Uma reflexão sobre a miopia da grande mídia, o legado vivo de Jailson do Pífano, Zabé da Loca, Bispo do Rosário e Mestre Ambrósio, e a necessidade urgente de reconhecer a verdadeira espinha dorsal da cultura brasileira antes que o tempo a silencie.
O Brasil conheceu Zabé da Loca quando a pifeira já contava 79 anos de idade. Foram necessárias quase oito décadas de vivência — morando por um quarto de século sob a reentrância de uma rocha na Serra do Tungão, adaptada com paredes de taipa — para que a "Rainha do Pífano" fosse finalmente guindada às páginas dos jornais, aos palcos ao lado de Hermeto Pascoal e às condecorações de Estado. O país se encantou com a narrativa da velhinha que brotara da pedra com uma flauta de bambu entre os lábios. Mas o encantamento tardio da grande mídia esconde uma provocação desconfortável: quantos mestres extraordinários continuam a soprar a vida em seus pífanos, sem que o holofote jamais os encontre?
A pergunta não é retórica; ela tem nome, chão e endereço nos rincões e torrões nordestinos. Em Japaratuba, essa mesma essência atende pelo nome de Jailson da Hora Santos — o inesquecível Jailson do Pífano. Se a engrenagem midiática não o transformou em fenômeno de massa nacional, a falha não reside na falta de genialidade de seu sopro, mas na miopia de um país que insiste em confundir visibilidade comercial com valor artístico.
A Trajetória de Jailson do Pífano: A Artesania da Alma
- Nascimento e Raízes: Filho do agricultor e tocador Aguinaldo Pereira dos Santos e neto de Manoel da Hora de Jesus, Jailson cresceu imerso no ecossistema cultural e comunitário de Japaratuba, na zona rural em Encruzilhadas, às margens do Riacho do Poxim. Carregava nas veias a herança dos ritmos e folguedos que definem a identidade do Vale do Cotinguiba.
- O Mestre e o Instrumento: Dedicado à música folclórica e popular nordestina, Jailson não era apenas um virtuose na execução do pífano: ele era um construtor de sons. Confeccionava artesanalmente os próprios instrumentos, selecionando a matéria-prima, furando a madeira e afinando nota por nota com a precisão intrínseca dos autodidatas.
- Obra e Legado: Compositor de melodias marcantes e preservador incansável das tradições sergipanas, Jailson viveu a arte como um ato diário de devoção. Sua música ecoava em feiras, procissões, folguedos e encontros comunitários, afirmando o pífano como voz viva do povo Japaratubense.
Se o destino tivesse colocado uma equipe de reportagem no caminho de Jailson, ele estaria estampado nos cadernos de cultura dos grandes jornais do país. Contudo, a grandeza de Jailson do Pífano — assim como a de Zabé — nunca esteve condicionada ao aplauso distante de plateias abastadas. Nem Jailson, nem Zabé faziam arte para "ostentar". Tocar o pífano era para eles uma necessidade orgânica, uma extensão do ato de respirar, cultivar a terra e existir.
A Arte Desprovida de Vaidade: O Amadorismo Sagrado
Há uma distinção fundamental entre o artista comercial e o mestre popular. O primeiro fabrica a arte para o consumo, ajustando sua estética às oscilações do mercado e aos caprichos da crítica. O segundo — o mestre do povo — exerce o que podemos chamar de "amadorismo sagrado" (no sentido original da palavra: aquele que ama o que faz).
Jailson tocava porque a melodia pedia para nascer; esculpia a madeira do pífano porque o silêncio da feira precisava ser preenchido pela festa. Essa despretensão não diminui a obra; ao contrário, confere-lhe uma pureza inalcançável pelos gabinetes das grandes gravadoras. O valor histórico que dorme nos torrões do Nordeste não depende da chancela dos grandes centros urbanos para ser legítimo. Ele já nasce pleno e completo no chão onde foi semeado.
Arthur Bispo do Rosário: Artista Universal ou "Louco" Local?
Para compreender como a validação externa opera de forma arbitrária, basta olhar para outra figura colossal nascida nas terras de Japaratuba: Arthur Bispo do Rosário.
Bispo deixou Sergipe e viveu grande parte de sua vida internado na Colônia Juliano Moreira, no Rio de Janeiro. Ali, utilizando lençóis desfiados, canecas de alumínio, garrafas e botões, construiu um acervo monumental que viria a ser aclamado internacionalmente na Bienal de Veneza como uma das expressões mais geniais da arte contemporânea e conceitual.
"Se Arthur Bispo do Rosário tivesse permanecido toda a sua vida em Japaratuba, bordando seus mantos e estruturando seus estandartes na penumbra de uma casa de vila, teria sido reconhecido como um mestre gênio ou confinado ao rótulo simplista do "louco da cidade"?
A provocação é inevitável. O circuito de arte institucionalizado precisou que Bispo estivesse no Rio de Janeiro, sob o diagnóstico da psiquiatria e descoberto por críticos cariocas, para que sua obra fosse catalogada como "arte". Se tivesse ficado em sua terra natal, a mesma obra acumulada no quintal seria vista com desdém ou piedade. Bispo do Rosário não se tornou um gênio por ter ido ao Rio; ele já trazia em si a matriz cósmica da criação popular de Japaratuba. O mercado apenas inventou uma moldura para vendê-lo.
Mestre Ambrósio e o Saber Imemorial das Matas
Essa mesma cegueira se repete no cotidiano com figuras como Mestre Ambrósio. Quantos conhecem a imensidão do seu saber? Mestre Ambrósio é a síntese do homem-orquestra e do artesão pleno. Adentra as matas para colher cipós e madeiras específicas; constrói correntes de pau entalhadas em peça única de madeira, foguetes de vara para as festividades juninas, desenhos de precisão impressionante, zabumbas e até violões de sonoridade impecável.
Mestre Ambrósio não frequentou faculdades de belas artes ou lutheria. O seu diploma foi escrito no atrito do facão com a madeira e na observação dos segredos da natureza. E no entanto, pergunto: quem fora dos limites de sua comunidade o conhece e o reconhece? Quem paga o justo valor por um instrumento construído com as próprias mãos a partir do cipó colhido na mata?
Nós Falhamos: O Resgate do Artista Universal
A grande tragédia cultural do Brasil não é a escassez de talentos, mas a nossa incapacidade sistêmica de enxergar e valorizar os nossos próprios criadores enquanto eles caminham entre nós. Nós falhamos. Falhamos como sociedade quando esperamos que a grande mídia ou a chancela estrangeira digam quem merece ser ouvido.
Jailson do Pífano, Zabé da Loca, Bispo do Rosário e Mestre Ambrósio pertencem à mesma linhagem de artistas universais. A única diferença entre o artista aclamado mundialmente e o "simples artista local" é o acidente geográfico da oportunidade — o chamado "momento" da descoberta.
Jailson não precisou de um programa de auditório para ser gigante. Seu pífano, esculpido com as próprias mãos e soprado com o pulmão cheio de amor por sua terra, permanece eternizado no ecossistema cultural do Nordeste. Cabe a nós, agora, reescrever essa história: não mais como passivos espectadores da mídia centralizadora, mas como guardiões fervorosos da memória daqueles que deram som, cor e alma ao nosso povo.
Zabé da Loca morreu em Monteiro, no estado da Paraíba, vítima de sua saúde fragilizada em decorrência do Alzheimer no dia 5 de agosto de 2017. E Jailson do Pífano, aos 66 anos, na noite de 12 de Setembro de 2023 por voltas das 21 horas, passou mal em sua residência no Povoado Várzea-Verde, já chegando sem vida ao atendimento médico. Ambos deixam um vazio imenso na cultura pifânica brasileira.

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