Entre a ressurreição argentina no Maracanã e a defesa da nossa soberania de cinco estrelas, apoiar o maior rival em 2026 sob o pretexto da união continental é ignorar a história e flertar com o retrocesso estratégico.
Por Flávio Hora
O futebol tem uma capacidade única de entortar a lógica e criar falsas simetrias. À medida que o funil da Copa do Mundo de 2026 se estreita e a Argentina se consolida como a única representante da América do Sul nas semifinais, ressurge aquele velho e conhecido discurso do "apoio continental". Ouvimos, em tons quase moralistas, que o torcedor brasileiro deveria esquecer as fronteiras e abraçar o vizinho em nome de uma suposta união latino-americana contra a hegemonia europeia. Trata-se, porém, de uma miopia histórica e de um profundo desconhecimento do que significa a nossa própria identidade no esporte.
Torcer pela Argentina não é um ato de grandeza; é, antes de tudo, abrir mão do pragmatismo que protege a nossa soberania futebolística. No xadrez do futebol mundial, a rivalidade entre Brasil e Argentina não é uma mera picuinha geográfica; é o motor que move a paixão e a mística do nosso continente. E, para os nossos vizinhos, o Brasil sempre foi o espelho onde eles buscam a sua validação mais profunda.
Basta rebobinar o filme até 2021. O fim do incômodo jejum de quase três décadas da Albiceleste não aconteceu em um cenário qualquer. Sob a liderança de Lionel Messi, a Argentina ergueu a Copa América ao vencer o Brasil por 1 a 0, com gol de Di María, em pleno Maracanã. A catarse deles não foi apenas pelo troféu, mas pelo local e pelo oponente. O próprio Messi, em declarações à época, admitiu que a felicidade era inexplicável justamente por ter sido "contra o Brasil, na final e no seu país". Para eles, o Maracanã foi o altar da ressurreição moderna que pavimentou o caminho para os sucessos seguintes. Eles compreenderam o peso simbólico daquele momento e o usaram como combustível.
Agora, em 2026, ver a Argentina buscar o tetracampeonato e, consequentemente, aceitar isso com passividade sob o manto da "solidariedade sul-americana" é ignorar a matemática das estrelas. Permitir ou desejar que o maior rival encoste perigosamente no nosso patamar, ficando a apenas uma taça do pentacampeonato, é um contrasenso para qualquer um que preze a história da Amarelinha.
Historicamente, o futebol argentino cresceu à sombra de expedientes que a própria FIFA preferiu aplaudir a punir: desde o nebuloso e jamais explicado 6 a 0 contra o Peru em 1978, passando pelo escândalo mundial do gol de mão de Maradona em 1986, até o bizarro episódio da "água batizada" oferecida ao lateral Branco nas oitavas de final de 1990. A história deles é rica, brilhante em talento, mas também profundamente marcada por uma malandragem que nunca teve pudor em nos alvejar.
Não há falta de patriotismo em secar a Argentina. Pelo contrário. O verdadeiro patriotismo esportivo compreende que a nossa soberania de cinco estrelas é o patrimônio mais sagrado do futebol brasileiro. Ver a Inglaterra conquistar um eventual bicampeonato — mantendo um jejum que vem desde 1966 e que em nada ameaça o nosso topo — é um preço histórico infinitamente mais barato e seguro a se pagar.
No gramado da vida e das Copas, a diplomacia termina quando a bola rola. Manter a distância histórica do nosso maior rival não é egoísmo; é legítima defesa da nossa própria história. Que a taça cruze o Atlântico e vá para qualquer lugar longe de Buenos Aires, porque a soberania do futebol brasileiro não aceita concessões poéticas.

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