terça-feira, 26 de maio de 2026

O Sopro da Resistência: O Pífano como Patrimônio Vivo e a Urgência de Políticas Culturais no Interior

Enquanto verbas milionárias oxigenam o mercado das festas comerciais de grande porte, a tradição centenária da Banda de Pífanos de Geração em Geração e o legado de Mestre Jailson do Pífano sobrevivem pelo apego à identidade e pela força do sangue ribeirinho.



Por: Flávio Hora


No rescaldo das homenagens ao Dia do Trabalhador Rural, quando os discursos institucionais sobre o homem do campo começam a esvaziar-se nas gavetas do oportunismo político, urge trazer ao debate público a dimensão mais profunda e negligenciada da nossa gente: a sua cultura de raiz. A terra que o camponês corta com a enxada e que produz a macaxeira nos povoados de Japaratuba é a mesma que ecoa, ao cair da tarde, um som agudo, estridente e sagrado. É o som do pífano. Um sopro ancestral que teima em não silenciar nas curvas das nossas rodagens e que desenha a verdadeira cartografia da alma do Vale do Cotinguiba.

Falar sobre a música tradicional do nosso interior não é fazer um exercício de mero passadismo ou folclore de vitrine. É tratar de sobrevivência identitária. No coração dessa resistência pulsa a Banda de Pífanos de Geração em Geração, a mais antiga de Japaratuba e região. Oriunda das comunidades ribeirinhas do Riacho do Poxim — o curso d’água que serve de fronteira física, mas que une culturalmente os municípios de Japaratuba e Japoatã —, a banda nasceu no povoado Encruzilhadas, forjada no seio da agricultura familiar e da vida comunitária. Ali, a taboca, o bambu e, mais recentemente, o cano de PVC converteram-se em extensões da própria voz de um povo que transmite seus saberes pela oralidade, de pai para filho, desafiando o esquecimento. 

E como e quando surgiu o Pífanos nessa região

Contam os mais velhos que essa tradição já vem de seus bisavós, trisavós e tataravós. E foi crescendo de acordo com alguma família que ao adoecer um filho ou pedir alguma graça a um santo, fazia uma promessa e o pagamento era fazer uma novena no dia do santo padroeiro ou de sua devoção. Então, naqueles povoados já havia um calendário de "tocadas", culminando sempre na de Santo Antônio na casa de Seu Dóia, no Povoado Encruzilhadas, cuja filha está, atualmente, com 99 anos de idade. Dessa forma, não há um provável ano de "fundação", apesar de que entre meados do século XIX a  1885, é o intervalo de nascimento entre o pai e o avá de D. Caçula de 99 anos, a mais velha ainda viva. Portanto, mais de 140 anos de existência. 

O Legado de Mestre Jailson e a Mística Ribeirinha

Nenhuma narrativa sobre o pífano em nosso chão se sustenta sem evocar a figura perene do seu principal condutor: o saudoso Mestre Jailson do Pífano (in memoriam). Jailson não era apenas um executor de melodias; ele era o guardião de um portal temporal. Quando posicionava o instrumento nos lábios, o que se ouvia não era o ensaio metódico das partituras urbanas, mas o sopro dos antigos, o ritmo das novenas de Santo Antônio e Santa Luzia, a poeira das estradas e a mística das águas do Poxim.

Sob a ótica do Originalismo, a obra de Mestre Jailson e a continuidade da Banda de Geração em Geração representam a essência da originalidade psíquica e cultural do sergipano. É a manifestação de um Lar que se expande através do som. A música do pífano não se vende nas prateleiras do mercado de consumo rápido; ela se vive, se herda e se protege dentro da estrutura familiar. É o patrimônio imaterial em seu estado mais puro e caridoso (Caritas), aquele que se entrega à comunidade para manter acesa a chama da dignidade local.

O Injustificável Esquecimento Institucional

No entanto, quando confrontamos essa riqueza viva com a atuação das secretarias de cultura locais e estaduais, a realidade se impõe com o amargor da injustiça. Assistimos, ano após ano, a um verdadeiro escárnio orçamentário. O poder público não hesita em injetar verbas vultosas, cifras astronômicas e recursos carimbados para financiar palcos gigantescos, estruturas pirotécnicas e cachês inflacionados para atrações comerciais de fora, que passam pelas nossas cidades deixando apenas o rastro do lixo e do consumo efêmero.

Enquanto o mercado da diversão massificada é oxigenado com o dinheiro do contribuinte, a autêntica raiz do nosso povo é empurrada para a invisibilidade. As bandas de pífano, os grupos de idosos, os mestres de saberes tradicionais sofrem com o completo esquecimento institucional. Falta fomento contínuo, faltam editais desburocratizados de salvaguarda, faltam políticas públicas reais que garantam a manutenção dos instrumentos, o deslocamento dos musicistas e a formação de novas oficinas para a juventude dos povoados.

Para a engrenagem política colonialista que ainda vigora no interior, a cultura de raiz é vista apenas como um adereço exótico para ilustrar folhetos de turismo ou abrir solenidades oficiais por alguns minutos. Recusam-se a entender que o pífano é a nossa certidão de nascimento coletiva. Deixar essa tradição morrer sem apoio é cometer um crime de lesa-pátria contra a memória de Sergipe.

O Futuro do Pife: Resgatar para Emancipar

A Banda de Pífanos de Geração em Geração resiste porque possui a solidez das árvores antigas. Ela não depende do aplauso efêmero das elites políticas para existir; sua força vem do sangue, da memória de Mestre Jailson e do respeito à ancestralidade ribeirinha. Mas a resistência não deve ser sinônimo de desamparo.

Nesta terça-feira, 26 de maio de 2026, cobramos uma inversão de prioridades na gestão cultural do Vale do Cotinguiba. Menos espetáculo de palanque e mais salvaguarda na base. Precisamos de escolas municipais que incluam o pífano em suas atividades multidisciplinares, de incentivo financeiro direto aos mestres que dedicam a vida a repassar o sopro aos netos e do reconhecimento definitivo desses grupos como patrimônio vivo.

O som que ecoa de Encruzilhadas e cruza as águas do Riacho do Poxim é o lembrete de que somos um povo com história, identidade e prumo. Que as autoridades limpem os ouvidos do barulho ensurdecedor do comércio cultural e passem a escutar, com a reverência que ele merece, o sopro límpido, forte e eterno da nossa própria terra.

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