Uma leitura crítica sobre como a poesia de raiz resgata a memória afetiva, o erotismo telúrico e a sabedoria dos ditados nordestinos a partir da imagem do cajueiro.
Por Flávio Hora
Há na literatura brasileira uma tradição subterrânea, mas vigorosa, que recusa os salões beletristas e prefere fincar suas raízes no chão batido do quintal. É nessa linhagem da poesia de raiz — onde o feijão ferve, o pinto pia e a fruta madura cai — que se inscreve o poema "Meu Pé de Cajueiro", datado originalmente de 2014. À primeira vista, uma ode despretensiosa a uma árvore frutífera; sob um olhar mais atento, uma sofisticada crônica visual que entrelaça o tempo histórico, o erotismo telúrico e a insuperável sagacidade do ditado popular.
Meu Pé de Cajueiro
Que lindos, que fruto altaneiro
Atravessou várias gerações
Namoraram debaixo as paixões
Encostados no meu pé de cajueiro.
Lembro da fofura do caju
Bem definido como o teu corpo
Só de pensar fico louco
Pois, lembra-me quando está nu
Que como a fruta tão doce sabor
Deixou em mim um querer mais
Pois, pensava que jamais
Em minha vida teria amor.
Mas, se quem essa fruta apanha
Um ditado guarda de norte a sul
Que enquanto você vem com o caju
Há muito já cheguei com as castanhas!
08 de Janeiro de 2014.
@fimdeprimavera / 2017, Hora, F. J.
O texto se inicia com uma postura de reverência quase mítica. O cajueiro não é apenas uma árvore; é um "fruto altaneiro" que "atravessou várias gerações". Ao personificar o vegetal como testemunha do tempo, o eu lírico estabelece o cajueiro como um totem da memória coletiva. Sob sua copa, o tempo cronológico suspende-se para dar lugar ao tempo afetivo: as paixões que ali se encostaram não pertencem apenas ao presente, mas a uma ancestralidade amorosa que se renova a cada safra.
Contudo, a grande virada estética do poema reside na sua capacidade de transitar, sem sobressaltos, do solene ao sensorial. Nas estrofes centrais, o olhar do poeta foca na iminência do fruto. O caju deixa de ser apenas alimento e passa a ser corpo; sua "fofura" e "doce sabor" tornam-se metáforas táteis de um lirismo erótico genuíno, despido de pudores acadêmicos. Há aqui uma sinestesia quase palpável. Quem lê não apenas processa o texto, mas experimenta o calor da tarde, a nudez evocada e o sumo da fruta que sacia uma fome que, outrora, o eu lírico julgava incurável ("Pois, pensava que jamais / Em minha vida teria amor").
Mas é no desfecho que o poema revela sua verdadeira identidade e cumpre sua função mais crítica e informativa sobre a formação da identidade cultural nordestina. Ao evocar a máxima "enquanto você vem com o caju, há muito já cheguei com as castanhas", a obra subverte a expectativa do leitor. O que parecia caminhar para um romantismo idealizado ou para um erotismo confessional deságua na rampa da malandragem e da sabedoria empírica.
Caju e castanha se separam não apenas na botânica, mas na filosofia de vida: o caju é a carne, a pressa, a doçura imediata e, por vezes, a ingenuidade de quem "vai"; a castanha é a semente, a casca dura que resiste ao fogo, a experiência acumulada de quem "já voltou". O poema, portanto, fecha-se com um sorriso de soslaio, aquele sutil deboche de calçada que caracteriza o homem do interior, escolado pelas intempéries do tempo e da vida.
"Meu Pé de Cajueiro" cumpre, assim, o papel mais nobre da literatura de raiz: o de transformar o cotidiano em patrimônio estético. Ele nos informa sobre a permanência dos nossos símbolos naturais e nos faz fruir o prazer da palavra que tem cheiro de terra molhada e gosto de safra madura. É um texto que não pede licença para ser clássico; ele prefere a liberdade de ser, simplesmente, popular.
Informe: as imagens são meramente ilustrativas, criadas por inteligência artificial.


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