Como a retenção do corpo de um ícone da música romântica no IML expõe a face mais cruel de um sistema que transformou o adeus, antes um rito sagrado e comunitário, em um balcão de negócios inacessível para quem não tem como pagar.
A notícia de que o corpo do cantor Júlio César — voz que embalou multidões nas décadas de 1970 e 1980 com os sucessos “Tu” e “Vou Te Buscar, Maria” — permaneceu retido no Instituto Médico Legal (IML) por falta de recursos para o seu sepultamento é um soco no estômago da nossa autoproclamada civilidade. A dignidade de um homem de 83 anos, que dedicou a vida à cultura nacional, acabou momentaneamente sequestrada pela falta de um punhado de cédulas. Graças à mobilização de amigos e fãs, que arrecadaram às pressas os R$ 3,5 mil necessários, o artista pôde ser velado em Suzano (SP). No entanto, o episódio deixa uma ferida aberta e uma pergunta incômoda: desde quando morrer virou um negócio privado?
Historicamente, o sepultamento nunca foi uma transação comercial. Na maior parte da jornada humana na Terra, o adeus a um membro da comunidade era um ato estritamente comunitário, familiar e sagrado. Quando alguém partia, o tecido social se costurava para amparar a dor: vizinhos lavavam o corpo, o carpinteiro local cedia a madeira, a paróquia acolhia as preces e os braços da comunidade cavavam a terra. Havia ali um pacto implícito de dignidade coletiva. Ninguém precisava apresentar uma folha de cheque para ter o direito de retornar ao pó.
O capitalismo contemporâneo, contudo, operou um verdadeiro sequestro do sagrado. Sob a égide da eficiência urbana e da mercantilização absoluta, a morte foi higienizada, terceirizada e, por fim, transformada em um balcão de negócios altamente lucrativo. Criou-se a "indústria do luto". Hoje, no momento mais devastador da existência humana — quando o indivíduo está paralisado pelo choque da perda —, o sistema exige que ele se porte como um consumidor racional. É preciso escolher a qualidade da madeira, o brilho das alças do caixão, o espaço por metro quadrado no cemitério e o pacote de coroas de flores. A dor virou uma vulnerabilidade comercializável.
Nesse cenário de desamparo, surgem os planos funerários modernos. É inegável que, na prática, eles representam uma "mão na roda" para a classe trabalhadora, funcionando como um legítimo escudo de defesa financeira. O plano racionaliza o processo, dilui o custo em parcelas mensais ao longo de anos e evita que o luto seja agravado pela humilhação de uma dívida impagável ou pela exposição pública da própria pobreza.
Mas não nos enganemos: o plano de assistência familiar só é necessário porque o sistema falhou na sua promessa mais básica de dignidade. Ele não nasce do altruísmo, da compaixão ou do senso de comunidade. O motor dessa engrenagem é a lógica fria do seguro e da especulação de risco. O interesse por trás da apólice não é humanitário, familiar ou religioso; é a previsibilidade do lucro sobre a única certeza matemática da vida humana. Trata-se da conversão do afeto em contrato.
O caso do cantor Júlio César expõe a engrenagem em sua face mais crua. Quando um artista de relevância nacional, que viveu seus últimos dias com os minguados recursos de sua aposentadoria e direitos autorais esporádicos, depende da solidariedade imediata de terceiros para não ter o corpo esquecido em uma gaveta estatal, o capitalismo nos dá o seu veredito final.
Neste modelo, até a cidadania tem prazo de validade. Se você não possui capital acumulado ou um contrato ativo que preveja a sua partida, o sistema lhe nega o rito, lhe nega a despedida e desumaniza o seu adeus. A morte de Júlio César, e o doloroso bastidor de seu funeral, deve servir de alerta. Precisamos resgatar, nem que seja na marra da crônica e da crítica, o entendimento de que a dignidade humana não pode ser medida pela capacidade de pagamento — nem no primeiro, e muito menos no último suspiro.

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