Do resgate das raízes ao protagonismo do agora: como a nova consciência transforma o legado da dor em potência criativa e soberania cultural.
Se o dia 13 foi a ilusão do papel e o dia 14 foi o peso da omissão, o tempo presente nos convoca para um terceiro ato: o da retomada. Não se trata mais de esperar que a liberdade nos seja concedida por mãos alheias, mas de reconhecer que ela sempre pulsou em nosso interior, guardada como um segredo precioso entre o sopro do pífano e o barro moldado pelas mãos dos nossos ancestrais.
Encerrar esta trilogia sobre a abolição em Japaratuba é, acima de tudo, um exercício de justiça poética. Por muito tempo, tentaram nos convencer de que nossa história era um anexo da história dos outros. Que nossa cultura era apenas um "folclore" para ser visto de longe, e nossa inteligência, uma "civilidade" de fachada. Mas a verdade é que o Vale do Cotinguiba sempre foi um celeiro de saberes que as correntes jamais conseguiram confinar.
A reparação histórica que o Estado brasileiro ainda nos deve começa a ser paga toda vez que um jovem negro ocupa a universidade, toda vez que um escritor de nossa terra usa a pena para denunciar a supremacia e, principalmente, quando deixamos de pedir licença para sermos nós mesmos. O Originalismo que defendemos não é um retorno nostálgico ao passado, mas um resgate do que é autêntico para projetar o futuro. É entender que a nossa psicologia, o nosso ritmo e a nossa estética não são subprodutos, mas a essência do que o Brasil tem de mais potente.
Nesta sexta-feira, dia 15, olhamos para as nossas famílias e vemos nelas os verdadeiros arquivos da nossa resistência. É na mesa da cozinha, na transmissão oral de pai para filho e na perseverança das mães-professoras que a abolição, finalmente, começa a se completar. A liberdade real não é um decreto; é o direito de ser o autor da própria narrativa.
Que as cinzas do passado sirvam apenas para adubar o solo de uma Japaratuba que não aceita mais rótulos. Somos a terra do negro consciente, do artista soberano e do cidadão que conhece o valor de sua raiz. As correntes caíram, o desamparo nos testou, mas a palavra — ah, a palavra — esta agora é nossa. E através dela, ninguém mais poderá nos silenciar.

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