sábado, 6 de junho de 2026

O Sossego dos Cemitérios: A Ditadura Invisível no Interior do Brasil

Como o silêncio imposto pela censura e a aliança com as elites agrárias apagaram as marcas da violência de Estado no Brasil profundo, transformando o medo na falsa memória de um passado pacífico.



Existe uma narrativa profundamente arraigada na memória de parte da população brasileira, especialmente aquela com mais de seis décadas de vida, de que a Ditadura Militar (1964–1985) foi um período de ordem, segurança e absoluto sossego. "No interior não havia disso", costuma-se ouvir nas praças e calçadas das pequenas cidades. Essa percepção, contudo, não passa de uma das construções ideológicas mais eficientes do regime: a de que a violência de Estado era um privilégio exclusivo das grandes metrópoles, restrita aos embates entre intelectuais, estudantes e forças de segurança no eixo Rio-São Paulo.

Essa tese é uma falácia histórica. Longe dos holofotes da grande imprensa e das avenidas das capitais, a engrenagem repressiva foi tão ou mais brutal, operando sob o manto de uma impunidade quase cirúrgica. A diferença fundamental não residia na ausência de violência, mas sim na invisibilidade de suas vítimas e na geografia do terror.

A Barbárie sob o Silêncio do Campo

Enquanto nas capitais o aparato estatal perseguia a dissidência urbana, o "inimigo" no interior profundo era outro: o trabalhador rural, o posseiro e a liderança sindical que ousavam contestar a secular estrutura do latifúndio. O golpe de 1964, convém lembrar, foi fortemente financiado e apoiado pelas elites agrárias que temiam o avanço das Ligas Camponesas e a extensão dos direitos trabalhistas ao campo.

O relatório final da Comissão Nacional da Verdade derrubou em definitivo o mito do interior pacífico ao apontar que pelo menos 1.196 camponeses e defensores dos direitos à terra foram mortos ou desapareceram no período. Esse contingente de vítimas supera, em termos numéricos, as baixas das guerrilhas urbanas. Todavia, essas mortes não viraram manchetes; foram registradas pelas delegacias locais como "conflitos agrários comuns" ou rotuladas como o justo extermínio de "baderneiros".

No interior, a repressão foi frequentemente privatizada. Uma aliança tácita unia o Estado e o jagunço. O fazendeiro ou o grileiro utilizava milícias privadas para queimar lavouras e assassinar lideranças, enquanto o aparato policial local — delegados civis e destacamentos da Polícia Militar — garantia a retaguarda, ignorando os crimes ou participando diretamente das prisões ilegais sob o pretexto de combater a "subversão".

A Topografia do Medo: O Caso de Japaratuba

A repressão fora dos grandes centros urbanos não dependia necessariamente das sofisticadas salas de interrogação do DOI-CODI. Ela se valia da própria geografia do isolamento para garantir a eficácia do terror psicológico e físico.

Em Sergipe, no coração do Vale do Cotinguiba, a memória oral preserva o que os arquivos oficiais tentaram apagar. Relatos locais resgatam episódios emblemáticos, como o de torturas prolongadas — com o uso sistemático do pau de arara por mais de 24 horas — ocorridas em pontos isolados da zona rural de Japaratuba, na região conhecida como "pioneira" (antiga antena da Telebrás), entre os povoados Camará e Mundo Novo.

Escolher o topo de um morro ermo, uma estrada de rodagem ou os arredores de uma instalação técnica estatal não era um ato aleatório. Atendia a uma lógica perversa de controle: garantia a privacidade do crime longe de testemunhas urbanas, ampliava o desamparo da vítima e utilizava o próprio silêncio da noite e do mato como amplificador do horror. Quem passava pelas proximidades e via o trânsito de viaturas oficiais compreendia o recado implícito.

A Arquitetura do Esquecimento

Se a violência era real e capilarizada, por que tantos ainda se lembram de um "período sossegado"? A resposta está na própria natureza da ditadura brasileira, que operou uma repressão seletiva. Para o cidadão comum, que mantinha a cabeça baixa, não questionava o prefeito indicado pela ARENA e aceitava o cabresto do compadrio local, a rotina permanecia "invisível" e aparentemente segura.

A essa apatia somava-se uma blindagem midiática absoluta. A única informação que cruzava as fronteiras do interior vinha do rádio e da televisão estritamente censurados, ou de pasquins locais pertencentes às mesmas oligarquias aliadas ao governo militar. O massacre de populações indígenas inteiras para a abertura de rodovias ou o suplício de um líder sindical no interior do Nordeste simplesmente não existiam no debate público.

O "sossego" de que muitos se recordam não era paz; era o silêncio obsequioso imposto pelo medo e pela ignorância deliberada. Confrontar essa falácia histórica e dar voz aos testemunhos de quase um século de vida que ainda ecoam em nossos povoados não é apenas um dever de rigor informativo, mas um ato de reparação e justiça com os esquecidos da história. A ditadura no interior não foi pacífica; ela foi apenas sepultada sem direito a lápide.

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