terça-feira, 19 de maio de 2026

"A Cabaça Vai ao Poço, Até Que Um Dia Tora o Pescoço"

Entre poços, cacimbas e conveniências digitais: como a sabedoria sertaneja da cabaça racha a hipocrisia e a moral de dois pesos e duas medidas na política moderna.




Já imaginaram um trabalhador com seu mocó, o jabá, a farinha e a cabaça amarrada na corda. Será apenas nostálgica? Não, ela carrega uma sabedoria prática que o asfalto e as telas de celular parecem ter esquecido.

Aliado a esse fenômeno temos o ditado popular, "a cabaça vai ao poço até que um dia tora o pescoço", resume perfeitamente a exaustão de um sistema ou de um comportamento.

Alguém aqui já viu uma cabaça de água?

Pois é. Para quem não viu e nem sabe da história, os roceiros e trabalhadores rurais mais antigos junto do "mocó" com carne assada ou jabá e uma cuia de farinha, traziam a cabaça d'água.

Mas, existiam os poços artesianos e as cacimbas onde se retirava a água potável para o consumo. A cabaça geralmente era mergulhada com a corda para encher, fato esse que de tanto ser mergulhada e puxada para fora, acabava quebrando o "pescoço" da cabaça. Existem cabaças de cerâmica e as de cumbuco seco.

O homem da roça sabia das coisas porque lidava com a gravidade e com a fragilidade da matéria. Sabia que o barro racha, que o cumbuco seco cede e que corda grossa em pescoço fino de cabaça, uma hora, cobra o preço. O poço — ou a cacimba, a depender de onde a sede apertava — era o juiz implacável do desgaste. De tanto ir buscar o sustento, a física operava seu milagre reverso: a quebra.

Hoje, no entanto, a física foi revogada pelas redes sociais. Principalmente a física moral.

Modernamente, a cabaça virou o lombo do adversário político. E o poço virou o feed de notícias.

Assiste-se, diariamente, a um fenômeno de engenharia hidráulico-partidária fascinante: a cabaça do meu desafeto pode ir ao poço da execração pública mil vezes por dia. Se ela voltar rachada, o internauta aplaude, faz meme e decreta que a gravidade agiu com justiça divina. “Vejam!”, grita o cidadão, com os dedos sujos de farinha digital, “a corrupção daquele infeliz finalmente torou o pescoço da lógica!”. Há uma satisfação quase erótica em ver o cumbuco do outro virar caco.

O milagre da elasticidade, contudo, acontece quando a cabaça que desce ao poço ostenta a foto do nosso estimado líder.

Ah, aí o material muda. O pescoço do aliado não é feito de cumbuco seco ou cerâmica barata; é feito de titânio blindado, revestido com o verniz da incompreensão pública.

Se o nosso candidato comete o mesmíssimo deslize, o mergulho na cacimba da denúncia deixa de ser um fato e passa a ser uma conspiração geométrica. A corda que puxa a acusação não é a da justiça, é a da “inveja”. O balde d’água fria trazido à tona não é prova, é “intriga da oposição”. O pescoço do homem, de tão elástico que se torna pela nossa conveniência, faz inveja aos contorcionistas do Cirque du Soleil. Ele estica, dobra, passa pelo buraco da agulha da moralidade e volta intacto, pronto para receber mais um voto de louvor.

Filosoficamente, criamos o Silogismo do Jacaré: se o réptil morde o meu vizinho, é a natureza sendo implacável e bela; se morde a minha perna, é um atentado terrorista contra o direito de ir e vir.

O erro crasso dessa nossa era de torcidas uniformizadas é esquecer que o poço da hipocrisia não tem fundo, mas tem espelho. Ao passarmos o dia torcendo para que a cabaça alheia se estatele no chão da crítica, esquecemos de olhar para a corda que segura a nossa própria reputação.

No fim, quando a coerência finalmente "tora o pescoço", o que nos sobra não é a água limpa da verdade, mas a lama da conveniência. E beber lama, por mais que venha canecada pelo seu político de estimação, continua deixando um gosto amargo na boca de quem ainda insiste em pensar.




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