A estratégia populista de linchar a imprensa local, manipular o ressentimento do eleitor e usar o assédio judicial para blindar os abusos do poder.
A cena repete-se com a precisão coreográfica das tragédias anunciadas. Diante de uma denúncia de nepotismo, de um contrato de licitação sob suspeita ou do colapso óbvio de um serviço público essencial, o mau político não apresenta notas fiscais, certidões ou justificativas técnicas. Ele apresenta um culpado. E, quase sempre, o escolhido para ocupar o banco dos réus da opinião pública é o mensageiro: o jornalista independente, o portal local, o blogueiro que se recusou a trocar o brio profissional por uma fatia da verba publicitária institucional.
Transformar a imprensa livre em bode expiatório é um método tão antigo quanto o próprio absolutismo, mas que ganhou contornos alarmantes na era dos algoritmos e da polarização hipertrofiada. A estratégia é cirúrgica e perversa: consiste em desviar os olhos do cidadão do foco do escândalo e apontá-los para quem o revelou, convertendo uma falha de gestão em uma suposta perseguição política.
Para que essa engrenagem funcione, o governante ou parlamentar inescrupuloso precisa de um combustível específico: o voto movido pelo fígado, e não pela cabeça. Apelar às entranhas do eleitorado significa sequestrar o debate racional e substituí-lo pelo ressentimento, pelo fanatismo e pela urgência do julgamento sumário. O eleitor que vota com o fígado não quer saber se o portal de notícias provou, com documentos obtidos via Lei de Acesso à Informação, que houve desvio de finalidade na aplicação de recursos públicos. Ele quer apenas saber se o jornalista pertence ao seu "time" ou ao "time adversário". Se a denúncia atinge o seu político de estimação, o fato é rebaixado a "intriga de blogueirinho".
Essa manipulação se vale da fragilidade estrutural do jornalismo independente nas pequenas e médias cidades. Enquanto as corporações tradicionais de mídia possuem blindagem jurídica e distância geográfica dos fatos narrados, o jornalista local divide a calçada com o prefeito, com o secretário e com os vereadores. Ele é vulnerável ao assédio judicial — aquela enxurrada de processos por danos morais cujo objetivo real não é a reparação de uma calúnia inexistente, mas o estrangulamento financeiro do profissional.
Quando o mau político carimba um portal independente como "inimigo do povo" ou "página de fofocas", ele está emitindo uma ordem velada para que suas milícias digitais iniciem o linchamento virtual. O objetivo final vai muito além de desacreditar uma única matéria: busca-se criar um efeito pedagógico pelo medo. Intimida-se o profissional de hoje para que o de amanhã opte pelo silêncio obsequioso e confortável das notas oficiais e das propagandas pagas.
Uma sociedade que consome e aplaude a destruição da imprensa local está, deliberadamente, assinando um cheque em branco para o autoritarismo e para a corrupção de província. Sem o olhar atento do jornalismo independente, os contratos de gaveta prosperam, os recursos que deveriam ir para a saúde evaporam em eventos fantasmas e a transparência pública vira ficção jurídica.
O antídoto para o populismo visceral é a insistência na racionalidade. O cidadão que compreende o valor do voto precisa aprender a ler com a mente fria, a cruzar dados e a defender quem, muitas vezes de forma solitária e corajosa, dá voz à fiscalização que os grandes centros esquecem. Atacar o termômetro nunca curou a febre de uma administração doente. Quebrar a vidraça da imprensa livre só serve para deixar o patrimônio público exposto aos que preferem governar na mais completa escuridão.

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