Segurança sem justiça social: a armadilha de combater o crime ignorando suas origens.
A política brasileira insiste em tentar vender ilusões de ótica. A cada novo ciclo eleitoral, analistas e marqueteiros anunciam o surgimento de uma "terceira via", o esgotamento do lulismo ou a ascensão de gestores pragmáticos capazes de unificar o país. Contudo, bastou o avanço do calendário eleitoral e o início das movimentações estratégicas de nomes como Romeu Zema e Ronaldo Caiado para que a cortina de fumaça caísse. Nada mudou no front: a eleição não é sobre projetos concorrentes de país; é, mais uma vez, o plebiscito do antipetismo contra Luiz Inácio Lula da Silva.
A centralidade de Lula na política nacional não é um acaso ideológico, mas um fato matemático e sociológico. O atual presidente permanece como a maior — e, para muitos setores, a única — liderança de massas com apelo popular autônomo, musculatura eleitoral comprovada e capacidade de articulação transpartidária. Quando a oposição se recusa a debater os grandes dilemas estruturais do Brasil e opta por gastar seu tempo de antena em ataques ad hominem e na demonização da esquerda, ela não apenas demonstra fraqueza propositiva, como também atesta involuntariamente a força do seu adversário.
O comportamento da direita pós-bolsonarista escancara esse paradoxo. Governadores que tentam se vender ao mercado como "gestores eficientes" falham miseravelmente ao tentar construir uma narrativa autônoma. Em sabatinas e entrevistas, quando provocados a apresentar soluções concretas para o desenvolvimento socioeconômico, o que se vê é a fuga sistemática para o bordão antipetista. A estratégia revela a incapacidade da oposição de existir sem um vilão de estimação: para Zema, Caiado ou qualquer outro postulante ao Planalto, o antipetismo é o cimento que impede seus próprios campos de se esfacelarem.
Dizer que "todos estão contra Lula" não é vitimizar o presidente, mas diagnosticar a dinâmica de forças do país. O capital financeiro, o agronegócio mais radicalizado, a imprensa corporativa e as lideranças que disputam o espólio da direita operam em uma frente ampla de rejeição ao projeto progressista. No entanto, o antipetismo, por mais barulhento e engajado que seja no ambiente digital, enfrenta um limite biológico e político: ele é uma força puramente Reativa, baseada no "voto contra". E a história eleitoral brasileira mostra que a negação, isoladamente, raramente constrói uma maioria sólida no segundo turno quando do outro lado há um projeto de inclusão social reconhecido pelo eleitorado.
Se a oposição estivesse genuinamente interessada no fim da polarização, apresentaria propostas que prescidissem do nome de Lula. Como não o faz, consolida o cenário que finge combater. Ao transformar a disputa presidencial em um tribunal de exceção contra o PT, a direita confessa sua principal fragilidade: ninguém ali possui capital político próprio para rivalizar com a figura histórica do presidente.
Ninguém está seguro passando necessidades. A obsessão por uma política de segurança focada quase exclusivamente no combate ostensivo às facções reduz a gestão pública a uma resposta punitiva e imediata, silenciando o debate sobre a desigualdade socioeconômica. Ao priorizar o enfrentamento policial como única resposta ao crime, o Estado mascara a sua ausência nas periferias, tratando como caso de polícia o que exige, essencialmente, investimento em educação, oportunidades e garantia de direitos fundamentais.
Portanto, por mais que tentem trocar as peças no tabuleiro, o jogo permanece o mesmo. Lula segue como o candidato mais forte e o eixo em torno do qual toda a política brasileira se organiza — precisamente porque seus adversários provam, a cada discurso vazante de propostas, que só sabem existir em função dele.


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