quinta-feira, 14 de maio de 2026

O Mercado das Siglas e o Deserto das Ideias: A Política como Maquiagem

Entre a construção de instituições à esquerda e o messianismo identitário à direita, o sistema partidário brasileiro se transmuta em um balcão de negócios onde as federações são a nova maquiagem para o velho pragmatismo eleitoral.




Por Flávio Hora
14 de Maio de 2026

A política brasileira contemporânea assemelha-se, cada vez mais, a uma complexa economia de mercado, onde o voto deixou de ser um compromisso ideológico para se tornar uma transação de conveniência. No cenário nacional, assistimos a um embate de polarização estética; nos estados e municípios, porém, as cores das bandeiras desbotam diante do pragmatismo do "meio-fio". O resultado é um sistema onde o eleitor, desiludido ou meramente prático, consome candidatos como produtos de prateleira, ignorando a embalagem partidária que os envolve.

A verdade é que a  política brasileira contemporânea transformou-se em uma "geometria variável" onde a lógica partidária foi substituída por uma economia de mercado agressiva. O que vemos hoje não é o amadurecimento das instituições, mas o refinamento da maquiagem política. Sob o pretexto de reduzir a fragmentação, as federações partidárias surgem não como uma reforma de convicções, mas como um consórcio de conveniência. É o "casamento por interesse" elevado ao status de regra eleitoral, onde siglas se unem por quatro anos apenas para garantir a sobrevivência do acesso ao fundo partidário, sem que haja, no fundo, qualquer unidade de pensamento.

A Ilusão da Pluralidade

O Brasil ostenta uma lista extensa de legendas, mas essa pluralidade é um simulacro. A existência de dezenas de siglas não criou "vias" ou projetos de país distintos; criou apenas mais candidatos. No imaginário popular, o PT sobrevive como a única instituição reconhecível — uma marca que, para o bem ou para o mal, possui identidade, história e militância. Do outro lado, o espectro da direita e da extrema-direita aperfeiçoou o modelo de "partido hospedeiro". Legendas como o PSL ou o PL funcionam como estacionamentos temporários para lideranças carismáticas que carregam seu eleitorado no CPF, e não no programa do partido.

Neste cenário, desenha-se uma divisão clara na forma como os campos políticos se organizam. À esquerda, há uma busca histórica pela instituição. O PT, por exemplo, consolidou-se como o único corpo político que o brasileiro médio reconhece como "partido". Ali, o voto ainda guarda um resquício programático; o eleitor identifica uma marca, uma história e uma estrutura que sobrevive além das figuras individuais. É a tentativa — ainda que imperfeita — de criar uma via duradoura através de uma sigla que serve de âncora moral para seus seguidores.

Já na direita e extrema-direita, o que se observa é o triunfo do identitarismo messiânico. Para este campo, os partidos são meros "hospedeiros" descartáveis, CNPJs de aluguel que servem apenas como suporte burocrático para o "Salvador da Pátria" da vez. O voto aqui não é na instituição, mas na identidade: o eleitor busca um espelho de si mesmo, alguém que fale suas gírias, compartilhe seus preconceitos ou encarne suas revoltas. É uma política de CPFs, onde o número da legenda (seja 17 ou 22) é apenas um detalhe técnico, trocado com a mesma facilidade com que se troca de camisa em um dia de sol.

O Eleitor como Consumidor Pragmático

Por que partidos ideologicamente opostos se abraçam nos municípios? A resposta é comercial: sobrevivência e manutenção de clientela. O eleitor, por sua vez, não se sente traído por essas alianças espúrias porque já absorveu a política como uma prestação de serviços. Se o "Doutor Fulano" traz a pavimentação ou o "Amigo Beltrano" defende valores de identidade, pouco importa o número que ele digita na urna. A fidelidade é ao líder ou à indicação, nunca à instituição.

O Ciclo do Salvador da Pátria

Essa personalização extrema alimenta o mito do "Salvador da Pátria". Enquanto o eleitor acreditar que a solução para problemas estruturais virá de um herói providencial, as instituições continuarão sendo vistas como meros entraves burocráticos. As recentes federações partidárias e reformas de maquiagem são apenas articulações para manter o fluxo de recursos públicos, sem enfrentar a raiz do problema: a ausência de conexão real entre o que o partido diz ser e o que ele efetivamente faz.

Por que o eleitor não se sente traído quando um candidato de direita se alia à centro-esquerda no município? Porque ele já absorveu a política como uma transação de mercado. Se o candidato "é dos nossos" (identidade), pouco importa o "negócio" (coligação) que ele precise fazer para se manter no poder. A traição ideológica foi substituída pela eficácia da entrega ou pela manutenção da imagem.

A pluralidade partidária brasileira é, portanto, uma fraude aritmética. Temos mais candidatos, mas menos opções reais de caminhos. O sistema produz uma inflação de siglas para esconder um deserto de ideias. No fim das contas, a maioria dos partidos "não existe" no imaginário popular; são fantasmas que ganham vida apenas no período eleitoral para drenar recursos públicos e abrigar lideranças que, na ausência de um projeto de país, oferecem apenas o conforto de uma identidade compartilhada.

O Futuro do Voto


O "salvador" é o produto mais vendido nesse mercado porque ele desonera o eleitor do peso de entender as instituições. É mais fácil crer em um herói do que em um partido. No entanto, enquanto a política for tratada como maquiagem e as federações como meros arranjos de cúpula, continuaremos girando em torno de egos, enquanto o conceito de via política — aquela que exige solidez, tempo e programa — permanece sendo um luxo que o mercado eleitoral brasileiro ainda não se dispôs a pagar.

Não estamos em um caminho sem volta, mas o motor da mudança institucional está fundido. A transição para uma democracia de instituições sólidas só ocorrerá quando o estoque de "salvadores" se esgotar e o eleitor perceber que a identidade, isolada da gestão e da ética partidária, não enche o prato nem garante o futuro. Até lá, continuaremos assistindo ao teatro das siglas, onde os atores mudam de figurino conforme a conveniência da temporada, enquanto o público, resignado, escolhe o produto que lhe parece menos danoso no balcão de negócios da democracia.


Informe: as imagens são meramente ilustrativas, criadas por inteligência artificial.

Nenhum comentário:

Postar um comentário