Como a ressignificação de um conceito literário transformou a verdade em mercadoria e a política em uma guerra de ficções utilitárias.
A linguagem é o tecido com o qual costuramos nossa percepção da realidade. Quando uma palavra é esvaziada de seu sentido original e deliberadamente ressignificada para servir a interesses de poder, o que testemunhamos não é apenas uma evolução natural do idioma, mas um verdadeiro estelionato semântico. É precisamente esse o caso da palavra narrativa, um dos conceitos mais nobres da arte e da literatura, que acabou brutalmente sequestrado pela trindade composta pelo marketing, pela mídia contemporânea e pela política partidária.
Originalmente, no campo da teoria literária, a narrativa é o ato de ordenar o caos da existência humana por meio de uma estrutura inteligível. Ela pressupõe rigor estética e elementos fundamentais: um enredo bem amarrado, personagens com densidade psicológica, um tempo cronológico ou interior, um espaço onde as ações ecoam e a sutil voz de um narrador. Da Epopeia de Gilgamesh aos grandes romances do Nordeste brasileiro, a narrativa sempre foi um instrumento de busca pela verdade profunda — aquela verdade que a mera frieza dos dados históricos, às vezes, não consegue alcançar sozinha.
No entanto, ao cruzar as fronteiras da comunicação de massa e do palanque eletrônico, o termo sofreu uma mutação perversa. A política descobriu que a realidade crua dá muito trabalho e, pior, não aceita desaforo de orçamentos ou maquiagens estatísticas. A solução encontrada foi a substituição dos fatos pela construção de "versões convenientes". Assim, a narrativa deixou de ser uma forma de investigar a vida para se tornar uma engenharia social destinada a deformá-la.
Hoje, quando um veículo de comunicação ou um ator político se defende dizendo que precisa "vencer a guerra de narrativas", ocorre um duplo descarte. Primeiro, descarta-se a estrutura clássica do conceito: não há espaço para a complexidade humana ou para o tempo do amadurecimento; os personagens são reduzidos a caricaturas maniqueístas (o herói salvador contra o vilão absoluto) e o enredo é substituído pelo estado de complicação e conflito permanente. Segundo, e mais grave, descarta-se o próprio compromisso com a verdade factual.
O impacto dessa degradação na população é alarmante. Ao assimilar o vocabulário dos marqueteiros e dos analistas de estúdio, o cidadão comum passou a usar o termo de forma invertida. Quando se ouve nas ruas que determinado acontecimento é "apenas uma narrativa", o que se está dizendo, na verdade, é que aquilo é uma mentira bem ensaiada. O resultado é um relativismo perigoso: se tudo é narrativa, não existem mais fatos objetivos, apenas pontos de vista equivalentes. A verdade histórica passa a ser tratada como uma escolha de prateleira, onde o indivíduo consome a versão que melhor se ajusta aos seus próprios preconceitos.
O perigo real desse uso errôneo não é apenas gramatical ou conceitual, mas democrático e psicológico. Ao trocar a busca pela verdade histórica pela aceitação de uma "narrativa conveniente", a sociedade abdica do pensamento crítico. O político já não precisa provar a eficácia de sua gestão através de dados ou da realidade palpável; basta que sua assessoria construa um enredo onde ele é o herói injustiçado e o opositor é o vilão absoluto. A complexidade da vida pública é esmagada para caber no formato de um folhetim maniqueísta de trinta segundos.
A literatura cria mundos ficcionais para, através do artifício, tocar em verdades universais. A política e a mídia modernas fazem o oposto exato: utilizam pedaços do mundo real para erguer uma ficção utilitária que blinda o poder e anestesia o pensamento crítico.
Resgatar o significado original da palavra narrativa não é um mero preciosismo de dicionário ou capricho acadêmico. É, acima de tudo, um ato de legítima defesa democrática. É preciso devolver a ficção aos livros, onde ela nos engrandece, e exigir da esfera pública o retorno ao império dos fatos, onde a realidade se impõe.

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