A banalização da filiação partidária e a transformação da gestão pública em balcão de negócios para o fisiologismo local
Por Flávio Hora
Há uma pergunta simples que escancara a crise da nossa representação política: para que serve, afinal, um partido político?
Se consultarmos a história, a teoria constitucional ou a própria legislação, a resposta é cristalina. Partidos existem para agregar ideias, debater projetos de sociedade, formar lideranças e dar voz à população. São pontes entre os anseios das ruas e as decisões do Estado. O motor que deveria mover a filiação de qualquer cidadão é a convicção, o compromisso coletivo e a vontade sincera de transformar a realidade.
No entanto, na prática cotidiana, assistimos a uma triste inversão de valores. Para muitos, a ficha de filiação partidária deixou de ser um compro misso com um ideal e passou a ser tratada como um formulário de inscrição para um emprego público. A utopia deu lugar ao fisiologismo e ao loteamento de cargos.
Quando o apoio político e o número do partido se tornam o único currículo exigido para ocupar funções na gestão pública, quem perde é a própria sociedade. A regra constitucional do concurso público — desenhada para garantir mérito, igualdade e eficiência — é contornada por balcões de negócios. O foco do servidor nomeado deixa de ser o interesse do cidadão e passa a ser a preservação do seu grupo no poder.
É natural — e até necessário — que um gestor eleito busque pessoas de sua confiança estratégica para cargos de direção e assessoramento. Mas há uma fronteira gigante entre governar com aliados capacitados e transformar a máquina pública em uma grande folha de pagamento de correligionários.
Política não é balcão de empregos. Democracia não é moeda de troca. Enquanto a filiação partidária for enxergada apenas como um atalho para o funcionalismo sem concurso, continuaremos apequenando a gestão pública e enfraquecendo as próprias legendas. Resgatar a verdadeira função dos partidos é devolver à política a sua dignidade original: a de ser, acima de tudo, um instrumento a serviço de todos, e não de alguns.

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