sexta-feira, 17 de abril de 2026

O Mapa que a Bahia Inventou e a Alma de Sergipe Desmentiu

O Gigante de Papel: Quando o Mapa Esquece a Alma de Sergipe del Rey



Sergipe é o menor estado da federação. Tem suas raízes no ciclo da cana-de-açucar no Vale do Cotinguiba, mas, foi às margens do Rio Sergipe que nasceu Aracaju, a capital. Não era pra Sergipe ser usada como medida de extensão territorial: "uma área mais ou menos do tamanho do Estado de Sergipe". 

O Brasil é um país desenhado por canetadas que, muitas vezes, ignoraram o chão. Em nenhum lugar isso é tão evidente quanto na fronteira entre o norte da Bahia e o estado de Sergipe. Ao olharmos para o mapa atual, vemos Sergipe como o "menor estado da federação" — um título que carrega uma injustiça histórica e geográfica. O que o IBGE chama de Bahia, a cultura, a economia e o sotaque chamam, há séculos, de Sergipe del Rey.

A recente Lei Complementar n° 230/2026, embora focada em ajustes municipais, joga luz sobre uma ferida antiga: a identidade da população como critério de soberania. Se a voz do povo fosse o compasso do cartógrafo, o "Grande Sergipe" não seria uma utopia histórica, mas uma potência regional de 50 mil quilômetros quadrados.

A Bahia de Certidão, o Sergipe de Devoção



Cidades como Paripiranga, Adustina e Rio Real vivem em um estado de "esquizofrenia geográfica". No papel, respondem a uma Salvador distante, encastelada a centenas de quilômetros. Na vida real, seus cordões umbilicais estão enterrados em solo sergipano.

Paripiranga e Adustina: São extensões naturais de Simão Dias e Tobias Barreto. O comércio dessas cidades não "sobe" para a Bahia; ele "desce" para Sergipe. O sotaque não carrega o gingado soteropolitano, mas a cadência firme do "sertanejo de Itabaiana". É uma simbiose onde a fronteira é apenas uma placa de metal enferrujada na rodovia.

Jeremoabo: A "Joia da Coroa" perdida. Historicamente, Jeremoabo era o sentinela de Sergipe del Rei, o ponto de controle que garantia à capitania o acesso ao gado e ao sertão profundo. Sua anexação definitiva à Bahia foi um golpe de mestre da elite política baiana, que amputou de Sergipe sua profundidade estratégica.

Coronel João Sá: Na disputa entre Sergipe e Bahia pela região, o povoamento acabou sendo incorporado à comarca da região baiana de Jeremoabo, sendo emancipado em 1962.

Pedro Alexandre: Essa área era considerada um bairro rural do município de Porto da Folha. 

O Litoral Sul (Rio Real e Jandaíra): Ali, o Rio Real deveria ser um elo, mas foi transformado em muro. Cidades que hoje são baianas orbitam o polo industrial de Estância e as praias de Aracaju. O sentimento de pertencimento ali é costeiro, é sergipano, é do "país do forró".

Sergipe Del Rey na Ficção



Jorge Amado foi, talvez, o maior "diplomata cultural" desse Grande Sergipe. Em Tieta do Agreste, ele não apenas plantou essa ideia; ele a utilizou como o alicerce geográfico e emocional de uma das suas obras mais poderosas. Apesar da Globo, na telenovela Tieta, ter impregado o cenário com a cultura sergipana, deu mais visibilidade ao "lado baiano". 

Mas, o escritor foi incisivo. Ao situar Santana do Agreste exatamente nessa zona de fronteira, Jorge Amado capturou a essência do que você defende: a fluidez da identidade que ignora marcos de pedra.

Na obra, a mítica Santana do Agreste é o retrato fiel dessa "esquizofrenia geográfica":

  • O Lado Sergipano: A sede do município, a vida política e urbana da cidade orbitam a influência de Estância e Aracaju. O avô de Jorge Amado ser estanciano não é um detalhe menor; é o que dá ao autor a propriedade para descrever o sotaque e o costume daquela região com precisão.

  • O Lado Baiano: Mangue Seco aparece como o refúgio paradisíaco, mas vinculado administrativamente à Bahia. Na vida real, Mangue Seco é em Jandaíra (BA), mas o acesso mais fácil e a relação comercial histórica sempre foram por Indiaroba (SE) e pelo Rio Real.

A citação constante a Estância na obra de Jorge Amado serve como o centro de gravidade. Para os personagens de Santana, Estância é a referência de civilização, de comércio e de linhagem. Ao fazer isso, Jorge Amado "sergipaniza" o Agreste baiano. Ele mostra que, para o povo da região, a divisa estadual é uma abstração; a realidade é a estrada que leva ao mercado e à família.

Na novela e no livro, quando se fala em progresso ou em "ir para a capital", a referência é quase sempre Aracaju. Salvador aparece como um destino mítico, de onde Tieta vem, mas o cotidiano da região é nutrido pelo eixo sergipano. Jorge Amado soube ler que o Nordeste Baiano é, economicamente, um satélite de Sergipe.

A própria Tieta é a síntese: ela nasce no agreste (que flerta com Sergipe), faz fortuna na capital baiana e retorna para transformar sua terra natal. Ela traz a modernidade (a luz elétrica) para um lugar que a burocracia estatal esqueceu. Esse "esquecimento" de Salvador em relação ao norte baiano é o que permitiu que a cultura sergipana ocupasse esse espaço organicamente.

Jorge Amado não criou o "Grande Sergipe", ele apenas o denunciou. Ele deu nome, sotaque e cheiro a uma região que a política tentou dividir, mas que a vida insistiu em manter unida. Ao citar Esplanada, Estância e Aracaju no mesmo fôlego, ele validou a tese de que Sergipe del Rei ainda pulsa naquela faixa de terra.

A Inércia da Política e a Força da História

A história de Sergipe é a história de um gigante que foi encolhido. A anexação à Bahia em 1763 e a luta pela emancipação em 1820 deixaram cicatrizes. A Bahia, com seu peso político imperial e republicano, sempre soube manobrar para manter sob seu domínio as áreas mais produtivas do entorno sergipano. O esforço do Padre João de Matos, em 1904, ao tentar retomar Paripiranga munido de mapas e razão, foi vencido não pela lógica, mas pelo "coronelismo" e pela força bruta do estado vizinho.

Criticar essa divisão não é um exercício de separatismo, mas de realismo administrativo. O Sergipe atual é eficiente, compacto e ágil. Incorporar essas cidades "sergipanas de alma" traria para essas populações uma assistência que Salvador, em sua imensidão, muitas vezes não consegue prover.

Conclusão: O Mapa que a Alma Desenha

O "Grande Sergipe" sobrevive nas feiras livres de Carira, nos hospitais de Lagarto e nas faculdades de Aracaju, onde os "baianos" de Pedro Alexandre ou Coronel João Sá são apenas sergipanos que moram um pouco mais longe. 

Sergipe é, historicamente, um "estado-nação cultural" que foi encolhido pela geopolítica da colônia e do império. A emancipação de 1820 foi uma vitória jurídica, mas a consolidação de 1824 foi uma vitória de resistência, ainda que incompleta.

O mapa atual de Sergipe, embora seja o menor do Brasil, é o resultado de uma luta heroica por autonomia, mas carrega o peso de uma amputação histórica que deixou dezenas de municípios e milhares de pessoas como "baianos de certidão, mas sergipanos de alma". Somente a 24 de outubro de 1824 é que a Bahia retirou a sujeição em que mantinha a capitania de Sergipe. Essa é a data da "conquista de fato". O intervalo de mais de quatro anos reflete a "rebeldia e tardia ao acatamento" da Bahia. 

A elite soteropolitana não aceitou perder sua comarca mais produtiva e próspera sem luta, retardando ao máximo a entrega da autonomia e, mais importante, o controle sobre as terras e populações que se estende do atual rio Real ao Itapoan e toda região Jacobina, formada por municípios baianos que por direito de limites deveria pertencer à Sergipe, entre esses municípios estão: Jandaíra, Itapicuru, Rio Real, Paulo Afonso (em parte), Santa Brígida, Pedro Alexandre, Jeremoabo (em parte), Coronel João Sá, Antas, Cícero Dantas, Paripiranga, Ribeira do Pombal, Adustina e Ribeira do Amparo.

Enquanto a legislação se prende a normas gerais de desmembramento, a identidade ignora a lei. Sergipe pode ser o menor no mapa, mas é vasto na alma de cada cidadão que, ao cruzar o Rio Real ou o Rio Vaza-Barris, sente que finalmente chegou em casa. O Sergipe del Rei nunca morreu; ele apenas espera que o direito, um dia, alcance a realidade.

Nota: imagens meramente ilustrativas, criadas por inteligência artificial.

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