terça-feira, 21 de abril de 2026

Quando Nasce uma Cidade? O Engano das Datas e o Silêncio da História em Sergipe

O Município de Papel vs. A Cidade de Afeto: O Labirinto das Datas em Sergipe



Por Flávio Hora


No calendário oficial das prefeituras sergipanas, o tempo parece correr de forma diferente da realidade histórica. Há um fenômeno curioso e persistente no interior do estado: a celebração do "batismo urbano" em detrimento da "certidão de nascimento" política. Cidades como Lagarto, Capela e Japaratuba vivem um paradoxo cronológico que, embora pareça apenas um detalhe burocrático, revela um profundo distanciamento entre a administração pública e a identidade do povo.

"Cidade" traz uma carga de progresso e civilidade que o termo "Vila" (ou "Município de...") parecia não carregar no final do século XIX. Existe uma armadilha semântica aqui. No português contemporâneo, a palavra "vila" remete a algo pequeno, um bairro ou um povoado sem importância. Isso faz com que a população e até os gestores públicos sintam que a história "de verdade" só começou quando o lugar virou "cidade".

A Ilusão das Datas: Vila não é Povoado

A grande confusão reside na distinção entre a Emancipação Política e a Elevação à Categoria de Cidade. Historicamente, um município nasce quando se torna Vila. No período Imperial, ser "Vila" era o ápice da autonomia: significava ter Câmara, juízes e território próprio. Quando Japaratuba se desmembrou de Capela em 11 de junho de 1859, ela nasceu para a história política. No entanto, durante décadas, o município preferiu celebrar o 24 de agosto de 1934 — data em que a sede recebeu o título honorífico de cidade.

O caso de Lagarto é ainda mais gritante. Ao comemorar pouco mais de 140 anos (baseado na elevação a cidade em 1880), o município apaga, num golpe de caneta, quase dois séculos de história como Vila de Nossa Senhora da Piedade (estabelecida em 1697). É como se a maturidade de um povo só fosse válida se estivesse vestida com o traje da "modernidade urbana", desprezando as raízes coloniais e sesmarias que forjaram o caráter da região.

O Paradoxo da Filiação: Quem nasceu primeiro?

A insistência nessas datas gera absurdos lógicos. Se Capela insiste em celebrar sua fundação em 1888, como explicar que ela "deu à luz" a filha Japaratuba em 1859? No papel, a mãe seria décadas mais jovem que a filha. Essa miopia histórica ocorre porque o termo "Vila" foi pejorativamente associado ao atraso, enquanto "Cidade" tornou-se sinônimo de progresso. Celebra-se o asfalto, mas esquece-se a autonomia.

Municípios Morais: A Imponência dos Povoados



Se por um lado as sedes lutam com suas datas, por outro, os povoados desafiam a geografia administrativa. Em Sergipe, o conceito legal de "cidade" — restrito apenas à sede — colide com a realidade de comunidades que possuem vida, economia e alma próprias.

Povoados como São José da Caatinga (Japaratuba), Altos Verdes (Carira) e o gigante Santa Rosa do Ermírio (Poço Redondo) são o que podemos chamar de "Municípios Morais". Eles possuem comércio pujante, feiras que ditam o ritmo da região e uma identidade cultural que não se curva à capitalidade da sede. 

Nesses locais, o distanciamento cultural é evidente. Existe uma "rivalidade saudável", mas também um sentimento de orfandade política. O morador de Santa Rosa do Ermírio, por exemplo, muitas vezes sente que o seu suor sustenta uma sede que lhe parece distante. Para esses cidadãos, o povoado não é um apêndice; é o centro do seu universo. Eles vivem em "cidades de fato", embora o mapa insista em chamá-las de "povoados".

A Arte como Única Saída

Como resolver esse labirinto? A burocracia não será a resposta. Onde a lei falha em dar identidade, a arte triunfa. É no toque do pífano, nos versos do cordel e na prosa literária que a história real se preserva. Enquanto os editais oficiais patinam em datas imprecisas, o escritor e o artista resgatam o sentimento de pertencimento.

Precisamos parar de comemorar apenas a "formatura" das nossas cidades e passar a celebrar o seu "nascimento". Reconhecer que a Vila de ontem é a força do Município de hoje é um ato de dignidade histórica. Afinal, um povo que não sabe quando nasceu terá sempre dificuldade em decidir para onde quer caminhar.

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