Uma análise crítica da historiografia sergipana que desconstrói o mito da "benevolência real" no 8 de julho de 1820, revelando como a força da agroindústria açucareira e o pragmatismo econômico das elites locais moldaram a emancipação definitiva de Sergipe frente à hegemonia baiana.
Por Flávio Hora
Comemorar o 8 de julho em Sergipe é, tradicionalmente, render-se a uma liturgia oficial que evoca imagens de generosidade monárquica e heroísmo idílico. Há mais de um século, a historiografia oficial tenta nos convencer de que a nossa Carta de Alforria, assinada por D. João VI em 1820, foi um espontâneo "preito de gratidão" da Coroa Portuguesa. Sob essa ótica romântica, inaugurada por Felisbelo Freire no final do século XIX, os sergipanos teriam sido recompensados com a autonomia política simplesmente por terem pego em armas para sufocar a Revolução Pernambucana de 1817.
Mas a história, quando despida das vaidades das elites e analisada com o rigor das forças que movem as sociedades, recusa-se a aceitar heróis de mármore. A emancipação de Sergipe não foi um presente real, tampouco fruto de uma subserviência romântica. Foi, sim, o resultado de uma complexa engenharia econômica e geopolítica, onde o açúcar ditou o ritmo e o Rio de Janeiro jogou o xadrez do poder.
Para compreender o 8 de julho, é preciso arrancar a cortina de fumaça do "atraso mental e moral" que Felisbelo Freire atribuiu ao povo da época para justificar a nossa rejeição aos ideais republicanos de 1817. A virada historiográfica promovida por Maria Thetis Nunes na segunda metade do século XX nos legou a chave de leitura correta: o materialismo histórico. Sergipe não se emancipou por benevolência, mas porque se tornou economicamente viável e politicamente estratégico.
Entre o final do século XVIII e o início do XIX, os vales férteis de massapê do Cotinguiba e do Japaratuba testemunharam o esplendor da agroindústria açucareira. A então "Doce Capitania" vicejava. O enriquecimento dos senhores de engenho locais gerou uma pujança que já não cabia no bolso dos intermediários de Salvador. A elite agrária sergipana queria o livre comércio; a Bahia, por sua vez, sufocava a capitania com impostos e entraves burocráticos.
Quando a Revolução de 1817 estourou em Pernambuco, ameaçando a unidade do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, a aristocracia do açúcar em Sergipe correu para apoiar o Rei. Não por ignorância ou submissão cega, mas por um pragmático cálculo de sobrevivência de classe. Sob o eco dos conselhos do ouvidor Matta Bacellar, os senhores de engenho temiam que as ideias libertárias e abolicionistas de Recife incendiassem as senzalas e os canaviais sergipanos, fragilizados por uma severa seca e pela escassez de alimentos. O povo pobre e escravizado, vale ressaltar, pouco se importava com as querelas da Coroa: as crônicas eclesiásticas da época revelam que as camadas populares sofriam com recrutamentos forçados e violentos promovidos pelos donos do poder. A contrarrevolução foi um negócio dos ricos.
E foi no rastro desse alinhamento que a Coroa desenhou a emancipação. Como bem aponta a historiadora Edna Maria Matos Antônio, o decreto de 1820 operou dentro da lógica do Antigo Regime — a "economia do dom", onde o monarca retribuía favores para garantir fidelidade —, mas atendeu, sobretudo, a uma necessidade de reforma administrativa joanina. Desde 1815, a Corte no Rio de Janeiro planejava centralizar o poder e esvaziar a influência de Salvador. Ao elevar Sergipe à categoria de Província independente, D. João VI cortou o cordão umbilical que nos ligava à Bahia, garantindo que as riquezas tributárias do nosso açúcar fluíssem diretamente para os cofres do Rio de Janeiro.
Celebrar a emancipação política de Sergipe exige, portanto, maturidade crítica. É preciso reconhecer que a nossa identidade territorial e a nossa "sergipanidade" nasceram no útero das disputas de mercado e da centralização estatal.
A independência que hoje reverenciamos nas praças públicas foi construída com o suor anônimo do povo nos canaviais e com a tinta calculista da diplomacia imperial. Que o 8 de julho deixe de ser apenas o feriado da "gratidão do Rei" e passe a ser o dia da consciência de que Sergipe sempre foi, por direito e por esforço próprio, dono de sua própria riqueza e de seu próprio destino.

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