Como a fusão entre o pragmatismo financeiro, as alianças contraditórias do Centrão e o ressentimento do eleitor moldam o xadrez sucessório de 2026 no estado.
Por Flávio Hora
Antes de mergulhar na análise do cenário político sergipano, é fundamental reafirmar um princípio basilar do Estado Democrático de Direito: a crítica, a interpretação e o debate sobre a vida pública são direitos garantidos constitucionalmente. A análise política — especialmente quando se refere a agentes públicos, decisões judiciais, alianças partidárias e estratégias eleitorais — integra o campo legítimo da liberdade de expressão, da liberdade de imprensa e do direito à informação, assegurados pelo artigo 5º da Constituição Federal.
Este texto se fundamenta em fatos de conhecimento público, informações divulgadas oficialmente, posicionamentos políticos declarados e decisões já submetidas ao crivo institucional do Poder Judiciário. Não se trata de antecipação de culpa, julgamento definitivo ou condenação moral de qualquer personagem citado, mas de uma reflexão crítica sobre os impactos políticos, eleitorais e institucionais que tais acontecimentos produzem no imaginário coletivo e no jogo democrático.
Em uma democracia madura, figuras públicas e grupos de poder estão naturalmente sujeitos ao escrutínio da sociedade, da imprensa e da opinião pública. Questionar alianças, apontar contradições, analisar estratégias eleitorais e discutir os efeitos do capital político sobre as estruturas de poder não constitui ataque pessoal, mas exercício legítimo da cidadania e do pensamento crítico.
A democracia não se fortalece no silêncio. Ela se consolida justamente na existência do debate livre, plural e independente sobre os rumos do poder.
O Cenário Político de Sergipe
A engrenagem política que movimenta o estado de Sergipe rumo às eleições de 2026 oferece uma das mais nítidas e pedagógicas radiografias do atual cenário público brasileiro. Esqueça os manuais de ideologia, os discursos inflamados sobre esquerda e direita ou as promessas de salvação social. No tabuleiro local, o jogo é regido por duas forças implacáveis e complementares: a supremacia do capital econômico/político e o revanchismo pessoal, que no fundo, são faces de uma mesma moeda.
O eleitorado sergipano testemunha um arranjo onde o "fígado" define o voto do cidadão comum, enquanto o "bolso" e a necessidade de sobrevivência moldam os palanques das elites. Em resumo, a política sergipana é pensada sobre dois pilares: o capital e o revanchismo político (o ressentimento), um claro reflexo da política nacional.
Infelizmente, não temos mais debates sobre políticas públicas, nem sobre projeto, nem orientação política baseada em critérios técnicos ou administrativos sobre quem tem preparo para o cargo. Atualmente, o debate é sobre quem tem dinheiro e voto para se manter no páreo e vencer as eleições, tudo na base da barganha e do clientelismo, ganha o jogo, geralmente, o melhor articulador.
O Casamento do Século: A Megaestrutura de Fábio Mitidieri
Para compreender o peso do capital na política local, basta olhar para o Palácio de Despachos. O governador Fábio Mitidieri (PSD) não caminha para a reeleição apenas amparado pela máquina do Estado; ele construiu uma verdadeira superestrutura que desafia a gravidade ideológica.
O ápice dessa engenharia foi o surpreendente arranjo com o senador Rogério Carvalho (PT). Rivais históricos em 2022, numa disputa marcada por ataques viscerais, ambos agora dividem o mesmo palanque sob a chancela pragmática do Palácio do Planalto. Para o PT, garante-se oxigênio e a tentativa de manutenção da cadeira no Senado; para Mitidieri, neutraliza-se a oposição tradicional de esquerda e concentra-se um volume inédito de tempo de TV, emendas e prefeitos aliados no interior. É o capital político em seu estado mais puro: frio, matemático e amnésico.
Para inserir no corpo do artigo de opinião, este trecho aprofunda o papel da esquerda ideológica e como ela reage ao cenário de megacoligações que desenhamos anteriormente. Pode ser encaixado logo após a análise sobre a chapa de Fábio Mitidieri e Rogério Carvalho, servindo como o contraponto ideal à "amnésia política" do capital.
O Contraponto Ideológico: Dr. Helton Monteiro e a Esquerda Sem Concessões
Se o casamento entre PSD e PT enterrou as fronteiras ideológicas tradicionais em Sergipe, a pré-candidatura do Dr. Helton Monteiro (PSOL) surge justamente para tentar recolher os cacos dessa coerência esquecida. Médico e presidente licenciado do Sindicato dos Médicos de Sergipe (Sindimed-SE), Helton personifica uma postura de "esquerda raiz" que se recusa a engolir o pragmatismo da Federação Brasil da Esperança (PT, PV, PCdoB).
A existência dessa candidatura é emblemática porque ela expõe as rachaduras e as contradições do campo progressista no estado através de pontos de ruptura incontornáveis:
O Rompimento com o Pragmatismo: O PSOL sergipano optou pelo isolamento consciente ao romper com o bloco liderado pelo PT. Para Helton, é inadmissível dividir palanque com figuras que capitanearam o impeachment de Dilma Rousseff ou que deram sustentação ao bolsonarismo. Enquanto a esquerda tradicional abraça antigos algozes em nome de tempo de TV e sobrevivência na máquina, o PSOL prefere a pureza do discurso antissistêmico.
A Luta de Classes como Eixo: Em um momento em que os grandes partidos de esquerda diluem seus discursos em amplas coalizões de centro e priorizam pautas identitárias contemporâneas, o pré-candidato do PSOL resgata a centralidade da luta de classes. Para ele, as pautas antiopressivas são fundamentais, mas não podem desviar o foco do combate central: a exploração econômica da classe trabalhadora.
A Trincheira contra as OSs e a Terceirização: Vindo do sindicalismo médico, sua plataforma traz um embate direto com o modelo de gestão do atual governo. Helton faz uma defesa intransigente do funcionalismo público e ataca frontalmente a entrega da saúde e de outros setores estratégicos às Organizações Sociais (OSs) e à iniciativa privada — uma prática comum nas últimas gestões estaduais.
O Peso de Helton no Tabuleiro
Em termos de matemática eleitoral, o PSOL dificilmente ameaçará a liderança das grandes máquinas financeiras. No entanto, sua relevância política é cirúrgica: ele funciona como um espelho incômodo para o PT de Rogério Carvalho.
Ao apostar no orçamento participativo e no diálogo direto com a sociedade, Dr. Helton Monteiro tenta canalizar o voto daquele eleitor de esquerda que se sente órfão e traído pelas alianças de conveniência. Ele é a prova viva de que, embora o capital tente padronizar o jogo, ainda há quem resista a transformar a ideologia em mercadoria de balcão.
André Moura: O "Mal Necessário" sob o Crivo do Centrão
Nenhuma figura sintetiza melhor esse pragmatismo do que o ex-deputado federal André Moura. Recentemente, novas movimentações e decisões judiciais reforçaram o estigma de suas condenações por improbidade administrativa e desvios de recursos, mantendo a clássica suspensão de seus direitos políticos. No papel, um político inelegível (cabe recurso); na prática, um dos homens mais poderosos do estado.
Para o agrupamento de Fábio Mitidieri, André Moura funciona como um "mal necessário". Ele é o general de bastidor que domina a chamada "peneira do Centrão". Moura conseguiu a proeza de liderar a base do bolsonarismo em Sergipe sem adotar o radicalismo ideológico que assusta o eleitorado moderado. Ele traduziu o bolsonarismo para o dialeto do fisiologismo municipalista: liberação de emendas, obras de calçamento, controle de partidos e uma impressionante capilaridade eleitoral, hoje espelhada no protagonismo de sua filha, Yandra Moura.
A presença de André na engrenagem governista é o preço que a máquina paga para garantir que o eleitorado conservador do interior não deságue em uma oposição radical. O grupo governista precisa do capital eleitoral que André Moura lidera, operando como uma barreira de contenção.
Valmir de Francisquinho e a Mística do "Alijado"
Se o lado governista se estrutura na racionalidade do capital, a pré-candidatura de Valmir de Francisquinho (PL) se alimenta do polo oposto: o revanchismo político.
O voto direcionado a Valmir é o maior testemunho do voto de protesto em Sergipe. Em 2022, quando liderava as pesquisas, Valmir foi alijado — excluído e jogado para fora do navio eleitoral — por uma decisão judicial nas vésperas do pleito. Parte expressiva do eleitorado interpretou o fato não como um rito técnico da Justiça, mas como uma manobra dos "barões da política" para manter o poder.
A renúncia de Valmir à prefeitura de Itabaiana para disputar o governo em 2026 é a canalização direta desse sentimento de revanche. O eleitor que o apoia não o faz necessariamente por um plano de governo estruturado, mas pelo desejo passional de dar uma resposta ao sistema. É o "fígado" operando as urnas.
O Xadrez com e sem Valmir: O Cenário dos Sonhos do Governismo
A grande verdade que ecoa nos bastidores de Aracaju é que o destino da eleição de 2026 não será decidido apenas nos palanques, mas nos tribunais. A sobrevivência ou não da candidatura de Valmir dita o ritmo do jogo para Fábio Mitidieri:
O Cenário SEM Valmir (O Sonho do Palácio): Caso os persistentes imbróglios jurídicos e recursos do Ministério Público consigam barrar Valmir novamente, a eleição perde seu principal fator de imprevisibilidade. Sem o canalizador do voto de protesto, a supermáquina PSD/PT tende a atropelar as candidaturas ideológicas, como a do Dr. Helton Monteiro (PSOL), garantindo a Mitidieri uma reeleição tranquila e sem sobressaltos.
O Cenário COM Valmir (O Pesadelo da Máquina): Se Valmir garantir o nome na urna, a eleição se transforma em uma guerra de desgaste emocional. O debate sairá do campo das realizações administrativas e entrará na perigosa narrativa do "povo contra os poderosos". Diante de um candidato com forte recall popular e sede de revanche, toda a dinheirama e estrutura de prefeitos do governismo podem não ser suficientes para conter a onda reativa.
Conclusão
Sergipe assiste a um espetáculo onde a coerência foi sepultada em nome da sobrevivência. Quando André Moura é abraçado apesar das condenações, quando o PT silencia o passado para apoiar o PSD, e quando o principal nome da oposição cresce baseado no ressentimento de uma exclusão, fica o alerta: a política sergipana abdicou dos projetos de futuro. Resta saber se, em 2026, o eleitorado votará guiado pela estabilidade do capital ou pelo calor da revanche.

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