Bastidores e Tradição: O Cruzamento entre a Economia Real e o Espetáculo do Poder na Feira de Japaratuba
No coração do Vale do Cotinguiba, o primeiro sábado de junho funciona como o verdadeiro termômetro financeiro e social para o comércio junino em Japaratuba. Enquanto o homem do campo e os moradores de povoados como São José, Badajós, Sibalde e Patioba movimentam a economia real injetando dinheiro vivo nas bancas de agricultura local, os bastidores políticos de junho de 2026 transformam o mercado e as mesas de café em um autêntico tribunal. É o cenário onde as movimentações para as composições de poder se disfarçam de simplicidade, e onde candidatos utilizam uma liturgia cínica — que vai das mangas dobradas ao clássico caldo de mocotó — para tentar garantir faturamentos eleitorais e engajamento nas redes sociais.
O sábado de junho no Vale do Cotinguiba não amanhece; ele irrompe no ronco dos motores dos carros de linha que trazem o interior para a sede. É o primeiro sábado do mês, o termômetro sagrado que dita se o São João terá a fartura do milho na brasa ou a timidez dos tempos de estiagem. Na feira de Japaratuba, o dinheiro circula de mão em mão entre o amendoim cozido, o manoê e o cheiro do coentro fresco. Mas em junho de 2026, entre uma banca e outra, o que se vende mais caro é a ilusão. No verão, o caldo de cana bem gelado com o pastel e no "tempo frio" aquele caldinho de mocotó quentinho...
Junho de 2026 não é um mês qualquer. Nos bastidores, as engrenagens do poder fervem e, no interior, não existe tribunal mais impiedoso ou palanque mais disputado do que a feira livre. Quem tem juízo político sabe: sumir dali é assinar a própria invisibilidade. Por isso, o mercado central e as mesas de café viram o palco de uma ópera bufa, onde homens de gabinete tentam, a todo custo, falar a língua do massapê.
Assoma na esquina a primeira comitiva do dia. O figurino do candidato é uma ciência exata, uma verdadeira liturgia cínica. A camisa é de botão social, dessas de tecido fino compradas na capital, mas há um detalhe crucial: as mangas estão milimetricamente dobradas até o cotovelo. O truque visual é velho, mas segue no roteiro; serve para fingir que o sujeito acabou de largar o cabo da enxada ou que está "no batente" junto com o povo.
O espetáculo ganha ritmo quando o político avista uma senhora idosa ajeitando os maços de coentro e alface na banca. O protocolo exige um sobressalto de falsa surpresa. Ele caminha a passos largos, abre os braços e a envolve em um abraço caloroso, quase cinematográfico, como se tivesse reencontrado uma tia distante que não via desde a infância. A feirante, calejada por tantas colheitas e tantas promessas, aceita o afeto com um sorriso de soslaio. Ela sabe que aquele abraço tem prazo de validade: expira exatamente no dia da votação.
Logo adiante, o candidato encosta o cotovelo no balcão de alumínio para o teste definitivo de sua "humildade": o Palanque do Pastel e do Caldo de Cana. É a hora de encarar o caldo de mocotó ou o pão com manteiga na chapa. Cada mordida e cada gole são acompanhados por expressões faciais de profundo deleite, uma simplicidade quase teatral encenada para uma plateia de assessores e curiosos.
Mas o ápice da encenação não está no paladar; está na lente do smartphone de última geração que acompanha a comitiva. "Garante o ângulo", sussurra o assessor de comunicação. Segundos depois, o flash registra a comunhão forçada entre a opulência do poder e a crueza da feira. Antes mesmo que o político termine de limpar a gordura do mocotó nos lábios, a foto já flutua nas redes sociais. A legenda, cuidadosamente redigida no ar-condicionado do comitê, evoca as "nossas raízes", a "força do nosso povo" e o "orgulho da nossa identidade".
Ao meio-dia, o encanto se quebra. Os carros de linha dão a partida e começam a devolver o povo aos povoados. Os feirantes recolhem as lonas, o caminhão do itabaianense se prepara para pegar a estrada e o comércio da sede silencia. A comitiva política também bate em retirada, saciada de pastel, mocotó e engajamento digital.
Fica na praça o cheiro do bagaço da cana e a certeza de que o povo de Japaratuba conhece bem o figurino dos seus atores. Eles aplaudem o teatro do sábado pela manhã, mas, no silêncio do voto, guardam na memória quem realmente pisa no chão da feira por devoção à terra e quem só aparece por obrigação do calendário.

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