Neste 12 de junho, entre o imediatismo das telas e o medo de parecer "emocionado", o Vale do Cotinguiba silencia a literatura do coração.
Houve um tempo em que amar era um ato de bravura que exigia calos nos dedos, o vinco exato do papel dobrado e uma dose cavalar de coragem. Cruzar as esquinas de Japaratuba ou de qualquer cidadezinha do Vale do Cotinguiba com um bilhete apaixonado escondido no bolso da camisa de botão era carregar uma bomba-relógio de sentimentos. Hoje, nesta sexta-feira, 12 de junho de 2026, o Dia dos Namorados bate à porta, mas aquela literatura visceral e urgente do peito parece ter virado uma poeirenta peça de museu.
As cartas de amor sumiram. E não foi porque o ser humano desaprende para sempre a arte de querer bem, mas porque a mecânica do afeto foi completamente engolida pela pressa e pelo pragmatismo das telas.
Antigamente, a espera era o oxigênio do romance. O rapaz sentava-se à mesa sob a luz amarelada, escolhia a melhor caneta e gastava parágrafos inteiros tentando traduzir o impacto de um olhar cruzado na feira de sábado. Havia um rito: a escolha do papel, o cuidado para a tinta não borrar e o suspense dos dias — às vezes semanas — que o envelope levava para ir e voltar pelos caminhos do interior. A distância alimentava o mistério; a caligrafia era a própria extensão da alma de quem escrevia.
Na modernidade de 2026, fomos condenados à ditadura do tempo real. O amor virou uma sequência de interações dinâmicas e pasteurizadas no Instagram ou no WhatsApp. O esforço cognitivo de desenhar uma metáfora foi substituído pelo emoji de um coração pegando fogo ou por uma figurinha piscando. Se uma mensagem um pouco mais intensa é enviada e a tela exibe o tique azul da visualização sem uma resposta em cinco minutos, a ansiedade consome o remetente. A pressa matou o tempo de maturação que o sentimento precisa para virar prosa.
Mais do que a pressa, o que assassinou as declarações inflamadas foi o medo. Declarar-se com intensidade hoje em dia tornou-se um esporte de altíssimo risco. No passado, uma carta manuscrita era um segredo sagrado, guardado a sete chaves no fundo de uma gaveta de jacarandá ou entre as páginas de um livro de poesias. Era um pacto absoluto de intimidade.
Hoje, a intimidade é vulnerável ao primeiro deslize do polegar. O pavor contemporâneo do "print" — de ter a sua vulnerabilidade exposta em um grupo de amigos no WhatsApp ou ridicularizada nos stories — faz com que as pessoas calibrem o sentimento em doses homeopáticas e defensivas. Para evitar o julgamento público, o afeto adota uma linguagem minimalista, quase irônica. Ninguém mais quer parecer "emocionado". É o império do "gosto de você" protocolar, idêntico ao de todo mundo.
É claro que a modernidade trouxe suas facilidades comerciais. O e-commerce entrega o presente na porta, os algoritmos sugerem o restaurante ideal e a publicidade celebra, com justa pluralidade, todas as formas de amor. Mas no meio desse banquete hiperconectado, fica um vazio de palavras autênticas. O comentário padronizado de "Linda" ou "Meu gato" na foto da rede social não tem o cheiro, o peso e nem a permanência do papel rasgado às pressas.
Talvez a resistência desse amor analógico ainda sobreviva, meio disfarçada, no cotidiano grosso do interior. Está no bilhete de bom dia deixado ao lado da garrafa de café na segunda-feira, no rádio que toca aquela canção antiga ou no ato de compartilhar um texto que diz exatamente o que a boca engoliu. O papel mudou de textura e as cartas se perderam no tempo, mas a teimosia de se entregar por inteiro, sem medo do rascunho, ainda é a única coisa capaz de acender o verdadeiro fogo no peito de cada um de nós.

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