Entre a escassez da meninice e a arte de se virar: as memórias de uma época em que uma página digitada valia ouro e a engenhosidade estudantil era a única moeda que não sofria inflação.
A Multiplicação dos dos Jornais em Japaratuba
O tempo, esse sujeito zombeteiro, tem uma forma muito própria de atualizar a tabela de preços da vida. Hoje, pagar dois reais por uma página digitada parece um acinte para quem consome gigabytes de informação sem mover um centenário de real do bolso. Mas em meados dos anos noventa, logo após o nascimento do Real, quando a carne de quilo ainda não arranhava a barreira dos dois dinheiros, a moeda de um real pesava no bolso de um estudante como se fosse de chumbo. Ter um computador era luxo de poucos; ter uma impressora — daquelas matriciais que faziam um barulho de trator no cio — era quase um milagre.
Em Japaratuba, a lógica econômica operava sob as rédeas da escassez. Sete páginas. Esse era o veredito do destino para um grupo de meninos da oitava série do glorioso Colégio Emiliano, o eterno Ginásio da cidade. Sete páginas de um jornal escolar que precisavam ganhar o mundo em tinta preta e papel branco. O preço da liberdade poética e da nota bimestral? Sete reais.
Parece pouco hoje, mas vá perguntar ao menino daquela época o tamanho da jornada para reunir sete contos. O não do pai já era esperado. O suspiro da mãe, um clássico. A desculpa dos tios, de praxe. O prazo final batendo à porta e a carteira mais vazia que as ruas da cidade em tarde de domingo. A palavra empenhada com o digitador — homem sério, dono de escola particular, talvez do Contato Atual ou do Espaço Evolutivo, numa Japaratuba que ainda via a icônica "Escolinha" engatinhar — estava prestes a virar fumaça. E para o sertanejo, a palavra dada é a "pentcha", o fio do bigode que não se corta.
A saída para o impasse veio disfarçada de blefe, temperada com aquela audácia que só a necessidade da juventude consegue destilar. "Os colegas não gostaram do formato, vamos desistir", disse o menino ao homem das letras digitadas. O comerciante, num misto de cansaço e benevolência pedagógica, deu de ombros e decretou: "Fica de presente para o Emiliano". Pronto. O primeiro milagre da jornada estava operado: o custo da digitação fora reduzido a zero. Mas a folha matriz, sozinha, não faz revolução nem dá nota. Era preciso a cópia. O xerox. A multiplicação.
Entra em cena a malícia política da meninice. O plano era ousado: conseguir uma "ordem" com o irmão do prefeito para liberar as máquinas de uma das secretarias do município. Alvo: 500 cópias. A realidade, contudo, é uma negociadora dura. O funcionário da máquina, talvez econômico com o toner da máquina pública, cortou a meta pela metade e um pouco mais: saíram 200 folhas.
Matemática de calçada: 200 páginas divididas pelas 7 do jornal resultavam em exatos 28 exemplares. Nem mais, nem menos. E se a digitação fora de graça e a cópia saíra no custo da máquina governamental, o produto final era puro lucro ambulante. Vendidos a um real cada — o mesmo real que antes faltava —, os jornais evaporaram das mãos dos estudantes. No fim da tarde, o bolso que antes guardava apenas vento, agora ostentava orgulhosos 28 reais.
Olhando para trás, a gente se pergunta qual é a lição de moral que se esconde entre as linhas dessa pequena odisseia japaratubense. Terá sido mérito próprio? Ou apenas o alinhamento cósmico da sorte com a lábia estudantil?
A verdade é que o custo financeiro foi zero, mas o investimento de tempo, de sola de sapato e de suor na testa foi imenso. Arrumar dinheiro na meninice daquela época nunca foi tarefa para amadores. Mas quando a vida te dá um limão, uma folha digitada e a benevolência de uma secretaria municipal, saber multiplicar o que se ganha não é apenas esperteza. É arte.

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