O labirinto institucional entre o fetiche do Executivo, a captura do Congresso pelo fisiologismo e a ilusão dos salvadores da pátria
A cada ciclo eleitoral, o ecossistema político brasileiro é tomado por uma necessidade quase mística de redenção: a busca pelo “novo”. Candidatos remodelam suas identidades visuais, discursos de rompimento com o establishment ganham as telas e analistas tentam decifrar quem será a bola da vez na corrida pela Presidência da República. No entanto, quando as urnas se fecham e a poeira das campanhas baixa, o país se reencontra com a mesma engrenagem de sempre. O “novo” na política brasileira não é apenas um conceito em disputa — é um paradoxo estrutural.
A raiz desse paradoxo reside em um vício de origem do eleitorado e da cultura política nacional: a obsessão pelo Poder Executivo. Espera-se que a eleição de um "salvador da pátria" no Palácio do Planalto transforme o país num passe de mágica, ignorando deliberadamente as regras do presidencialismo de coalizão. O resultado é uma frustração crônica. Um Presidente da República, por mais bem intencionado ou desvinculado de oligarquias que seja, não governa sem o Congresso Nacional.
É no Legislativo que a renovação real é sufocada na base. Enquanto a atenção pública se desgasta na polarização do topo, a sociedade continua alimentando o Centrão — esse bloco fisiológico e pragmático que não possui ideologia além da própria perpetuação no poder. Trata-se de um estamento que transformou a prerrogativa constitucional de legislar e fiscalizar em um mecanismo de chantagem sobre o Executivo, chantageando governos com a aprovação de contas e a liberação de orçamentos secretos e emendas impositivas. O Congresso tomou as chaves do cofre, mas esquivou-se das responsabilidades da gestão.
Diante desse balcão de negócios, a história recente provou que a longevidade eleitoral do PT e da figura de Lula não ocorreu por acaso ideológico, mas por um pragmatismo que entregou inclusão social dentro das regras da economia de mercado. A famosa Carta aos Brasileiros de 2002 simbolizou a consagração da conciliação de classes: a base conquistou ganhos reais de consumo e crédito, enquanto o topo financeiro continuou registrando lucros recordes.
Quando esse pacto conciliador se esgota ou sofre reveses, o sistema não produz alternativas de transformação; produz narrativas de medo. A direita brasileira, historicamente ligada aos interesses da elite financeira e ao privatismo, passou a recorrer ao espantalho do "comunismo" para demonizar a esquerda. Essa estratégia alimenta um antipetismo moral que dispensa a apresentação de um projeto socioeconômico inclusivo, bastando erguer-se como barreira ao PT. Enquanto a crítica da esquerda sobre as prioridades do capital encontra lastro em dados fiscais e reformas desregulamentadoras, a retórica do "perigo vermelho" serve apenas como cortina de fumaça para proteger velhos privilégios.
É nesse cenário que a pergunta se impõe: é possível emergir um candidato genuinamente novo, sem rabo preso com as famílias tradicionais do erário — como a dinastia dos Sarneys e tantas outras oligarquias estaduais —, que represente a justiça social prevista na Constituição de 1988?
A resposta é sim, mas com uma ressalva incisiva. O novo é paradoxal no Brasil porque o sistema foi desenhado para impedir sua sobrevivência. As regras do jogo — o monopólio das legendas partidárias, a distribuição do Fundo Eleitoral controlada por caciques e a necessidade de coalizão para não sofrer um impeachment — forçam qualquer candidato "puro" a escolher entre duas tragédias: ceder ao fisiologismo das velhas raposas para conseguir governar ou aceitar a paralisia institucional e o isolamento.
A verdadeira renovação não virá da descoberta de um rosto jovem ou de um discurso "nem direita, nem esquerda". Ela só deixará de ser uma ilusão quando a sociedade brasileira entender que o "novo" não é uma pessoa, mas uma mudança de comportamento coletivo. Isso exige tratar a eleição para o Deputado e o Senador com o mesmo rigor dedicado à Presidência, asfixiando os currais eleitorais e exigindo uma reforma política que retire do Congresso o poder de achaque sobre o Orçamento da União.
O "novo" na política é utópico, porque a sociedade não elabora, nem debate um projeto de nação e escolhe o representante mais preparado intelectual e moralmente. O eleitorado aguarda que alguém se apresente e tenha destaque na mídia e dependendo do carisma, discurso e momento político consiga se identificar e projetar ele como o cara que vai resolver os problemas do Brasil. Recentemente, o projeto de Brasil se tornou uma aversão a determinado político ou grupo e não o real debate sobre os problemas do país e quais seriam as soluções.
Desde a redemocratização que o brasileiro repete erros, por exemplo: Collor usou o discurso de um culpado pelos problemas do Brasil, o funcionário público ou o "marajá" (expressão popular pejorativa para definir funcionários públicos que trabalham pouco e ganham muito, além das regalias). Esqueceram e elegeram em 2018 sobre a égide do antissistema um político que botou a culpa dos problemas do Brasil na esquerda. Resultado: todos dois foram uma tragédia em seus governos.
Caiado é o representante das elites. É o cara que no governo vai ser o menino de recado das elites financeiras. Juntamente com Zema, Renan Santos e Augusto Cury representam os interesses do capital. É histórico essa cegueira de que não consegue enxergar que a direita governa para o capital e a esquerda para o social (cujo capital já está inserido).
Lula resiste até hoje porque é o único que consegue governar atendendo os interesses do capital e inserindo políticas de inclusão social. Mas, o que precisamos entender é que o Presidente da República não governa sozinho. O Congresso precisa começar a ser responsabilizado pelo "rombo" nos gastos públicos, pois, eles gastam o dinheiro e o governo é quem tem que explicar o que aconteceu. Para muitos brasileiros, toda a responsabilidade é do Executivo.
Enquanto buscarmos a salvação no Palácio do Planalto sem desmontar o balcão do Congresso, continuaremos trocando as moscas sem alterar o banquete das velhas oligarquias. O "novo" na política brasileira só deixará de ser um paradoxo quando deixar de ser uma promessa individual e se tornar um projeto de cidadania consciente.

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