A tentativa de transformar Enéas Carneiro em ícone da nova direita revela um equívoco histórico sobre seu nacionalismo estatista e sua crítica ao capital financeiro.
Existe um abismo intelectual e metodológico entre o nacionalismo desenvolvimentista de Enéas Carneiro e o populismo de direita que tomou o Brasil na última década. Enéas foi "sequestrado" e simplificado para servir a uma agenda que, em muitos aspectos, ele próprio combateria.
O Enéas que a Direita Esconde: O Nacionalismo de Ferro vs. o Populismo de Papel
A política brasileira recente vive de simulacros. Um dos mais curiosos é a ressurreição digital de Enéas Carneiro, transformado em "garoto-propaganda" de uma direita que, em qualquer debate sério, ele classificaria como entreguista, ignorante e lacaia do sistema financeiro.
A direita e a extrema direita utilizam cortes de vídeo de Enéas atacando Lula e o PT para validar seu próprio discurso. No entanto, ao fazerem isso, cometem um estelionato intelectual: usam a agressividade da forma para esconder que o conteúdo de Enéas é o oposto absoluto do projeto liberal-conservador que governa essa ala.
1. O Falso Profeta da "Liberdade Econômica"
A direita atual prega o Estado mínimo, o teto de gastos e as privatizações. Enéas Carneiro, por outro lado, era um estatista convicto. Para ele, a venda de empresas como a Vale do Rio Doce ou a Eletrobras não era "eficiência de mercado", mas sim um crime de lesa-pátria.
Enéas defendia que o Estado deveria ser o senhor absoluto da energia, das telecomunicações e dos recursos minerais. Se a direita hoje quer vender o que resta do patrimônio público, Enéas queria reestatizar o que foi vendido. O uso de sua imagem para defender políticas neoliberais é, no mínimo, uma ironia histórica.
2. Soberania vs. Alinhamento Servil
Enquanto a extrema direita brasileira se notabilizou por bater continência para bandeiras estrangeiras e buscar a benção de Washington, Enéas pregava o isolamento soberano. Seu projeto de Brasil incluía a denúncia do Tratado de Não Proletiferação Nuclear e a construção da bomba atômica.
Ele não atacava o PT por ser "comunista" no sentido ideológico de costumes; ele atacava o PT por considerar que o partido, ao chegar ao poder, se curvou ao FMI e ao Consenso de Washington. Para Enéas, a direita que hoje o exalta seria vista como ainda mais submissa e perigosa para a soberania nacional.
3. A Técnica contra o Anti-intelectualismo
Talvez o maior abismo esteja na formação. Enéas era a personificação do cientificismo e da erudição. Sua crítica a Lula não era baseada em ódio de classe, mas na convicção de que o Estado deve ser gerido por uma elite técnica e intelectual.
A direita que hoje nega a ciência, ataca as universidades e promove o negacionismo, é o oposto do homem que lia um livro por dia e defendia que a solução para o Brasil passava pela física, pela matemática e pela tecnologia de ponta. Enéas não teria paciência para o discurso anticientífico que permeia os grupos que hoje usam sua foto no perfil.
4. O "Sistema" que Enéas Realmente Odiava
A direita usa o termo "sistema" para falar de tribunais ou da imprensa. O "sistema" de Enéas era o Capital Financeiro. Ele chamava os banqueiros de "agiotas" e a dívida pública de "mecanismo de transferência de renda dos pobres para os ricos".
A ironia atinge o ápice quando vemos políticos que entregaram a economia a bancos e fundos de investimento citando um homem que defendia a moratória da dívida e o controle estatal do crédito.
Conclusão: Um Rosto Sem Voz
A direita "eneísta" é uma farsa estética. Eles amam o Enéas que grita, o Enéas que aponta o dedo para o PT e o Enéas que fala em "família". Mas eles pavorizam o Enéas que defenderia impostos sobre grandes fortunas para financiar a indústria nacional, o Enéas que expulsaria investidores estrangeiros de setores estratégicos e o Enéas que exigiria que cada político tivesse, no mínimo, um profundo conhecimento da história e da geografia do seu país.
Enéas Carneiro não era um precursor da nova direita; ele era o último dos nacionalistas desenvolvimentistas. Usá-lo para desconstruir a esquerda em nome do liberalismo é uma confissão de que essa direita não tem heróis próprios que suportem o peso de um debate técnico.

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