quarta-feira, 13 de maio de 2026

O Silêncio da "Civilidade

Ser "civilizado", naquela época, era de fato o código para ser submisso. Rejeitar esse termo e resgatar a história real — com suas dores, mas também com sua força criativa — é a única forma de começar a cobrar essa dívida histórica.



O termo ecoa nos livros de história local e nos discursos empoeirados das velhas elites: "Japaratuba, a terra do negro civilizado". Por décadas, essa frase foi carregada como uma medalha de honra, um selo de distinção que nos separava de outras paragens. Mas, ao encostarmos o ouvido na memória do Vale do Cotinguiba, a pergunta que surge é inevitável e cortante: a quem servia essa tal civilidade?

Hoje, ser "civilizado" para o sistema muitas vezes ainda significa não incomodar, não protestar e aceitar os espaços marginais que a sociedade reserva à população negra. E isso se estende a todas as classes menos favorecidas que precisam se calar para ter migalhas da burguesia. 

Para o senhor de engenho, o negro "civilizado" era aquele cujas mãos calejadas não se fechavam em punho, mas se uniam em prece sob o chicote. Era o homem arrancado de sua terra natal, despojado de seus deuses e de sua língua, a quem se permitia existir desde que sua voz não passasse de um sussurro de concordância. Civilizar, naquela gramática do opressor, era o sinônimo cruel de domesticar. Era premiar o silêncio e punir a identidade.

A dívida histórica do Estado brasileiro não se paga apenas com leis que, como a de 1888, abriram as portas das senzalas mas fecharam as portas da dignidade. Ela se arrasta no racismo velado, na supremacia que se disfarça de cordialidade e na ideia de que o negro deve ser "pacífico" para ser aceito. Em Japaratuba, essa marca foi profunda. Tentaram transformar a nossa resistência em uma obediência cega, rotulando o conformismo como virtude social.

Mas a verdade é teimosa. Ela sobreviveu no couro esticado do tambor, no sopro melancólico do pífano  do nativo e na força das tradições que nenhum "senhor" conseguiu apagar. O negro de Japaratuba nunca foi civilizado pela régua alheia; ele foi, e é, o arquiteto de uma civilização própria, que resiste através da arte e da cultura.

Hoje, 13 de maio, é dia de desmascarar esse adjetivo. Ser civilizado não é obedecer ao sistema que te exclui. Ser civilizado, no sentido mais profundo da nossa raiz, é ter o direito de reclamar a própria história, de denunciar o sequestro do passado e de construir um futuro onde a liberdade não precise pedir licença para existir. A verdadeira civilidade nasce da justiça, nunca da submissão.

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