Uma jornada de contrastes onde a sabedoria rústica e a pureza do vocabulário de Japaratuba enfrentam a frieza e a pressa da modernidade urbana.
O Dia em que Seu Miro Encarou a Capital
Seu Miro é daqueles que liga a televisão só pra assistir o Globo Rural e o Jornal Nacional, novela nem pensar, futebol só quando seca o sono. Ir na cidade só se for por obrigação ou a negócio como costuma dizer. Celular? Nada de smartphone, só um desses básicos com flip que ao abrir já atende e desliga ao fechar pra facilitar. Nas bibocas onde ele mora já tem wi-fi. Mas, naqueles confundós só se usa em tempo de visita ou para quem tem filho pequeno ou cria algum neto. A sua esposa, me esquece da graça, é quem tem esse tal smartphone. Ele gosta porque fala e ver os filhos que moram em São Paulo. Agora, reparem como foi a folia do matuto na capital.
O Velho Miro desafiou o mundo ao desembarcar na rodoviária da capital. Homem de Japaratuba, calejado pela enxada e batizado pela poeira do povoado, ele não era bobo — longe disso —, mas o mundo de cimento parecia grande demais para o seu chapéu de palha. Trazia no bolso o dinheiro suado do ano inteiro e, no peito, um troço ruim, um verdadeiro farnesim que lhe tirava o sossego. Tinha vindo resolver "assuntos na caixa de ferro" (o banco) e comprar umas miudezas.
Logo na entrada do grande centro comercial, Seu Miro estancou. Olhou para cima e viu aquela engrenagem medonha: uma escada volante que subia gente sem que ninguém precisasse dar um passo.
— Valei-me, meu Padim, que o chão tá andando! — resmungou, ajeitando o matulão no ombro.
Num era a primeira vez, mas demorava tanto a ir que é como se fosse.
Um rapaz de terno, com pressa e cara de poucos amigos, esbarrou no velho. Seu Miro, que não levava desaforo para o roçado, soltou logo um daqueles nomes brabos que em Japaratuba fazem até o capim murchar:
— Olha por onde anda, peste! Desgosto de mãe! Diabo do rabo sujo!
O engravatado seguiu reto, fingindo que não era com ele. Seu Miro limpou o suor da testa com o lenço vermelho e desabafou com um segurança que assistia à cena:
— Esse povo da cidade vive numa danação danada. É uma pressa que não cabe no dia. O juízo deles já foi pro sal.
Para espairecer, resolveu procurar uma lanchonete. Ele queria comer algo simples, mas tudo ali parecia artificial. Viu um cartaz anunciando castanhas e doces. Chegou no balcão e perguntou, com a dignidade de quem conhece a terra:
— Moço, vende dessa castanha a garné? Quero só um punhado no bolso.
O atendente, um jovem de fone de ouvido, franziu a testa:
— Garné? Não, senhor. Só no pacote fechado e com código de barras.
Seu Miro olhou para o pacote plástico, depois para a própria mão. Quis explicar que o comércio de verdade é aquele onde se pega o produto no peso, na confiança, mas percebeu que o rapaz não entenderia. O sistema dali queria suverter as leis da natureza humana.
— Bombasta! — soltou o velho, batendo a mão no balcão. — Vá teimar com o cão, que eu não perco meu latim.
Desistiu do lanche. Enquanto procurava a saída daquele labirinto de vidro, seus olhos bateram em uma vitrine. Ali, reluzindo sob as luzes modernas, estava uma mota zero quilômetro, vermelha, imponente. O coração do matuto deu um salto. Lembrou-se da juventude, de quando viu a primeira máquina daquelas rasgar as estradas de terra de Japaratuba. Ficou ali, hipnotizado, com o olhar perdido de quem está arriado dos quatro pneus por aquela lindeza mecânica.
— Com uma dessa, eu ia de Japaratuba ao fim do mundo num sopro... — sussurrou para si mesmo, com uma ingenuidade tão bonita que os passantes, acostumados com a frieza das telas de celular, nem eram capazes de notar.
Seu Miro não comprou a mota, não subiu na escada volante e não levou a castanha no pacote. Mas resolveu o seu banco, guardou seu dinheiro onde achou seguro e pegou o ônibus de volta para o seu povoado.
Enquanto a capital ia sumindo na janela, ele respirou fundo o cheiro de terra molhada que começava a surgir na estrada. Ali, naquela poltrona, não ia um homem derrotado pela modernidade. Ia a parte mais autêntica do país: a honestidade que não precisa de senha, a sabedoria que não depende de tela e a certeza de que a pressa da cidade grande é, no fundo, uma grande tolice.

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