O inverno da eliminação em 2026 evoca o fantasma da Cisplatina: como o destino do futebol separou caminhos que a história e a cultura de fronteira uniram sob o mesmo manto imperial.
Por Flávio Hora
O inverno em Sergipe tem um ritual muito próprio. Enquanto a chuva fina bate na janela, o corpo pede o calor de um bom caldo de mocotó ou de um cuscuz com molho quente, daqueles que confortam a alma enquanto a gente se perde nas páginas de um livro ou na tela da TV. Mas o inverno deste ano trouxe consigo um frio diferente, daqueles que cruzam o continente, sobem as correntes do Atlântico Sul e sopram direto dos pampas. Um frio de ressaca futebolística e de ironia histórica.
Olhando para a tabela da Copa do Mundo de 2026, deparo-me com um fato consumado: a República Oriental do Uruguai está eliminada. Para o torcedor comum, é apenas mais uma gigante que tombou no tabuleiro do futebol mundial. Para quem guarda os olhos na história, porém, é impossível não sorrir com o fantasma do passado que insiste em assombrar as nossas fronteiras.
Houve um tempo em que aquela eliminação seria nossa.
Entre 1821 e 1828, quando o Brasil ainda tateava sua própria identidade sob o manto imperial de Dom Pedro I, o Uruguai atendia pelo nome oficial de Província Cisplatina. Se a diplomacia britânica de Lord Ponsonby não tivesse entrado em campo em 1828 para aplicar uma rasteira geopolítica perfeita — inventando um "Estado-tampão" para que os navios ingleses pudessem comerciar em paz —, as quatro estrelas que os uruguaios ostentam no peito seriam costuradas na amarelinha. O Maracanazo de 1950 nunca teria sido uma tragédia nacional; teria sido apenas uma disputa interna, talvez um racha interestadual entre o Rio de Janeiro e a dantesca província do sul.
Mas a história, esse juiz de linha implacável, preferiu o divórcio. Separou-nos pela língua, mas nos condenou a uma vizinhança eterna de espelhos.
Hoje, quando a Celeste se despede de 2026, há uma melancolia mútua que flutua na fronteira seca de Rivera e Santana do Livramento. Ali, onde o portunhol riverense anula qualquer linha imaginária do mapa, o gaúcho uruguaio e o gaúcho brasileiro dividem o mesmo mate amargo e o mesmo assado, chorando a desventura da bola que não entrou. A herança daquela "passagem" brasileira não ficou nos quartéis ou nos decretos imperiais falidos, mas na certeza de que somos feitos da mesma argila pastoral, do mesmo couro e da mesma paixão visceral.
A Celeste caiu em 2026. O Uruguai, o ex-estado que o Brasil não conseguiu reter, agora recolhe suas bandeiras. Resta aos nossos vizinhos o recolhimento digno de quem conhece a solidão dos campos. E a nós, do lado de cá, resta apreciar o inverno, tomar o chimarrão e lembrar, entre um gole e outro, que por um breve e audaz segundo da história, o futebol arte e a garra charrua quase bateram no mesmo peito.
O futebol muda, a geografia se reorganiza, mas a crônica da história nunca perde a oportunidade de nos lembrar quem fomos.

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