terça-feira, 17 de março de 2026

ARACAJU 171 ANOS: Dia de comemoração e reflexão política.

Aracaju, 171 Anos: O Plano de Pirro em Xeque no Tabuleiro do Populismo


Aracaju completa hoje 171 anos com a dualidade que lhe é intrínseca desde o nascimento: a ordem geométrica de suas ruas em xadrez contra a insurgência do mangue que insiste em retomar seu espaço. Fundada em 1855 por uma canetada política que transferiu a capital de São Cristóvão para o litoral, a cidade sempre foi um projeto de poder antes mesmo de ser um projeto de gente. Hoje, menos populosa que suas irmãs nordestinas, ela enfrenta o desafio de não se tornar também a mais estagnada em termos de maturidade política.

A Capital que Brotou do Mangue

Diferente de outras metrópoles nordestinas que cresceram organicamente, Aracaju foi uma imposição política e econômica. Erguer uma capital sobre manguezais e terrenos alagadiços foi uma proeza da engenharia da época, mas que deixou heranças ambientais sensíveis.

Hoje, a discussão sobre o Plano Diretor e a sustentabilidade tenta remediar décadas de aterramentos e ocupações irregulares. Enquanto a Orla de Atalaia se consolida como o "cartão-postal" de infraestrutura impecável, a periferia — especialmente nas zonas Norte e de expansão — ainda aguarda que o planejamento chegue com a mesma eficiência do asfalto da zona sul.

O Esteticismo do Planejamento

O engenheiro Sebastião Basílio Pirro não desenhou apenas ruas; ele projetou uma modernidade que, para a época, ignorava as curvas da natureza. Esse "quadrado perfeito" trouxe uma organização que ainda hoje encanta quem caminha pelo Centro, mas criou uma herança de exclusão. A beleza da Orla de Atalaia, com seus lagos artificiais e infraestrutura de primeiro mundo, é o espelho de uma Aracaju que deu certo para o turismo e para as elites. Contudo, basta cruzar a fronteira invisível em direção à Zona Norte ou ao bairro Santa Maria para perceber que o "plano" nunca foi para todos.

A disparidade social em Aracaju não é apenas um dado estatístico; é uma falha de engenharia social. Enquanto discutimos a revisão do Plano Diretor sob a ótica da sustentabilidade, a cidade real continua a sofrer com o adensamento desordenado e a precariedade de serviços básicos longe dos "flashes" da zona sul.

A Capital do "Clique": O Fenômeno Emília Corrêa




Chegamos a 2026 vivenciando um capítulo inédito, porém familiar, de nossa história política. A eleição de Emília Corrêa (PL) quebrou o teto de vidro ao dar à cidade sua primeira prefeita mulher. No entanto, o avanço simbólico de gênero veio acompanhado de um retrocesso na forma de fazer política: o retorno ao populismo messiânico, agora travestido de estética digital e alinhamento bolsonarista, com um discurso calcado no combate ao "sistemão" e na moralidade cristã

A gestão de Emília tem sido analisada como o triunfo da imagem sobre a substância. É a "política do clique". O discurso fervoroso contra o "sistemão" e a velha política — que serviu de combustível para a vitória nas urnas — esbarra agora na dura realidade da administração pública. Governar uma capital exige mais do que transmissões ao vivo e retórica anticorrupção; exige a articulação técnica que o populismo de direita, por natureza, tende a desprezar em favor do espetáculo.

O Contraste como Destino?

O que vemos hoje em Aracaju é uma tentativa de governar a "Cidade do Caju" através de fórmulas que o Brasil já testou em 2018 e que deixaram cicatrizes profundas. A prefeita, expoente de um conservadorismo que ressoa em uma parcela da população cansada das oligarquias tradicionais, enfrenta o paradoxo de se tornar aquilo que criticou para manter a governabilidade.

As tensões são evidentes:

Na Saúde e Educação: Onde o pragmatismo da gestão deveria superar a ideologia.

No Urbanismo: Onde o marketing da "cidade linda" confronta a realidade do mangue aterrado e das comunidades esquecidas.

Histórico

Aqui está um resumo da sua trajetória, do mangue à metrópole:

1. A Mudança de Sede (1855)

Até meados do século XIX, a capital de Sergipe era São Cristóvão. No entanto, a antiga sede enfrentava dificuldades logísticas para o escoamento da produção de açúcar, principal motor econômico da época. Inácio Joaquim Barbosa, o então presidente da província, decidiu transferir a capital para o litoral, visando a construção de um porto que facilitasse o comércio marítimo.

2. O Desafio Geográfico: O "Quadrado de Pirro"

O local escolhido foi a região do Santo Antônio do Aracaju, uma área dominada por pântanos, manguezais e terrenos alagadiços. Para organizar a ocupação, o engenheiro Sebastião Basílio Pirro desenhou um traçado urbano em xadrez (o "tabuleiro de xadrez"), rompendo com os padrões coloniais de ruas sinuosas. 

O ponto zero: A Colina de Santo Antônio serviu como o mirante de onde a cidade foi projetada e começou a se espalhar em direção ao Rio Sergipe.

3. Expansão e Modernização

Ao longo do século XX, Aracaju deixou de ser apenas um centro administrativo e comercial para se tornar um polo turístico e de serviços. 

Anos 70 e 80: A cidade começou a "olhar para o mar". A ocupação da **Atalaia** transformou a relação dos aracajuanos com a praia, que antes era vista apenas como área de difícil acesso.

Petróleo e Energia: A descoberta de reservas de petróleo e gás em Sergipe trouxe um novo ciclo de investimentos e infraestrutura para a capital.

4. Aracaju em 2026: Desafios Contemporâneos

Aos 171 anos, a cidade vive o contraste entre o seu planejamento original e a necessidade de renovação:

Crescimento Urbano: O avanço para a Zona de Expansão e a ocupação de áreas de mangue geram debates intensos sobre sustentabilidade e riscos ambientais.

Revisão do Plano Diretor: Após anos de defasagem, a cidade busca um novo ordenamento para garantir que o crescimento não apague a memória histórica (como a da Colina de Santo Antônio) e reduza as desigualdades entre os bairros nobres e as periferias.

Linha do Tempo Resumida

1855: Fundação e transferência da capital.

1900-1920: Instalação de indústrias têxteis e expansão do Centro.

1970: Auge da urbanização da Orla de Atalaia.

2024/2025: Eleição da primeira prefeita mulher e início de uma nova era política.

2026: Comemoração dos 171 anos com foco na sustentabilidade e revisão urbana.

Conclusão

Aracaju não pode se dar ao luxo de ser apenas um cenário para experimentos populistas. Aos 171 anos, a capital sergipana precisa decidir se quer ser a cidade planejada que olha para o futuro ou se continuará sendo o tabuleiro onde figuras carismáticas jogam com as esperanças de um povo que, entre o mangue e o mar, ainda espera pelo básico.

O aniversário é um momento de celebração, sim, mas também de vigília. Que o brilho da Orla não cegue a necessidade de uma política que seja, de fato, para a vida real e não apenas para o algoritmo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário