Entre a Poesia e o Contracheque: O Malabarismo das "Mulheres-Tudo"
Diz a tradição romântica que a mulher é uma flor. É uma imagem bonita, confesso, mas convenhamos: que flor resiste a uma jornada tripla, ao transporte público lotado e ainda consegue manter as pétalas hidratadas para a reunião das nove? Se a mulher é flor, ela é um cacto: resiliente, adaptável e pronta para espetar quem tentar podar seu crescimento.
Olhando pelo retrovisor da história, o cenário era de uma "escravidão" de cetim e ferro. Por séculos, o destino feminino parecia traçado entre quatro paredes. O papel social era um roteiro rígido: a mulher-filha que vira mulher-esposa, que vira mulher-mãe, sempre sob a tutela de um "dono" do seu destino. Até os princípios cristãos, muitas vezes interpretados ao pé da letra da conveniência masculina, foram usados para sugerir que o silêncio era a melhor virtude feminina. Mas, se olharmos bem, as mulheres das escrituras eram tudo, menos silenciosas: eram líderes, profetizas e o braço forte da comunidade.
Aí veio o século XX, e as mulheres decidiram que queriam mais do que o "privilégio" de escolher a cor das cortinas. Elas queriam o voto, o giz, o bisturi e o martelo. No Brasil, essa trajetória foi um verdadeiro "corre". Saímos da exclusão total para o texto sagrado da nossa Constituição de 1988, que decretou em letras garrafais: "Homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações".
A Lei é Clara, a Vida nem Tanto. Hoje, o 8 de março é esse mix de "parabéns" com "cadê meu reajuste?". A lei diz que somos iguais, mas a ética nos lembra da equidade. Afinal, exigir que uma mulher que corta cana produza o mesmo que um homem de 100kg sem considerar a biomecânica e o desgaste físico é igualdade de papel, mas injustiça de fato.
A mulher moderna virou uma espécie de entidade mitológica:
A Mulher-Pai: Que assume o boleto e a educação sozinha porque o "genitor" achou que paternidade era opcional.
A Mulher-Guerreira: Que luta contra o machismo estrutural enquanto tenta não queimar o arroz.
A Mulher-Mulher: Aquela que, no meio disso tudo, ainda quer ter tempo para ser apenas ela mesma, sem rótulos ou sacrifícios.
Mulheres como todo ser social, tem direitos e deveres que são seu "Guia de Sobrevivência". Para não dizer que não falei das flores (e das obrigações), aqui vai um resumo leve do nosso "Manual de Instruções" atual:
Direito ao "Não": Sim, é um direito constitucional (mesmo que não esteja escrito assim). Não quer o segundo turno na cozinha? Negocie.
Dever de Autocuidado: É dever da mulher não se anular. A "mulher sofredora" é um arquétipo que já deu o que tinha que dar. Sofrer não é mérito, é falta de rede de apoio.
Igualdade Laboral: Se o trabalho é igual, o salário tem que ser igual. Se o patrão vier com papo de "custo da licença-maternidade", lembre-o que ele também nasceu de uma mulher.
O Dever da União: Mulher não precisa ser rival de mulher. A sororidade é o que garante que a próxima geração de "mulheres-poesia" não precise ser "mulher-mártir".
No fim das contas, ser mulher no dia 8 de março de 2026 é entender que a gente pode, sim, aceitar a flor, desde que ela venha acompanhada de respeito, divisão de tarefas e, de preferência, um depósito na conta. Porque poesia é ótimo, mas autonomia financeira e direitos garantidos são o verdadeiro paraíso.


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