domingo, 17 de maio de 2026

O Senhor do Seu Próprio Tempo (Com Aspas)

Entre a fuga da escala 6x1 e a miragem da autonomia, a crônica do autônomo de interior que trocou o chefe de carteira assinada por mil patrões diários e a eterna esperança do faturamento ideal.




Um dia, na faculdade, o professor alertou: "vocês estão estudando para arranjar um emprego, estão certos, mas, empregado faz o que o patrão manda". Pois é, aquilo martelou tanto no juízo que o estudante já formado saiu empolgado para enfrentar o mercado de trabalho como profissional liberal.

Se o relógio da matriz bater as onze e quarenta e cinco e a maçaneta da porta girar, o almoço está sumariamente cancelado. Não há tribunal trabalhista, sindicato ou convenção coletiva que dê ganho de causa ao estômago do homem que é seu próprio patrão. Diante da silhueta do cliente que cruza o umbral da loja, o empresário de si engole o reflexo da fome, força o melhor sorriso de balcão e engaveta as duas horas de descanso que a propaganda do empreendedorismo lhe prometeu.

No interior, a liberdade tem uma tipografia miúda e caprichosa. Para trás, ficou o fantasma da escala seis por um, aquela engrenagem do comércio tradicional que compra a semana inteira de um homem pelo valor de um salário mínimo e lhe devolve um domingo manco, amputado. O sujeito acorda às nove da manhã na tentativa vã de quitar uma dívida de sono que nunca vence, toma um café requentado olhando o movimento da rua e, quando espanta as moscas do meio-dia, a segunda-feira já começou a projetar sua sombra no resto da tarde. Para não morrer nesse moinho de gastar a vida dos outros, ele escolheu gastar a sua própria. Abre o seu negócio. Vira patrão.

O problema é que o novo chefe é invisível e não aceita atestado médico. Chama-se mercado, atende pelo nome de boleto e tem a volatilidade de uma brisa de fim de tarde no Vale do Cotinguiba.

A rotina é um gerúndio eterno. É preciso ir abrindo a loja antes das oito, ir atendendo quem entra, ir fazendo a propaganda no grupo de mensagens, ir esticando o braço para atender o telefone que toca. Do outro lado da linha, quase nunca é um fornecedor; é um primo precisando de um favor, um amigo pedindo um aval, a família lembrando que, já que ele "manda no seu tempo", pode muito bem resolver os nós cegos do cotidiano de todos.

Ao anoitecer, quando as portas de aço descem com aquele estrondo pesado que ecoa pela calçada, a jornada apenas muda de endereço. Em casa, o homem é o porto seguro, a viga mestra que sustenta o teto. A família, carregada com as tensões do próprio dia, descarrega o fardo nos ombros daquele que, por decreto familiar, não tem o direito de se estressar, nem de adoecer, muito menos de fraquejar. Ele é o mantenedor. O homem de ferro que só desliga depois da meia-noite, quando o silêncio da cidade finalmente permite que ele escute o próprio cansaço.

Férias? Férias é uma palavra que o autônomo só conjuga no tempo dos outros. Parar por quinze dias significa estancar o faturamento, mas manter a torneira das contas aberta. É um cálculo punitivo onde o descanso custa o dobro do seu valor real. Então, ele segue na ciranda financeira mais antiga do comércio: a engenharia moderna de passar o cartão de crédito para pagar a fatura do próprio cartão, numa aposta mística de que o próximo mês será o mês da redenção.

O que mantém esse homem de pé, com o esqueleto moído e os olhos fixos no livro de caixa, é uma substância perigosa chamada esperança cíclica. Ele vive à espera da grande euforia. O milagre de uma festa padroeira, de um fim de ano abençoado, de uma circulação de vento a favor que traga o faturamento ideal. Ele sonha com o dia em que a renda será suficiente para que a vida não seja apenas um intervalo entre um cliente e outro.

Até lá, ele segue abrindo a loja no mesmo horário. Sabe que trocou um patrão de carne e osso por mil chefes exigentes que entram pela sua porta todos os dias. Mas, enquanto limpa o balcão e olha para a calçada, há um consolo silencioso que o comércio da cidade não pôde lhe tirar: o chicote que hoje lhe corta as costas, por mais doloroso que seja, pelo menos tem as suas próprias iniciais gravadas no cabo.

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