No Dia Nacional do Café, a memória do pilão no sítio do meu pai cruza-se com o renascimento sustentável da lavoura em Sergipe, lembrando-nos de que o verdadeiro afeto exige o calor da mesa, e não a frieza do ecrã.
Por: Flávio Hora
Há uma sabedoria geométrica no vapor que se desprende de uma xícara de café fresco numa manhã de domingo. Uma física do afeto que nenhuma tecnologia foi capaz de simular. Nas décadas de 50, 60, 70, e até nos idos de 80 e 90, o tempo parecia correr numa velocidade regulada pelo passar da água no coador de pano. Eram tempos de infâncias sem Wi-Fi, de quintais onde os joelhos ralados curavam-se com terra e de salas onde os silêncios não eram preenchidos pelo brilho azulado e hipnótico de um smartphone.
Naqueles tempos analógicos, a saudade e o amor não se liquidavam num "emoji" instantâneo enviado numa fração de segundo. Eles exigiam o peso físico do papel. Quem não se recorda, com um nó de saudade no peito, dos bilhetes e cartas de amor que cruzavam o correio e começavam com aquela liturgia quase sagrada: "É com prazer que pego nesse lápis para lhe escrever essa epístola"? Não eram textos lapidados por escritores de academia ou estetas profissionais; eram linhas tortas, mas profundamente humanas, escritas por pessoas apaixonadas, saudosas e inteiras, cujo único filtro era a pureza do que sentiam.
O café era o maestro desse quotidiano. Servia de ponto de encontro para as paqueras de portão, os flertes discretos sob o olhar vigilante da família e os namoricos que começavam com um esbarrão de xícaras. Mas também era o centro gravitacional das orações nas horas de aflição e das confraternizações ruidosas após as colheitas ou as missas de domingo. A grande verdade que o século XXI tenta apagar é que, enquanto o telemóvel une as distâncias, o café une as presenças. O aparelho digital aproxima quem está longe ao custo de afastar quem está sentado ao nosso lado; o café, ao contrário, exige o olho no olho, o calor do bule e a partilha do pão.
As minhas coordenadas afetivas estão cravadas no chão do sítio do meu pai. Lá, a terra era um ventre generoso onde tinha de tudo: do milho à macaxeira, da fruteira carregada à beleza primitiva dos pés de café. Lembro-me, como se fosse hoje, do ritual primitivo e belo: o grão colhido no tempo certo, seco ao sol, pisado com ritmo e força no velho pilão de madeira, moído e, finalmente, coado. O resultado não era apenas uma bebida preta; era um café único, denso, com o sabor do suor do meu pai e do mistério da nossa terra. Um café que alimentava não o corpo, mas a alma.
Essa vivência da infância liga-se, por fios invisíveis de identidade, à própria história econômica do nosso estado. Como bem registou o historiador Emmanuel Franco, a região da Cotinguiba foi, no século XIX, o império da cana-de-açúcar. Mas com a crise do oitocentos, muitos intelectuais e capitais migraram para o Sudeste cafeeiro. O café em Sergipe parecia ter ficado guardado apenas nos quintais domésticos e nas memórias dos antigos, como uma herança esquecida sob a sombra dos canaviais.
No entanto, a filosofia do Originalismo ensina-nos que o que é autêntico sempre encontra uma forma de brotar novamente através do chão. O café plantado em Sergipe deixou de ser apenas uma lembrança do passado ou um sonho distante para se tornar uma realidade pujante e transformadora.
Histórias como a do produtor José Bartolomeu dos Santos, o "Bartô" — um típico retirante nordestino que trabalhou pelos "trechos" deste Brasil e regressou para resgatar a cultura cafeeira em Lagarto, no povoado Urubu Tinga, inspirado pelo seu tio-avô Pedrito —, mostram a força do homem da nossa terra. Ao lado do amigo Daniel Barbosa, Bartô transformou a desconfiança das instituições financeiras e a omissão inicial do Estado numa revolução silenciosa, distribuindo mudas de café arábica e provando que municípios como Simão Dias, que já tiveram uma economia rural pujante nos anos 30 e 40, podem sim ver o grão de ouro brilhar novamente nos seus campos.
Lembro-me também do café com DNA sergipano, sim um que nasceu da ousadia e do suor do nosso próprio chão tinha o sabor único da nossa mais profunda originalidade. Era o Café Maratá. O pacote que nunca faltava na dispensa de uma família caridosa e séria tornou-se o combustível para as prosas demoradas de calçada e o ponto de união das nossas presenças dominicais. Ver o fumegar daquele pó forte na garrafa térmica era saber que, independentemente da pressa do mundo exterior, ali dentro do Lar residia uma estabilidade que o tempo não podia corromper.
Mais do que isso, Sergipe hoje destaca-se na vanguarda da agricultura sustentável, como bem demonstram as reportagens técnicas do programa Estação Agrícola, da TV Sergipe. O cultivo moderno do café no nosso estado não agride a terra com o veneno das monoculturas coloniais. Ele renasce sob o signo da sustentabilidade, integrando-se ao ecossistema, gerando emprego de base familiar e mostrando que o desenvolvimento económico não precisa de sacrificar o nosso património natural nem a dignidade do trabalhador rural.
Celebrar este Dia Nacional do Café neste domingo, 24 de maio, é fazer um pacto com a nossa própria história. O café sustentável que hoje cresce em Sergipe é o mesmo que, no passado, sustentou a infância de muitos de nós no interior, pisado no pilão e coado na santidade das cozinhas de outrora.
Que possamos, neste dia, desligar por algumas horas os ecrãs frios que nos isolam em bolhas virtuais. Que resgatemos a coragem daquelas cartas de amor escritas a lápis e a mística dos pontos de encontro presenciais. Vamos passar um café forte, sentar à mesa com os nossos e celebrar o que realmente importa: a presença, o abraço e a nossa identidade original. Afinal, a vida acontece no espaço que fica entre uma xícara e outra.

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