quinta-feira, 21 de maio de 2026

O Alambique da História: Entre o Fausto dos Engenhos e as Correntes da Submissão Modernizada

No Dia Nacional da Cachaça de Alambique, o Vale do Cotinguiba resgata a memória da opulência canavieira, a herança dos "crioulos" e o enigma de uma subordinação política que teima em não morrer.



Por: Flávio Hora


Neste 21 de maio, o Brasil celebra o Dia Nacional da Cachaça de Alambique e da Produção Artesanal. Para quem caminha pelas terras férteis de massapê negro do Vale do Cotinguiba, a data vai muito além da apreciação de uma iguaria destilada. Ela evoca o cheiro do bagaço da cana, o som das velhas almanjarras movidas a tração animal e os eixos de madeira sucupira dos carros de boi que, no século XIX, desenharam a paisagem econômica de Sergipe. Mas, acima de tudo, evoca o suor e o sangue daqueles que ergueram essa riqueza: a mão de obra escrava.

Celebrar a produção artesanal exige um olhar agudo sobre a nossa formação social. A Cotinguiba já foi a região mais rica e mais culta do estado, sustentada por uma aristocracia rural que casava seus filhos por dotes e alianças de sangue. Cidades como Laranjeiras, Maruim e Santo Amaro das Brotas floresceram sob o fausto do açúcar que atraía o comércio europeu. No entanto, por trás dos casarões imponentes e da exportação febril, escondia-se o motor silencioso da senzala.

A Preponderância do Escravo "Nativo" e o Mito do Bom Senhor

A historiografia sergipana revela uma particularidade crucial sobre o cotidiano escravo em nossos engenhos. Diferente de Salvador ou do Recife, Sergipe não dispunha de portos com autonomia para importar mão de obra diretamente da África. Nossos cativos vinham, em sua maioria, do recôncavo baiano, gerando uma preponderância de crioulos (negros nascidos no Brasil) e mestiços.

Esses "negros da terra", integrados há gerações ao idioma, aos códigos e aos costumes locais, foram muitas vezes rotulados pela visão eurocêntrica e elitista como "negros civilizados". Criou-se, inclusive, o mito de que os escravos em Sergipe eram "melhor tratados". Uma falácia desconstruída por historiadores como Maria Thetis Nunes, que provou que o suposto zelo dos senhores nada mais era do que a defesa do capital investido : o escravo era um bem caro e sua perda significava prejuízo financeiro.

A dita "civilidade" imposta aos crioulos e mestiços nos engenhos do Cotinguiba envolveu mecanismos complexos de controle social, redes de compadrio e a própria catequese, que buscavam amansar o ímpeto de revolta. Embora o protagonismo negro tenha se manifestado em quilombos e sublevações — como a de 1823 em Laranjeiras  —, o sistema patriarcal logrou êxito em criar amarras psicológicas profundas, vendendo a ideia de que a obediência e a adaptação eram os únicos caminhos de sobrevivência dentro da ordem estabelecida.

Dos Velhos Engenhos aos "Coronéis Modernos"

Essa herança histórica nos ajuda a decifrar o presente. Quando olhamos para a política do interior de Sergipe, muitas vezes nos perguntamos: por que a maior parte da população ainda aceita, com passividade, a dominação dos "coronéis modernos" da política? Por que práticas populistas, o clientelismo e o mandonismo local ainda encontram tanto terreno fértil em nossos municípios?

A resposta está no DNA social moldado no Vale do Cotinguiba. A transição da escravidão para o trabalho livre não rompeu a estrutura de dependência. Quando a abolição chegou e o fausto dos engenhos entrou em decadência — levando muitas famílias tradicionais a migrarem para o café paulista  —, a mentalidade patriarcal permaneceu intacta.

O trabalhador, historicamente condicionado a buscar a proteção do "senhor" para garantir seu teto e seu quilo de farinha, apenas trocou de patrão. O antigo dono de engenho deu lugar ao chefe político oligárquico. Aquela submissão psicológica, outrora imposta ao escravo crioulo sob o pretexto de integrá-lo à "civilização", foi repassada de geração em geração. O cidadão foi ensinado a não se enxergar como detentor de direitos, mas como um eterno devedor de favores.

Crítica e Consciência

O Dia Nacional da Cachaça de Alambique, portanto, deve ser uma data de celebração da nossa capacidade produtiva artesanal e da riqueza da nossa terra. Mas deve ser, fundamentalmente, um dia de reflexão crítica.

A verdadeira emancipação do povo do Vale do Cotinguiba só acontecerá quando cortarmos o cordão umbilical invisível que nos liga à casa-grande. Romper com a dominação dos coronéis modernos exige compreender que o poder público não faz favores; ele apenas gerencia o que é nosso por direito. Enquanto aceitarmos as velhas práticas com a mesma resignação dos nossos antepassados, continuaremos a moer nossa dignidade nos engenhos disfarçados da política contemporânea.

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