quarta-feira, 27 de maio de 2026

O Palco Contra a Pena: O Esvaziamento da Identidade no Festival de Poesia de Japaratuba

A ausência de veteranos da terra e a insatisfação com critérios que priorizam a performance teatral em detrimento da literatura de raiz acendem o debate sobre a perda de identidade cultural no tradicional certame de Japaratuba.



O anúncio do resultado final da triagem das poesias classificadas para o XXVIII Festival de Poesia de Japaratuba traz consigo mais do que uma lista de nomes e pontuações frias. Traz à tona, novamente, um eco de insatisfação que reverbera nos bastidores culturais do município há mais de uma década. Diante de uma tabela dominada por notas técnicas e uma pulverização de concorrentes de outras cidades, a pergunta que não quer calar nos cantos da cidade é uma só: Cadê os poetas japaratubenses?

A crise de identidade do festival não é nova. Para compreendê-la, precisamos retroceder a 2013, ano em que o certame sofreu um duro golpe de credibilidade quando uma delegação de poetas lagartenses, frustrada com os rumos organizacionais e os critérios de avaliação, retirou-se de cena desapontada. O que parecia um caso isolado de "bairrismo" ou "dor de cotovelo" revelou-se o sintoma de uma doença crônica que acabou por afastar os maiores tesouros da própria casa.

Onde estão as vozes de veteranos da terra como Darquiran Costa, o Poeta Afamado, Flávio Hora e Antônio Glauber? A ausência desses baluartes na linha de frente do festival não é fruto de escassez de talento ou de ócio criativo. É um boicote silencioso. É o cansaço daqueles que se recusam a submeter a pureza da sua escrita ao crivo de uma produção majoritariamente teatral, muitas vezes travestida de poesia.

A Ditadura da Performance sobre a Escrita

O nó górdio dos festivais de poesia contemporâneos reside na confusão milenar entre o texto literário e a performance de palco. O que deveria ser uma celebração da métrica, da rima, do sentimento lapidado na ponta da caneta — a essência do Cordel e da poesia de raiz que o prêmio tanto evoca homenagear — transformou-se em um espetáculo cênico.

Ganha mais pontos quem grita mais alto, quem chora melhor ou quem domina as técnicas de expressão corporal aprendidas em oficinas de teatro na capital. O texto, a alma do poeta, virou mero coadjuvante de um show de entretenimento formatado para agradar jurados que, muitas vezes, operam sob planilhas burocráticas e distantes da realidade lírica do interior sergipano.

Para o poeta tradicional, aquele que traz a oralidade na sua forma mais pura e despida de artifícios acadêmicos ou cênicos, o palco virou um ambiente hostil. Pra que se submeter a isso?

A Lição Incompossível de Gibras

Para ilustrar a miopia desse formato, basta lembrar o ano de 2013, quando o festival homenageou o saudoso poeta Gibras. Um homem cuja genialidade e importância para a cultura de Japaratuba são inquestionáveis. No entanto, há uma ironia dolorosa nessa homenagem: Gibras partiu sem nunca ter vencido o festival que o aplaudiu de pé.

A história de Gibras prova que a legitimidade cultural não cabe dentro de uma nota de 0 a 10 dada por uma banca itinerante. O respeito do povo e dos seus pares é imutável, enquanto as decisões dos júris de festival são efêmeras e, frequentemente, injustas. Se os nossos maiores nomes precisam ser ignorados em vida pelos critérios do concurso para só serem validados após a morte através de homenagens póstumas, o mecanismo está quebrado.

Um Festival para Quem?

É fundamental reconhecer que o Festival de Poesia de Japaratuba é um patrimônio que projeta o município regionalmente e atrai oxigênio cultural de fora. A integração com poetas de Estância, Capela e Aracaju é rica. Contudo, a universalidade do evento não pode acontecer às custas do epistemicídio da cultura local.

Se o festival continuar a priorizar a "produção teatral" em detrimento da literatura de raiz, ele continuará a ver suas maiores mentes locais se retirarem para o silêncio de suas casas. Homenagear o Mestre Ninizio na edição deste ano é um passo bonito, mas contraditório, se o formato do evento sufoca os herdeiros diretos dessa mesma tradição.

Japaratuba precisa urgentemente repensar o seu festival. É preciso criar salvaguardas para a poesia da terra, equilibrar o peso entre o texto escrito e a performance cênica, e, acima de tudo, resgatar o respeito dos seus veteranos. Caso contrário, o Barracão Cultural continuará cheio de luzes e aplausos, mas profundamente vazio da verdadeira alma japaratubense.

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