacar a honra de pessoas físicas, incitar o ódio ou desrespeitar as instituições constituídas. Trata-se de um manifesto técnico e social voltado para a conscientização econômica e a democratização do debate público.

Por exemplo, a resposta para a pergunta clássica: A agiotagem é legalizada no Brasil? A Resposta é simples: Não, a agiotagem nunca foi legalizada no Brasil. A prática de emprestar dinheiro a juros abusivos por pessoas ou empresas não autorizadas pelo Banco Central é considerada crime contra a economia popular. Porém, ao comparar situações semelhantes entre pessoas comuns e bancos, as instuições financeiras cobram juros mais caros. A diferença é que o banco paga IOF e tem uma blindagem econômica legal.

O Grande Golpe dos Bancos: Como a Agiotagem se Tornou Legalizada no Brasil



Imagine que você decida abrir um negócio. Para fazê-lo funcionar, você precisa comprar matéria-prima, investir em maquinário e pagar mão de obra. Se o seu produto final for caro demais e ninguém comprar, você quebra. No capitalismo tradicional, o risco é o preço da busca pelo lucro. Mas existe uma casta nesse sistema que opera sob uma lógica completamente diferente, uma verdadeira "mágica" onde o produto vendido é o dinheiro — e o detalhe mais perverso: o dinheiro dos outros.

A engenharia financeira dos grandes bancos brasileiros é uma obra-prima da exploração consentida. Enquanto o trabalhador é doutrinado a acreditar que deixar o dinheiro na poupança ou em uma conta corrente é um ato de segurança, na prática, ele está financiando o próprio algoz. Ao depositar suas economias na instituição financeira, o cidadão está, tecnicamente, emprestando dinheiro para o banco. Por esse empréstimo, a instituição paga uma remuneração irrisória, que historicamente ronda os 0,5% ao mês.

A mágica acontece cinco minutos depois. O banco pega esse exato mesmo dinheiro — o fruto do suor, da renúncia e do trabalho do correntista — e o repassa para outro trabalhador que precisa de crédito, cobrando taxas que facilmente chegam a 16% ao ano em linhas comuns, saltando para os três dígitos no cheque especial ou no rotativo do cartão.

O nome técnico e polido para essa disparidade é spread bancário. Na vida real e nas ruas, se um cidadão comum ousar praticar essa mesma margem de juros extorsivos contra outra pessoa, ele estará cometendo o crime de usura e agiotagem, tipificado pela Lei nº 1.521/51, que pune contratos particulares que excedam os limites legais. No entanto, através de privilégios regulatórios consolidados nas últimas décadas, as instituições financeiras ganharam imunidade a essa lei. O que na calçada é crime de polícia, dentro da agência vira "estratégia legítima de mercado".

E a armadilha é milimetricamente protegida por uma burocracia que sufoca qualquer tentativa de reação. O correntista comum é lesado duas vezes: primeiro, ao ver seu poder de compra ser corroído por aplicações que sequer cobrem a inflação real; segundo, ao se tornar refém de um ecossistema projetado para capturar sua renda de forma automática.

A prova de que o sistema é desenhado para proteger o capital em detrimento da subsistência humana está nas próprias normas que regulam o cotidiano bancário. O Banco Central, através da Resolução nº 4.790, tenta dar um verniz de escolha ao consumidor ao exigir autorização prévia para débitos em conta. No entanto, a mesma norma escancara as portas para o abuso ao chancelar contratualmente a realização de débitos sobre o limite de crédito e lançamentos parciais decorrentes de obrigações vencidas.

Na prática cotidiana, isso significa que se você atrasar uma parcela de empréstimo porque precisou escolher entre o banco e o supermercado, o sistema está autorizado a "sequestrar" qualquer centavo que toque a sua conta corrente ou conta-salário, fazendo raspagens parciais imediatas ou empurrando sua conta para o saldo negativo do cheque especial. O banco se torna juiz e executor da própria cobrança, garantindo a lucratividade da sua carteira antes mesmo que o trabalhador possa exercer o direito básico de gerenciar sua sobrevivência.

Essa "agiotagem institucionalizada" só se sustenta porque o Estado opera como sócio desse banquete. Os bancos utilizam o dinheiro dos depositantes para comprar títulos da dívida pública, financiando os gastos do governo. Em troca, o poder público mantém um ambiente de oligopólio com regulação altamente conivente, onde um punhado de marcas controla o fluxo monetário nacional.

Se você acha que a expressão "agiotagem legalizada" é um exagero retórico, olhe para a realidade das telas dos aplicativos de contas digitais e fintechs que prometem "dinheiro expresso e sem burocracia". Em uma simulação realizada na plataforma Mercado Pago, para um empréstimo de R$ 3.200,00 com prazo de pagamento de meros 28 dias, o valor final cobrado é de R$ 3.955,00. Estamos falando de R$ 755,00 de juros em menos de um mês. Isso representa uma taxa de aproximadamente 23,5% ao mês, o que equivale a uma projeção de mais de 1.300% ao ano. O sistema capta o dinheiro do investidor pagando migalhas e o revende na velocidade de um clique a taxas que fariam qualquer agiota de calçada parecer amador. A tecnologia mudou, mas a mecânica da espoliação continua a mesma.



Em audiência pública realizada no Senado para debater o fenômeno do superendividamento, a então coordenadora do Núcleo de Defesa do Consumidor da Defensoria Pública do Rio de Janeiro, Alessandra Bentes, classificou publicamente a oferta banalizada de crédito fácil e as propagandas sedutoras das instituições financeiras como "agiotagem legalizada".

O depoimento da defensora pública Alessandra Bentes ataca a raiz psicológica e social do capitalismo financeirizado. Ao afirmar que o superendividamento afeta pessoas de todas as faixas de renda — desde o salário mínimo até quem ganha R$ 20 mil mensais  —, ela desmonta a falácia liberal de que "só se endivida quem não sabe se planejar". O sistema é desenhado para capturar a todos.  A expressão "agiotagem legalizada", usada na própria tribuna do Senado por uma autoridade de defesa do consumidor, chancela juridicamente o termo. O texto da matéria expõe como os grandes grupos financeiros exploram as vulnerabilidades estruturais do Brasil, como o alto índice de analfabetismo funcional , para empurrar contratos ininteligíveis através de abordagens sedutoras na rua ou por cliques no celular

Enquanto a educação financeira tradicional tenta culpar o cidadão pelo seu endividamento, a macroeconomia real nos mostra que o trabalhador brasileiro não está quebrado por falta de foco ou excesso de consumo. Ele está quebrado porque o sistema bancário funciona como um dreno invisível, uma máquina que capta a riqueza produzida pela base da sociedade a preço de banana e a revende de volta para a mesma base a preços impraticáveis. Romper essa dependência e entender essa mágica cruel é o primeiro passo para que o dinheiro volte a servir a quem de fato trabalha para produzi-lo.

terça-feira, 26 de maio de 2026

O Sopro da Resistência: O Pífano como Patrimônio Vivo e a Urgência de Políticas Culturais no Interior

Enquanto verbas milionárias oxigenam o mercado das festas comerciais de grande porte, a tradição centenária da Banda de Pífanos de Geração em Geração e o legado de Mestre Jailson do Pífano sobrevivem pelo apego à identidade e pela força do sangue ribeirinho.



Por: Flávio Hora


No rescaldo das homenagens ao Dia do Trabalhador Rural, quando os discursos institucionais sobre o homem do campo começam a esvaziar-se nas gavetas do oportunismo político, urge trazer ao debate público a dimensão mais profunda e negligenciada da nossa gente: a sua cultura de raiz. A terra que o camponês corta com a enxada e que produz a macaxeira nos povoados de Japaratuba é a mesma que ecoa, ao cair da tarde, um som agudo, estridente e sagrado. É o som do pífano. Um sopro ancestral que teima em não silenciar nas curvas das nossas rodagens e que desenha a verdadeira cartografia da alma do Vale do Cotinguiba.

Falar sobre a música tradicional do nosso interior não é fazer um exercício de mero passadismo ou folclore de vitrine. É tratar de sobrevivência identitária. No coração dessa resistência pulsa a Banda de Pífanos de Geração em Geração, a mais antiga de Japaratuba e região. Oriunda das comunidades ribeirinhas do Riacho do Poxim — o curso d’água que serve de fronteira física, mas que une culturalmente os municípios de Japaratuba e Japoatã —, a banda nasceu no povoado Encruzilhadas, forjada no seio da agricultura familiar e da vida comunitária. Ali, a taboca, o bambu e, mais recentemente, o cano de PVC converteram-se em extensões da própria voz de um povo que transmite seus saberes pela oralidade, de pai para filho, desafiando o esquecimento. 

E como e quando surgiu o Pífanos nessa região

Contam os mais velhos que essa tradição já vem de seus bisavós, trisavós e tataravós. E foi crescendo de acordo com alguma família que ao adoecer um filho ou pedir alguma graça a um santo, fazia uma promessa e o pagamento era fazer uma novena no dia do santo padroeiro ou de sua devoção. Então, naqueles povoados já havia um calendário de "tocadas", culminando sempre na de Santo Antônio na casa de Seu Dóia, no Povoado Encruzilhadas, cuja filha está, atualmente, com 99 anos de idade. Dessa forma, não há um provável ano de "fundação", apesar de que entre meados do século XIX a  1885, é o intervalo de nascimento entre o pai e o avô de D. Caçula de 99 anos, a mais velha ainda viva. Portanto, mais de 140 anos de existência. 

O Legado de Mestre Jailson e a Mística Ribeirinha

Nenhuma narrativa sobre o pífano em nosso chão se sustenta sem evocar a figura perene do seu principal condutor: o saudoso Mestre Jailson do Pífano (in memoriam). Jailson não era apenas um executor de melodias; ele era o guardião de um portal temporal. Quando posicionava o instrumento nos lábios, o que se ouvia não era o ensaio metódico das partituras urbanas, mas o sopro dos antigos, o ritmo das novenas de Santo Antônio e Santa Luzia, a poeira das estradas e a mística das águas do Poxim.

Sob a ótica do Originalismo, a obra de Mestre Jailson e a continuidade da Banda de Geração em Geração representam a essência da originalidade psíquica e cultural do sergipano. É a manifestação de um Lar que se expande através do som. A música do pífano não se vende nas prateleiras do mercado de consumo rápido; ela se vive, se herda e se protege dentro da estrutura familiar. É o patrimônio imaterial em seu estado mais puro e caridoso (Caritas), aquele que se entrega à comunidade para manter acesa a chama da dignidade local.

O Injustificável Esquecimento Institucional

No entanto, quando confrontamos essa riqueza viva com a atuação das secretarias de cultura locais e estaduais, a realidade se impõe com o amargor da injustiça. Assistimos, ano após ano, a um verdadeiro escárnio orçamentário. O poder público não hesita em injetar verbas vultosas, cifras astronômicas e recursos carimbados para financiar palcos gigantescos, estruturas pirotécnicas e cachês inflacionados para atrações comerciais de fora, que passam pelas nossas cidades deixando apenas o rastro do lixo e do consumo efêmero.

Enquanto o mercado da diversão massificada é oxigenado com o dinheiro do contribuinte, a autêntica raiz do nosso povo é empurrada para a invisibilidade. As bandas de pífano, os grupos de idosos, os mestres de saberes tradicionais sofrem com o completo esquecimento institucional. Falta fomento contínuo, faltam editais desburocratizados de salvaguarda, faltam políticas públicas reais que garantam a manutenção dos instrumentos, o deslocamento dos musicistas e a formação de novas oficinas para a juventude dos povoados.

Para a engrenagem política colonialista que ainda vigora no interior, a cultura de raiz é vista apenas como um adereço exótico para ilustrar folhetos de turismo ou abrir solenidades oficiais por alguns minutos. Recusam-se a entender que o pífano é a nossa certidão de nascimento coletiva. Deixar essa tradição morrer sem apoio é cometer um crime de lesa-pátria contra a memória de Sergipe.

O Futuro do Pife: Resgatar para Emancipar

A Banda de Pífanos de Geração em Geração resiste porque possui a solidez das árvores antigas. Ela não depende do aplauso efêmero das elites políticas para existir; sua força vem do sangue, da memória de Mestre Jailson e do respeito à ancestralidade ribeirinha. Mas a resistência não deve ser sinônimo de desamparo.

Nesta terça-feira, 26 de maio de 2026, cobramos uma inversão de prioridades na gestão cultural do Vale do Cotinguiba. Menos espetáculo de palanque e mais salvaguarda na base. Precisamos de escolas municipais que incluam o pífano em suas atividades multidisciplinares, de incentivo financeiro direto aos mestres que dedicam a vida a repassar o sopro aos netos e do reconhecimento definitivo desses grupos como patrimônio vivo.

O som que ecoa de Encruzilhadas e cruza as águas do Riacho do Poxim é o lembrete de que somos um povo com história, identidade e prumo. Que as autoridades limpem os ouvidos do barulho ensurdecedor do comércio cultural e passem a escutar, com a reverência que ele merece, o sopro límpido, forte e eterno da nossa própria terra.

O Dia em que a Missão Virou Cidade

O dia em que a antiga Missão vestiu-se de cidade sob o olhar atento do tempo e de um menino.




Por Flávio Hora


Dizem que essa foto colorida artificialmente é da década de 1930. E nesse período me bate uma saudade daquilo que não vivi. A poeira daquela sexta-feira, 24 de agosto de 1934, não era uma poeira qualquer. Era uma poeira que carregava o peso de 75 anos de emancipação política e a expectativa de um decreto. Quando o coronel Augusto Maynard Gomes assinou o Decreto-lei nº 238, a antiga Missão de Japaratuba não mudava de lugar no mapa, mas mudava de tamanho no peito de sua gente: a sede do município era, finalmente, elevada à categoria de cidade.

E que capricho do destino o calendário reservou: era o Dia do Artista. Japaratuba, terra que mais tarde pariria Arthur Bispo do Rosário e tantos outros mestres da identidade sergipana, nascia cidade sob a benção da criação. Apesar de que a essa altura do campeonato ele já estava homem feito. 

Quem fechar os olhos e tentar voltar àquela sexta-feira vai enxergar a Igreja Matriz, pomposa e soberana, reinando quase absoluta. Ao redor, poucas povoações desenhavam o contorno do que hoje conhecemos. O coreto já estava lá, imponente, como se guardasse o eco das retretas que embalavam os namoros de outrora.

Para quem nasceu mais de meio século depois, resta o exercício sagrado da imaginação. Resta o recurso de recorrer aos guardiões do tempo. Meu avô, nascido em 1928, seria capaz de lembrar daquele alvoroço? Tinha apenas seis anos. E os homens e mulheres ali do povoado Encruzilhadas, nascidos em 1924 ou 1926? Esses centenários, ou quase centenários, carregam nos olhos a Japaratuba que os livros de história ousaram esquecer. Eles guardam os nomes de pessoas comuns que ergueram as paredes dessa terra, gente que viu gerações nascerem e desaparecerem como a fumaça dos antigos engenhos.

Por décadas, muita gente confundiu as estações. Celebrava-se o 24 de agosto como o aniversário do município. Mas a verdade sempre esteve hasteada no mastro, esperando por quem soubesse ler o tempo.

Na minha meninice, em meados dos anos 90, sentado nos bancos do grupo escolar de Dona, eu já olhava para o tecido da bandeira de Japaratuba e intrigava a minha própria mente:

Se o aniversário é em agosto, por que a bandeira estampa o dia 11 de junho de 1859?

Eu já sabia. Ah, se sabia! A própria professora Dona reforçava o mistério — e a solução — quando nos ensinava a cantar o hino municipal. A letra estava lá, nítida, cantando o 11 de junho como o momento do "desmembrando de Capela". Pronto. A pista sempre esteve na música e no pano.

Ainda me pergunto por que as pessoas preferiram abraçar a primeira versão que ouvem sem antes investigar. Mas a minha natureza sempre foi essa: minuciosa, atenta aos detalhes, desde criança. Foi preciso virar o século, já nos primeiros anos do século XXI, para que as autoridades desfazessem o equívoco e retificassem o calendário oficial. Mas o menino dos anos 90 já tinha decifrado o enigma.

No fundo, quem viveu aquela sexta-feira de agosto de 1934 sentiu a mesma pulsação de felicidade de quem testemunhou a certidão de nascimento do município. E por falar em precisão: o 11 de junho de 1859 caiu em um belo sábado. Duas festas, dois dias de semana, a mesma alma japaratubense.

E subimos a torre. Minha própria história está impregnada nos tijolos e no cal dessa cidade. Fecho os olhos e me vejo menino outra vez, driblando a vigilância do sacristão. Subi, com o coração na boca, os degraus já ruídos da torre da igreja. Uma aventura perigosa para pernas tão curtas, mas Deus sempre me protegeu — e, na minha inocência de criança, gostava de pensar que era com exclusividade. Obrigado, Senhor!

Lá do alto, o vento bateu no rosto e me entregou a geografia inteira de Japaratuba. Uma visão que guardo na memória como uma fotografia que nunca desbota: A praça da igreja, o coração pulsante; A Pedreira, com suas marcas no relevo e O Prata, dizia eu que o avistava também, correndo com suas águas e memórias.

Três cenários que a nova cidade, estreada naquela sexta-feira de 1934, preparou para o meu futuro. Cenários repletos de segredos, de heróis anônimos e de esquinas poéticas. Histórias vivas que, no tempo certo, eu ainda irei contar.

segunda-feira, 25 de maio de 2026

VII FLIG 2026: Academia Gloriense de Letras abre inscrições para lançamento de livros em Nossa Senhora da Glória

O maior evento literário do Sertão sergipano acontece em agosto; escritores de diversos gêneros já podem submeter suas obras para a programação oficial.


Imagem: Divulgação

O Sertão sergipano se prepara para se transformar, mais uma vez, na capital da literatura e da cultura regional. A Academia Gloriense de Letras (AGL) anunciou oficialmente a abertura das inscrições para os escritores interessados em lançar suas obras na VII FLIG – Festa Literária de Glória.

O evento, que já se consolidou como um dos maiores e mais importantes marcos do calendário cultural de Sergipe, acontecerá nos dias 25, 26 e 27 de agosto de 2026, no município de Nossa Senhora da Glória.

A FLIG é amplamente reconhecida por promover o encontro democrático entre autores, leitores, artistas, estudantes e pesquisadores. O grande objetivo do encontro é valorizar a produção cultural do Nordeste, além de fortalecer as práticas de leitura e escrita na região.

Como participar dos lançamentos oficiais

Escritores e escritoras de qualquer localidade que possuam obras publicadas nos mais diversos gêneros literários — como romance, poesia, crônica, contos e literatura infantojuvenil — podem pleitear um espaço na programação.

Para garantir a organização e o perfil do evento, a comissão organizadora detalhou algumas orientações importantes para os proponentes:

* Inscrição por obra: O autor deve preencher um formulário específico para cada livro que deseja lançar. Dados incompletos podem inviabilizar a participação.

* Processo de Curadoria: As propostas passarão por uma análise da organização, que levará em conta critérios como a disponibilidade de espaço na grade horária, a diversidade de gêneros e a adequação ao perfil da FLIG.

* Estrutura e Vendas: Os autores selecionados terão direito a uma mesa forrada e água durante o momento do lançamento. Vale ressaltar que a comercialização dos exemplares é de responsabilidade exclusiva do próprio autor.

* Contrapartida Cultural: Como forma de incentivo à leitura local e preservação da memória literária, cada participante deverá doar 02 (dois) exemplares da obra lançada para o acervo permanente da Academia Gloriense de Letras.

* Acessibilidade: O formulário de inscrição conta com um campo de observações para que autores com necessidades específicas de acessibilidade possam informar à organização, garantindo o suporte necessário.

Comunicação e Confirmação

Após o encerramento da fase de inscrições, a organização da VII FLIG entrará em contato direto com os escritores selecionados para confirmar a participação e alinhar os detalhes logísticos, como horários e estrutura de palco.

Para quem respira literatura, a VII FLIG surge como uma vitrine fundamental para fazer ecoar as vozes, a identidade e as histórias da nossa gente.

Serviço:

Evento: VII FLIG – Festa Literária de Glória (2026)

* Data: 25, 26 e 27 de agosto de 2026

* Local: Nossa Senhora da Glória / SE

* Inscrições: Disponíveis através dos canais oficiais e formulários digitais da Academia Gloriense de Letras.