Com nota média de 2,4 dada por colunistas do GLOBO, o parlamentar manteve a serenidade, mas tropeçou em ilações sobre as urnas, esquivou-se de apurações financeiras e voltou a recorrer a narrativas desmentidas.
A maratona de sabatinas promovida pelo Grupo Globo com os pré-candidatos ao Planalto ganhou contornos de alta tensão com a participação do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Em um desempenho classificado como "treinado" e "tático", o parlamentar alcançou uma nota média de 2,4 (em uma escala de 1 a 5) atribuída pelos colunistas do jornal OGLOBO.
O resultado o coloca à frente do ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (1,4) e do ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (2,0), empatando tecnicamente com a estreia de Renan Santos (2,6) e ficando abaixo da performance do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, avaliado com nota 3,0 na quinta-feira.
A despeito da postura serena e do tom contido — uma clara tentativa de se distanciar dos rompantes agressivos que marcaram as aparições públicas de seu pai, Jair Bolsonaro —, a estratégia do senador revelou fragilidades substanciais assim que o escrutínio sobre o seu histórico e suas propostas se aprofundou.
O "escudo" da moderação frente às sombras do passado
O contraste entre a forma e o conteúdo foi a tônica da sabatina. Flávio preparou-se para entregar respostas decoradas e manter o autocontrole perante questionamentos incisivos. No entanto, o alinhamento retórico não foi suficiente para dissipar as dúvidas centrais sobre os episódios mais controversos de sua trajetória política e pessoal.
Entre os principais gargalos e contradições evidenciados ao longo do programa, destacam-se:
- O elo com a fraude bancária: O senador voltou a apelar para justificativas genéricas para se esquivar de explicações detalhadas sobre sua intimidade com o banqueiro Daniel Vorcaro e os aportes de R$ 60 milhões relacionados à produção de uma cinebiografia. Flávio recusou-se a assumir o compromisso de divulgar o contrato firmado com a instituição financeira, alegando de forma evasiva que o documento já havia sido exposto pela imprensa.
- A reescrita do histórico da milícia: Ao abordar sua ligação com o ex-capitão do BOPE Adriano da Nóbrega — apontado como chefe do grupo de exterminadores "Escritório do Crime" —, Flávio sustentou a tese de que, à época em que o homenageou na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) e empregou seus familiares em seu gabinete, Nóbrega seria um "policial exemplar". A narrativa ignora as investigações e relatórios de inteligência que já ligavam o ex-militar ao crime organizado no mesmo período.
- Esquiva nas apurações e na economia: O pré-candidato esquivou-se de dar respostas objetivas sobre as suspeitas de "rachadinha" em seu antigo gabinete na Alerj e evitou qualquer detalhe prático de como pretende conduzir a recuperação econômica do país, renegando inclusive medidas de ajuste fiscal e de contenção de gastos defendidas pelos próprios economistas e investidores que sustentam seu projeto político.
Desinformação e o resgate da pauta antidemocrática
Mesmo tentando adotar um perfil mais institucional, o parlamentar não hesitou em lançar mão de alegações sabidamente falsas para contornar situações desfavoráveis na bancada.
A contradição mais sobressalente da noite ocorreu quando o senador acusou o ex-comandante da Aeronáutica, brigadeiro Baptista Jr. — nomeado durante a gestão de Jair Bolsonaro —, de ter declarado voto no presidente Lula. A afirmação, totalmente carente de lastro fático, funcionou como uma tentativa de descredibilizar um dos principais depoimentos colhidos no âmbito dos inquéritos das tramas golpistas.
Além disso, Flávio reeditou velhas narrativas:
1. Pauta Ambiental: Demonstrou desconhecimento técnico ao questionar o consenso científico sobre as mudanças climáticas e rejeitar dados consolidados sobre o aquecimento global.
2. Sistema Eleitoral: Manteve o discurso de recusa quanto ao compromisso incondicional com o resultado das urnas, reproduzindo a ilação recorrente de desconfiança sobre o processo democrático.
Quadro Comparativo: O Desempenho nas Sabatinas
As notas conferidas pelos analistas e colunistas do OGLOBO refletem a recepção técnica e política dos postulantes ao longo da semana de sabatinas:
| Pré-candidato / Entrevistado | Média do Painel (1 a 5) | Síntese da Avaliação dos Colunistas |
| Luiz Inácio Lula da Silva | 3,0 | Desempenho mais firme da semana; apelo à agenda social e defesa do mandato. |
| Renan Santos | 2,6 | Surpreendeu no debate conceitual, mas encontrou resistência em propostas de governabilidade. |
| Flávio Bolsonaro | 2,4 | "Treinado e tático". Teve compostura formal, mas acumulou esquivas e contradições. |
| Romeu Zema | 2,0 | Dificuldade em articular pautas nacionais e desempenho considerado engessado. |
| Ronaldo Caiado | 1,4 | Apresentou tom excessivamente bélico, focado no antipetismo, com pouca profundidade programática. |
A estratégia do antipetismo como linha de fuga
Ao perceber-se encurralado pelos dados e fatos apresentados pelos entrevistadores, Flávio Bolsonaro adotou o mesmo figurino utilizado dias antes por Ronaldo Caiado: a busca pela polarização direta. As citações frequentes ao presidente Lula e o resgate contínuo da retórica antipetista serviram como uma cortina de fumaça calculada para afastar os holofotes de suas pendências judiciais e conceituais.
Ao fim do programa, a tentativa de polir a imagem pública e transparecer moderação entregou um candidato disciplinado no controle emocional, mas substancialmente frágil nas explicações — demonstrando que a mudança de tom não apaga a ausência de respostas sobre o passado.


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