terça-feira, 7 de julho de 2026

Luto na Cultura: Morre Benedito Ruy Barbosa, o Mestre do "Brasil Profundo", aos 95 Anos

Autor de clássicos como Pantanal e O Rei do Gado faleceu nesta terça-feira (7), em São Paulo, deixando um legado incontornável para a literatura e a teledramaturgia nacional.



Atualizado, às 11:30, horário de Brasília


SÃO PAULO A cultura brasileira perdeu, na manhã desta terça-feira (7 de julho de 2026), um de seus mais brilhantes cronistas e contadores de histórias. O escritor, jornalista e dramaturgo Benedito Ruy Barbosa faleceu aos 95 anos de idade na capital paulista. A informação foi confirmada pelo HCor (Hospital do Coração), onde o autor estava internado.

De acordo com a nota oficial emitida pela instituição médica, a causa do óbito foram complicações decorrentes de um quadro de insuficiência renal crônica, condição contra a qual o autor lutava de forma resiliente há três anos.

Da Contabilidade às Redações: A Formação de um Observador

Nascido em 17 de abril de 1931 na cidade de Gália, no interior paulista, Benedito Ruy Barbosa cresceu entre os cafezais da vizinha Vera Cruz. A infância humilde e o contato direto com a terra e com as primeiras correntes de imigrantes italianos e japoneses tornaram-se, décadas mais tarde, a matéria-prima de sua literatura televisiva.

Após a perda precoce do pai, quando tinha apenas 11 anos, Benedito começou a trabalhar cedo para sustentar a família. Iniciou sua trajetória profissional no universo técnico da contabilidade, atuando como auxiliar de guarda-livros e, posteriormente, bancário.

No entanto, a paixão pelas letras falou mais alto. Antes de conquistar as telas, o autor consolidou uma sólida carreira no jornalismo impresso, trabalhando como repórter, redator e revisor em veículos de prestígio como O Estado de S. Paulo, Última Hora e Gazeta Esportiva. Sua estreia na escrita dramática ocorreu em 1959 com a peça teatral Fogo Frio, inspirada na devastadora geada que dizimou os cafezais do Paraná em 1952.

O Retrato da Identidade e da Alma Rural

Benedito Ruy Barbosa estreou na teledramaturgia na década de 1960, na extinta TV Tupi, chegando à TV Globo em 1971 com Meu Pedacinho de Chão — obra que desafiou a censura do regime militar da época. O contrato definitivo com a emissora carioca veio em 1976, iniciando uma sequência de sucessos no horário das 18h, como O Feijão e o Sonho (1976) e Cabocla (1979).

O autor redefiniu os rumos da televisão brasileira ao deslocar o eixo das narrativas urbanas para o interior do país. Sua escrita caracterizou-se pela criação de panteões de personagens complexos, sagas familiares épicas, debate sobre a reforma agrária, a preservação ambiental e a valorização das raízes regionais.

Entre os seus principais marcos profissionais destacam-se:

  • Pantanal (1990): Produzida pela Rede Manchete, a obra revolucionou a estética televisiva ao trazer a natureza exuberante do centro-oeste como protagonista.
  • O Rei do Gado (1996): Um retrato contundente das disputas de terra e da modernização do agronegócio, costurado pela rivalidade histórica entre os Mezenga e os Berdinazzi.
  • Terra Nostra (1999): A epopeia dos imigrantes italianos no Brasil, marcada pela sensibilidade histórica e pelo rigor na reconstituição de época.
  • Velho Chico (2016): Sua última obra original, que homenageou as águas e o povo do Rio São Francisco.

"Antes de mais nada, uma novela precisa ter uma grande história de amor", defendia o autor ao explicar a conexão profunda que suas tramas mantinham com o público.

Legado Eternizado



Aposentado da rotina intensa de escrita nos últimos anos, Benedito Ruy Barbosa viu suas maiores obras ganharem nova vida e alcançarem novas gerações por meio de remakes de estrondoso sucesso na TV Globo, como as adaptações recentes de Pantanal (2022) e Renascer (2024).

O bastão da escrita e o compromisso com a sensibilidade regional foram transmitidos diretamente na família. O legado do autor segue vivo sob a condução de suas filhas, as roteiristas Edmara e Edilene Barbosa, e de seu neto, o também dramaturgo Bruno Luperi. Informações sobre o velório e o sepultamento do escritor ainda não foram divulgadas pela família.

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