Como grandes nomes da MPB usaram a figura de Jesus Cristo para driblar os censores da ditadura e consolar um país amordaçado. Entenda por que grandes clássicos da nossa música focavam apenas na morte de Jesus e como o Padre Zezinho mudou a história ao corrigir sua obra mais famosa.
Por F. J. HORA OnLine
No início da década de 1970, o Brasil experimentava um dos períodos mais sufocantes de sua história política. Sob o peso do AI-5, a palavra escrita, falada e cantada passava pelo crivo implacável da censura prévia. As canções de protesto escancarado, que inflamavam os festivais anos antes, foram empurradas para o exílio ou silenciadas nos porões. Foi precisamente nesse vácuo de representação social que as ondas de rádio do país foram inundadas por um fenômeno estético curioso: a súbita e massiva conversão da Música Popular Brasileira ao sagrado.
O ano de 1973 serve como um excelente laboratório para essa análise. Foi quando Antônio Marcos estourou nas paradas com "Homem de Nazareth", dividindo as atenções com o romantismo devocional de Roberto Carlos em "O Homem". Diante de tamanha efervescência religiosa na música laica, cabe o questionamento crítico, distanciado pelo tempo: estaríamos testemunhando um autêntico movimento de expansão da fé cristã ou a religiosidade operava ali como uma sutil moeda de troca e compensação psicológica para um público amordaçado?
O Jesus Histórico e o Desleixo Teológico
Analisada sob uma lente puramente teológica, a explosão de religiosidade na MPB daquela era revela uma profunda incompletude. Em "Homem de Nazareth", os compositores fixam um marco temporal rígido e melancólico: “Mil novecentos e setenta e três / Tanto tempo faz que ele morreu”. A narrativa tranca Jesus na história, celebrando o líder ético, o filho do carpinteiro que nasceu na manjedoura e desafiou os poderosos sem diplomas formais. Todavia, silencia-se completamente sobre o evento que, para a fé cristã, dá sentido a tudo: a ressurreição.
Esse esvaziamento do dogma não era exclusividade da música comercial. O próprio Padre Zezinho, em sua primeira versão de "Um Certo Galileu", cometeu equívoco semelhante ao encerrar sua cativante melodia na sexta-feira santa, com o assassinato do profeta por um mundo que "tinha medo de Jesus". O sacerdote, movido pelo dever pastoral e catequético, percebeu o erro a tempo e adicionou a estrofe do domingo de Páscoa ("Vitorioso, ressuscitou..."), transformando o lamento fúnebre em hino de triunfo.
A música popular das rádios, porém, permaneceu estática. Não havia interesse na densidade litúrgica da vitória sobre a morte. O Cristo que o mercado fonográfico lapidava precisava ser ecumênico, palatável e, acima de tudo, humano.
A Bifurcação do Sagrado nos Anos 70
- A Vertente Humanista e Devocional: Representada por Roberto Carlos e Antônio Marcos, utilizava a figura de Jesus como um bálsamo, um consolador dos aflitos em tempos de angústia coletiva.
- A Vertente Contracultural e Provocadora: Liderada por Raul Seixas, trazia um Jesus revolucionário e místico (como em "Gita" e "Há Dez Mil Anos Atrás"), usando o símbolo do mártir para escancarar as hipocrisias do sistema e da própria Igreja instituição.
A Válvula de Escape de uma Sociedade Amordaçada
Filósofos e críticos literários contemporâneos defendem, com sólida argumentação, que a proliferação dessas canções funcionou como uma "compensação" para o público. Impossibilitado de buscar a transformação da sociedade pela via política direta, o cidadão comum encontrou no refúgio espiritual uma forma de processar seus traumas. A utopia de um país livre foi substituída, temporariamente, pela utopia universal de que “o mundo só será feliz se a gente cultivar o amor”.
Para os censores do regime militar, essas letras eram vistas como inofensivas ou confortavelmente alienantes. Afinal, falar de amor, paz e fraternidade desviava os olhos da juventude dos conflitos urbanos. O que a burocracia estatal não compreendia — mas o público decodificava com maestria — era o caráter cifrado dessas mensagens.
Quando Raul Seixas cantava que viu "Cristo ser crucificado / O amor nascer e ser assassinado", ou quando Antônio Marcos bradava que o carpinteiro "revolucionou o mundo inteiro", o ouvinte atento não enxergava apenas a Judeia do primeiro século. Enxergava os contornos do próprio Brasil, onde o ideal de liberdade era diariamente sacrificado no altar do autoritarismo. O manto do sagrado servia de escudo para que conceitos perigosos como "revolução" e "justiça" pudessem continuar ecoando nos lares brasileiros.
Conclusão: O Legado de um Tempo Cifrado
A religiosidade na MPB dos anos 70, portanto, esteve longe de ser um apêndice da Igreja ou um esforço de conversão em massa. Tratou-se de uma resposta estética e sociológica a uma asfixia histórica. Ao desidratar o Cristo dos altares e trazê-lo para a poeira das ruas, os nossos compositores humanizaram o divino para conseguir tolerar a desumanização do cotidiano.
Se por um lado a canção popular falhou na precisão teológica ao esquecer o túmulo vazio, por outro foi cirúrgica ao perceber que, em tempos de opressão, o Jesus histórico — o andarilho humilde que desafiou impérios com palavras de amor — era exatamente a metáfora que o Brasil precisava para continuar respirando.

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