domingo, 12 de julho de 2026

O Peso Invisível das Estrelas

Entre o declínio de gigantes como Itália e Alemanha e a consagração de um "clube VIP" de campeões, a reta final da Copa de 2026 prova que a tradição só se impõe quando o suor do presente honra o peso da história.




Por Flávio Hora


O futebol tem a memória curta de um gol de placa e a tirania de um relógio de noventa minutos. Quando a bola rola no funil de uma Copa do Mundo, o passado vira uma biblioteca em chamas: serve para adornar a história, mas não queima o oxigênio do gramado. A semifinal de 2026 desenha um cenário de nobreza absoluta — um "clube VIP" onde Argentina, França, Espanha e Inglaterra ostentam suas coroas —, mas o caminho até aqui foi um rastro de monumentos caídos e soberbias castigadas.

Para quem olha o quarteto semifinalista, a sensação é de ordem restaurada. A Argentina, inflada pelo favoritismo de quem defende o trono e busca o tetracampeonato; a França, com sua máquina de moer adversários tentando a terceira estrela; a Espanha e a Inglaterra, potências que sabem o peso exato de erguer a taça. No entanto, a verdadeira crônica desta Copa não se escreve apenas com a tinta dourada dos vitoriosos, mas com a poeira dos gigantes que ficaram pelo caminho.

A maior das assombrações atende pelo nome de Itália. O torcedor mais jovem talvez precise recorrer aos arquivos digitais para lembrar o que é a Azzurra em uma fase eliminatória de Copa do Mundo. Dona de quatro estrelas no peito, a Itália transformou sua tradição em uma ausência crônica. O vexame de ver um tetracampeão assistir ao maior espetáculo da Terra novamente do sofá não é mais uma atipicidade, como foi o hiato pós-2014; tornou-se um sintoma de um futebol que se descolou da própria alma defensiva e competitiva que o consagrou. A camisa pesa, mas quando o tecido está puído pelo fantasma da desorganização, ela apenas sufoca.

E o que dizer da Alemanha? O outrora "rolo compressor" germânico, tricampeão quando o mundo ainda tateava o século XXI e agora tetracampeão ferido, entrou em campo arrastando as correntes de sucessivos desempenhos medíocres nas últimas edições. A eficiência fria e cirúrgica que outrora humilhava anfitriões deu lugar a uma apatia tática, uma crise de identidade onde a posse de bola virou burocracia e o ataque, um deserto de ideias. A Alemanha descobriu, da pior maneira possível, que o respeito conquistado no passado não se converte automaticamente em gols no presente.

O futebol, essa arte essencialmente humana e imperfeita, não aceita desaforo. Se um país não consegue ser o topo do mundo em Educação, Saúde ou Assistência Social, ele deposita naquelas onze camisas a fome de ser gigante por um mês. Mas quando os próprios gigantes esquecem como se luta, o tombo é ensurdecedor.

Em 2010, vimos a história ser escrita por mãos inéditas em uma final sem campeões. Em 2026, o topo da montanha foi reservado para quem soube honrar o peso das próprias estrelas no momento presente. Para os demais — os caídos, os ausentes, os burocráticos —, resta o purgatório da autocrítica e a certeza de que, no gramado da vida, a tradição sem o suor do agora é apenas literatura de arquivo.

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