sábado, 9 de maio de 2026

A Engrenagem Perdida: O Retrocesso Logístico que Travou o Vale do Cotinguiba

Uma análise sobre como o abandono das ferrovias isolou cidades produtivas e por que a integração com o Porto de Sergipe é a única saída para recuperar o tempo perdido.



Falar de ferrovias em Sergipe é, inevitavelmente, tocar em uma ferida aberta que oscila entre a saudade do progresso e o trauma do maior desastre ferroviário da história do Brasil. Neste 09 de maio, enquanto olhamos para as estações em ruínas que pontilham o Vale do Cotinguiba, somos obrigados a refletir: o que restou do projeto de integração que outrora prometia ser a espinha dorsal da nossa economia?

Para entender o presente, precisamos revisitar o fatídico 18 de março de 1946. O acidente ferroviário de Aracaju — ocorrido no trecho entre Riachuelo e Laranjeiras — não foi apenas uma tragédia com 185 mortos e centenas de feridos; foi o marco de um descarrilamento que parece ter se estendido por décadas na nossa política de infraestrutura. O desastre, causado por falhas técnicas e excesso de peso, ecoa até hoje como um aviso sobre o que acontece quando a gestão da segurança e do patrimônio é negligenciada.

Recentemente, a notícia de que o Governo Federal planeia uma malha ferroviária para ligar as capitais nordestinas é o reconhecimento tardio de que o isolamento logístico da região é um entrave ao seu PIB. Para o Vale do Cotinguiba e para Sergipe, esta promessa não é apenas sobre transporte de passageiros; é sobre integração econômica real.

O Patrimônio que Virou Pó

Do ponto de vista contábil e de gestão, as antigas estações ferroviárias representam um imobilizado público desperdiçado. Cidades como Japaratuba, Laranjeiras e Riachuelo têm no seu DNA a cultura dos trilhos. Contudo, ao permitirmos que esses prédios históricos desmoronem sob o peso do abandono, estamos praticando uma "queima de ativos" imaterial.

Onde deveria haver centros culturais, museus da memória ou pontos de apoio ao turismo regional, sobra o silêncio do mato que cresce sobre os dormentes. A falta de transparência e de planos municipais para a revitalização desses espaços é uma forma de "acidente administrativo" continuado.

O Custo Logístico do Vazio

A morte das ferrovias em Sergipe condenou o nosso desenvolvimento a uma dependência asfixiante do modal rodoviário. O escoamento da produção do Vale do Cotinguiba, que poderia ser feito de forma barata e eficiente pelos trilhos, hoje sofre com o alto custo dos fretes e o desgaste das nossas BRs e SEs.

A ausência de uma malha ferroviária ativa é um gargalo que impede a atração de indústrias de grande porte para o interior do estado. Quando discutimos a aplicação de recursos de outorgas ou fundos de desenvolvimento, a logística deveria ser o pilar central. Sem trilhos — reais ou metafóricos — o progresso não chega; ele apenas passa por nós.

O Porto de Sergipe como Coração de um Sistema Multimodal: O Fim do Isolamento do Interior

A verdadeira virada de chave para a economia de Sergipe, e especialmente para o Vale do Cotinguiba, não reside apenas na manutenção de estradas, mas na transformação do **Porto de Sergipe** em um hub de integração ferroviária. Hoje, o porto opera como uma ilha: cercado de potencial, mas desconectado da veia aorta que outrora eram os trilhos.

A Engrenagem que Falta

Para cidades como Japaratuba, Riachuelo e Laranjeiras, a reativação de um ramal ferroviário moderno conectado ao porto significaria o fim do "custo da distância".

Escoamento Industrial: Imaginemos a produção de fertilizantes e cimento saindo diretamente das fábricas para os vagões, chegando ao porto sem enfrentar os gargalos da BR-101. Isso reduz o custo logístico em até **30%**, tornando o produto sergipano muito mais competitivo no mercado internacional.

Portos Secos e Entrepostos: A integração permitiria a criação de "Portos Secos" no interior. Isso transformaria as antigas estações ou áreas adjacentes em centros de logística, onde a carga é consolidada e despachada. É o passado ferroviário sendo adaptado para a eficiência do século XXI.

A Lição das Metrópoles Globais

Cidades como Roterdã (Holanda) e Xangai (China) não atingiram o topo do comércio mundial apenas por terem mar; elas venceram porque o porto é o destino final de uma malha ferroviária imensa que traz a riqueza do interior de forma rápida e barata. No Brasil, o exemplo de Santos (SP) demonstra que, sem a ferrovia, o porto simplesmente para.

O Plano Diretor como Mapa do Tesouro

Não podemos mais planejar nossas cidades olhando apenas para o asfalto. É urgente que os novos Planos Diretores dos municípios do Vale protejam as antigas faixas de domínio ferroviário. Transformar leitos de trilhos em avenidas comuns é um erro estratégico irreversível; é destruir o caminho por onde o grande desenvolvimento poderia passar.

A integração entre o Porto de Sergipe e uma malha ferroviária revitalizada é a única forma de garantir que o interior não seja apenas um "corredor de passagem", mas o motor real da produção estadual. É hora de parar de ver o trem como uma nostalgia em sépia e passar a enxergá-lo como a tecnologia logística mais sustentável e econômica que o futuro nos exige.

Conclusão: Para não Esquecer

O "retrocesso" é real. O passado nos deixou a infraestrutura (os trilhos), e a tecnologia atual nos dá os trens modernos (mais rápidos e sustentáveis). O que falta é a vontade política de integrar esses dois mundos nos Planos Diretores atuais.

Adaptar o histórico ferroviário aos dias de hoje não é "voltar no tempo", é finalmente entrar no século XXI com uma logística que não seja refém apenas de uma via de asfalto.

O acidente de 1946 nos ensinou, da forma mais dolorosa possível, o preço da negligência. Hoje, em 2026, a nossa negligência é outra: é o esquecimento. Não podemos deixar que a história das nossas ferrovias seja apenas uma nota de rodapé sobre tragédias.

É preciso que as prefeituras e o Governo do Estado resgatem o valor desses caminhos. Que a memória dos que partiram naqueles vagões em Riachuelo sirva para nos lembrar de que a gestão pública lida com vidas, e que cada projeto abandonado é um trilho a menos no caminho para o futuro. O progresso de Sergipe não pode continuar esperando na plataforma de uma estação que já não existe mais.



Informe: as imagens são meramente ilustrativas, criadas por inteligência artificial.

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