terça-feira, 28 de abril de 2026

O Espantalho de 1990: O que o caso Collor ensina sobre os "justiceiros" da política.

O Espantalho Ético: O Caso Collor e a Conveniência do Discurso Anticorrupção




A história política brasileira é cíclica, mas raramente é didática para quem se recusa a estudá-la. Um dos maiores mitos alimentados pelo marketing político contemporâneo é a ideia de que a corrupção possui "DNA ideológico", sendo um mal exclusivo de governos de esquerda. Para desconstruir essa falácia, basta olhar para o retrovisor e observar o rastro deixado por Fernando Collor de Mello entre 1990 e 1992.

Qual corrupção? Essa pergunta ocorre porque maior parte da mídia e da oposição ao governo atual pregam que a corrupção é algo próprio dos governos de esquerda. Sendo assim, como Collor foi eleito com o discurso anticorrupção se naquele tempo "não existia corrupção"?

Sabemos que Collor não inventou a corrupção, mas ele a personificou de uma forma muito específica para ganhar a eleição. Ele utilizou o termo "marajás" para designar funcionários públicos que recebiam salários astronômicos sem trabalhar.

O argumento de que a corrupção é exclusiva da esquerda é uma ferramenta de marketing político, não um fato histórico. O Governo Collor é, ironicamente, a maior prova disso.

Collor foi eleito porque o eleitorado, cansado da velha política, comprou a ideia de que a corrupção era algo "dos outros" (do governo anterior, da esquerda "radical"). Ele provou que um discurso anticorrupção pode ser o manto perfeito para o maior esquema de corrupção da época.

A Fantasia do "Caçador de Marajás"

Collor não foi eleito por um plano econômico sólido — o trágico confisco da poupança provou o amadorismo técnico da sua gestão — mas por uma roupagem moral. Ele criou a figura do "marajá": o servidor público que encarnava todo o desperdício e a sujeira do Estado. Ao fazer isso, Collor realizou uma manobra de prestidigitação política: deslocou o foco da corrupção estrutural (o tráfico de influência e o desvio de recursos) para uma corrupção "estética" e seletiva.

Ao atacar os marajás, ele convenceu a classe média de que o dinheiro do país não sumia por desvios de empresários e políticos, mas porque o Estado era "inchado". Ele transformou a ineficiência administrativa em um pecado moral.

A pergunta que fica é: como um político oriundo de oligarquias tradicionais, posicionado à direita no espectro político, logrou êxito com um discurso anticorrupção? A resposta reside na capacidade de transformar o combate ao crime em um mecanismo de validação de pensamento.

O Paradoxo do Salvador Profissional

Uma verdade incômoda: a corrupção no Brasil é frequentemente usada como desculpa para punir o político que não corresponde às expectativas do eleitor. Não se busca a verdade dos fatos, mas o expurgo do adversário. Collor foi o "Salvador da Pátria" enquanto a sua narrativa servia aos interesses de seus mecenas e ao ódio de classe contra o que ele pintava como o "perigo vermelho".

Embora o termo mecenas signifique uma pessoa, instituição ou entidade que patrocina e financia artistas, cientistas e projetos culturais, oferecendo recursos financeiros que permitem a criação artística e intelectual, aqui vamos usar da forma "moderna", onde ao invés do patrocínio de causas nobres, patrocina-se causas políticas (com interesses particulares).

Contudo, a queda de Collor revelou o paradoxo do "justiceiro corrupto". Enquanto apontava o dedo para os privilégios estatais, o esquema liderado por PC Farias profissionalizava o saque aos cofres públicos. Isso nos mostra que a corrupção não é uma falha de ideologia, mas um modelo de negócio adotado por aqueles que vivem exclusivamente da política e não para a causa social.

A Profissionalização do Mau Político

Diferente de figuras técnicas ou acadêmicas que possuem um porto seguro profissional — como o magistério ou as ciências sociais — o "político profissional" encara a perda do cargo como uma falha existencial. Sem uma profissão fora do Estado, a manutenção do poder torna-se uma questão de sobrevivência, o que escancara as portas para o financiamento obscuro e para a corrupção sistêmica. 

A esquerda e os setores com consciência social muitas vezes perdem essa batalha porque dependem de um respaldo popular volúvel, enquanto o "profissional do mal" investe na indústria da desinformação, financiada por mecenas interessados na manutenção do status quo.

Quando um político tem uma profissão — seja professor, contador, advogado ou médico — o cargo público é um ciclo, não um destino final. Isso gera uma liberdade intelectual e ética que o "político de carreira" puro não possui.

Para quem não tem uma profissão fora do Estado, a perda de um cargo ou de um mandato não é apenas uma derrota política, é uma ameaça à subsistência.

  • O Instinto de Sobrevivência: Esse político precisa se manter no poder a qualquer custo. É nesse cenário que o financiamento de mecenas interessados em favores e a corrupção sistêmica florescem.

  • O Cliente: Ele deixa de servir ao eleitor para servir ao financiador que garante sua estrutura de reeleição permanente.

Para quem não tem uma profissão fora do Estado, a perda de um cargo ou de um mandato não é apenas uma derrota política, é uma ameaça à subsistência.

O Instinto de Sobrevivência: Esse político precisa se manter no poder a qualquer custo. É nesse cenário que o financiamento de mecenas interessados em favores e a corrupção sistêmica florescem.

O Cliente: Ele deixa de servir ao eleitor para servir ao financiador que garante sua estrutura de reeleição permanente.

O Mito da "Rua Soberana"


Historicamente, é muito difícil remover um presidente por "má gestão econômica" ou "falta de habilidade política". Por isso, a corrupção é usada como o instrumento jurídico e moral que viabiliza o que, nos bastidores, é uma decisão baseada em interesses financeiros.

O Caso Collor: O confisco da poupança foi o crime econômico contra a classe média, mas o "Esquema PC Farias" foi a justificativa moral para o impeachment.

O Caso Dilma: As "pedaladas fiscais" foram o argumento técnico/jurídico, mas o pano de fundo era uma recessão profunda que retirou o apoio da burguesia industrial e financeira para o argumento populista, o argumento político foi o "desentendimento" com Eduardo Cunha na época Presidente da Câmara. 

A ideia de que "o povo tirou o presidente" é uma narrativa poderosa para a democracia, mas tecnicamente incompleta. No Brasil, presidentes caem quando perdem o trinípode de sustentação:

Apoio do Mercado (Elite)

Apoio do Congresso (Políticos Profissionais)

Apoio da Opinião Pública (Classe Média/Povo)

Collor perdeu os três. O confisco limpou o apoio da classe média e da elite; a arrogância limpou o apoio do Congresso; e as denúncias de PC Farias foram apenas a justificativa moral necessária para formalizar o que a economia já havia decidido.

Isso reforça a tese anterior: a corrupção foi o argumento "ético" usado pela burguesia e pela classe média para punir um político que falhou em entregar a estabilidade econômica que eles esperavam. Se a economia estivesse voando, o esquema PC Farias provavelmente teria sido tratado como um "problema administrativo" menor.

O que tem de semelhante as campanhas de 1989 e 2018?




A comparação entre as campanhas de Fernando Collor (1989) e Jair Bolsonaro (2018) é um exercício que a maioria dos cidadãos deveriam praticar na arqueologia política. Embora separadas por quase 30 anos e por tecnologias distintas (a TV dominante vs. o WhatsApp onipresente), as estruturas narrativas são quase idênticas.

Ambos os fenômenos surgiram como "estranhos ao ninho" (o outsider) que prometiam limpar a sujeira de um sistema político exausto. 

Tanto em 1989 quanto em 2018, a propaganda não focou apenas em propostas, mas na criação de um espantalho ideológico.

  • Collor: Usou o medo do "comunismo" e da "bandeira vermelha" para demonizar Lula. A propaganda sugeria que, se a esquerda vencesse, as famílias perderiam suas casas e o país viraria uma ditadura totalitária.

  • Bolsonaro: Atualizou o discurso para o "antipetismo" e a "ameaça comunista/venezuelana". O foco saiu do confisco de bens (irônico, dado o que Collor fez) para a "pauta de costumes" (ideologia de gênero, kit gay), mantendo o medo como motor do voto.

O que conecta essas duas propagandas é a ausência de um plano técnico de Estado em favor de um plano moral de salvamento.

Collor prometeu caçar marajás e confiscou a poupança do povo. Bolsonaro prometeu acabar com a mamata e terminou o governo abraçado ao "Centrão" que tanto criticou. Isso reforça a sua tese: o eleitor não buscou identificar a verdade técnica (como o fato de Collor ser parte de uma oligarquia ou Bolsonaro estar no Congresso há 28 anos), ele buscou a validação do seu ódio contra um inimigo comum.

O marketing político brasileiro aprendeu que é muito mais barato e eficiente financiar a criação de um herói do que investir na educação política. O herói se vende em 30 segundos; o cidadão leva uma vida para se formar.

O Caminho: Educação de Base e Vigilância Técnica


Sem uma formação política sólida:

O cidadão não percebe que a corrupção é sistêmica e atemporal.

Ele condiciona sua "honestidade eleitoral" ao saldo da sua conta bancária.

Ele se torna massa de manobra para o "salvador da pátria" que promete punir os corruptos (do outro lado) enquanto mantém os seus próprios esquemas.

O desfecho dramático do governo Collor — o primeiro impeachment da nossa redemocratização — foi uma vitória das instituições, mas não uma cura para a sociedade. Aprendemos a tirar o "corrupto da vez", mas falhamos em reformar a base. 

A verdadeira educação política não virá apenas dos bancos escolares ou de portais de transparência frios. Ela precisa nascer na base familiar, na construção de uma ética cotidiana que rejeite a ideia do salvador messiânico. Enquanto o eleitor buscar um herói que "combata a corrupção" atropelando a ética para satisfazer seus desejos pessoais, continuaremos reféns do paradoxo de 1990. 

A corrupção não tem lado; ela tem método. E o método só é vencido quando o cidadão deixa de ser um torcedor de narrativas para se tornar um fiscal da técnica e da integridade.

Embora o movimento dos "caras-pintadas" seja a imagem romântica que ficou nos livros de história — e tenha sido fundamental para dar legitimidade popular ao processo — ele foi a consequência, e não a causa primária da queda. O "motor" que realmente desligou o governo Collor foi o rompimento com a elite econômica e a classe média.

O político que o país precisa é aquele que não precisa da política para viver. Mas o sistema político é desenhado para favorecer quem faz da política sua única fonte de renda e poder.

No final das contas, o Governo Collor foi um sintoma precoce dessa doença. Ele usou uma roupagem de "renovação" para esconder uma prática política arcaica e profissionalíssima de saque ao Estado. Quando o povo percebeu que o "salvador" era apenas mais um operador do sistema, a queda foi inevitável, mas o sistema profissional que o sustentava apenas se reorganizou para o próximo ciclo.



Informe: as imagens são meramente ilustrativas, criadas por inteligência artificial.

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