Como o fim dos ciclos da cana e do petróleo expôs o inchaço dos contratos temporários, a falta de incentivo ao comércio e a urgência de uma nova matriz econômica.
Durante décadas, o horizonte econômico de Japaratuba foi traçado pelas linhas monótonas dos canaviais do Vale do Cotinguiba e do Japaratuba e pelo ruído incessante das bombas de petróleo que cortavam a paisagem da vizinha Carmópolis. Entre 1995 e 2015, a ilusão de prosperidade alimentou o imaginário popular. O setor petrolífero e a lavoura da cana-de-açúcar não apenas dominaram a oferta de trabalho, mas também consolidaram uma cultura de dependência e clientelismo, onde o acesso ao emprego muitas vezes passava pelo crivo das influências políticas — a histórica e famigerada "peixada".
Contudo, os ciclos econômicos baseados no extrativismo primário e na monocultura têm prazo de validade. Com a retração e o declínio do ciclo do ouro negro na região e as transformações no setor sucroalcooleiro, a conta chegou. O que sobrou para Japaratuba foi o sintoma clássico de uma economia que não se diversificou a tempo: a escassez de postos de trabalho qualificados, o enfraquecimento do comércio local e uma juventude sem perspectivas profissionais no setor privado.
Na ausência de uma matriz produtiva forte, a dependência econômica do município migrou diretamente para a máquina pública. Hoje, com um contingente que supera a marca dos 900 contratados temporários, o Poder Executivo assume o papel de principal "empregador" da cidade. Essa hipertrofia dos vínculos precários não representa uma solução estrutural de renda, mas sim um paliativo custoso que engessa o orçamento municipal, infla a folha de pagamento e perpetua o cabide de empregos e a submissão política que antes pertenciam à era da "peixada".
Diante desse cenário de estagnação, a resposta oficial muitas vezes resvala na cômoda justificativa de que a crise é geral. Trata-se de uma narrativa perigosa. Normalizar o desemprego ou mascará-lo com inchaço de contratos temporários sob o argumento de que os municípios vizinhos enfrentam os mesmos dilemas é abdicar da função primordial da gestão pública: o planejamento estratégico e a indução do desenvolvimento real.
Japaratuba dispõe de vocações históricas e geográficas que continuam subaproveitadas. A economia local não pode ficar refém perpetuamente da folha de pagamento da Prefeitura ou do assistencialismo. É urgente construir alternativas sólidas em quatro frentes estruturantes:
- Incentivo Direto ao Comércio Local e Microempresas: O cumprimento rigoroso das prerrogativas da Lei Complementar nº 123/2006 deve garantir que o orçamento público municipal prioritariamente compre e contrate fornecedores e prestadores de serviço locais. O dinheiro gerado no município precisa circular no próprio comércio da terra.
- Agroindustrialização da Agricultura Familiar: A terra que serviu por gerações ao monocultivo da cana precisa ser diversificada com assistência técnica contínua e apoio à criação de cooperativas para o beneficiamento de alimentos da agricultura familiar, abastecendo feiras e a merenda escolar.
- Ativação da Economia Criativa e Turismo: O patrimônio cultural e histórico de Japaratuba — berço de Arthur Bispo do Rosário, do historiador Garcia Rosa e de manifestações como o Cacumbi e a Festa das Cabacinhas, somado ao potencial do Rio do Prata — precisa deixar de ser visto apenas como folclore contemplativo para se transformar em vetor real de turismo de experiência, gerando trabalho e renda para guias, artesãos e gastronomia local.
- Capacitação Profissional e Inclusão Digital: A criação de uma agenda pública de qualificação profissional, em parceria com o Sistema S, com foco na gestão de pequenos negócios, novas tecnologias e serviços digitais, para fixar os jovens no município sem a necessidade do padrinho político.
Romper com a herança da "peixada", o vício dos contratos temporários e a dependência dos velhos ciclos econômicos não é um desafio simples, mas é o único caminho sustentável. Japaratuba precisa parar de olhar para a Prefeitura ou para o passado dos canaviais e dos poços de petróleo como se fossem os únicos meios de sobrevivência. O desenvolvimento real não virá de uma solução milagrosa de fora ou de uma portaria de nomeação, mas sim do fortalecimento das forças produtivas e livres que já existem dentro do próprio município.

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