Como a ausência de carência e as armadilhas do aval solidário transformam o maior programa de microcrédito do país em uma esteira de dependência financeira, esvaziando a promessa de desenvolvimento econômico na ponta.
Por Flávio Hora
O discurso institucional em torno do microcrédito produtivo e orientado no Brasil é plasticamente perfeito. Vende-se a ideia de que a democratização do acesso ao capital, aliada a uma suposta consultoria financeira, é o passaporte definitivo para a emancipação econômica da periferia e dos pequenos municípios. O Crediamigo, capitaneado pelo Banco do Nordeste (BNB) como o maior programa do gênero no país, é o principal estandarte dessa narrativa. Contudo, quando confrontamos os manuais de marketing bancário com a realidade nua e crua do comércio e da informalidade na ponta, a engrenagem revela falhas estruturais profundas. A promessa de desenvolvimento dá lugar a um mecanismo de endividamento crônico e subsistência perpétua.
O primeiro grande mito a desabar é o da "orientação financeira". Na prática das agências e do cotidiano dos assessores de crédito, a consultoria de gestão transformou-se em uma utopia burocrática. Pressionados por metas volumosas de liberação de recursos e renovação de carteiras, os assessores não dispõem de tempo hábil para atuar como os mentores de negócios que a teoria econômica idealizou. A orientação, portanto, resume-se a um "corte e cole" informativo no momento da assinatura do contrato, focando massivamente nas regras de cobrança e nas penalidades da inadimplência, em vez de debruçar-se sobre o fluxo de caixa ou a viabilidade comercial do cliente.
A esse esvaziamento técnico soma-se um nó górdio operacional: a ausência de carência. Um crédito que se pretenda verdadeiramente produtivo precisa respeitar o tempo do relógio biológico e financeiro da atividade econômica. O capital injetado exige um prazo mínimo para entrar no ciclo operacional — comprar a matéria-prima, produzir, estocar, vender e, finalmente, receber. Ao estipular um prazo rígido de apenas 30 dias para o início do pagamento, o programa estrangula o tomador. O fenômeno que se sucede é perverso: o microempreendedor, sem tempo para maturar o investimento, acaba utilizando parte do próprio dinheiro recém-emprestado para quitar as primeiras parcelas. O fôlego vira corda.
É nesse cenário de fragilidade que o modelo do aval solidário — a exigência de formação de grupos onde todos respondem pela dívida de cada um — mostra sua face mais cruel. O que os bancos romantizam como "capital social" ou "pressão social positiva" traduz-se, no tecido social das comunidades, em constrangimento, fratura de laços de vizinhança e contágio financeiro.
Quando um membro do grupo fica inadimplente — seja por má-fé ou por uma real fatalidade do mercado —, a punição é coletiva. O banco bloqueia a renovação do crédito de todos os integrantes. Para não terem seus nomes negativados e perderem o acesso ao único oxigênio financeiro que conhecem, os demais membros são obrigados a fazer cotas para cobrir a parcela alheia. Tira-se o lucro escasso de quem trabalhou direito para salvar a reputação do grupo perante a instituição financeira.
O resultado final desse desenho institucional é a criação de uma esteira rolante da sobrevivência. O cliente corre, se esforça, paga juros, mas não sai do lugar. Não há acumulação real de capital, melhora na infraestrutura ou expansão comercial. Cria-se, sim, uma dependência crônica, onde a renovação do empréstimo serve unicamente para cobrir o rombo deixado pelo ciclo anterior.
Os bancos, por sua vez, celebram índices de inadimplência artificialmente baixos — maquiados pelo sacrifício dos avalistas que pagam pelos faltosos —, enquanto os relatórios de impacto socioeconômico fecham os olhos para o empobrecimento silencioso na ponta. O microcrédito cumpre um papel inegável de inclusão bancária, mas falha gravemente como política de desenvolvimento.
Se essa dinâmica já é severa sob a égide de uma política pública como a do BNB, ela atinge níveis alarmantes quando o microcrédito é operado por corporações de lucro privado ou entidades de lógica mercantilista. Casos como o programa Prospera, do Santander, e de organizações como o CEAPE (Centro de Apoio aos Pequenos Empreendimentos) revelam o lado mais gritante dessa captura financeira. Desvinculadas do papel de inclusão social estatal, essas instituições cobram taxas de juros substancialmente maiores, justificadas pelo "risco da carteira", mas que na realidade extraem uma margem de lucro abusiva sobre a vulnerabilidade de quem não tem acesso às linhas tradicionais de financiamento.
O agravante reside na agressividade do pós-venda e da cobrança. Enquanto programas públicos tentam gerenciar o passivo por vias negociais longas, estruturas como o CEAPE notabilizam-se por uma postura jurídica implacável diante da inadimplência. O devedor que sucumbiu ao ciclo vicioso do crédito de subsistência rapidamente se vê alvo de notificações extrajudiciais acintosas, processos de execução céleres e bloqueios judiciais de contas e ativos. O patrimônio mínimo de subsistência da família, ou as ferramentas de trabalho do pequeno comércio, tornam-se reféns de uma máquina jurídica de recuperação de ativos que não se importa com o colapso social que deixa para trás.
O resultado final desse desenho institucional é a criação de uma esteira rolante de dependência. O cliente corre, se esforça, paga juros extorsivos, mas não sai do lugar. Não há acumulação real de capital ou expansão estrutural. Cria-se, sim, uma escravidão financeira moderna, onde a renovação do empréstimo serve unicamente para cobrir o rombo deixado pelo ciclo anterior. As instituições celebram índices de inadimplência controlados — sustentados pelo sacrifício de avalistas e pelo terror do bloqueio judicial —, enquanto os relatórios sociais fecham os olhos para o empobrecimento silencioso da ponta. O microcrédito no Brasil perdeu sua alma social. Enquanto for tratado unicamente como meta de balcão e extração de valor privado, continuará transformando o sonho da autonomia na realidade de uma execução judicial pesada, violenta e sem saída.

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