O Verso no Paredão: Quando o Ator Devora o Poeta nos Festivais de Sergipe
Sergipe é, sem dúvida, um canteiro fértil para a palavra dita. Do sertão de Monte Alegre às margens do Rio São Francisco em Propriá, a poesia falada é o nosso quilombo intelectual. No entanto, um fenômeno perigoso tem se consolidado no coração desse movimento, especialmente no tradicional Festival Poeta Garcia Rosa, em Japaratuba: a transformação do banquete literário em um ringue de dramaturgia, onde o texto — a alma da obra — tornou-se mero acessório para o espetáculo da atuação.
Sabemos que a Poesia Falada é uma forma de arte onde o texto é escrito especificamente para ser dito em voz alta. Diferente da poesia para ser lida em silêncio (poesia lírica tradicional), ela foca no ritmo, na entonação e na conexão direta com o público.
Talvez, por essa linha de pensamento do objetivo do texto seja possível defender que o formato está correto, mas, se em Japaratuba o texto se torna secundário e o que "ganha o jogo" é a atuação, o festival deixou de ser um concurso literário para ser um concurso de esquetes teatrais com roteiro rimado.
A Tirania da Performance
A tese de que o texto se tornou secundário não é um lamento de perdedores, mas uma constatação técnica. Em Japaratuba, consolidou-se um modelo de "Poesia Teatralizada" que subverte a lógica da literatura. Se avaliarmos friamente, o vencedor muitas vezes não é aquele que escreveu a melhor metáfora ou a métrica mais precisa, mas aquele que possui maior "potência vocal" ou domínio de palco.
O resultado? Uma plateia que delira com o grito, mas que não consegue repetir um único verso ao sair do evento. O texto virou um "roteiro de esquete". Se retirarmos o figurino, a iluminação e o choro ensenado, muitos dos poemas premiados não resistiriam a uma leitura silenciosa em uma página de papel.
O Teatro como Cortina de Fumaça
O primeiro ponto de tensão é o domínio do teatro sobre a poesia. É um erro comum, mas fatal, confundir a potência de um texto com a potência de um pulmão. Nos festivais, o intérprete que se ajoelha, grita e chora muitas vezes sequestra a atenção do júri, deixando a arquitetura das palavras em segundo plano.
Se "Teatro é Poesia", como bradou um vencedor no passado, a recíproca nem sempre é verdadeira no contexto competitivo. Quando a encenação se torna o único critério de vitória, o festival deixa de ser um "banquete literário" para se tornar uma audição de elenco. Para que a poesia sobreviva, é urgente que o texto seja avaliado em sua nudez, antes de ser vestido pelo figurino do ator.
O Espelho de Sergipe: Diferentes Pesos e Medidas
Ao compararmos Japaratuba com outros polos, percebemos as nuances desse "jogo":
* Japaratuba vs. Estância (Fespofale): Enquanto Estância tradicionalmente busca um equilíbrio mais técnico e uma valorização da tradição lírica, Japaratuba pende para o visceral. Em Estância, a elegância do dizer ainda compete com a cena; em Japaratuba, a cena nocauteia o dizer.
* Propriá e o "Grito" do Rio: O festival de Propriá, assim como o de Japaratuba, sofre com a pressão da performance, mas ainda guarda uma conexão mais profunda com a oralidade ribeirinha, que é menos "teatro de conservatório" e mais "canto de povo".
* Lagarto e os Saraus Estudantis: Aqui reside a esperança e o contraste. Nos eventos escolares e no DEArtes, a poesia ainda é descoberta como ferramenta de expressão pessoal. O erro surge quando esses jovens começam a mimetizar os veteranos dos grandes festivais, acreditando que "poetizar" é sinônimo de "atuar intensamente".
A Atuação como "Voto de Cabresto" Literário
O que "ganha o jogo" hoje é a capacidade de manipular a emoção do júri e do público através de recursos puramente cênicos. Isso cria uma barreira para o poeta que é, por natureza, um escritor e não um ator.
Quando o Festival de Japaratuba premia o "Melhor Texto" e a "Melhor Interpretação" para a mesma obra sistematicamente, ele envia uma mensagem perigosa: a de que o texto só é bom se for bem encenado. É o "voto de cabresto" da estética sobre o conteúdo. O júri, muitas vezes composto por entusiastas da cultura e não por técnicos em literatura, acaba sendo seduzido pelo brilho dos olhos do intérprete, ignorando as falhas de ritmo, as rimas pobres ou a ausência de profundidade filosófica da escrita.
O Festival de Japaratuba hoje pratica a Poesia Teatralizada. No papel, é poesia; no palco, é teatro. O grande conflito é que o "brilho do eleito" (o ator) só existe porque ele pisa em cima do "corpo do eleitor" (o texto).
Para ser um festival de poesia real (mesmo falada), o texto deveria ser capaz de vencer mesmo se fosse lido por um locutor neutro por trás de uma cortina. Se ele precisa de "malabarismos" para ser bom, talvez o problema esteja tanto na interpretação quanto na própria construção do poema. Mas, a regra é não ser lido, "decorado" e "declamado".
Conclusão: É preciso despir o verso
Para que a cena sergipana de poesia falada — de Laranjeiras a São Cristóvão — continue sendo um espaço de resistência e não apenas de entretenimento, precisamos devolver ao texto o seu protagonismo.
A atuação deve ser o quadro, mas a poesia tem que ser a pintura. Se continuarmos valorizando apenas o entalhe da moldura, em breve não teremos mais poetas, apenas atores órfãos de dramaturgos. O Festival de Japaratuba precisa decidir se quer continuar sendo a Broadway dos versos ou se voltará a ser o berço onde a palavra, e somente ela, é a autoridade máxima.
Em Japaratuba, assim como em tantas outras cidades históricas, criou-se um ecossistema onde a arte só respira se o gestor público assinar a autorização.
O desafio de Japaratuba hoje não é apenas realizar "mais um festival", mas sim decidir se a cidade quer ser um palco de vaidades momentâneas ou um solo fértil para a imortalidade de seus poetas.
A união da classe artística, sugerida há anos, continua sendo o único antídoto contra o ódio político e o amadorismo estrutural. Enquanto a poesia for tratada como "eleitora" e o teatro (ou a política) como "eleito", o brilho de Japaratuba será apenas sazonal. É preciso que a poesia caminhe com as próprias pernas — e que ninguém se atreva a cortá-las.
NOTA: A poesia não precisa mais pedir licença para existir. Se o poder público falha na estrutura, a tecnologia e as leis de incentivo direto dão ao artista as ferramentas para caminhar com as próprias pernas. A pergunta que fica para os poetas japaratubenses é: Vocês ainda estão esperando o convite da prefeitura ou já começaram a escrever nas paredes da cidade?
Informe: as imagens são meramente ilustrativas, criadas por inteligência artificial.


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