Celebrar o 8 de julho exige coragem para perguntar: o interior de Sergipe desatou os nós com a Bahia do século XIX para se ajoelhar diante dos novos senhores da política local?
Por Flávio Hora
Neste 8 de julho de 2026, Sergipe celebra 206 anos de sua Emancipação Política. Os livros de história relembram com justiça o decreto de Dom João VI em 1820 e a bravura de lideranças como o brigadeiro Alégrio tantos outros que entenderam que esta terra não precisava viver à sombra das ordens vindas de Salvador. Sergipe provou que tinha tamanho, riqueza açucareira, intelecto e identidade para caminhar com as próprias pernas.
As redes sociais e os portais institucionais das prefeituras de Sergipe serão inundados por notas oficiais idênticas. Haverá o ufanismo de sempre, frases feitas sobre "orgulho de ser sergipano" escritas por assessores de marketing digital e, muito provavelmente, o silêncio covarde sobre as contradições que moldam a nossa realidade. Para o F. J. HORA OnLine, a data máxima do nosso estado não é peça de decoração política. Ela exige o rigor da história e a crueza da crítica social.
No entanto, o jornalismo independente e a contabilidade enxergam a história não como uma foto estática na parede, mas como um processo social vivo. E a pergunta desconfortável que o portal faz hoje é: até que ponto o nosso interior é, de fato, emancipado?
Se voltarmos a 1820, a historiografia oficial nos vende o decreto de Dom João VI como um ato heroico e pacífico. Mentira. A nossa autonomia foi ruidosa, instável e violentamente contestada. O primeiro governador militar nomeado pelo Rei, o Brigadeiro Carlos César Burlamaqui, assumiu em agosto daquele ano com a missão de reter os pesados impostos do Vale do Cotinguiba aqui, arrancando-os das mãos de Salvador. Durou meses. Em março de 1821, sob o pretexto da Revolução do Porto, tropas baianas invadiram Sergipe, prenderam Burlamaqui e nos rebaixaram novamente à condição de comarca subalterna.
Se naquele ano rompemos com a subordinação colonial, em 2026 o cidadão comum das nossas periferias e povoados ainda se vê preso a uma engrenagem que se assemelha muito às velhas capitanias hereditárias. Mudaram os trajes, mas a gramática do opressor continua a mesma. Para o sistema político dominante, a emancipação do povo é um risco. Por isso, prefere-se perpetuar a cultura da dependência: a política do favor, onde a consulta médica, o transporte digno, a vaga na creche e até a assistência básica são distribuídos como benesses de gabinete e migalhas da burguesia local, e não como direitos garantidos pelo orçamento.
A liberdade só se consolidou quando figuras da elite militar e latifundiária local, como o Brigadeiro Sebastião Gaspar de Almeida Boto — o "Brigadeiro Alégrio" —, usaram a força das armas e das milícias para garantir o território. Mas é aqui que a contabilidade, enquanto ciência social aplicada, e o jornalismo sem amarras cruzam os dados com o presente: aquela emancipação foi feita pelos senhores de engenho e para os senhores de engenho. O topo da pirâmide mudou de endereço, mas a base — o povo preto cuja força de trabalho sustentava os canaviais sob o chicote — continuou despojada de teto, terra e dignidade. Para a velha gramática do opressor, civilizar e emancipar sempre foi sinônimo de domesticar.
Corte para o dia de hoje, 08 de Julho de 2026. Duas semanas antes do início das convenções partidárias para o pleito deste ano, a pergunta que ecoa das calçadas do Vale do Cotinguiba ao agreste de Carira e em todo Sergipe, é: até que ponto o nosso povo é, de fato, emancipado?
O que vemos no interior é a sofisticação das velhas capitanias hereditárias. Desatamos os nós coloniais com a Bahia do século XIX para, no século XXI, ver o cidadão comum ajoelhado diante dos novos coronéis da política local. A engrenagem atual se alimenta da perpetuação da dependência. Transforma-se o direito básico em favor pessoal. A consulta médica na capital, a vaga na creche, o transporte estudantil adequado e até o suporte às famílias mais vulneráveis nas periferias são distribuídos nos gabinetes como migalhas da nova burguesia, cobradas mais tarde em formato de voto e silêncio obsequioso.
Como celebrar a soberania estadual quando o pequeno comerciante da terra é sufocado pela falta de incentivo, enquanto recursos extraordinários e fatias generosas do orçamento somem em contratos milionários de publicidade institucional e festas de fachada? Como aplaudir a "independência" se o estudante das comunidades mais distantes ainda depende da complacência do gestor de turno para exercer o direito de estudar?
A verdadeira emancipação não se faz com o cinismo dos palanques virtuais que aplaudem o "folclore" do Cacumbi e do Cambute, mas negam dignidade aos filhos dos brincantes. Ela se materializa na transparência fiscal nua e crua, na distribuição justa da receita e na altivez de uma população que se recusa a sussurrar concordância para receber o que já é seu por direito.
Sergipe é gigante, e a sua história foi escrita com coragem e resistência real. Que o feriado de hoje sirva para lembrar aos novos senhores de engenho de gabinete que o povo não aceita mais a domesticação. A calçada cansou de mendigar o que pertence ao cidadão, e ela sempre será maior do que qualquer gabinete.
Como falar em soberania e independência quando o pequeno comerciante da terra é sufocado pela falta de incentivo, enquanto grandes aportes e recursos extraordinários evaporam em contratos milionários de publicidade institucional e festas superficiais? Como celebrar a liberdade se o estudante das comunidades mais distantes ainda depende da complacência do poder público para exercer o direito básico de estudar?
A verdadeira emancipação de um estado não se consolida com fogos de artifício pagos com dinheiro público em praça pública, nem com textos ensaiados por assessores de marketing digital. Ela se faz na transparência fiscal, na distribuição justa da receita municipal e na altivez de uma população que não aceita se calar para receber o que já é seu por direito.
Sergipe é grande. O povo que traz em seu sangue a resistência de Japaratuba, a força do agreste de Carira e a garra do Vale do Cotinguiba não nasceu para ser domesticado por discursos eleitoreiros. Que este 8 de julho seja mais do que um feriado de inverno; que seja o dia de lembrarmos aos novos senhores de engenho que a independência que conquistamos no passado se defende hoje, na fiscalização do presente e no voto consciente do futuro. A calçada, afinal, sempre será maior que o gabinete.

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