quarta-feira, 8 de julho de 2026

Na Claridade do Candeeiro, o Medo Tinha Três Nomes

Crônicas que resgatam as assombrações do Brasil profundo sob a luz dos velhos candeeiros, unindo o misticismo sergipano da Caipora, do Labisone e do Maçoni "pactuado" à terrível descrição folclórica do Maçone caprino e zincado do caipirês tradicional.



No tempo em que a noite em Sergipe era verdadeiramente escura, a vida se recolhia ao redor de um pavio aceso. Sem o clarão artificial da energia elétrica, o mundo diminuía de tamanho e cabia inteirinho na penumbra da sala, onde o candeeiro a querosene, ou a gás, desenhava sombras gigantescas nas paredes de reboco. Era o tempo das histórias de Trancoso. Quando a lua cheia apontava no céu, clareando os telhados e as copas das árvores com uma luz de prata viva, o povo sabia: a beleza da noite trazia consigo o mistério, e o medo tinha três nomes certos que assombravam o imaginário do nosso povo.

Ao redor do fogo ou na calçada, os mais velhos baixavam o tom de voz para falar da Caipora (ou Cipora).

“Fulano fuma igual uma Caipora!” — dizia-se na boca do povo, lembrando a entidade que cruzava as matas e capoeiras.

Para os caçadores que se aventuravam na escuridão, ela era o terror invisível. Podia surgir como uma mulher jovem, de cabelos longos e sedutores, ou como um ser miúdo e peludo, mestre em desorientar os mateiros. Simulava o piado de uma ave aqui, o esturro de um bicho acolá, fazendo o homem andar em círculos até perder o rumo de casa. Quem era sabido não entrava no mato sem o suborno sagrado: um pedaço de fumo de rolo, um gole de cachaça, mel ou rapadura deixados no pé de uma árvore. Se a Caipora aceitasse o agrado, a caçada era farta; se ficasse zangada, o caçador voltava sem caça e sem o juízo.

Mas se a Caipora reinava nas matas, os caminhos de terra e as encruzilhadas pertenciam ao Labisone. O termo, legítimo do falar caipira para o lobisomem, causava calafrios nas noites de lua cheia. Bastava um uivo longo ecoar ao longe, rasgando o silêncio do vale, para as portas serem trancadas com ferrolho duplo e as crianças se cobrirem até a cabeça.

 — “Valha-me Deus, fulano virou Labisone!” — cochichava-se nas cozinhas.

A lenda corria viva de que o sétimo filho homem, ou aquele marcado por uma sina antiga, se deitava no chão de uma bacia de areia numa sexta-feira de lua alta e se transformava na criatura bizarra, meio homem, meio bicho, condenado a correr sete paróquias antes do galo cantar. Encontrar o Labisone na estrada era pedir para perder a alma de susto.

Porém, no topo dessa trindade do assombro, havia um medo mais silencioso, sussurrado entre dentes, porque mexia com o oculto e com a própria alma humana: o Maçoni (ou massone). Dizia-se que o pior castigo não era esbarrar com o bicho da mata ou com o lobo da estrada, mas sim descobrir que “sicrano virou Maçoni”. No folclore do interior, o Maçoni se descolava da realidade institucional para virar uma figura mítica e temida, associada a pactos misteriosos, riquezas inexplicáveis e poderes sobrenaturais que cobravam um preço terrível. Virar Maçoni significava, na crença popular, deixar de pertencer ao mundo dos homens comuns, carregar uma sina invisível e ter o destino selado com as forças do além-túmulo.

Quando o querosene do candeeiro ia minguando e a chama começava a piscar, o cansaço vencia o medo, mas ninguém ousava olhar pela fresta da janela. A lua cheia continuava lá fora, soberana, iluminando o terreiro onde a Caipora pitava seu cachimbo, o Labisone uivava na curva do rio e o Maçoni guardava seus segredos no escuro. Histórias de Trancoso que o tempo da luz elétrica apagou das noites, mas que ficaram para sempre guardadas no rastro da nossa sergipanidade.

O Encontro com a Besta de Ferro

No folclore da sergipanidade, o medo do "Maçoni" descolou-se da besta de focinho comprido para se fixar no homem de carne e osso que, segundo o povo, fez o "pacto". Na nossa memória do candeeiro, o Maçoni virou sinônimo daquela figura sombria que enriqueceu rápido demais, que fechava acordos com as forças do além e que, nas altas horas, operava mistérios incompreensíveis para a comunidade.

Unindo a criatura caipira de ferro e chifres ao mito sergipano do homem pactuado, o Maçone/Maçoni permanece como um dos símbolos mais ricos do nosso assombro popular. Veja como essa terrível criatura caipira se integra perfeitamente àquela atmosfera das velhas histórias de Trancoso:erro

Diziam os antigos que o pior não era o uivo do Labisone na encruzilhada, nem os assovios zombeteiros da Cipora na capoeira. O verdadeiro pavor dos rincões caipiras atendia pelo nome de Maçone.

Se o candeeiro piscasse e o vento uivasse forte contra as telhas, era bom rezar um Credo de costas. Quem cruzasse as estradas desmulas nas altas horas da noite corria o risco de dar de cara com uma silhueta alta, bípede e assustadora, reluzindo sob o luar de prata. Não era bicho de pelo e osso: a criatura era toda revestida de um ferro zincado, frio e cortante. Na cabeça, ostentava uma carranca de caprino com focinho comprido, de onde saíam chifres recurvados e pontiagudos, prontos para espetar o juízo do cristão.

Mas o que mais perturbava quem teve a infelicidade de fitá-lo eram os seus olhos. Em vez de pupilas de fogo, o Maçone trazia no olhar um par de guloseimas — tortas doces, reluzentes e macabras —, um contraste bizarro que atraía o olhar da vítima antes do bote fatal.

Diz a tradição do Dicionário de Caipirês que, ao bater o carrilhão da meia-noite, esse monstro de metal se transformava num imenso bode preto. Vagando pela escuridão das vilas e dos arredores dos engenhos, ele farejava o ar à procura de carne humana, guardando uma cruenta e impiedosa preferência pelos recém-nascidos que ainda não tinham recebido as águas do batismo.

Duas faces da mesma moeda do medo: seja a besta caprina de ferro que ronda os terreiros caipiras, seja o homem misterioso dos pactos ocultos que assombra as noites de Sergipe, o Maçone é a prova de que, no escuro do Brasil profundo, a imaginação do povo desenha monstros que nem o tempo é capaz de apagar.

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