terça-feira, 19 de maio de 2026

O Mito do Imposto Vilão e a Elasticidade do Estômago

Como a dinâmica de bens essenciais, a busca incessante pela margem de lucro e o jogo de narrativas políticas transformam a redução de impostos em bônus empresarial, deixando o consumidor refém da própria necessidade.




Na teoria dos livros, se o imposto cai, um posto baixaria o preço para atrair os clientes do concorrente, gerando uma reação em cadeia que beneficiaria o consumidor. Na prática, o mercado de combustíveis costuma operar em oligopólio (poucos concorrentes grandes) ou sob o efeito de "paralelismo de preços".

O fato é que combustível está na classe dos bens essenciais e de alta demanda. E, no capitalismo real, muitas vezes é exatamente assim que banda toca, especialmente por conta de dois fatores fundamentais que identificamos ao analisar esse mercado: a elasticidade da demanda e a estrutura de mercado.

Há uma máxima no catecismo liberal que repousa intocável no debate público brasileiro: a de que o preço do combustível na bomba é um reflexo quase exclusivo da ganância do Estado através de sua pesada carga tributária. Trata-se de uma narrativa confortável, que unifica o descontentamento do cidadão comum ao interesse do grande capital. No entanto, quando despimos o mercado de combustíveis de suas paixões ideológicas e o analisamos sob a lente nua e crua do capitalismo real, a matemática do "imposto vilão" começa a ruir diante de uma verdade incômoda: o preço de um bem essencial não é definido pelo seu custo, mas pelo limite máximo que o consumidor aceita pagar antes de parar de consumir.

O cerne do capitalismo repousa sobre o binômio sagrado de minimizar custos e maximizar lucros. Na teoria econômica dos manuais, a livre concorrência forçaria o empresário a repassar qualquer alívio fiscal diretamente ao consumidor para ganhar mercado. Na prática das avenidas e rodovias brasileiras, o cenário é de oligopólio e paralelismo de preços. Se uma carga tributária despenca de 33% para 25%, a reação imediata do dono do posto não é a benevolência de baixar a tabela para vender mais; é a percepção de uma oportunidade de ouro para engolir a diferença e inflar sua margem de lucro líquida.

A economia chama isso de demanda inelástica. O cidadão reclama, esbraveja nas redes sociais, mas não vende o carro, não deixa de trabalhar e não diminui o consumo. Se a demanda está garantida e o consumidor já assimilou o preço mais alto, por que o mercado abriria mão de sua margem em nome da concorrência?

Essa engrenagem de compensações fica ainda mais evidente na dinâmica interna dos postos, onde a gasolina e o etanol jogam um jogo de vasos comunicantes. Enquanto a gasolina funciona como a âncora de margem estável, o etanol opera como o camaleão volátil da safra, frequentemente espremido até o limite da sobrevivência para manter-se competitivo diante da barreira psicológica dos 70% do preço do derivado de petróleo. Para fechar a conta e garantir a saúde financeira, o empresário recorre à compensação cruzada e ao "capitalismo de oportunidade" das lojas de conveniência e serviços de pátio, onde as margens de lucro superam os 40%. O combustível atrai o cliente pelo estômago do carro; o café e o óleo lubrificante pagam a folha de funcionários.

Diante de um mercado tão cativo e estratégico, a discussão sobre a necessidade de intervenção estatal ou a marcha em direção ao Estado Mínimo transforma-se em um cabo de guerra puramente narrativo. Nos governos de esquerda, que historicamente assumem a Petrobras como escudo social, qualquer flutuação na bomba é capitalizada pela oposição como culpa direta da caneta do presidente. Nos governos de direita, alinhados ao discurso liberal de submissão às leis internacionais de oferta e demanda, o aumento é convenientemente terceirizado para o mercado global, o preço do barril em Londres ou o fantasma do ICMS estadual. É a blindagem política operando por conveniência: assume-se o controle na bonança, terceiriza-se a culpa na crise.

Reduzir o debate dos combustíveis à demonização dos impostos é uma cortina de fumaça que esconde o real funcionamento da cadeia de valor. A alta carga tributária brasileira é real e complexa, mas ela não é a única — e muitas vezes nem a principal — responsável pelo preço final. O combustível sobe porque o mercado sabe que, no fim do dia, o motorista vai pagar. O capitalismo de conveniência e de demanda inelástica não opera por simpatia ou patriotismo; ele opera pela máxima extração de valor onde o consumo é obrigatório. Culpar apenas o Estado é ignorar que, no livre mercado das bombas, a fome de lucro sempre se ajustará ao tamanho da necessidade do consumidor.

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