Como a farsa do suposto suicídio do jornalista no DOI-CODI e o terror das viaturas descaracterizadas do regime militar mobilizaram a sociedade civil e apressaram a ruína dos anos de chumbo.
Por F. J. HORA OnLine
Opinião e Análise Histórica
"Vlado não se calou na cela; seu corpo violentado falou mais alto que os canhões do regime."
Há símbolos que se fixam na retina de uma nação não pela beleza, mas pelo terror que evocam. Na topografia urbana do Brasil dos anos 1970, nenhum desses símbolos era tão visceral quanto a silhueta robusta de uma Chevrolet Veraneio. Para quem vivia o auge dos anos de chumbo, o ronco daquele motor e a lataria bege ou cinza-canário estacionada à porta não eram sinais de patrulhamento — eram o prenúncio do desaparecimento. Era o Estado desprovido de leis, operando nas sombras, que vinha buscar mais um cidadão para "prestar esclarecimentos".
Em 24 de outubro de 1975, o alvo foi Vladimir Herzog. Jornalista respeitado, dramaturgo, professor e, à época, diretor de jornalismo da TV Cultura de São Paulo. Convocado pelo Destacamento de Operações de Informação - Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI), Vlado fez o que qualquer homem íntegro e convicto de sua retidão faria: apresentou-se voluntariamente na manhã seguinte, caminhando pelo próprio pé até as dependências do Exército na Rua Tutóia. Acreditava na verdade. Acreditava que voltaria para o almoço.
Não voltou.
A Farsa Escancarada na Grade da Cela
O que aconteceu naquelas poucas horas nos porões da ditadura permanece como um dos episódios mais sórdidos da história republicana. Herzog foi despido, encapuzado, amarrado e submetido a uma sessão implacável de tortura medieval sob a acusação paranoica de manter vínculos com o Partido Comunista. O homem que entrou altivo foi quebrado fisicamente pela violência oficial do Estado.
Diante do óbito indesejado nas dependências militares, a máquina de propaganda do regime não hesitou em recorrer ao cinismo. Emitiram uma nota oficial alegando que o jornalista havia cometido "suicídio por enforcamento". Para sustentar a mentira, distribuíram à imprensa uma fotografia que deveria encerrar o caso, mas que acabou por sepultar a própria credibilidade da ditadura.
A imagem era um insulto à inteligência forense e à dignidade humana: o corpo de Vlado aparecia pendurado pelo pescoço por um cinto de soldado, amarrado a uma grade baixa da cela. O detalhe que chocou o país e desmoronou a farsa estava no chão: os joelhos do jornalista estavam visivelmente dobrados, e os seus pés tocavam firmemente o piso. Vladimir Herzog era um homem alto demais para morrer naquele cinto curto. A física, a lógica e a verdade biológica desmentiam o laudo forjado pelos torturadores. Ninguém acreditou.
O Estopim do Fim
Se os militares pretendiam calar a dissidência pelo medo, o assassinato de Herzog provocou o efeito oposto. A indignação rompeu a represa do silêncio que sufocava a sociedade civil.
A reação foi imediata e coordenada pelas forças que ainda resistiam na penumbra. Estudantes da USP e da PUC cruzaram os braços. Jornalistas assinaram manifestos corajosos desafiando a censura prévia. O ápice desse levante moral ocorreu em 31 de outubro, quando uma histórica celebração ecumênica lotou a Catedral da Sé, em São Paulo.
Conduzida pelo destemido Arcebispo Dom Paulo Evaristo Arns, pelo rabino Henry Sobel — que se recusara a enterrar Herzog na ala dos suicidas do cemitério israelita, por saber da verdade — e pelo pastor James Wright, a missa reuniu mais de 8 mil pessoas sob o cerco de tanques e tropas do Exército. Foi o primeiro grande ato de massa contra o regime desde 1968. Ali, no coração de São Paulo, a ditadura militar começou a morrer.
O Trauma e a Longa Espera pela Justiça
O trauma deixado por aquela Veraneio bege que cruzava as noites paulistanas não se apagou com a redemocratização. Foram necessárias décadas de luta ferrenha da viúva Clarice Herzog e de seus filhos para que o Estado brasileiro parasse de mentir.
A retificação oficial da certidão de óbito de Vladimir Herzog só aconteceu em 2012 — trinta e sete anos após o crime. O documento rasgou a farsa do suicídio e registrou, em letras definitivas, o que o bom senso e o luto nacional já sabiam desde 1975: Vlado morreu em decorrência de "maus-tratos sofridos em dependência do II Exército".
Olhar para o passado e expor os horrores daquele período não é um exercício de ressentimento, mas um dever de transparência e responsabilidade social. Um país que não limpa as manchas de sangue de suas instituições está condenado a ver os fantasmas do autoritarismo rondarem as suas esquinas. Lembrar o sacrifício de Herzog e o pavor que a Veraneio causava é o preço que pagamos para garantir que o silêncio nunca mais seja imposto pela força do Estado.

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