terça-feira, 16 de junho de 2026

A Contabilidade do Afeto e a Economia do Massapê

Radiografia do Vazio Industrial: Como a Dependência do Emprego Público e o Pragmatismo do São João Moldam a Realidade Econômica e Social no Vale do Cotinguiba

Por Flávio Hora

Diante da crônica escassez de políticas estruturais de desenvolvimento e da histórica terceirização da força de trabalho para a bacia petrolífera vizinha, Japaratuba encontra na engrenagem informal do ciclo junino o seu mais vital e autônomo respiro financeiro. Enquanto o cotidiano fora de época expõe o estreito funil da dependência dos cargos comissionados e o fantasma da precarização laboral nas esferas municipais, a "Contabilidade do Afeto" se impõe como uma matriz socioeconômica de base, convertendo a tradição das calçadas, o comércio do homem do campo e o suor dos artesãos locais na única rede real de distribuição de renda e resistência comunitária do município.



Quem caminha pelas esquinas de Japaratuba no restante do ano conhece de cor a melodia da nossa carência. À boca miúda, o diagnóstico das calçadas é cirúrgico e sem rodeios: a ausência de políticas públicas sérias de geração de emprego e renda condena o nosso povo a um funil estreito. Ou o cidadão se sujeita àquela velha "vaguinha" temporária na Prefeitura — onde o contrato é precário e os direitos trabalhistas passam longe —, ou sobrevive do amparo do Bolsa Família, ou tenta a sorte cruzando a fronteira em busca de um trampo em Carmópolis, desde que tenha uma boa "peixada" para abrir as portas. É o pragmatismo nu e cru da sobrevivência no interior.

Parece até um sonho. Mas, enfim, junho chegou. E junho, no Nordeste, tem a força de uma fenda no tempo. É o período mais animado, esperado e sagrado do ano, onde a dureza do cotidiano temporariamente se curva diante do estalar da lenha. E é exatamente nesse hiato festivo que opera a Contabilidade do Afeto: uma engrenagem econômica e social invisível que subverte a lógica dos gabinetes e prova que a nossa verdadeira sustentabilidade nasce da base.

Enquanto os diários oficiais e o marketing político se ocupam em ostentar cifras monumentais na contratação de megashows nacionais para os palcos principais, a economia que verdadeiramente distribui renda e injeta dignidade no Vale do Cotinguiba é capilar e silenciosa. É a matemática contada em centavos nas bancas da feira livre, onde o homem do campo vende o milho verde, o amendoim e a macaxeira diretamente para o bolso do vizinho. É o dinheiro vivo que circula de mão em mão, sem intermediários, fortalecendo a bodega da esquina e o pequeno comerciante da sede.

Essa contabilidade tem rostos que o turismo de fachada não costuma registrar. Ela pulsa nos dedos calejados da costureira de bairro, que passa noites em claro sob a luz de uma lâmpada cansada dando os últimos pontos nas saias de chita das quadrilhas juninas. Vive no esforço do artesão que esculpe os adereços, no suor do motorista do carro de linha que triplica os horários de viagem para trazer os filhos da terra de volta para casa, e no sopro insistente dos tocadores de pífano que garantem a trilha sonora da nossa resistência cultural.

Para quem analisa a sociedade sob a ótica das ciências humanas, fica o grande aprendizado: o São João de Japaratuba não é um gasto desordenado de calendário; é uma aplicação técnica de identidade e sobrevivência. Enquanto as soluções estruturais de emprego não vêm, é a cultura de raiz que assume o papel de matriz econômica temporária, provando que o massapê é fértil demais para viver apenas de migalhas políticas.

A fogueira que acendemos nas calçadas aquece muito mais do que o corpo no inverno sergipano. Ela financia a costureira, valoriza o agricultor e mantém o comércio local respirando por conta própria. Pode faltar o amparo do Estado na folha de pagamento, mas quando o fole da sanfona abre no Vale do Cotinguiba, a contabilidade do afeto entra em campo para provar que a maior riqueza do nosso povo é aquela que a burocracia não consegue controlar: a nossa capacidade de partilhar o pão, o riso e a nossa própria história.

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